A força de um vilão e a aula de natação

Vi Bastardos Inglórios no cinema. Faz uns 10 anos. Todo mundo lembra como Christopher Waltz colocou seu tijolinho na construção do imaginário de vilão com sua interpretação no filme. Posso apontar exatamente o momento em que isso ficou claro para mim.

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Óbvio: quando ele apaga um cigarro num strudel com creme. Somente um monstro apaga um cigarro na comida.

Na semana passada, levei meu filho à  natação e fiquei assistindo. A aula era com a professora de sempre, que poderia estar no casting de Bastardos Inglórios. Ela tem olhos azuis arregalados e as mais marcantes bochechas rosadas que uma pessoa pode ter sem efeitos de maquiagem (talvez seja culpa da água aquecida).

Mas pintaram alunos extras pra ela, que repassou meu filho, o mais velho da turma, para outro professor, até então encostado na borda da piscina. O cara era obviamente mais experiente e estava no canto só olhando.

Ele pegou meu filho e deu a aula bem na frente de onde eu estava. Bem ali onde eu podia ver, entre os óculos e a touca, que além de um excelente professor ele também era cara do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios. O mesmo sorriso. Lindo, porém igual ao do Christopher Waltz.

Ele sacou que eu era a mãe. E quando meu filho fazia alguma coisa engraçada, olhava pra mim pra sorrir junto. E quando meu filho acertava um movimento, olhava pra mim pra dividir orgulho. Como fazem  todos os outros (excelentes) professores de natação do clube. Mas com a cara (e o sorriso) do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios.

Meu filho foi virando o strudel e eu tava só vendo a hora que ele ia apagar o cigarro na perfeita testa da minha cria. A fantasia vai longe quando você fica 50 minutos vendo um filme mudo – através do vidro – em que um dos protagonistas é a cara do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios e o outro saiu do seu ventre.

Quando a aula acabou e fui pegar meu filho, ou melhor, resgatá-lo das garras de um dos maiores vilões do cinema contemporâneo, ele veio correndo e falou: obrigada, mamãe, por me salvar daquele monstro nazista a aula de hoje foi a melhor da minha vida!

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Yukiko? Tudo.

 

A mulher atrás de mim, jaqueta de nylon matelassê branca, cabelo ondulado na altura do ombro e aquela idade incalculável que as mulheres orientais têm o privilégio de ter, puxou papo.

Que horas é seu vôo?

Era o assunto da fila para imigração: tava todo mundo na bica de perder a conexão.

Respondi sem entusiasmo. Ela insistiu. Estava preocupada: de Atlanta voava para outra cidade e então para Japão. Se perdesse a conexão, perderia o vôo para casa.

Minha curiosidade embarcou na conversa. A fila era de chegadas internacionais a Atlanta. Já tinha conseguido mapear 4 voos (Espanha, México, Brasil e Nigéria). De onde será que ela vinha? Para onde esta japonesa de idade incalculável, inglês perfeito e cheia de vontade de conversar viajou? De onde ela agora voltava para casa?

“De São Paulo. E você?”

Também! Moro lá. Primeira vez no Brasil? – Sim.
Visitou mais lugares? – Recife e Porto de Galinhas.
Família? – Amigo.
Foi à Liberdade? Sempre quis saber a opinião de um japonês sobre a Liberdade. – Não.
Não? Péra, não te levaram lá? – Não.

“Ih, vai ter que voltar!”, brinquei e parei.

Em quase três anos de namoro internacional, aprendi que no Brasil a gente tem outra noção de privacidade e intimidade. Desde então, quando converso com estrangeiros, seguro a língua e o questionário.

Foi a vez dela perguntar.
O que vem fazer nos EUA? – Visitar meu namorado.
Brasileiro? – Não.
Dá certo namorar à distância? – Pra gente tem dado.

Ela ficou olhando o chão e apertando o travesseiro de pescoço que estava enfiado na bolsa. Virou pra mim e desembestou.

