Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

Sempre pode ser gases (mas acho que não é)

pink-smoke

Prólogo
A última vez que contei alguma história aqui – lá se vão quase três meses – foi uma história bonita, mas meio superficial, embora, claro, eu tenha tentado extrair dela o suprassumo do que o momento pedia.

Se eu soubesse que hoje estaria lendo sobre o fechamento das fronteiras norte-americanas para cidadãos de sete países de maioria muçulmana, teria logo chutado a canela daquela véia louca e dado início à barbárie só para ser avant garde. Mentira, jamais faria isso. Mas eu tava otimista naquele dia. Hoje não dá pra estar.

Porém. However (Ráu-éver, eu tô aprendendo inglês, me deixa). Véi, porém… aconteceu tanta coisa de lá pra cá, que se eu pudesse escrever do jeito que Splash, Uma Sereia em Minha Vida faz pra ler, eu mandava ver e todo mundo que ainda insiste em acompanhar esse blog (<3 amo vcs) ficaria com os olhos marejadinhos comigo. (Pra quem não tem a referência, a Splash Uma Sereia Em Minha Vida coloca o braço no meio do livro e lê tudo de uma vez só.)

Vamos ao que interessa
Vou contar só uma, em nome da história desse Caracteres, sempre tão dedicado à escatologia, aos encantamentos e ao amor.

Vamos chamar os personagens de a mina (claro que sou eu) e o cara (óbvio, meu namorado). Contexto: o namoro tem 8 meses, mas somando todo o tempo que passamos juntos dá 25 dias. Menos de um mês. Namoro à distância, cada um num canto do mundo, deu pra sacar, né, blz.

A mina e o cara vão ficar juntos por uma semana. Ela foi pra casa dele, numa cidade remota no inverno setentrional. No segundo dia, eles decidem caminhar au bord de la riviére, ir a um dive bar e encher a cara. Na volta pra casa, bem bêbados, ela peida. Inverno setentrional. "Ela peida" o caralho…, peidei. O peido fica preso no casaco, e sai meio pelo pescoço e o cara exclama:

– Que fedô!
– Deve ser o rio (malandra, repertório Tietê)
– Estranho, o rio nunca fedeu (sim, estamos a mais de 8 mil km de SP)
– É estranho, mas, voltando, o alfabeto frígio afinal deriva do grego?

Assunto encerrado. Corta. Dois dias depois é noite de Réveillon. Eles estão em outro dive bar, que ele chama de neighbourhood pub (aqip, eu posso explicar as categorias em pvt, só mandar inbox). Óbvio, é Réveillon, e a ideia é ficar bêbado. Eis que… bate um… fedô.

– Que fedô! (mas desta vez é a mina, eu, que reclama)
– Nossa, verdade, terrível. A gente sentou perto do banheiro
– Verdade, que cagada. (Risos.)
– Cagada, mas, voltando, o alfabeto frígio é contemporâneo ao grego.

Corta. Cinco dias depois. Hora de despedir. No carro a caminho do aeroporto, ele diz.

– Preciso contar um segredo.
– Hm?
– Lembra no Réveillon, que a gente sentiu um cheiro de merda porque tava perto do banheiro?
– Lembro.
– Eu peidei.

Ah, meu, mano, véi. Eu, euzinha, autora dos manifestos mais escatológicos, do MLP, da Solitária Pride. Eu, ali, ouvindo, derreti.

– Jura? Wow (uau). Lembra aquele dia que a gente tava andando na beira do rio e veio um cheiro de merda?
– Lembro.
– Eu peidei.

Risos.

Eu sei que não é sexy. Mas ainda bem, porque mesmo se fosse, não ia dar pra dar vazão ao tesão (a sequência dos acontecimentos foi: uber, aeroporto, vôos para distintas partes do continente, mensagens de celular). Mas, vai, se isso não é amor de vdd, eu não sei o que é. Quer dizer, sempre pode ser gases.

Aquela dor no peito, é verdade, ela sempre pode ser gases.

Mas, ai, acho que não é.

Tomara.

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A imagem que ilustra o post, veja que belissima escolha, ela mescla a ideia de inverno setentrional à de peido rosa de amor, é da fotógrafa Maria Lax e está à venda aqui.

Repita comigo, é um mantra, vamo lá:

Sabe essa brincadeira nova (escreva seu nome + glamour + shot no Google e divirta-se com o resultado). Minha xará famosa garota de ipanema arrasa no meus resultados

Sabe essa brincadeira nova (escreva seu nome + glamour + shot no Google e divirta-se com o resultado). Minha xará famosa garota de ipanema arrasa no meus resultados

Eu ia subindo a rua da escola. Tava levando meu filho que nem um pacote de coisa, uma brincadeira nossa, apoio ele na anca como se eu fosse um burrico e a gente dá muita risada. É um colo meio pendurado, e a gente ia subindo a rua rindo, atrasados, apressados, vamoquevamo, mas sem perder a graça.

Uma senhora toda chique estacionava um carrão bem clichê na frente do predião que ficou pronto na rua, sei lá quantas suítes, topetão de laquê.

