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Sempre pode ser gases (mas acho que não é)

pink-smoke

Prólogo
A última vez que contei alguma história aqui – lá se vão quase três meses – foi uma história bonita, mas meio superficial, embora, claro, eu tenha tentado extrair dela o suprassumo do que o momento pedia.

Se eu soubesse que hoje estaria lendo sobre o fechamento das fronteiras norte-americanas para cidadãos de sete países de maioria muçulmana, teria logo chutado a canela daquela véia louca e dado início à barbárie só para ser avant garde. Mentira, jamais faria isso. Mas eu tava otimista naquele dia. Hoje não dá pra estar.

Porém. However (Ráu-éver, eu tô aprendendo inglês, me deixa). Véi, porém… aconteceu tanta coisa de lá pra cá, que se eu pudesse escrever do jeito que Splash, Uma Sereia em Minha Vida faz pra ler, eu mandava ver e todo mundo que ainda insiste em acompanhar esse blog (<3 amo vcs) ficaria com os olhos marejadinhos comigo. (Pra quem não tem a referência, a Splash Uma Sereia Em Minha Vida coloca o braço no meio do livro e lê tudo de uma vez só.)

Vamos ao que interessa
Vou contar só uma, em nome da história desse Caracteres, sempre tão dedicado à escatologia, aos encantamentos e ao amor.

Vamos chamar os personagens de a mina (claro que sou eu) e o cara (óbvio, meu namorado). Contexto: o namoro tem 8 meses, mas somando todo o tempo que passamos juntos dá 25 dias. Menos de um mês. Namoro à distância, cada um num canto do mundo, deu pra sacar, né, blz.

A mina e o cara vão ficar juntos por uma semana. Ela foi pra casa dele, numa cidade remota no inverno setentrional. No segundo dia, eles decidem caminhar au bord de la riviére, ir a um dive bar e encher a cara. Na volta pra casa, bem bêbados, ela peida. Inverno setentrional. "Ela peida" o caralho…, peidei. O peido fica preso no casaco, e sai meio pelo pescoço e o cara exclama:

– Que fedô!
– Deve ser o rio (malandra, repertório Tietê)
– Estranho, o rio nunca fedeu (sim, estamos a mais de 8 mil km de SP)
– É estranho, mas, voltando, o alfabeto frígio afinal deriva do grego?

Assunto encerrado. Corta. Dois dias depois é noite de Réveillon. Eles estão em outro dive bar, que ele chama de neighbourhood pub (aqip, eu posso explicar as categorias em pvt, só mandar inbox). Óbvio, é Réveillon, e a ideia é ficar bêbado. Eis que… bate um… fedô.

– Que fedô! (mas desta vez é a mina, eu, que reclama)
– Nossa, verdade, terrível. A gente sentou perto do banheiro
– Verdade, que cagada. (Risos.)
– Cagada, mas, voltando, o alfabeto frígio é contemporâneo ao grego.

Corta. Cinco dias depois. Hora de despedir. No carro a caminho do aeroporto, ele diz.

– Preciso contar um segredo.
– Hm?
– Lembra no Réveillon, que a gente sentiu um cheiro de merda porque tava perto do banheiro?
– Lembro.
– Eu peidei.

Ah, meu, mano, véi. Eu, euzinha, autora dos manifestos mais escatológicos, do MLP, da Solitária Pride. Eu, ali, ouvindo, derreti.

– Jura? Wow (uau). Lembra aquele dia que a gente tava andando na beira do rio e veio um cheiro de merda?
– Lembro.
– Eu peidei.

Risos.

Eu sei que não é sexy. Mas ainda bem, porque mesmo se fosse, não ia dar pra dar vazão ao tesão (a sequência dos acontecimentos foi: uber, aeroporto, vôos para distintas partes do continente, mensagens de celular). Mas, vai, se isso não é amor de vdd, eu não sei o que é. Quer dizer, sempre pode ser gases.

Aquela dor no peito, é verdade, ela sempre pode ser gases.

Mas, ai, acho que não é.

Tomara.

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A imagem que ilustra o post, veja que belissima escolha, ela mescla a ideia de inverno setentrional à de peido rosa de amor, é da fotógrafa Maria Lax e está à venda aqui.

A incrível Vanderlândia

Ainda em Jericoacoara, tem um restaurante bem normal chamado Tranquilo onde trabalha a garçonete nada normal chamada Vanderlândia. Se há um bar favorito e um restaurante favorito, Vande é minha pessoa favorita de Jeri. Eu poderia contar toda a história, construir a personagem e então chegar ao ápice. Mas o ápice é tão lindo que vou contar só ele.

Foi assim:

Na mesa ao lado, Vanderlândia atendia dois italianos (cheeseburgers e Coca-Cola) quando, do nada, do nada mesmo, suspirou e disse:

– Ai, que lindo.