“Olha, sei que mal conheci você, que a gente está aqui na fila do passaporte e você vai me achar louca, mas preciso falar. Ele é o amor da minha vida”, já chorando. E chorando contou que desde que saiu de São Paulo chorou em todas as situações possíveis:

No lounge do terminal 2, no check-in, na fila de embarque, no avião, no desembarque e agora na fila do controle de passaporte.

(Sei como é, às vezes acontece comigo, é chato pra caramba.)

Outra coisa que aprendi é que as pessoas não-brasileiras tendem a se tocam menos. Eu queria abraçar essa mulher, passar a mão no cabelo dela e mandar aquele “pronto, pronto, passou, vai passar”. Mas só encostei a mão nas costas. “Não acho louca não, vamos aproveitar que temos no mínimo mais uma hora de fila. Conta, como foram esses dias com ele em São Paulo.”

Pelo visto foram estranhos. Entendi que a viagem terminou com um término. “Sinto muito”.

– Não, ele não terminou, apenas deixou as coisas claras.
Hm. Então vocês estão em um relacionamento? – Não.
Vocês não estão juntos, certo? – Não estamos.
Mas ficaram juntos esses dias. – Sim, ficamos juntos todos esses dias.

Concluí que tinham ficado juntos de um jeito, mas deve ter sido de outro.

Ela foi contando. Ele foi trabalhar no Japão, eles se conheceram. Ele foi transferido para o Brasil, ela veio visitar. “Ele não me convidou. Eu que fui.” Ela começou a gostar dele ainda no Japão e quando ele foi embora, começaram a trocar e-mails. Cada vez mais envolvida, ela pegou os 10 dias de folga que ganhou porque mudou o imperador de seu país e veio para o Brasil atrás do amor de sua vida que não tinha a mais vaga ideia do que estava acontecendo.

Mas, espera, você nunca disse a ele qual era o motivo de sua visita ao Brasil? Você já tinha se declarado para ele? – Sim, escrevi um cartão, dizendo que gostava dele e que tinha muito respeito por ele.

(Amo choque de cultura, é algo que sempre me impressiona.)

No último dia da estada em São Paulo, ele encerrou a história que nem chegou a começar. Lançou o papo de não estar no momento de viver um relacionamento.

Tentei consolar minha nova amiga. “Que bom que você fez essa viagem. Está doendo muito agora, mas foi a melhor coisa que você poderia fazer por você. E me parece a única maneira seguir em frente: você tirou a prova, não rolou, agora o lance é se desligar dele.”

Especulamos sobre ele, falamos sobre relações amorosas passadas e sonhos pro futuro. Conversamos sobre nossos trabalhos, nossas famílias, o novo imperador japonês e o desastre político brasileiro. Deu para cobrir quase tudo até ela se dar conta de que ou furava a fila ou perderia seu vôo e o vôo seguinte.

Trocamos e-mails e juras de manter contato. Nada na vida é por acaso, você precisa voltar ao Brasil, ter outra experiência, venha ao Japão com seu filho. Demos dois abraços apertados e tchau.

Assim que ela correu para salvar seu vôo, o senhor nigeriano que estava atrás de nós me cutucou.

Desculpe, não pude não ouvir o que vocês falavam. Foi muito interessante para mim, como homem, ter acesso a essa conversa.
E o que você, como homem, acha? – Olha, para mim parece bem simples: ele não está afim dela.
Mas ela atravessou o planeta! – Pode ser que ele seja um babaca? Pode. Mas pode ser que ele não seja afim dela e aí não tem muito o que interpretar.
Mas ela atravessou o planeta! – Olha, garota, ela precisava botar para fora, você ouviu. Vai ficar tudo bem.

Perdi meu voo. No caminho para tentar encontrar outro, vi de longe Yukiko embarcando para Seattle, de onde vai voar pra casa. Quando me dei conta, estava arrepiada e pensando no Kiko.

Kiko? Quando eu era adolescente tinha uma mania de “e o kiko”. Era super chato. Funcionava assim: você contava qualquer coisa que tinha acontecido com você e alguém dizia: “e o kiko”. Queria dizer “e o que que eu tenho a ver com isso”.

