Closed caption I

Meu sonho era dançar como essas crianças
Meu sonho era ter um jardim assim (e um porch)
Meu sonho era que todos os homens e meninos pudessem dançar assim
Meu sonho era que todos eles pudessem rebolar à vontade

Agora aperta play.

Observe o primeiro menino que dança
Meu sonho era que todos os meninos usassem calças assim
Meu sonho era que todos eles soubessem brincar com cordas invisíveis que nem ele

Observe o segundo menino que dança
Meu sonho era que todos mundo soubesse plantar bananeira
Meu sonho era que todos os meninos deitassem no chão e fizessem tipinho assim

Observe o terceiro menino que dança
Meu sonho é que todos tivessem motocas invisíveis e virassem robô de mentirinha
Meu sonho é que todos brincassem de assim

Agora presta atenção
e observe essa menina
É rápido, ela já foi

Observe o quarto menino que dança
Ele prende o cotovelo nos joelhos
Eu vejo isso e torço para que nenhum parente dele tenha sido torturado assim
Mas não importa
Olha como ele dança
Quer dizer, importa
e mesmo assim, olha como ele dança
E levanta, cai. Levanta cai.

Agora voltou a menina
Olha essa menina
Aperta pause e olha pra ela

Peraí, o bebê de macacão listrado e galocha amarela pediu o primeiro plano
Meu sonho, na verdade, era ser esse bebê
Ou talvez: meu sonho era que meu filho dançasse assim
Mas provavelmente se eu vivesse todos os dias com eles
eu não quisesse nada disso

Ela voltou
Sério, olha essa menina
Ela chama o bebê de volta
e jajá ela vai chamar a outra menina

Mas antes ela vai fazer a coreô com os meninos
Olha o bebê listrado-galocha tentando imitar

Repare como só ela está de mochila
o que será que tem nessa mochila
Meu sonho era saber o que tem lá
aposto que é um superpoder

Agora. Ela saiu do line dancing
e pegou a mão da menina mais atrapalhada
ela tem alguma esquisitice que eu não sei saber

Mas antes de colocar a esquisita em primeiro plano,
a menina que eu estou apaixonada
essa da mochila mágica
vem aqui perto feministar

E aí ela vai buscar essa menina mais atrapalhada

Eu tenho uma busca pessoal por uma palavra que seja melhor que empoderar
que é essa palavra coberta de pó de arroz
que não combina com esse pessoal, que é bem feijão-feijoada
mas quando essa menina da mochila mágica traz a menina atrapalhada pra primeiro plano

Eu só consigo pensar
que isso é que é empoderar

Meu sonho é achar uma palavra melhor que empoderar

Joe Cocker, Fred Leal as grandes questões

Morreu Joe Cocker e eu sei muito pouco sobre isso. Mas cá estou, ou estamos, eu e Rafa, pensando nisso. Incontornável falar de With a Little Help of My Friends. De cara eu mando: a versão do Joe Cocker é melhor. E ele emenda enigmátiaco: “o melhor é pior”.

Parabéns pros Beatles que fizeram essa linda letra, mas quem entendeu foi o Cocker (claro, isso tudo muito embebido nas memórias de Anos Incríveis). Como agora dá pra comparar facinho, botamos as duas e, numa primeira impressão, o Cocker vence, embora a versão dos Beatles faça a gente estalar os dedos sem perceber.

Eu, argumentativa depois de umas taças de vinho, traço meus pontos.

Ponto 1. Um coro negro sempre faz uma música ser melhor.

Ponto 2. Vísceras, meu velho, vísceras. Emoção, do you believe in love at first sight? O yes do Coker me convence mais do que o de Ringo.

Ponto 3. Se o mundo fosse justo e belo, eu agora estaria na casa do Fred jogando Beatles Rock Band, tocando bateria, e a gente colocaria essa música e eu tenho certeza, certeza estrela absoluta certeza, que o Fred, nos vocais, cantaria mais Cocker do que Ringo. Vísceras, afinal. Embora, sábio como só, sei também que na hora do do you need anybody, ele iria pra versão dos Beatles, que de fato é mais feliz.