Os caras olharam com cara de ‘cosa?’. E ela repetiu com um sorrisão:

– Che bello!

E os caras com cara de ‘cosa?’.

Ela virou pra mim, suspirou e mostrou as mãos dizendo:

– Não posso com guardanapo novo. Eles são tão lindos.

Ela estava segurando metade de um pacote de guardanapo de papel, para colocar na mesa dos italianos lambuzados de maionese do cheseburger com Coca-Cola.

Talvez olhos hiperexpostos à beleza óbvia do mar e das dunas sejam mais afiados para as singelezas

Jeri-coacoa-quá-quá-quá-rá-rá-rá-rá

Já botei cerveja no congeladoooor...

Muita areia, muito vento e muita música ao vivo. A dupla areia+vento é defeito/qualidade. Enche o saco, chicoteia a batata da perna quando você tá andando na praia, chicoteia suas costas quando você senta na praia e chicoteia sua cara quando você tenta ler na praia. Por outro lado, ela enche os olhos (no sentido poético, embora no literal também aconteça) quando tá toda empilhada formando dunas ou quando escorre feito líquido pela encosta da duna ou quando faz você ter certeza que a duna é de nuvem porque a areia tá ali voando e parece que a duna não tem um limite exato de onde ela termina e começa o céu, bem nuvem mesmo. Daí ela chicoteia sua canela, porque, afinal, enquanto você brisa na duna/nuvem, vento/areia castigam sua batata.

Já a música ao vivo é só defeito mesmo. Ela enche o saco e ponto. No primeiro dia é até engraçadinho ouvir o Black Power, um músico com apelido autoexplicativo, cantando “Burguesinha”, “Mangueira” e todas as outras músicas do Seu Jorge intercaladas a discursos para “passar uma mensagem”. Mas aí você sai do bar e vai pro outro e ele tá lá. E no outro também. E assim por diante. O Black Power que canta Seu Jorge é a prova daquele ditado que diz que caiçara brota da areia. Como aqui, como já dito, tem muita areia, ele brota umas cinco vezes ao mesmo tempo em bares diferentes.

Pior ainda é quando não é ele e você fica com saudade dele, porque sempre pode ser pior e o cara pode tocar mal e cantar sofrivelmente. E quando você percebe que está lamentando que a música ao vivo não é com Black Power descobre que o problema é a onipresença absoluta da música ao vivo. Daí só resta lamentar que em dez dias em Jeri é difícil lembrar de ter ouvido o barulho do vento.

E esse é o único verdadeiro defeito do lugar — embora eu pudesse gastar algumas linhas reclamando de algumas outras coisas, mas seria ranzinzice. O resto é só beleza, boa comida e bom humor.

Dadas as impressões gerais, algumas pontuais, caso você algum queira ir para lá sabendo quais foram as minhas preferências.

Os bares da praia são bem diferentes entre si. O See Sea Jeri é legalzinho, tem mesas octógonais e é bem posicionado. Drinks e porções nada demais. O cardápio em italiano oferecendo uma “caipitália”, feita com grappa, dá a entender que o dono é italiano. O Bar do Alexandre é um terror. Fuja. É bem lá que você corre o risco de sentir saudade do Black Power. Aliás, se sentir saudade do Black Power é só ir ao See Sea, que um deles toca lá o tempo inteiro.

O bar da pousada Capitão Thomaz tem um ar de “o capitão Thomaz saiu pro almoço e os marujos tomaram conta de tudo”. Os garçons fazem o que querem, ouvem o que querem, fecham o bar no auge do movimento e outras anarquias quetais. A boa é que os caras têm bom gosto musical. Ali você corre o risco de passar a tarde ouvindo Beatles.

O melhor bar da praia é Beco do Caranguejo, o QG da resistência. É o único que cobre as mesas com toalhas coloridas feitas pelas crocheteiras de Jeri. Nessas poucas mesas não há concessões para a padronização turística. Nada de som genérico pra agradar gringo, nada de ampliar as instalações, nem música ao vivo ele tem. No Beco do Caranguejo tudo é tudo bem e os garçons explicam, com orgulho, que a goma de mandioca usada pra fazer tapioca ali é comprada de uma senhorinha que faz em casa, ‘Porque essas de mercado não prestam’. Na verdade, esse bar talvez não tenha nada demais, é apenas um boteco simpático. Mas como ele está cercado por outros, que são todos meio nada, acaba ficando bem especial.