Yukiko? É sempre bom lembrar que entrar num avião e viajar por mais de 24 horas para tentar realizar um sonho é uma possibilidade. Uma carta que está na mesa – você pode escolher não usar, mas ela está lá. Também é sempre bom lembrar que não precisa dar certo. Que o simples fato de jogar essa carta já vale a rodada. Certeza que Yukiko nunca vai esquecer sua temporada brasileira. Nunca vai esquecer que atravessou o planeta para emplacar um namoro que não rolou, mas com a certeza de que tentou. Também é sempre bom lembrar que a meio caminho de voltar pra casa você já vai encontrando gente para abraçar e ter ainda mais certeza de que essas aventuras valem por si só e deixam a vida mais viva.

 

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Camadas de um desastre

Tira a gola rolê
e dá de cara
com o decote-vê.

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Pelas ruas de Baltimore

 

A Ana, minha amiga, lançou uma pergunta ao vento (mentira, foi no Facebook): qual foi a experiência de viagem bate-volta mais louca que você viveu. Apesar de ser pra todo mundo e há semanas, resolvi responder.

Ana, tirando o fim de semana que passei em Guadalajara só para namorar (o cara mora nos EUA, eu no Brasil, onde a gente se encontra? Depende. Mas um ano atrás foi em um fim de semana chuvoso na cidade mexicana mais estranha que já visitei — conheço dez cidades no México. Não é pouca coisa), o bate-volta mais louco que fiz foi pra Baltimore.

Estava em Washington para escrever uma matéria sobre a Obamania. Obama tinha acabado de vencer a eleição que fez dele o primeiro presidente americano negro. Eram outros tempos.

Meu namorado da época foi comigo e ele queria ir a MICA, Maryland Institute College of Art, pra ver uma mulher fodona do design. Lá fomos nós de trem para Baltimore, onde ficava MICA, daqui pra frente tratada como a universidade.

Breve parêntese
Baltimore dá play em duas músicas no meu shuffle mental: o hino norte-americano, que foi criado lá, por um cara que tava num barco olhando pra bandeira depois de uma importante batalha da independência (1812, batalha de Baltimore, leia mais aqui no site do Smithsonian Museum), e Baltimore, country dos bons na voz do melhor de todos os tempos, Gram Parsons (curiosamente trilha sonora mental do fim do meu namoro com onamorado que estava comigo lá. Não a música Baltimore, mas o disco The Return of The Grevious Angel, com a Emilou Harrys, que disco! Presente do querido Fred Leal).

Dá play em Baltimore pra entrar no clima.

 

Chegando na universidade, o cara achou a sala, encontrou a fodona do design, se ajeitou e deu aquele adeus, se vira, vai lá fazer alguma coisa, até breve.

Eu já tinha um plano, claro. Eu sempre tenho um plano (cada um com sua nóia, a minha é sempre ter um plano na manga). Baltimore era conhecida por seus excelentes crab cakes com coleslaw. Naquela época, a gente usava o Zagat pra saber onde comer, qual era o melhor lugar, essas coisas. E o melhor crab cake segundo o Zagat era o do Fadley, no Lexington Market. Hoje, se você digita Baltimore crab cake market, o Tripadvisor diz: Os melhores – mas mais assustadores – crab cakes de Baltimore, sobre os crab cakes do Lexington Market. (Não clique agora, pra não ter spoiler. Mas depois, se duvidar de mim, pode clicar e vai ver que não foi viagem da minha cabeça.)

Naquela época não havia tanto medo (olha que frase ampla e cheia de sentido). E no Zagat só se falava sobre comida. Então sabendo apenas que aqueles eram supostamente os melhores crab cakes com coleslaw de Baltimore, decidi que a única coisa a ser feita em Baltimore era andar até Lexington Market pra comer crab cakes com coleslaw.