Puta música, putas versões, puta lembrança. Trinta e um minutos de silêncio, porque o Fred é o Fred. E tem mais um pelo cantor.

E se o mundo fosse justo eu puxaria o seguinte papo com Fred. Desafinado é a versão bossa nova de With a Little Help, né? Traga, assopra. A gente conversava nos cigarros. What would do with I sang out of tune? Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor. Lend me your ears and I’ll sing you a song, and I’ll try not to sing out of key. Só privilegiados têm ouvido igual ao seu, eu possuo apenas o que Deus me deu e no fundo, no fundo, a gente acredita em amor à primeira vista. Então tudo bem.

E se o mundo fosse como eu queria, eu poderia, agora, perguntar pra ele: what do you see when you turn out the light?

Corta para a propaganda do Prestígio.

From farm to lapel

Eu sempre esperei ele me pedir alguma coisa. Qualquer coisa para eu retribuir os inúmeros presentes que ele já me deu. Finalmente veio. Era véspera do casamento dele. Eu fui madrinha e estava feliz demais. O casamento era quarta-feira de manhã. Então na terça, fim do dia, mandei um e-mail. “Quer que eu leve alguma coisa?”

“Se você achar uma gardênia, eu queria casar com uma gardênia na lapela e não achei.”

Era minha chance. Parei tudo o que estava fazendo e fui procurar uma gardênia. Entrei em contato com floriculturas de grande porte, floriculturas online, floriculturas especializadas, nada. “Tenta ir na Ceagesp na madrugada.” Não dava. Resignei, dormi, acordei, coloquei uma roupa de “casamento de dia, num dia de semana”, fiz o embrulho do presente e fui. No caminho, decidi fazer a última tentativa. Apesar de estar muito atrasada, parei na floricultura da esquina.

Fui direto para a parte de flores de corte. Vi um balde e achei que eram elas. “São gardênias”, perguntei e exclamei. O vendedor: “não, filha, isso não é gardênia não”.

Quase surda de tristeza, quase não ouço ele dizer: “As gardênias estão ali. Só tem em vaso.”

Eram seis vasos no chão, todos os seis só com botão. “Chegaram hoje cedo, ainda leva uns dias para abrir” ia dizendo o moço quando vimos que tinha uma, só uma, com só um botão aberto. Contei pro vendedor a história. Ele acreditou pouco, mas disse: “só pode ser bom agouro”.

Gastei os R$ 10 que eu ia usar para o táxi e fui a pé, sandália machucando o calcanhar. No caminho, celular tocando, cadê você, fiz na cabeça a piada ruim “em casamento sem noiva, é obrigação da madrinha atrasar”, cheguei muito atrasada, bolha nos pés, o presente numa mão e o vaso de gardênia na outra.

Todos ficaram felizes, menos a moça do cartório, que estava brava com o atraso. O casamento foi lindo e a gardênia ficou lá, from vase to lapel, perfumando de leve os muitos brindes que se seguiram.

gardenia

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Fiquei bêbada e comprei uma arara

Dois anos atrás, eu estava apurando uma das primeiras matérias que escrevi sobre cerveja. Era sobre cervejeiros caseiros e, durante o período de apuração, houve um encontro em São Paulo, o Home Brew Experience. Nele, os cervejeiros estariam reunidos e mostrariam suas cervejas uns para os outros.

Lá fui eu, entrevistei os caras, anotei qual cerveja era de cada um e comecei a prová-las. O Rafa chegou lá pelas tantas e me acompanhou na hercúlea tarefa de experimentar as criações dos cervejeiros. Em suma, bebemos bastante. Foi bem divertido.

Bêbados, saímos da festa em direção ao carro. E no meio do caminho tinha um pet shop. E no pet shop tinha uma arara.

Eu sempre quis ter uma arara. Se eu fosse um bicho, eu ia querer ser uma arara. Mas eu já tinha resolvido internamente que as araras pertencem à Mata Atlântica, ao céu, à Amazônia e ao Pantanal. Mas ali, diante daquela gaiola, eu descobri que tinha resolvido tudo isso desde que estivesse sóbria. Bêbada, eu ainda queria ter uma arara. E, bêbado, o Rafa concordou. Saímos do pet shop emocionados, felizes, empolgados e carregando uma enorme caixa toda furada com uma arara dentro.