Mesa do Beco

Agora, o melhor bar de Jeri, o melhor dos melhores, o mais incrível e maravilhoso (e para entender essa definição, sugiro a leitura do post logo abaixo), é o bar do Chagas. Eu não vou nem tentar explicar como ele é, porque minhas habilidades narrativas e descritivas não bastam. Detalhe importante: ele fica longe da praia, não tem porções e quase sempre é preciso chamar umas cinco vezes pelo Chagas para ele apareça. Mas uma vez que ele aparece, seja bem-vindo a Jeri.

Há muitos restaurantes em Jeri e em todos a que fui a comida era pelo menos honesta. Meus dois favoritos foram esses:

O Pimenta Verde é, considerados os aspectos técnicos, o melhor restaurante da vila. A comida é excelente. Para entender a graça do restaurante, peça o filé matuto. Um prato bem simples, bem típico e executado com capricho comovente. A apresentação é de restaurante chique e o preço é justo (algo em torno de R$ 20 para um prato mais do que bem servido). Só não é meu favorito por uma questão de coerência (quem elege o bar do Chagas como o melhor de Jeri não pode decidir que o Pimenta Verde é o melhor restaurante, simplesmente porque existe a Peixaria Brasil).

E quanto à Peixaria Brasil… que lugar inacreditável essa casa verde, de esquina, com as paredes pintadas com uma imagem de um pescador segurando um peixão e as instruções: escolha seu peixe, polvo ou lagosta e espere ele ser assado na churrasqueira montada na calçada. O acompanhamentos são ‘deliciosa comida caseira’.

Todos os atendentes são da mesma família, o clã do seu Guaxelo, o pescador representado na pintura da parede. O Guaxelo é um senhor barrigudo de bermuda de náilon branca e aquela cara entre safada e perdida que eu acho que ensinam para os pescadores na escola de pescadores. “Aula 1: Técnicas de olhar para cima e para o lado e ainda assim ver o que acontece à sua frente”.

O serviço é péssimo, a casa não aceita cartão e vive lotada. Há duas explicações possíveis, e provavelmente a resposta é ambas. 1. A comida é maravilhosa. 2. É restaurante-sitcom.

Os quinze, ou onze, não lembro, filhos do Guaxelo atendem e desatendem e se atrapalham e brigam entre si e bufam com a mãe e tomam bronca do pai (bronca de pescador, “Aula 2: Como dar bronca usando apenas os olhos e sem deixar de ver o que acontece à sua frente”).

Se você não tomar as rédeas da situação, não vai jantar. O primeiro passo é achar uma mesa, muitas são compartilhadas e você pode pedir licença e sentar com estranhos. Depois, é preciso laçar um garçom e pedir uma cerveja. Aí, levante-se e vá até a peixaria, que é encostada ali do lado, e escolha seu peixe. Eu queria polvo. O cara disse: “O polvo é de ontem… não tá fresco, pega o peixe que é de hoje e ainda não foi congelado”. Escolhido o peixe, ele é pesado e vai pra grelha. Daí é só laçar o garçom de novo e pedir mais uma cerveja e os acompanhamentos (salada, purê de mandioca, mandioca frita, farofa, o que você quiser). O quilo do peixe custa R$ 30. Pra dois, basta. Cada acompanhamento custa entre R$ 6 e R$ 8 na versão média. E basta um, dois se a fome for grande. Daí é só esperar o peixe chegar (a fila da churrasqueira costuma ser grande, assim como a espera) e se divertir com as trapalhadas da Família Guaxelo.

Aproveitando o tema Guaxelo, eu tive uma incrível interação com ele alguns dias depois do jantar, quando fui lá comprar cigarros (a casa fica aberta durante o dia como mercearia e é dos poucos lugares que vendem Marlboro). Entrei e me dirigi ao balcão (eu já tinha comprado cigarro ali antes, da senhora Guaxelo, um docinho, que parou de cortar a macaxeira do jantar para me atender e explicar que, sim, o cigarro tinha sobretaxa porque ela comprava lá em cima e vendia cá embaixo). O Guaxelo me viu entrando e entrou também.

Eu disse: eu quero um Marlboro.
Ele disse:
– Pegue lá o Marlboro pra menina.

Só que nenhum de seus muitos filhos estava ali. Na verdade, só estávamos eu e ele. Então eu mesma peguei o cigarro, que ficava em cima do balcão. Dei o dinheiro (R$ 10, o cigarro custava R$ 6). E ele disse:

– Pegue lá o troco da menina.

Mas, como já dito, nenhum de seus muitos filhos estava ali. Ficamos os dois em silêncio, porque eu não podia simplesmente abrir a gaveta de dinheiro do cara e tirar meu troco de lá. Silêncio. Ele olhando pro alto e pro lado com minha nota na mão.

Silêncio.

Não apareceu ninguém. Então ele foi para trás do balcão e começou a pegar o troco. E disse:

– Pegue lá R$ 2 pro troco da menina.