Outro breve parêntese
Tenho loucura por comida que não conheço. E tendo a me satisfazer com o nome, sem muita investigação, pra não estragar o primeiro encontro. É igual paquera nesses tempos de redes sociais – já vem muita informação de bandeja, tudo ali no about. Eu vejo muita graça na primeira conversa, no momento em que o cara conta, por exemplo, o que faz da vida. Quanto tempo demora pra chegar nesse assunto, como ele apresenta o assunto  e nunca vou me esquecer do momento em que meu atual namorado contou que é arqueólogo, do tipo que escava, como se nada fosse. Enfim. Eu não tinha ideia do que era crab cake (sabia que teria carne de caranguejo, mas só). Muito menos que coleslaw era uma saladinha besta de repolho com cenoura. Se soubesse, talvez essa história não estivesse aqui para ser contada, talvez tivesse ficado na biblioteca do campus da universidade lendo o livro que tinha comprado sobre como identificar as folhas das árvores norte-americanas (que aliás é incrível e está em excelentes mãos, com a Ligia, em Chicago).

Bom, saí do campus, abri o mapa, vi onde era o mercado e decidi que o jeito mais fácil de chegar era seguir um trilho de trem ou bonde, não lembro. Eu sabia que a margem de trilhos tendem a ser áreas degradadas e sabia que Baltimore era uma cidade violenta, mas dei uma olhada ao redor e achei que tava tudo bem.

Guardei o mapa, comecei a caminhada e acendi um cigarro (naquela época eu era fumante). Em meia tragada, estava cercada de gente pedindo cigarro. Sempre tive como regra número 1 que cigarro não se nega. Meu maço inteiro se foi ali mesmo, antes de dar tempo de soltar a fumaça. Sem problemas, a regra número 2 era sempre carregar um maço reserva.

Lá fui eu, andando pelas streets of Baltimore, achando tudo bem peculiar. Marcas de antigos cartazes nas paredes, sombras de antigos letreiros nos muros, rabiscos de antigas fachadas comerciais. Nada novo, nada presente, só um ou outro passante com cara de siderado.

Lá pelas tantas, vinha vindo um garoto na direção oposta. Ele parecia apavorado e surpreso ao mesmo tempo. Assim que cruzou comigo, me parou, colocou as mãos nos meus ombros e disse:

– O que você está fazendo aqui?

Na hora fiquei confusa. Pensei: te conheço? De verdade que parecia a atitude de um conhecido. Respondi:

– Estou indo pro mercado comer crab cakes, e você?

Ele ficou estupefato, me largou e foi embora apressado.

Foi só uma quadra depois que me deu um estalo e eu me liguei no  que estava acontecendo. Eu estava muito fora de lugar. E estava cercada de pessoas bem estranhas. Ainda faltava um chão para chegar ao mercado. E não era mais o caso de voltar.

Fiz cara de malandra, apertei o passo, botei as mãos no bolso e parei de achar poesia nas fachadas destruídas ao meu redor.

Foi uma caminhada nervosa, eu pensando o tempo inteiro no meu mantra de viajante intrépida: “não saí de São Paulo para ser assaltada em (nome de qualquer cidade aqui)”.

Quando cheguei ao mercado, estava sendo descaradamente seguida. Assim que entrei, os caras caíram fora e o segurança do mercado veio reto na minha direção.

– É sério que você veio caminhando?

– Sério, bicho. Sérião. Onde fica a barraca de crab cake?

Ele mostrou, fui lá, vi o crab cake com coleslaw, achei tudo com uma cara ótima e decidi que o meu namorado ia curtir o bolinho com salada. Então não comi, voltei para a universidade para pegar o gatinho e levá-lo até o mercado.

Claro que voltei a pé. Agora que sabia que a área era da pesada, estava ligeira e sabia como me virar. Cheguei lá, encontrei o cara e retomei o meu trajeto sentido mercado, dessa vez por outra rota, longe do trilho, num bairro claramente mais tranquilo (hoje pensando deve ser tipo a diferença de andar debaixo do Minhocão ou na Alameda Barros, em Santa Cecília).

Enquanto caminhávamos, ele foi contando dos projetos que tinham sido apresentados na aula que ele assistiu. O mais legal era sobre os arredores do hospital universi…

– Tário!! Vamos passar em frente jajá, é no caminho pro mercado!

