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Pelas ruas de Baltimore

 

A Ana, minha amiga, lançou uma pergunta ao vento (mentira, foi no Facebook): qual foi a experiência de viagem bate-volta mais louca que você viveu. Apesar de ser pra todo mundo e há semanas, resolvi responder.

Ana, tirando o fim de semana que passei em Guadalajara só para namorar (o cara mora nos EUA, eu no Brasil, onde a gente se encontra? Depende. Mas um ano atrás foi em um fim de semana chuvoso na cidade mexicana mais estranha que já visitei — conheço dez cidades no México. Não é pouca coisa), o bate-volta mais louco que fiz foi pra Baltimore.

Estava em Washington para escrever uma matéria sobre a Obamania. Obama tinha acabado de vencer a eleição que fez dele o primeiro presidente americano negro. Eram outros tempos.

Meu namorado da época foi comigo e ele queria ir a MICA, Maryland Institute College of Art, pra ver uma mulher fodona do design. Lá fomos nós de trem para Baltimore, onde ficava MICA, daqui pra frente tratada como a universidade.

Breve parêntese
Baltimore dá play em duas músicas no meu shuffle mental: o hino norte-americano, que foi criado lá, por um cara que tava num barco olhando pra bandeira depois de uma importante batalha da independência (1812, batalha de Baltimore, leia mais aqui no site do Smithsonian Museum), e Baltimore, country dos bons na voz do melhor de todos os tempos, Gram Parsons (curiosamente trilha sonora mental do fim do meu namoro com onamorado que estava comigo lá. Não a música Baltimore, mas o disco The Return of The Grevious Angel, com a Emilou Harrys, que disco! Presente do querido Fred Leal).

Dá play em Baltimore pra entrar no clima.

 

Chegando na universidade, o cara achou a sala, encontrou a fodona do design, se ajeitou e deu aquele adeus, se vira, vai lá fazer alguma coisa, até breve.

Eu já tinha um plano, claro. Eu sempre tenho um plano (cada um com sua nóia, a minha é sempre ter um plano na manga). Baltimore era conhecida por seus excelentes crab cakes com coleslaw. Naquela época, a gente usava o Zagat pra saber onde comer, qual era o melhor lugar, essas coisas. E o melhor crab cake segundo o Zagat era o do Fadley, no Lexington Market. Hoje, se você digita Baltimore crab cake market, o Tripadvisor diz: Os melhores – mas mais assustadores – crab cakes de Baltimore, sobre os crab cakes do Lexington Market. (Não clique agora, pra não ter spoiler. Mas depois, se duvidar de mim, pode clicar e vai ver que não foi viagem da minha cabeça.)

Naquela época não havia tanto medo (olha que frase ampla e cheia de sentido). E no Zagat só se falava sobre comida. Então sabendo apenas que aqueles eram supostamente os melhores crab cakes com coleslaw de Baltimore, decidi que a única coisa a ser feita em Baltimore era andar até Lexington Market pra comer crab cakes com coleslaw.

Outro breve parêntese
Tenho loucura por comida que não conheço. E tendo a me satisfazer com o nome, sem muita investigação, pra não estragar o primeiro encontro. É igual paquera nesses tempos de redes sociais – já vem muita informação de bandeja, tudo ali no about. Eu vejo muita graça na primeira conversa, no momento em que o cara conta, por exemplo, o que faz da vida. Quanto tempo demora pra chegar nesse assunto, como ele apresenta o assunto  e nunca vou me esquecer do momento em que meu atual namorado contou que é arqueólogo, do tipo que escava, como se nada fosse. Enfim. Eu não tinha ideia do que era crab cake (sabia que teria carne de caranguejo, mas só). Muito menos que coleslaw era uma saladinha besta de repolho com cenoura. Se soubesse, talvez essa história não estivesse aqui para ser contada, talvez tivesse ficado na biblioteca do campus da universidade lendo o livro que tinha comprado sobre como identificar as folhas das árvores norte-americanas (que aliás é incrível e está em excelentes mãos, com a Ligia, em Chicago).

Bom, saí do campus, abri o mapa, vi onde era o mercado e decidi que o jeito mais fácil de chegar era seguir um trilho de trem ou bonde, não lembro. Eu sabia que a margem de trilhos tendem a ser áreas degradadas e sabia que Baltimore era uma cidade violenta, mas dei uma olhada ao redor e achei que tava tudo bem.