Eu já não conseguia mais conter o quase-riso. Ele notou. Sorriu e ficou com cara de criança pega na traquinagem.

Deu uma nota de R$ 5 e disse: depois, se passar aqui, você me dá R$ 1. Saí do lugar e pedi R$ 1 pro Rafa, voltei e entreguei pra ele, que ainda estava olhando para cima e para o lado diante da gaveta de troco aberta.
Eu disse:

– Aí.

E trocamos sorrisões.

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Submersa na cerveja

Essa obviamente não sou eu, mas tá tudo aí. A banheira, a cerveja, a torneira e o chope servido durante o banho

Foi uma experiência espumante. Eu hesitei, por não estar com a depilação em dia. Mas consegui dobrar meus pudores e mergulhar nesse passeio singular. Na viagem que fiz à República Tcheca, uma das paradas foi no bucólico vilarejo de Chodova Plana. Eu fiquei hospedada no Hotel Spa U Sladka. E lá a especialidade é banho de cerveja.

Eu cheguei ao espaço do spa, recebi um lençol branco e fui conduzida ao trocador. Tirei a roupa, me embrulhei no lençol e fui guiada uma banheira metálica cheia de cerveja meio escura. Meu primeiro temor foi ficar com cheiro de Quarta-Feira de Cinzas, aquele odor de cerveja amanhecida. Mas o cheiro não passava nem perto de nada azedo, era meio adocicado até.

O cenário tinha um quê hospitalar, com cortinas separando os ‘leitos’. Entre três cortinas (o outro lado era a parede) havia a banheira metálica com chopeira no lugar da torneira e um banco com um canecão de chope gelado. Me desenrolei do lençol e entrei na banheira de cerveja morna. A espuma da cerveja parece quando você é criança e coloca xampu na banheira pra fazer espuma. Ela dá umas estaladinhas. O banho dura vinte minutos. E quando dá dez minutos a mulher entra ali e troca o chope por um novinho em folha. Cada um tem 500 ml.

Eu nunca vi muita graça em banho de banheira (depois de cinco minutos já fico meio entediada, meio com sono, meio molenga demais). E no caso esse era um banho de banheira com cerveja. Então não há muito pra contar além disso. A parte mais emocinante foi quando, lá pelas tantas, decidi submergir na cerveja pra ver qual é. Foi uma ideia estranha, porque entrou cerveja no meu nariz e escorreu pela garganta de maneira que senti o gosto da cerveja morna lá no fundo da boca.

Era uma cerveja bem diferente mesmo, um pouco doce e menos gasosa. Depois me explicaram que usam uma cerveja só um tiquinho fermentada para o banho. Não é a cerveja feita até o fim. Por isso que não é tão ácida, por isso eu não morri quando aspirei o líquido sem querer pelo nariz (deve arder muito aspirar cerveja de verdade).

Depois de 20 minutos marinando na semi-cerveja, entrou uma mulher bem gradona ali, pegou meu lençol, fez sinal para que eu levantasse e me embrulhou no pano. Deu até uma saudadinha de quando a minha mãe me tirava do banho e me embrulhava na toalha.

Dali, fui direto para o chuveiro, porque meu cabelo ficou um tanto quanto grudento depois do mergulho no chope. Agora, eu tenho notado que ele, meu cabelo, está num momento bom, volumoso, formando uns cachos enfáticos. Pode ser efeito da cevada.

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Comida de peixe

O cenário é Praga. Nove da noite, estamos na rua eu e meu amigo de viagem Henri, o holandês bebedor, procurando um pub, o U Pinkasů. Perdidos, paramos uma menina pra pedir informação. Ela não sabe onde é o bar, mas é tão simpática e solícita que liga pra alguém que dá as instruções. Então ela diz:

– Vocês devem descer essa rua aqui. Vocês vão passar em frente ao lugar que faz “fish massage”, depois uma loja de maquiagem, daí tem um túnel. Entra no túnel e o bar está à esquerda. Eu estou indo nessa direção, venham comigo.

Descemos a rua com ela. Ela diz que é búlgara, se chama Anni, ouviu dizer que a presidente do Brasil tem ascendência búlgara e me diz que o nome Rousseff é búlgaro. Repete as instruções. Desce, “fish massage”, loja de maquiagem, túnel.

Desce, “fish massage”, loja de maquiagem, túnel.

Ela se despede porque agora vai em outro sentido. E assim que ela sai de perto eu digo a Henri:

– Podemos concluir que t em búlgaro tem som de sh. É feet massage (nos pés) e não fish (peixe).