– … A área mais violenta de Baltimore e provavelmente da costa leste dos Estados Unidos. O que? Vamos passar lá?

–  Aham, é na próxima quadra!

– Helo, eu tô com meu computador aqui! (Ele era meio assustado. Muito gente boa, brilhante, mas um pouco assustado.)

Continuamos a caminhada, de novo entramos no mercado sob muitos  olhares, de novo o segurança veio falar comigo.

– Sério  que vocês vieram caminhando? Garota, qual seu problema?

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Comemos o crab cake. Não era nada demais.  Nem lembro, na real. Esquecível. Já o coleslaw eu amei. Dez a zero comparado com a salada de repolho cru mal temperada que eu comia na infância (com todo respeito, mãe, mas tempero de salada nunca foi o forte lá em casa).

De lá apanhamos um táxi para a estação de trem, para voltar a Washington. Quando a gente chegou na estação, tinha uma revoada de passarinhos, tipo andorinha, uma ave bem pequena. O Dani sacou o celular, filmou os passarinhos fazendo aquelas manchas bonitas no céu e aquela ficou sendo a imagem, bucólica, da passagem dele por Baltimore.

Eu não tirei foto, sempre esqueço de tirar. Mas a minha memória dessa day-trip fica entre ter quase 20 cigarros levados de minha mão em segundos (muito gentilmente, thank you sista, god bless you, etc) e o menino bonitinho me chacoalhando pelos ombros perguntando o que estava fazendo ali. Os espaços de antigos cartazes também foram marcantes. E o coleslaw entrou na minha vida.

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PS. Quem clicou no link do TripAdvisor pode ter notado que trata-se de uma avaliação de 2009, um ano depois de minha visita a Baltimore. Basta ler o comentário pra ver que não exagerei, o lugar era perigoso mesmo. Talvez hoje tenha mudado, gentrificação, pá (entrei no Google Street View pra matar a saudade e achei que tá meio diferente).

PS2: As imagens do post são do Google Images, busquei o nome da rua, o nome do mercado. Estava cansada e esqueci de pegar os créditos. Se forem suas, me conta? The images in this post are from Google Images, i searched the name of the street and of the market to find them. I was tired and forgot to get the credits. If they belong to you, let me know and i’ll be happy to give the credits and link to your profile.

Beleza não vai embora, só muda de lugar

 

Minha vó Edmea tinha voz melosa. E sempre tinha por perto algum adulto virando o olho. E ela falava umas coisas engraçadas. Lembro uma vez, na minha casa, ela desembrulhando uma bala de doce de leite dessas que vêm na palha de milho e falou:

Palha de milho é uma coisa tão romântica… (ela sempre punha reticências nas frases, e olhava pro horizonte). Não tem comparação, plástico, palha de milho.

Adultos virando o olho.

Ela via graça numas coisas improváveis. E se dedicava muito a isso. Por muitos anos, acordava antes do sol nascer em seu apartamento em Itanhaém (naquele prédio que parece um rolo de papel higiênico na Praia do Sonho) e tirava foto do sol nascendo. Com a data/hora da câmera fotográfica ativada. Era sempre o mesmo ângulo, sempre o mesmo horário. E depois ela mostrava pra gente 568 fotos do mesmo sol nascendo nas mesmas pedras e ficava empolgada com a diferença de uma pra outra. O sol nascendo mais pra lá no inverno, mais pra cá no verão, mais tarde no inverno, mais cedo no verão, mais vermelho no inverno, mais amarelo no verão.

Daí de vez em quando ela mandava um pacotinho de fotos do sol nascendo pelo Correio com recados incríveis escritos nos versos das fotos.

Devo ser maluca, só eu para achar graça de ver o sol nascer todos os dias. Mas não é incrível como uma coisa que acontece todos os dias é totalmente diferente a cada dia que passa?

É incrível, vó.