Ela olhou pra mim com cara de muito espanto e abriu a boca pra falar. Eu já me preparei pra ouvir uma papagaiada qualquer (“credo, carrega o menino direito”, “isso é jeito de tratar o filho”) e fui juntando todas minhas pedrinhas imaginárias na mão pra responder com um “cuida da sua vida, madame”, “você me conhece?”

Então ela falou bem alto:

– Minha nossa, como você é linda!

Orras, minha senhora, eu tô atrasada! E tive que parar de andar e dar meia-volta pra ir lá falar com ela, claro.

– Minha nossa digo eu! Que delícia ouvir isso. Pela manhã! Mudou meu dia. Obrigada.

Sorrimos um sorrisão uma pra outra e eu segui meu rumo repetindo o mantra-mental mais importante do momento na minha opinião: estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos, estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos, estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos, estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos, estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos, estereótipo é uma merda, se livra dos estereótipos.

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Feliz sexta-feira-treze, agora que passou

pena

A sexta-feira treze começou mal e terminou assim:

Eu tenho uma gata. Preta. A Shoyu.

Chego em casa, sete e meia da noite. Abro a porta, as luzes apagadas, e vejo, ainda na penumbra, o chão todo coberto por ALGO. Acendo a luz. São penas. Fecho a porta. Atrás dela está o corpo. O corpo de uma pomba toda eviscerada. Tripas de pomba infecta no canto. Penas de pomba infecta pela sala inteira. Presente da Shoyu…

Para fechar a cena: estou de TPM. Resultado: crise de choro.

Euzinha, sozinha, procuro alguém da vila pra me consolar. Encontro apenas a vizinha que é muito brigada comigo… Desisto.

Recomposta, pego uma sacola e uma pá e suspendendo a respiração (e tentando suspender os batimentos cardíacos e a própria consciência) consigo colocar o corpo e suas tripas no saco. Bora terminar o serviço.

Começo a varrer as penas e elas vêm pra cá mas logo voam pra lá. São penas, afinal. E não tem jeito de varrer. As penas cinza, o chão cinza, a gata preta… Continuo varrendo, elas continuam voando e de repente cai a ficha.

Aquela cena, aquelas penas… É tudo tão leve… igual saco de supermercado voando sozinho na rua quando venta. Poesia pura para quem estiver a fim de ver.

“Quanta leveza nas penas do passarinho morto-eviscerado no canto da sala no fim de um dia ruim”.

No caminho pra lavanderia (onde eu estava indo pegar o rodo, um pano e um balde de água com desinfetante pra molhar aquelas penas e acabar com aquela palhaçada), plim: até o tétrico tem um lado leve.

Feliz sexta-feira-treze, agora que ela já terminou.

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Roubei a imagem daqui

Dois meses e quase seis meses

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Vai fazer dois meses que estou trabalhando em um Macintosh. Não, para, peraí: Macintosh é vintage. Melhor: em um imac. Um Apple. E já acontece que quando reencontro meu PCzão velho de guerra estamos nos desentendendo. Estranho todos os atalhos, todos os comandos. Junto os dois dedos pra rolar a tela no touchpad e fico com raiva que ele não me entende. Vem comigo, PCzão, rola essa tela…
**
Vai fazer dois meses que estou trabalhando em um lugar em que só se fala de comida e de cozinhar. E cada vez mais acho que não faz sentido falar de qualquer outra coisa. Você engole essas coisas, bicho. Coloca esses nacos de comida na sua boca, mastiga e engole e caga. Vem cá: eles são mais importantes que o amor da sua vida. Porque por mais que você queira, você não engole (nem mastiga, nem caga) os amores da sua vida.
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Vai fazer dois meses que estou trabalhando com pessoas novas e isso só faz reafirmar a extrema felicidade que tenho de conhecer pessoas novas. É como ganhar uma lanterna, a primeira lanterna que você ganha na vida, e descobre que pode iluminar esse canto aqui, aquele canto ali. A vantagem de conhecer gente nova depois de um tempo é que você já tem uns cantos iluminados e pode correr iluminar outros. Novos cantos iluminados. Com a outra vantagem ainda de que conforme a vida vai passando a luz dessa lanterna vai ganhando potência — e a gente ganha cada vez mais a capacidade de se encantar. Como é bom conhecer gente inteligente!
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Vai fazer dois meses — e quinze anos — que eu trabalho com o que eu trabalho hoje. E se por um lado me dá uma curiosidade danada de entender como são outros trabalhos (quem não tem a fantasia de mudar?), por outro mais eu fico feliz de ter um trabalho que convida as cabeças a pensar junto, num bailão de habilidades. Eu amo a inteligência dos outros. Amo mesmo. Com o fundo do meu coraçã… Na-na-não. Com o fundo do meu cérebrinho.
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Daqui 12 dias vai fazer seis meses que comecei um “Era uma vez…” que era pra ser conto de fadas, história de princesa, príncipe e espada e dragão cuspindo labaredas calorentas… e sobre isso ainda não tenho nenhuma conclusão charmosa para contar (embora o dragão continue cuspindo labaredas calorentas na boca do meu estômago). Agora, vem cá, vou dizer uma coisa: quando vier, quando eu conseguir formular… Segura, peão. Porque vai ser fuerte.