Guardei o mapa, comecei a caminhada e acendi um cigarro (naquela época eu era fumante). Em meia tragada, estava cercada de gente pedindo cigarro. Sempre tive como regra número 1 que cigarro não se nega. Meu maço inteiro se foi ali mesmo, antes de dar tempo de soltar a fumaça. Sem problemas, a regra número 2 era sempre carregar um maço reserva.

Lá fui eu, andando pelas streets of Baltimore, achando tudo bem peculiar. Marcas de antigos cartazes nas paredes, sombras de antigos letreiros nos muros, rabiscos de antigas fachadas comerciais. Nada novo, nada presente, só um ou outro passante com cara de siderado.

Lá pelas tantas, vinha vindo um garoto na direção oposta. Ele parecia apavorado e surpreso ao mesmo tempo. Assim que cruzou comigo, me parou, colocou as mãos nos meus ombros e disse:

– O que você está fazendo aqui?

Na hora fiquei confusa. Pensei: te conheço? De verdade que parecia a atitude de um conhecido. Respondi:

– Estou indo pro mercado comer crab cakes, e você?

Ele ficou estupefato, me largou e foi embora apressado.

Foi só uma quadra depois que me deu um estalo e eu me liguei no  que estava acontecendo. Eu estava muito fora de lugar. E estava cercada de pessoas bem estranhas. Ainda faltava um chão para chegar ao mercado. E não era mais o caso de voltar.

Fiz cara de malandra, apertei o passo, botei as mãos no bolso e parei de achar poesia nas fachadas destruídas ao meu redor.

Foi uma caminhada nervosa, eu pensando o tempo inteiro no meu mantra de viajante intrépida: “não saí de São Paulo para ser assaltada em (nome de qualquer cidade aqui)”.

Quando cheguei ao mercado, estava sendo descaradamente seguida. Assim que entrei, os caras caíram fora e o segurança do mercado veio reto na minha direção.

– É sério que você veio caminhando?

– Sério, bicho. Sérião. Onde fica a barraca de crab cake?

Ele mostrou, fui lá, vi o crab cake com coleslaw, achei tudo com uma cara ótima e decidi que o meu namorado ia curtir o bolinho com salada. Então não comi, voltei para a universidade para pegar o gatinho e levá-lo até o mercado.

Claro que voltei a pé. Agora que sabia que a área era da pesada, estava ligeira e sabia como me virar. Cheguei lá, encontrei o cara e retomei o meu trajeto sentido mercado, dessa vez por outra rota, longe do trilho, num bairro claramente mais tranquilo (hoje pensando deve ser tipo a diferença de andar debaixo do Minhocão ou na Alameda Barros, em Santa Cecília).

Enquanto caminhávamos, ele foi contando dos projetos que tinham sido apresentados na aula que ele assistiu. O mais legal era sobre os arredores do hospital universi…

– Tário!! Vamos passar em frente jajá, é no caminho pro mercado!

– … A área mais violenta de Baltimore e provavelmente da costa leste dos Estados Unidos. O que? Vamos passar lá?

–  Aham, é na próxima quadra!

– Helo, eu tô com meu computador aqui! (Ele era meio assustado. Muito gente boa, brilhante, mas um pouco assustado.)

Continuamos a caminhada, de novo entramos no mercado sob muitos  olhares, de novo o segurança veio falar comigo.

– Sério  que vocês vieram caminhando? Garota, qual seu problema?

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Comemos o crab cake. Não era nada demais.  Nem lembro, na real. Esquecível. Já o coleslaw eu amei. Dez a zero comparado com a salada de repolho cru mal temperada que eu comia na infância (com todo respeito, mãe, mas tempero de salada nunca foi o forte lá em casa).

De lá apanhamos um táxi para a estação de trem, para voltar a Washington. Quando a gente chegou na estação, tinha uma revoada de passarinhos, tipo andorinha, uma ave bem pequena. O Dani sacou o celular, filmou os passarinhos fazendo aquelas manchas bonitas no céu e aquela ficou sendo a imagem, bucólica, da passagem dele por Baltimore.

Eu não tirei foto, sempre esqueço de tirar. Mas a minha memória dessa day-trip fica entre ter quase 20 cigarros levados de minha mão em segundos (muito gentilmente, thank you sista, god bless you, etc) e o menino bonitinho me chacoalhando pelos ombros perguntando o que estava fazendo ali. Os espaços de antigos cartazes também foram marcantes. E o coleslaw entrou na minha vida.