Em 20 minutos estávamos em casa com Laerte, nosso arara-canindé. Lindo, costas azuis, peito amarelo, rosto branco. Laerte foi direto para a mesinha de centro da sala (a gaiola ia chegar no dia seguinte). Encarou as tabuinhas da mesa como puleiro e lá ficou.

A chegada dele foi recebida com alvoroço. É que eu tenho duas gatas, que ficaram loucas com aquele bicho coberto de penas coloridas. Cansado das investidas das gatas, ele deu um carreirão: abriu as asas, soltou uns berros e saiu correndo na direção delas. Estava dado o recado. Provalmente na natureza as araras ganham facilmente uma briga contra gatos domésticos, porque as minhas nem reagiram, só desapareceram.

O clima de alegria tropical foi, obviamente, se esvaindo conforme a bebedeira passava. Laerte era totalmente legal e regular, nasceu em cativeiro, para ser uma arara de alguém, tinha anel na pata e tudo e tal. Mas eu sabia que aquilo estava errado. As araras, afinal, pertencem ao céu, à mata, à floresta.

Dormi mal, acordei e fui pesquisar na internet quais seriam as eventuais dores de cabeça de ter uma arara num apartamento — elas gritam bastante, são muito sensíveis a golpes de ar, os vizinhos podem reclamar — mas nada daquilo superava a questão: as araras são do céu. Mas Laerte tinha nascido em criadouro para ser arara doméstica, nunca seria do céu. Mas eu fui ficando triste. No dia seguinte, acordei e me deparei com a segunda-via do cartão de crédito em que passamos a compra de Laerte+gaiola+saco de ração+aquário (ah sim, o Rafa aproveitou a deixa e comprou um aquário). Que ressaca…

Laerte estava no canto da sala, virado para a parede, parecia a arara mais triste do mundo. Foi a gota d’água. Liguei no pet shop, disse que ia devolvê-lo, ouvi todas as piadas e indiretas sobre o meu estado no momento da compra, respirei fundo, liguei para minha chefe, disse que ia atrasar porque precisava devolver a arara que havia comprado no dia anterior (arara de roupa? Antes fosse… arara, o psitacídeo mesmo).

Não foi fácil devolver Laerte. Eu sempre sonhei em andar por aí com uma arara no ombro, assoviando Marinheiro Só. E Laerte já tinha subido no meu ombro, só faltava aprender a música. Mas eu não ia conseguir viver com uma arara confinada. Lá se foi Laerte para o ombro da moça da loja, que devolveu parte do dinheiro (50% da arara ficava pra eles mesmo, eles tinham avisado mil vezes no dia anterior. O saco de ração, que era um belo mix de castanhas, eles também não reembolsaram, porque estava aberto. Doei para a loja com a condição de que eles doassem para alguém legal). Demorou uns 3 meses para a gente se recuperar do prejuízo, demorou um pouco mais de tempo para eu me recuperar do baque (fiquei mal de perceber que: 1. no fundo eu ainda queria uma arara; 2. no fundo eu ainda sou uma menina meio sem noção capaz de entrar bêbada numa loja e comprar uma arara).

Mas, com o tempo, foi sobrando só o lado bom. Toda vez que começa uma conversa sobre qual-a-coisa-mais-louca-que-você-já-fez-bêbado eu sei que vou ganhar. Sei que a cena vai acabar com todo mundo rindo e me parabenizando.

famous arara

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PS1. A história fica ainda melhor com a homenagem, imagem acima, da cervejaria que organizou o encontro. Sabendo da história, eles fizeram a The Famous Arara.
PS2. Fica melhor ainda agora: a sexta palavra que meu filho aprendeu a dizer foi arara (1. uau, 2. eaí?, 3. mamãe, 4. papai, 5. auau, 6. arara). Qualquer ave voadora ele aponta e diz: lalála.