Cadê você, mulher?

patty carol

– Oi! Tô aqui cuidando do jardim.

***

A fotógrafa Patty Carroll tem uma série com mulheres escondidas, camufladas, emaranhadas em tarefas comuns. As legendas são impagáveis (para essa das plantas: Ao decorar sua casa em busca de uma experiência mais agradável, ela experimentou combinar suas plantas com seus vestidos e deu bem certo. Infelizmente, as folhas não responderam bem à camada de tinta). Patty Carroll explica a história assim: “Nessa série, a mulher faz tarefas domésticas e é presa por seus objetos e obssessões. Eu estou construindo naturezas-mortas de objetos em tamanho real. O espaço e as histórias são suspeitas, evocando o hilário e o pathos de nossa relação com ‘coisas’.”

Goró, cigarros e paixões

As fotos deste post têm pouco a ver com ele, embora dê para traçar uma tangente. São uma série de fotos que dois alemães fizeram de comidas que largaram na pia da cozinha. Chama Küchendienst e dá pra ver mais aqui: http://cargocollective.com/slobo/Kuchendienst

As fotos deste post têm pouco a ver com ele, embora dê para traçar uma tangente. É uma série que dois alemães fizeram de comidas que mofaram. Chama Küchendienst e dá pra ver mais aqui: http://cargocollective.com/slobo/Kuchendienst

Eu tinha dezenove anos, era repórter da coluna social, entrava no trabalho às 14h. Deixava minha mochila, pegava um café e saía ligando para as celebridades para perguntar qualquer coisa que pudesse render uma notinha. Liguei pra Angela Ro Ro. Ela atendeu com uma voz das cavernas. Leia todas as frases dela com voz das cavernas:

Ro Ro – Alô.
Eu – Alô, é Angela?
Ro Ro – Sim.
Eu – Oi, Angela, aqui é Heloisa, repórter da coluna Olá, do jornal Agora. Estou te ligando para saber as novidades.
(Observação: essa frase parece estúpida, mas quando você cobre celebridades, é a deixa para a pessoa falar de “projetos”, contratos possíveis, daquilo que ela quer falar. E depois você emenda com as perguntas que de fato quer fazer. É tipo um “tudo bem?” nesse mundo. Ou pelo menos era 15 anos atrás.)
Ro Ro – Novidades? A novidade é que larguei o kit-suicídio.
Eu – … kit-suicídio?
Ro Ro – Álcool, cigarro, drogas, remédios.

Ela tava com 51 anos. Eu não lembro o resto da conversa. Nem posso garantir que tenha sido assim mesmo. Mas em linhas gerais foi. (E, infelizmente, virou uma notinha ou frase ou qualquer coisa do gênero, para que qualquer um pudesse ler, graças a mim.)

Sempre imaginei Ro Ro deitada na cama, tateando o criado-mudo atrás do telefone que tocava, acordando, grunhindo, tossindo, lamentando que alguém interrompia seu sono. E lamento até hoje ter interrompido seu sono. Pra mim, até hoje, aquela é uma voz de ressaca. Mas talvez fosse ressaca de mar. Porque, afinal, ela não estava mais bebendo. Eu acredito nas pessoas (e acho mesmo que isso não é da nossa conta).

Desde então eu tenho um carinho especial por Ro Ro. Ela me deu um tempo. Um prazo. Posso quebrar, cair, rasgar, torcer, chafurdar. Ainda dá tempo de largar o kit-suicídio (no meu caso, I don’t do drugs, ao menos não as prescritas nem as proibidas). Eu sei bem qual é o meu kit. Para os mais conservadores, é álcool e cigarro (transformei um em profissão e o outro em vício; vejo um como cultura, gastronomia, e o outro como cagada mesmo). Mas para mim, o meu fraco mesmo é o desgoverno.

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As vezes em que estive mais perto do fundo foram aquelas em que me deixei desgovernar por paixões. Ao mesmo tempo, e aí é que está o truque, depois do caos sempre sai uma versão melhor de mim. Mais esperta, com camadas novas, como qualquer coisa que se deixa apodrecer um pouquinho, queijo maturado, vinho de guarda, carne dry-aged, faisandée (nada como ver beleza no envelhecimento).

Continuo acreditando nisso, tô com 34, tenho carne, pele, viço para gastar. Mas se quando tiver 51 e estiver deitada na cama e uma repórter ligar e me perguntar quais as novas e se eu tiver decidido largar meu kit-suicídio e ela me perguntar “kit-suicídio?” vou dizer:

– Goró, tabaco e paixões.

Ainda faltam 17 anos para eu ter os 51 anos que Ro Ro tinha. E nós nem sabemos se de fato ela largou o kit (embora o fato de que esteja viva aponte para que sim). Tenho pelo menos mais dezessete anos para beber, fumar e apaixonar.

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