Ele assentiu e comentou: é que nem no Brasil, quando vocês falam “leitche”. Então eu começo a fazer piada. Imagina um peixinho, cansado depois da piracema, parando no “fish massage” e dizendo: “minha nadadeira dorsal está me matando”, “estou com as nadadeiras muito tensas”. Rio alto. Henri começa a rir também. E repete minha piada em inglês com sotaque holandês:

– Oh, my dorsal fin is killing me today.

A gente continuou descendo e de longe eu avistei a loja de maquiagem. Olhei para o lado… E não é que era fish massage mesmo.

No dia seguinte, eu contei essa história pro Holger, um alemão com humor inglês, e ele disse: mas que ótima ideia, vocês podiam fazer isso no Brasil com piranhas

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Um abraço em São Luiz do Paraitinga

Uma parede de cada vez

Eu acho graça como a gente guarda e guarda o dinheiro para viajar pra longe e de vez em quando esquece de conhecer umas coisas aqui pertinho. Neste ano eu decidi dar uma colher de chá pra esse chão (num misto de resgate de gostos pessoais que estava meio de lado e medida de restrição orçamentária).

Minhas férias quero passar em Minas. Já nem lembro com quem estava conversando, mas a pessoa mandou a seguinte frase, que eu adotei: ir a Minas como se vai à França (dando trela pra cada cidadezinha que produz isso ou aquilo). Voilà. Estou bem Mário-Quintana-provinciano-é-sair-da-Província e abracei o caipirismo, já que ele de fato nunca saiu de mim. E esse longo trololó é para tentar convencer você a fazer como eu. E, mais especificamente, a fazer como eu fiz esses dias e ir visitar São Luiz do Paraitinga.

Eu estive lá na minha folga recente. E senti uma certa urgência.

Vulto da igreja protege as obras de reconstrução

A cidade está se reerguendo com rapidez. Não é a mesma coisa que era antes da chuva forte que a derrubou. Eu não conheci São Luiz antes da enchente. Então só imagino, imagino como era a praça principal antes de a igreja matriz ir abaixo. Imagino como era o cenário antes de todas as casas de uma das laterais da praça ruírem. Onde hoje estão escombros e tapumes. Mas não é desolador. Pelo contrário. É animador. Há um vulto da igreja (a cobertura das obras de reconstrução reproduz a silhueta da matriz, que boa ideia, porque daí ninguém esquece dela). E você pode ver pelo alambrado as coisas sendo feitas, o que sobrou sendo cuidado, separado, e o resto sendo reconstruído. E os tapumes que cobrem as casas em reconstrução ou recuperação têm a pomba da festa do Divino desenhado. Nada de tapume marrom mal-cuidado, não. É tudo vermelho e branco, com a pombinha de enfeite. Ou seja, sim, é uma cidade em reconstrução, mas sim, ainda assim, é uma cidade linda, ainda cheia de coisas legais pra fazer.

Quem deu o tom de urgência na conversa foi a Sandra, da pousada rural dos Curiangos, onde fiquei e recomendo.

Chalé na beira do rio

Primeiro, a recomendação: a pousada dos Curiangos fica na roça, mas é perto da cidade. São vários chalés na beira do rio, num sítio todo lindo e bem cuidado. A diária custa R$ 80 por chalé (cabem 4 pessoas, mas o ideal é 2 mesmo). As casinhas têm lareira, frigobar e fogãozinho. Não tem café da manhã (eles pararam de servir depois da enchente). Mas tem, na porta do sítio, dois lindos Sacis. Daí quando você entra, eu recomendo pedir licença dizendo em voz alta quando passar. Licença, Saci.

(Para quem for no fim de semana, outra dica é a pousada Trilha das Sete Cachoeiras, que fica pro lado de Catuçaba e tem passeio por cachoeiras. Como eu fui dia de semana, quando eles estão fechados, não deu pra conhecer. Mas jajá eu volto lá e conto melhor como é.)

Voltando à Sandra dos Curiangos, ela que deu o tom de urgência. Eu perguntei pra ela porque eles pararam de servir café da manhã e ela disse assim:

– Depois da enchente, todo mundo sumiu. E a gente teve que repensar tudo. Precisamos reconstruir a cidade. Tivemos de reconstruir a pousada. A diária era R$ 160 e incluía café, um café farto, com coisas artesanais. Resolvemos cortar o preço pela metade, para as pessoas voltarem. E cortamos o café. A cidade inteira está assim. Todo comerciante está gastando para reconstruir, a gente tá gastando muito. Mais do que está recebendo.

Olha que lindo esse saci-chocalho feito de cabacinha!

Daí eu fiquei pensando. Por que a cidade merece ser visitada? Porque é uma cidade histórica bonita, porque tem uma cultura regional particular e cuidadosamente preservada, cheia de músicas e sacis, porque a comida é boa (que delícia o afogado, um cozido de carne com bastante caldo pra misturar com a farinha e fazer um angu no prato), porque a região é linda e cheia de trilhas e cachoeiras e passeios, porque você vai no mercado e sai de lá cheio de farinhas de milho que não vendem no supermercado daqui. E porque também é responsabilidade sua ajudar a reconstruí-la.