Como cortar uma cebola

Eu não sei dizer pontualmente porque gosto tanto deste vídeo. E hoje vi de novo e continuo gostando sem saber pontualmente o motivo. Pode ser porque ele ensina a cortar cebola de um jeito definitivo. Pode ser porque de algum jeito eu acho a mulher meio Seinfeld. Pode ser porque as coisas que ela fala sobre cozinhar e sobre o efeito que cozinhar tem sobre quem cozinha sejam exatamente aquelas que fazem que o maior cômodo da minha seja a cozinha.

 

É, tatuagem é permanente

tatuapagada
Tatuagem apagada não é exatamente apagada

Quando eu tinha 18 anos, eu era anarquista. Autoridade, hierarquia, até as fronteiras entre países, tudo isso me sufocava. Eu desejava um mundo sem poder centralizado em figura nenhuma, nem Estado nem Mercado. Odiava tudo que impusesse algo. Queria ser livre.

E na minha imensa profundidade de então (de lá pra cá consegui ficar ainda menos profunda), decidi que o símbolo da opressão era a lei da gravidade. Essa maldição que nos mantinha presos ao chão. Ela era a prova última de que nunca seríamos livres (e daí vieram mil delírios de fazer mudança para o espaço sideral, único lugar em que se experimenta a liberdade total. Ainda sonho com o dia que poderei experimentar a ausência da gravidade, mas hoje já não tenho mais angústias infinitas quando percebo que estou colada ao colchão quando deito para dormir – acredite, isso era o motivo de muita angústia na minha profunda alma adolescente e anarquista).

Como além de ser livre eu queria muito ser engraçada, eu também me afiliava intelectualmente aos abolicionistas penais, um grupo que previa a extinção de todas as leis – “inclusive a da gravidade”, dizia eu, com um sorriso meio ensaiado, misturando um grupo de estudiosos sérios a uma ideia de desenho animado (eu tinha assistido um episódio de A Vaca e o Frango ou Eu Sou o Máximo, não lembro mais, em que os personagens viravam legisladores e revogavam a lei da gravidade e tudo voava, depois eles revogavam a lei apenas para vacas, apenas para geladeiras, apenas para isso, apenas para aquilo, e tudo ficava caindo e voando, era engraçado).

Parêntese:
Eu deveria esperar fazer 36 anos para escrever este texto. Porque a partir de lá vai fazer mais tempo que eu convivo com a tatuagem do que o tempo que eu não convivi com ela. Mas deu vontade de falar isso hoje, depois de ler este texto aqui.

Bom, meu anarquismo-abolocionista-penal somado à certeza de que eu deveria sempre lembrar da angústia de não ser livre me fizeram tatuar nas costas um par de asas.

Quác! diria eu, hoje, desafiando a Helô de 18 anos a revisar a falta de lógica desse salto de pensamento. E quác, eu digo, às vezes, quando vejo as asinhas meio tortas, meio pequenas, meio desbotadas, uma delas tem até um erro mesmo, uma pena que começa direito mas termina errada porque na hora que a agulha bateu no osso da costela eu dei um pulo e o risco foi pro lado (tipo aquele comercial, lembra, de uma mulher que ia cortar o cabelo e o cara ligava a máquina e ela espirrava e ele cortava sem querer um monte de cabelo).

Mas por mais defeitos que essas asinhas tenham e por mais que às vezes eu pense que preferia ter as costas lisas, livres de desenhos e principalmente livres de desenhos com penas erradas, eu adoro o bilhete que a Helô-anarquista-abolicionista-penal-de-meia-tigela deixou pra mim. Esse bilhete-lembrete me faz sempre lembrar que imposições existem para ser contrariadas, que tudo deve ser questionado e, de preferência, mudado e, de preferência, para melhor (ainda hoje, tantos anos depois, eu me vi pensando, na janela, que quem diz que regras são regras esquece de notar que não existe nenhuma regra dizendo que as regras não podem ser mudadas, o que invalida, portanto, todas as regras. Percebam como a lógica dessa minha cabeça oca não evoluiu tanto assim).

A diferença é que aos 18 eu achava que todas as imposições eram pequenas prisões, jaulinhas doidas para conter um pedaço da minha vida. Hoje, vejo cada uma delas como um convite a um exercício de achar a brecha e ser livre. Parece que tudo virou ao contrário. Acho que a Helô de 18 anos se orgulharia de ler isso aqui. Do mesmo jeito que eu me orgulho do que ela escreveu nas minhas costas, embora, hoje, ache super cliché.