As fotos da minha vó eram um caso à parte. Depois que meu vô morreu, ela calçou rodinhas e foi girar o mundo. Viajou para todos os lados. E a cada viagem, voltava com zilhares de fotos, colocava em  álbuns e escrevia legendas hiper detalhadas e poéticas.

Daí ela chamava a gente pra ir na casa dela ver as fotos e era um programa longuíssimo, porque tinha que olhar uma por uma e ler as legendas.

Adultos virando o olho.

Lembro muito do álbum de Veneza. Tinha umas quatro páginas de fotos dela alimentando os mesmos passarinhos, uns pombos. E as legendas eram assim.

“Um momento muito feliz”

“Agora imagina, um momento mais feliz ainda”

“Eu nunca poderia imaginar que teria um momento tão feliz como esse, os pássaros em Veneza”

E assim ia, e se ela lembrasse de qualquer outra coisa, anotava ali mesmo na legenda da viagem, e a gente ver aqueles álbuns era viajar pra dentro da cabeça engraçada dela.

Mas ela não era só um docinho. Era brava, não tinha papas na língua e xingava feio – depois dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Meio Zacarias.

A mão dela sempre tinha a unha feita, com o formato bem oval, meio pontudo, pintado de rosa, daquele rosa cintilante que parece casca de concha. Quando eu era pequena eu achava que a unha da minha vó era de concha do mar.

É que eu sempre achei ela muito bonita. Ela tinha o olho bem azul e a bochecha com aquele risco de quem tem a maçã rosto bem alta. A boca era fina, bem fina. A pele dela, então, era mais fina ainda e você conseguia ver umas veiazinhas bem fininhas nas bochechas, na testa, no queixo.

Ela decidiu que era alemã – era filha de pai e mãe brasileiros, com avôs brasileiros de um lado e franco-alemães do outro. E como cozinhava bem!

Era compota de laranja, geleia de jabuticaba, rocambole, bolinhos vienenses (meus favoritos de infância, um pão de ló assado em forminha de empada recheado de doce de leite e salpicado com açúcar de confeiteiro) e uns bolos de frutas secas tipo strudel horrorosos que eu nunca gostei porque não gostava de frutas secas.

E tinha um bolo que minha nossa senhora, era um bolo simples, com café, e em cima dele ia uma cobertura crespinha de café com manteiga que eu não tenho nenhuma dúvida que é das coisas mais maravilhosas que eu já comi na vida. Nunca mais vou comer. Nem quero que tentem fazer de novo. Mesmo que façam igual. Essa lembrança não deixo tirarem de perto dela. Junto com a xícara de café com leite cheio de nata. Ela adorava quando o leite formava nata. Eu tinha nojo na época. Hoje amo todas as expressões da gordura do leite. Deve correr no sangue, coisa de DNA.

Foi na casa dela que eu aprendi a abrir nozes na quina da porta (apenas uma palavra: camafeu. Camafeu, velho. Não tem nada no mundo melhor que camafeu. Tem: camafeu que sua vó fez.). Foi na casa dela que aprendi a colocar disco para tocar na vitrola. Foi na casa dela que aprendi a ler gibi – ela tinha um armário lotado de gibis. Lotado. Foi na casa dela que aprendi a dar tiro de espingarda de chumbinho. Foi na casa dela que vi como fazia massa caseira (apesar de a vó italiana ser do outro lado, era a Edmea que tinha máquina de fazer macarrão, que sempre passava do ponto de cozimento, óbvio, mas foda-se).

Na casa dela tinha um relógio-porta-canetas azul da boêmia que tocava Pour Elise. Eu amava e odiava aquele porta-canetas. Ele era a coisa mais brega e maravilhosa que eu já vi na minha vida. Mesmo pequena, mesmo sem nenhum senso de estilo (mentira, eu já tinha, mas quero soar modesta), eu olhava praquele relógio-porta-caneta e sentia profundo amor e profundo ódio. Porque era o azul mais bonito do mundo. Mas o objeto mais abjeto que se pode imaginar. Tutututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuuu-tututututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuu. Era o tempo (relógio), a escrita (a caneta), a música (pour elise) e as cores (o azul era de fato impressionante) aprisionados num objeto que nunca teve nenhuma serventia (ninguém via as horas ali, ninguém usava aquela caneta, ninguém gostava da musiquinha e ninguém notava que azul bonito era aquele). Só servia pra gente tomar bronca dos adultos quando tocava a música mil vezes e eles não aguentavam mais.