São Luiz do Paraintinga é patrimônio nacional, portanto é patrimônio meu, seu, da Sandra e dos Curiangos. E está aqui pertinho. A responsabilidade de cuidar da cidade não é só dos moradores de lá, nem é só do governo ou só do Iphan. É de todo mundo. Porque se tudo desaparece de vez de lá, a gente fica em casa fazendo as mesmas coisas de sempre e resmungando “é um verdadeiro absurdo que o Brasil não cuide de suas cidades históricas, um absurdo! Veja só São Luiz do Paraitinga…”. Pois é, veja só, se a gente for pra lá fazer umas coisas diferentes, tipo uma caminhada na roça e um passeio no centro histórico, as pousadas ganham dinheiro, os restaurantes ganham dinheiro, a gente fica feliz porque passeou e eles ficam felizes porque a gente voltou pra lá. E o nosso patrimônio fica preservado de verdade, sem virar cidade-cenário ou, o horror, sem sucumbir à condição de ruína.

Faça as contas comigo. Duas noites (R$ 160), você pode levar o café da manhã ou comprar no mercado (eu comprei uma caneca de ágata, um coador de pano e 250 g de café Pindense. Pra comer, sortuda que só vendo, eu tinha na bagagem umas broinhas assadas na folha de bananeira feitas pela Ana, mãe do Rafa). Uns R$ 50 por refeição (pra 2, comendo um montão e tomando cerveja, cachaça, suco, água. Eu, inclusive, fiz uma refeição por dia, que a comida é tanta que nem dava vontade de comer mais de noite). Dá R$ 260 para os básicos. Um tanque de gasolina, uns R$ 90, e os pedágios, que deve dar uns R$ 20 ida-e-volta. Deu uns R$ 370. Põe mais R$ 30 pra tomar um cafezinho, comprar um saci e trazer umas delícias. Deu R$ 400, R$ 200 por pessoa. Não é muito mais do que você gasta ficando em São Paulo (só um cinema+bar e um restaurante já estouram essa cota).

Quer mais um motivo? Começa amanhã e vai até dia 21 a festa do padroeiro, São Luiz de Tolosa. Depois, em setembro, tem a semana da Canção Brasileira. Em outubro tem a festa do Saci. Depois tem o Carnaval. E a festa do Divino em junho do ano que vem. Aqui tem o calendário completo.

Vai lá dar um abraço na cidade.

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Uma vila, 200 pessoas, 3 ruas. De areia

Esse post explica como chegar a esta praia específica

Eu trabalhei anos como repórter do caderno de Turismo. E, sim, até isso cansa. Acontece que eu fui viajar esses dias e foi difícil encontrar informações do lugar a que eu ia. Como “eu saí do Turismo, mas o Turismo não saiu de mim”, eu vou fazer uma clássica matéria de viagem, com serviço e tudo, veja só.

A Vila de Santo Antonio tem três ruas que dão numa espécie de praça. As três ruas são de areia. Como quase tudo ali. O povoado tem umas 200 pessoas, três restaurantes e dois carros. Eles são bem importantes esses dois carros. Além da praia, claro. Mas vamos começar pelo começo, que é a parte mais difícil dessa história. O começo é:

Essa aí é a barraca do Sérgio

Como chegar a Santo Antônio. Não é difícil, desde que você saiba algumas coordenadas. E a internet, que tem de tudo, está em falta de coordenadas para ir a Santo Antônio. Vamos resolver isso aí. A Vila de Santo Antonio fica a norte de Salvador, no município de Mata de São João. Ela fica depois de Imbassaí e Praia do Forte. E antes de Sauípe. É a menos de 100 km de Salvador, pela costa, no rumo norte. (Sauípe, Praia do Forte, Imbassaí, Diogo e Santo Antônio são todos vilarejos do município de Mata de São João, cujo centro fica no interior, a cerca de 70 km da costa. Para entender mais ou menos isso aí, veja este mapa; Salvador está pra baixo de Lauro de Freitas)

Para ir pra lá gastando pouco dinheiro, pegue um táxi no aeroporto até o ponto de ônibus de São Cristóvão. É só dizer pro taxista: eu vou pegar um ônibus da Linha Verde, me deixa no ponto? Dá uns R$ 20. Daí esse ponto é sensacional. É uma galera, muitos ônibus e bastante confusão.