Dez anos depois, quando fui fazer a tatuagem que fica sobre o meu cotovelo direito, pedi para o tatuador dar uma olhada para ver se rolava cobri-las. Quando eu levantei a blusa e ele viu a tatuagem, soltou um:

— Ah, asinhas…

Ele falou algumas coisas sobre como teria de trabalhar para cobri-las e perguntou em que tipo de desenho eu pensava. Sem pensar muito respondi:

— Asinhas, sei lá, mais bem desenhadas.

Ele não entendeu nada, soltou um “outras asinhas?!”, fez uma cara engraçada e me disse tchau.

Elas continuam aqui. Decidi não cobrir e me recuso a apagar tatuagem, assim como eu não retiro o que eu disse (embora seja a primeira a pedir desculpas quase sempre). E apesar de preferir ser essa metamorfose ambulante, sei bem que o princípio que levou a pseudo-anarquista de 18 anos ao estúdio de tatuagem continua aqui inteirinho. Um pouco transformado pelos anos, talvez levemente amaciado, mas ainda assim aqui.

Músicos ou europeus

siete musicos europeos
Impressionante.

A bomba chegou por email. O assunto era “músicos ou europeus” e a mensagem trazia apenas um link. Cliquei e perdi o chão: era um anúncio de venda de um apartamento no meu prédio e lá estava a ordem de despejo. O texto dizia assim (era tudo caixa alta mesmo, um grito, um berro, uma expulsão):

“PRÉDIO ANTIGÃO NEOCLÁSSICO. PARA CLIENTES DIFERENCIADOS, ARTISTAS PLÁSTICOS, ARQUITETOS, INTELECTUAIS, MÚSICOS OU EUROPEUS.”

Ferrou. Somos uma jornalista, um designer e um bebê. Uma campineira, um brasilero e um micropaulistano. Uma brejeira, um saltimbanco e um carinha que a gente ainda não sabe o que vai ser. Era chegada a hora de amarrar a trouxa na ponta do cabo de vassoura e mudar de endereço. I don’t belong here, a frase lema de Creep ressoou bem alto. We don’t belong here.

O silêncio dominou nosso apartamento no prédião antigão. (Acho grosseirona essa descrição. Prefiro prédio antigo. Também detesto predinhoantiguinho, ouço isso dito numa voz fininha duma menininha chatinha segurando um caderninho com capa de passarinho. Que gracinha esse predinho antiguinho! Me dá vontade de dar um soquinho na boquinha. Mas voltemos.)

Eu estava me dando por vencida. Talvez meu lugar não seja esse mesmo, vi voltar essa nóia, sentimento de quem um dia quis fazer a vida na cidade grande. A gente sai da roça, mas a roça não sai da gente. Foi quando ele disse:

– Peraí, vê a metragem.

Eu pensei: metragem? Ou quilometragem? Minha cabeça já estava em Aiuruoca, Barreirinho ou Bichinho, Vinhedo, Valinhos, Joaquim Egídio. Acabou, já erá, um abraço. Descobriram tudo, fui pega, sou uma fraude, não deveria estar aqui, sou caipira pira pora, nossassenhora. Mas ele falou de novo.

– Helô, vê a metragem?

– Que metragem? Quilometragem?

– Do apartamento!

Fui ver. 164 metros quadrados. 164 metros quadrados! E a alegria voltou a reinar na jangada que é a nossa cama, onde estávamos esticados na preguiça dominical.

É que este predião antigão é formado por três blocos, um inho, um bloco e um cão. O bloquinho tem apês de 2 quartos. O bloco, de 3, é o meu, 130 metros quadrados. E o blocão, apês enormes, duas salas, três quartos e um quarto de empregada que abriga uma família inteira – claro, desde que não seja de ARTISTAS PLÁSTICOS, ARQUITETOS, INTELECTUAIS, MÚSICOS OU EUROPEUS.

– Acho que podemos ficar, ele disse. Se o blocão é para artistas plásticos e intelectuais, o nosso é para designers e jornalistas.

A quem interessar possa ou a quem possa se interessar, o anúncio é este.

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