Põe essa caneta no lugar, pelo amor de Deus.

Alguém sempre gritava da sala. Porque era só tirar a caneta do porta-caneta pro bichinho começar a cantar.

Na caixa de joias dela aprendi a diferença entre joia, bijuteria e extravagância de plástico. Aprendi o que é laqueado e o que é baquelite. E aprendi que pra saber mais coisa tem que falar mais língua.

Na casa dela a gente tomava café com licor.

Algumas das roupas mais bonitas que eu uso eram da minha vó. Hoje mesmo, para o funeral dela, vou com uma saia preta de lã com duas pregas na frente que sempre sempre sempre que uso alguém elogia (escrevi esse pedaço no dia exato em que ela morreu). A saia deve ter uns 50 anos, sem brincadeira. Eu uso há uns bons 15 anos. E sempre recebo elogio. Assim como sempre que vou a um casamento com a saia longa azul marinho de pregas que era dela, ouço elogios à elegância da peça.

Ou quando fui prum casamento  em Oxford (cóf) e coloquei um vestido de seda incrível que era dela e todo mundo babou. Ou quando coloco o vestido meio Pucci anos 1960 todo mundo pergunta. Esse, aliás, só me serve quando eu tô bem magrinha.

A vó Edmea era muito elegante, corpo de ampulheta, ganhou concurso de miss e tudo. Era uma velha bonita, mesmo na UTI, sem a dentadura, sem a unha rosa-concha, sem conseguir falar, sem conseguir acreditar na bosta da situação, abria aquele olhão de água e sorria com a maçã do rosto deixando claro que a beleza não vai embora, só muda de lugar.

Quando ela caiu – e toda essa chatice de velhice começou a pegar pesado – a informação chegou pra mim meio atrapalhada. A minha família desse lado não é muito boa de passar notícia. Ninguém sabia nada direito e tinha só um rumor de que a vó tinha caído e ido pro hospital com o tio Zezinho – ou Julinho, se lá. Sendo eu a única jornalista dos dois lados, de pai e de mãe, saí fazendo meu trabalho. Lista de hospitais de Campinas, em ordem alfabética, vamo que vamo. Liguei aqui, liguei lá, pedi pra transferir pro quarto, quem atende? Ela mesma.

Alô.
Vó? É a Helô (já falei chorando, porque, né, falou que velho caiu em casa sozinho eu já enterrei). O que aconteceu? Tá tudo bem?

Ela respondeu brava, com um tom de voz que era muito dela, entre o resmungo e a bronca.

Ah, olha, uma patetada. Fui virar da cama, caí no chão, que nem saco de batata. É um saco ficar velha, agora vou ter que operar, botar placa, precisa aprovação do convênio. (Aqui ela voltou a falar com a voz melosa de sempre:) Ai, minha netinha, uma chateação. (Risada aguda)

Era um barato como ela fazia isso, falava as groselhas que bem queria e para deixar claro que sabia bem o que tinha feito, dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Tipo Zacarias.

O plano aprovou, operou, botou placa, voltou pra casa. Em uma semana, AVC. Depois de um ano, morreu.

Minha sorte, além de toda a sorte de ter sido neta dela, é que um dia, dez anos atrás, no casamento do meu irmão, chamei minha vó no canto e contei tudo pra ela. Respirei fundo, agradeci ao vinho pela tagalerice e expliquei tintim por tintim como ela era parte de quem eu sou. Ou melhor, como ela era parte de quem eu escolhi ser.

 

revirando os olhos

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Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

Sempre pode ser gases (mas acho que não é)

pink-smoke

Prólogo
A última vez que contei alguma história aqui – lá se vão quase três meses – foi uma história bonita, mas meio superficial, embora, claro, eu tenha tentado extrair dela o suprassumo do que o momento pedia.