Foco no que importa: você precisa pegar ou um ônibus da Expresso Linha Verde ou uma van da Linha Branca (foi o que peguei). O cara passa gritando: Arempebe, Praia do Forte, Sauípe. Falou Sauípe, pode entrar. Se ele não falou, você pode perguntar: passa na entrada do Diogo?

Eu tenho essa teoria, não sei da onde tirei ela, mas ela costuma funcionar. No caso de você não ter a menor ideia do que está falando, fale com muita convicção, como se estivesse mencionando algo tão banal quanto ‘o ar é transparente’. Foi assim que dissemos. “Passa na entrada do Diogo?”. “Passa”. Então bora. A passagem custa R$ 10 (de Salvador a Diogo. Você vai reparar que cada um paga um valor de passagem, e isso é definido pelo ponto de partida e de chegada).

Essa é a vista que se tem a partir do ponto de mototáxi

A viagem até a entrada do Diogo (que é o vilarejo vizinho a Santo Antonio, maior, à beira do rio Imbassaí) demora mais ou menos 1 hora. Chegando lá, atravesse a estrada rumo ao ponto de mototáxi e peça ao mototaxista que leve você até Santo Antônio. A viagem custa R$ 15. E é uma viagem….

Ele atravessa a pista e entra numa estradinha de terra. Até aí, normal. Eis que a estradinha de terra vira um caminho de areia fofa, muito fofa, e branca. Parece rally. É o areal. O povo da vila espalha casca de coco na estradinha pra ela ficar mais transitável. Mesmo assim, o meu mototaxista derrapou duas vezes. Depois eu perguntei quem é que espalha o coco na estrada e veja só que legal: o pessoal vai se organizando e os dois carros da vila vão levando o coco e deixando umas pilhas ao longo da estradinha. Num dia combinado, a galera vai geral pra lá espalhar o coco na estrada. “E quem não puder vir, paga a cerveja e a feijoada. Todo mundo participa de algum jeito”, me explicou Sérgio, filho de Dona Lelé, dono da barraca do Sérgio e de um dos dois carros da vila.

Para ir pra lá gastando muito dinheiro, você pode ir de táxi até a entrada do Diogo (vai dar no mínimo R$ 150) e pegar o mototáxi ou tentar falar com o Sérgio e ver se ele busca você no aeroporto.

Esse é o areal, ou melhor, um pedaço dele

O mototáxi finalmente chega a Santo Antonio. Você vai descer na frente “de Luciano”. Luciano é filho de Dona Lelé, irmão, portanto, de Sérgio. Mas é também um camping e o ponto de encontro da vila. Sim, o camping é dele. Tudo o que você marcar com qualquer pessoa vai ser ali “em Luciano”.

Diante de Luciano tem uma espécie de praça, um lugar sem nada. Às vezes tem ali um jegue estacionado. O jegue é a principal forma de transporte em Santo Antônio. Colocam neles uns cestos grandes e redondos e pronto. São a picape local. A fauna local também é farta de galinhas e galos. Muitos, por todos os lados. As galinhas andam pra lá e pra cá com seus pintinhos, ensinando os pequenos a ciscar. O clima é bem interiorano.

Parado ali no meio, olhando para o camping, as coisas estão dispostas assim: na sua frente, a praia (depois do camping, né). 45 graus à direita está a rua onde fica Dona Domingas, a mercearia da vila, onde você pode comprar água mineral de litro, fósforo e Cremogema. Mais 45 graus, ou seja, à direita, está o restaurante O Pescador, onde sempre tem gente. Ele fica numa esquina pontuda. À esquerda, está a rua da Dona Lelé, onde você provavelmente ficará hospedado. Depois tem a rua da igreja. E atrás de você uma rua meio escondida com alguns botecos e restaurantes. Em todo o lado esquerdo, é só areal e praia.

A rede na varanda do chalé na Dona Lelé. Ali na frente tem o portão e a rua

Onde ficar em Santo Antonio. Então, o esquema é ficar na Dona Lelé. Até há, por lá, casas para alugar. E há o camping. O duro é que não tem onde comprar muita coisa, então se ficar numa casa alugada, você vai ter de trazer bastante coisa na mala. A pousada da Dona Lelé é composta por chalés espalhados numa espécie de sítio. Há muitas galinhas, alguns coqueiros e uns quatro ou cinco chalés. Os chalés são bem bonitos. As paredes de fora são amarelas e as de dentro azuis, bem azul mesmo, aquele azul caiado. E os batentes das janelas e das portas são vermelhões. Então não importa de onde você estiver olhando para o chalé, sempre parece que você acabou de cair dentro de um quadro naïf (ainda mais se o galo branco estiver passando por ali na hora).