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PS. Quem clicou no link do TripAdvisor pode ter notado que trata-se de uma avaliação de 2009, um ano depois de minha visita a Baltimore. Basta ler o comentário pra ver que não exagerei, o lugar era perigoso mesmo. Talvez hoje tenha mudado, gentrificação, pá (entrei no Google Street View pra matar a saudade e achei que tá meio diferente).

PS2: As imagens do post são do Google Images, busquei o nome da rua, o nome do mercado. Estava cansada e esqueci de pegar os créditos. Se forem suas, me conta? The images in this post are from Google Images, i searched the name of the street and of the market to find them. I was tired and forgot to get the credits. If they belong to you, let me know and i’ll be happy to give the credits and link to your profile.

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Sempre pode ser gases (mas acho que não é)

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Prólogo
A última vez que contei alguma história aqui – lá se vão quase três meses – foi uma história bonita, mas meio superficial, embora, claro, eu tenha tentado extrair dela o suprassumo do que o momento pedia.

Se eu soubesse que hoje estaria lendo sobre o fechamento das fronteiras norte-americanas para cidadãos de sete países de maioria muçulmana, teria logo chutado a canela daquela véia louca e dado início à barbárie só para ser avant garde. Mentira, jamais faria isso. Mas eu tava otimista naquele dia. Hoje não dá pra estar.

Porém. However (Ráu-éver, eu tô aprendendo inglês, me deixa). Véi, porém… aconteceu tanta coisa de lá pra cá, que se eu pudesse escrever do jeito que Splash, Uma Sereia em Minha Vida faz pra ler, eu mandava ver e todo mundo que ainda insiste em acompanhar esse blog (<3 amo vcs) ficaria com os olhos marejadinhos comigo. (Pra quem não tem a referência, a Splash Uma Sereia Em Minha Vida coloca o braço no meio do livro e lê tudo de uma vez só.)

Vamos ao que interessa
Vou contar só uma, em nome da história desse Caracteres, sempre tão dedicado à escatologia, aos encantamentos e ao amor.

Vamos chamar os personagens de a mina (claro que sou eu) e o cara (óbvio, meu namorado). Contexto: o namoro tem 8 meses, mas somando todo o tempo que passamos juntos dá 25 dias. Menos de um mês. Namoro à distância, cada um num canto do mundo, deu pra sacar, né, blz.

A mina e o cara vão ficar juntos por uma semana. Ela foi pra casa dele, numa cidade remota no inverno setentrional. No segundo dia, eles decidem caminhar au bord de la riviére, ir a um dive bar e encher a cara. Na volta pra casa, bem bêbados, ela peida. Inverno setentrional. "Ela peida" o caralho…, peidei. O peido fica preso no casaco, e sai meio pelo pescoço e o cara exclama:

– Que fedô!
– Deve ser o rio (malandra, repertório Tietê)
– Estranho, o rio nunca fedeu (sim, estamos a mais de 8 mil km de SP)
– É estranho, mas, voltando, o alfabeto frígio afinal deriva do grego?

Assunto encerrado. Corta. Dois dias depois é noite de Réveillon. Eles estão em outro dive bar, que ele chama de neighbourhood pub (aqip, eu posso explicar as categorias em pvt, só mandar inbox). Óbvio, é Réveillon, e a ideia é ficar bêbado. Eis que… bate um… fedô.

– Que fedô! (mas desta vez é a mina, eu, que reclama)
– Nossa, verdade, terrível. A gente sentou perto do banheiro
– Verdade, que cagada. (Risos.)
– Cagada, mas, voltando, o alfabeto frígio é contemporâneo ao grego.

Corta. Cinco dias depois. Hora de despedir. No carro a caminho do aeroporto, ele diz.

– Preciso contar um segredo.
– Hm?
– Lembra no Réveillon, que a gente sentiu um cheiro de merda porque tava perto do banheiro?
– Lembro.
– Eu peidei.

Ah, meu, mano, véi. Eu, euzinha, autora dos manifestos mais escatológicos, do MLP, da Solitária Pride. Eu, ali, ouvindo, derreti.

– Jura? Wow (uau). Lembra aquele dia que a gente tava andando na beira do rio e veio um cheiro de merda?
– Lembro.
– Eu peidei.

Risos.