Se eu soubesse que hoje estaria lendo sobre o fechamento das fronteiras norte-americanas para cidadãos de sete países de maioria muçulmana, teria logo chutado a canela daquela véia louca e dado início à barbárie só para ser avant garde. Mentira, jamais faria isso. Mas eu tava otimista naquele dia. Hoje não dá pra estar.

Porém. However (Ráu-éver, eu tô aprendendo inglês, me deixa). Véi, porém… aconteceu tanta coisa de lá pra cá, que se eu pudesse escrever do jeito que Splash, Uma Sereia em Minha Vida faz pra ler, eu mandava ver e todo mundo que ainda insiste em acompanhar esse blog (<3 amo vcs) ficaria com os olhos marejadinhos comigo. (Pra quem não tem a referência, a Splash Uma Sereia Em Minha Vida coloca o braço no meio do livro e lê tudo de uma vez só.)

Vamos ao que interessa
Vou contar só uma, em nome da história desse Caracteres, sempre tão dedicado à escatologia, aos encantamentos e ao amor.

Vamos chamar os personagens de a mina (claro que sou eu) e o cara (óbvio, meu namorado). Contexto: o namoro tem 8 meses, mas somando todo o tempo que passamos juntos dá 25 dias. Menos de um mês. Namoro à distância, cada um num canto do mundo, deu pra sacar, né, blz.

A mina e o cara vão ficar juntos por uma semana. Ela foi pra casa dele, numa cidade remota no inverno setentrional. No segundo dia, eles decidem caminhar au bord de la riviére, ir a um dive bar e encher a cara. Na volta pra casa, bem bêbados, ela peida. Inverno setentrional. "Ela peida" o caralho…, peidei. O peido fica preso no casaco, e sai meio pelo pescoço e o cara exclama:

– Que fedô!
– Deve ser o rio (malandra, repertório Tietê)
– Estranho, o rio nunca fedeu (sim, estamos a mais de 8 mil km de SP)
– É estranho, mas, voltando, o alfabeto frígio afinal deriva do grego?

Assunto encerrado. Corta. Dois dias depois é noite de Réveillon. Eles estão em outro dive bar, que ele chama de neighbourhood pub (aqip, eu posso explicar as categorias em pvt, só mandar inbox). Óbvio, é Réveillon, e a ideia é ficar bêbado. Eis que… bate um… fedô.

– Que fedô! (mas desta vez é a mina, eu, que reclama)
– Nossa, verdade, terrível. A gente sentou perto do banheiro
– Verdade, que cagada. (Risos.)
– Cagada, mas, voltando, o alfabeto frígio é contemporâneo ao grego.

Corta. Cinco dias depois. Hora de despedir. No carro a caminho do aeroporto, ele diz.

– Preciso contar um segredo.
– Hm?
– Lembra no Réveillon, que a gente sentiu um cheiro de merda porque tava perto do banheiro?
– Lembro.
– Eu peidei.

Ah, meu, mano, véi. Eu, euzinha, autora dos manifestos mais escatológicos, do MLP, da Solitária Pride. Eu, ali, ouvindo, derreti.

– Jura? Wow (uau). Lembra aquele dia que a gente tava andando na beira do rio e veio um cheiro de merda?
– Lembro.
– Eu peidei.

Risos.

Eu sei que não é sexy. Mas ainda bem, porque mesmo se fosse, não ia dar pra dar vazão ao tesão (a sequência dos acontecimentos foi: uber, aeroporto, vôos para distintas partes do continente, mensagens de celular). Mas, vai, se isso não é amor de vdd, eu não sei o que é. Quer dizer, sempre pode ser gases.

Aquela dor no peito, é verdade, ela sempre pode ser gases.

Mas, ai, acho que não é.

Tomara.

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A imagem que ilustra o post, veja que belissima escolha, ela mescla a ideia de inverno setentrional à de peido rosa de amor, é da fotógrafa Maria Lax e está à venda aqui.