Olha bem, a parede de dentro é azul; o batente, vermelhão; a de fora, amarela

Logo que você acorda, a Luciane, que é filha da Dona Lelé, e portanto irmã de Sérgio e de Luciano, começa a preparar o café da manhã, servido numa espécie de quiosque-coreto no meio do terreno, com vista para o lugar em que as galinhas ficam. O café da manhã é mágico. Vem assim:

– uma jarra de suco feito na hora. No primeiro dia foi mangaba; no segundo, manga; no terceiro, goiaba; no quarto, mangaba. É quase um hai-kai.

Mangaba
Manga goiaba
Mangaba

– uma garrafa de café e uma de leite.
– um pão francês e dois pães de hambúrguer, sendo esse o melhor pão de hamburguer que eu já comi.
– ovo mexido, queijo e presunto
– duas variedades de fruta (mamão e melão em metade dos dias, mamão e melancia na outra)
– banana frita (com açúcar cristal e canela)
– banana cozida. Que delícia esse negócio. Eu nunca tinha comido isso.

Se você não estiver hospedado na Lelé, mas quiser tomar esse café da manhã maravilhoso, pode tentar pedir para ela. O café, avulso, custa R$ 16 para o casal.

O chalé é arrumadinho. Eu fiquei em um com cozinha. Tinha o quarto do casal, com a cama, TV, ventilador e mosquiteiro (muito útil). Um banheiro e a cozinha, com geladeira, fogão, três panelas e plim. A diária para esse chalé custa R$ 120 e inclui café da manhã, que inclui o sorrisão da Luciane, que é um docinho de pessoa.

Panela, panela, panela, plim, panela, plim

Comida. São três os restaurantes principais de Santo Antonio. O Do Pescador é ok. As moquecas em qualquer um deles variam de R$ 35/R$ 40 (peixe, mista; a de siri-catado é mais barata, se não me engano custa R$ 28) a R$ 80, no caso da de lagosta. O Maria Moqueca é simpático mas a comida não é boa, não. É pesada. Mas ali está a melhor ducha do vilarejo. Ela fica bem na entrada. Esqueça a vergonha e passe ali para uma boa chuveirada pós-praia. O Nativo, o terceiro restaurante, tem aparência tão antipática que a gente nem foi (se você for e a comida for boa, por favor me conte). Mas onde comemos melhor em Santo Antônio foi na Barraca do Sérgio, que fica na praia. Isso, o Sérgio, dono de um dos carros e filho da Dona Lelé. O duro é que não dá vontade de mandar uma moqueca sentado na praia, com o pé na areia… então ficamos nos petiscos (melhor aipim frito que eu já comi na vida) e caipirinha (bem boa, embora pequena).

Artesanato. As mulheres de Santo Antônio fazem lindas bolsas de palha. A maiorzona, mais bonita, que parece um cesto-bolsa, custa R$ 30. Elas tingem a palha com anilina e fazem uns trançados quetais. Para modelos mais, hum, criativos, vá n’O Pescador. Para modelos mais roots, veja a oferta da Dona Domingas.

Dinheiro. Isso faz que cheguemos num ponto: é evidente que não há caixa eletrônico por aqui. Então é bom separar bastante dinheiro. A cerveja custa R$ 4,50. As porções, a partir de R$ 15 (agulha, pititinga e outras delícias). A capirinha, R$ 8. A comida eu já disse lá em cima. A hospedagem também. Daí calcule mais ou menos quanto você costuma consumir e traga tudo.

Daí no mais não tem segredo não. É só praia e areal. Na praia, cuidado com as pedras. Na maré baixa dá pra ver todas elas, inclusive ficar ali bisbilhotando as poças de água cheias de siri e alevinos. Mas na maré alta pode ser que elas sumam e aí corre o risco de dar aquela topada com a pedra submersa. No areal, vá um dia à noite, estenda a canga e aproveite um pouco a vida em marcha lenta.

Vai à noitinha pro areal, estica a canga e fica lá vendo estrela

Na hora de ir embora. Você pode repetir o procedimento da vinda. Pegar o mototáxi até a pista, esperar passar a van da Linha Branca ou o ônibus da Linha Verde (ATENÇÃO: eles operam entre 5h e 19h) e pegar um táxi até o aeroporto. Ou, se estiver com preguiça ou quiser ir mais tarde, já sabe, procure Sérgio. Ele cobra R$ 150 (em abril/2011) para levar ao aeroporto de Salvador. Faça as contas. Se você estiver em dois, vai gastar R$ 30 de mototáxi, R$ 20 de van e R$ 20 de táxi. Dá R$ 70. Calcule seu orçamento e mande bala.

E pra falar com essa galera toda.
Dona Lelé: 0/xx/71/9951-6705
Luciano: 0/xx/71/9174-2093
O do Sérgio eu não sei. Mas ele é filho da Lelé e irmão do Luciano, então tá fácil, vai.

É isso aí

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