Eu sei que não é sexy. Mas ainda bem, porque mesmo se fosse, não ia dar pra dar vazão ao tesão (a sequência dos acontecimentos foi: uber, aeroporto, vôos para distintas partes do continente, mensagens de celular). Mas, vai, se isso não é amor de vdd, eu não sei o que é. Quer dizer, sempre pode ser gases.

Aquela dor no peito, é verdade, ela sempre pode ser gases.

Mas, ai, acho que não é.

Tomara.

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A imagem que ilustra o post, veja que belissima escolha, ela mescla a ideia de inverno setentrional à de peido rosa de amor, é da fotógrafa Maria Lax e está à venda aqui.

A incrível Vanderlândia

Ainda em Jericoacoara, tem um restaurante bem normal chamado Tranquilo onde trabalha a garçonete nada normal chamada Vanderlândia. Se há um bar favorito e um restaurante favorito, Vande é minha pessoa favorita de Jeri. Eu poderia contar toda a história, construir a personagem e então chegar ao ápice. Mas o ápice é tão lindo que vou contar só ele.

Foi assim:

Na mesa ao lado, Vanderlândia atendia dois italianos (cheeseburgers e Coca-Cola) quando, do nada, do nada mesmo, suspirou e disse:

– Ai, que lindo.

Os caras olharam com cara de ‘cosa?’. E ela repetiu com um sorrisão:

– Che bello!

E os caras com cara de ‘cosa?’.

Ela virou pra mim, suspirou e mostrou as mãos dizendo:

– Não posso com guardanapo novo. Eles são tão lindos.

Ela estava segurando metade de um pacote de guardanapo de papel, para colocar na mesa dos italianos lambuzados de maionese do cheseburger com Coca-Cola.

Talvez olhos hiperexpostos à beleza óbvia do mar e das dunas sejam mais afiados para as singelezas

Jeri-coacoa-quá-quá-quá-rá-rá-rá-rá

Já botei cerveja no congeladoooor...

Muita areia, muito vento e muita música ao vivo. A dupla areia+vento é defeito/qualidade. Enche o saco, chicoteia a batata da perna quando você tá andando na praia, chicoteia suas costas quando você senta na praia e chicoteia sua cara quando você tenta ler na praia. Por outro lado, ela enche os olhos (no sentido poético, embora no literal também aconteça) quando tá toda empilhada formando dunas ou quando escorre feito líquido pela encosta da duna ou quando faz você ter certeza que a duna é de nuvem porque a areia tá ali voando e parece que a duna não tem um limite exato de onde ela termina e começa o céu, bem nuvem mesmo. Daí ela chicoteia sua canela, porque, afinal, enquanto você brisa na duna/nuvem, vento/areia castigam sua batata.

Já a música ao vivo é só defeito mesmo. Ela enche o saco e ponto. No primeiro dia é até engraçadinho ouvir o Black Power, um músico com apelido autoexplicativo, cantando “Burguesinha”, “Mangueira” e todas as outras músicas do Seu Jorge intercaladas a discursos para “passar uma mensagem”. Mas aí você sai do bar e vai pro outro e ele tá lá. E no outro também. E assim por diante. O Black Power que canta Seu Jorge é a prova daquele ditado que diz que caiçara brota da areia. Como aqui, como já dito, tem muita areia, ele brota umas cinco vezes ao mesmo tempo em bares diferentes.

Pior ainda é quando não é ele e você fica com saudade dele, porque sempre pode ser pior e o cara pode tocar mal e cantar sofrivelmente. E quando você percebe que está lamentando que a música ao vivo não é com Black Power descobre que o problema é a onipresença absoluta da música ao vivo. Daí só resta lamentar que em dez dias em Jeri é difícil lembrar de ter ouvido o barulho do vento.

E esse é o único verdadeiro defeito do lugar — embora eu pudesse gastar algumas linhas reclamando de algumas outras coisas, mas seria ranzinzice. O resto é só beleza, boa comida e bom humor.

Dadas as impressões gerais, algumas pontuais, caso você algum queira ir para lá sabendo quais foram as minhas preferências.

Os bares da praia são bem diferentes entre si. O See Sea Jeri é legalzinho, tem mesas octógonais e é bem posicionado. Drinks e porções nada demais. O cardápio em italiano oferecendo uma “caipitália”, feita com grappa, dá a entender que o dono é italiano. O Bar do Alexandre é um terror. Fuja. É bem lá que você corre o risco de sentir saudade do Black Power. Aliás, se sentir saudade do Black Power é só ir ao See Sea, que um deles toca lá o tempo inteiro.

O bar da pousada Capitão Thomaz tem um ar de “o capitão Thomaz saiu pro almoço e os marujos tomaram conta de tudo”. Os garçons fazem o que querem, ouvem o que querem, fecham o bar no auge do movimento e outras anarquias quetais. A boa é que os caras têm bom gosto musical. Ali você corre o risco de passar a tarde ouvindo Beatles.

O melhor bar da praia é Beco do Caranguejo, o QG da resistência. É o único que cobre as mesas com toalhas coloridas feitas pelas crocheteiras de Jeri. Nessas poucas mesas não há concessões para a padronização turística. Nada de som genérico pra agradar gringo, nada de ampliar as instalações, nem música ao vivo ele tem. No Beco do Caranguejo tudo é tudo bem e os garçons explicam, com orgulho, que a goma de mandioca usada pra fazer tapioca ali é comprada de uma senhorinha que faz em casa, ‘Porque essas de mercado não prestam’. Na verdade, esse bar talvez não tenha nada demais, é apenas um boteco simpático. Mas como ele está cercado por outros, que são todos meio nada, acaba ficando bem especial.

Mesa do Beco

Agora, o melhor bar de Jeri, o melhor dos melhores, o mais incrível e maravilhoso (e para entender essa definição, sugiro a leitura do post logo abaixo), é o bar do Chagas. Eu não vou nem tentar explicar como ele é, porque minhas habilidades narrativas e descritivas não bastam. Detalhe importante: ele fica longe da praia, não tem porções e quase sempre é preciso chamar umas cinco vezes pelo Chagas para ele apareça. Mas uma vez que ele aparece, seja bem-vindo a Jeri.

Há muitos restaurantes em Jeri e em todos a que fui a comida era pelo menos honesta. Meus dois favoritos foram esses:

O Pimenta Verde é, considerados os aspectos técnicos, o melhor restaurante da vila. A comida é excelente. Para entender a graça do restaurante, peça o filé matuto. Um prato bem simples, bem típico e executado com capricho comovente. A apresentação é de restaurante chique e o preço é justo (algo em torno de R$ 20 para um prato mais do que bem servido). Só não é meu favorito por uma questão de coerência (quem elege o bar do Chagas como o melhor de Jeri não pode decidir que o Pimenta Verde é o melhor restaurante, simplesmente porque existe a Peixaria Brasil).

E quanto à Peixaria Brasil… que lugar inacreditável essa casa verde, de esquina, com as paredes pintadas com uma imagem de um pescador segurando um peixão e as instruções: escolha seu peixe, polvo ou lagosta e espere ele ser assado na churrasqueira montada na calçada. O acompanhamentos são ‘deliciosa comida caseira’.

Todos os atendentes são da mesma família, o clã do seu Guaxelo, o pescador representado na pintura da parede. O Guaxelo é um senhor barrigudo de bermuda de náilon branca e aquela cara entre safada e perdida que eu acho que ensinam para os pescadores na escola de pescadores. “Aula 1: Técnicas de olhar para cima e para o lado e ainda assim ver o que acontece à sua frente”.

O serviço é péssimo, a casa não aceita cartão e vive lotada. Há duas explicações possíveis, e provavelmente a resposta é ambas. 1. A comida é maravilhosa. 2. É restaurante-sitcom.

Os quinze, ou onze, não lembro, filhos do Guaxelo atendem e desatendem e se atrapalham e brigam entre si e bufam com a mãe e tomam bronca do pai (bronca de pescador, “Aula 2: Como dar bronca usando apenas os olhos e sem deixar de ver o que acontece à sua frente”).

Se você não tomar as rédeas da situação, não vai jantar. O primeiro passo é achar uma mesa, muitas são compartilhadas e você pode pedir licença e sentar com estranhos. Depois, é preciso laçar um garçom e pedir uma cerveja. Aí, levante-se e vá até a peixaria, que é encostada ali do lado, e escolha seu peixe. Eu queria polvo. O cara disse: “O polvo é de ontem… não tá fresco, pega o peixe que é de hoje e ainda não foi congelado”. Escolhido o peixe, ele é pesado e vai pra grelha. Daí é só laçar o garçom de novo e pedir mais uma cerveja e os acompanhamentos (salada, purê de mandioca, mandioca frita, farofa, o que você quiser). O quilo do peixe custa R$ 30. Pra dois, basta. Cada acompanhamento custa entre R$ 6 e R$ 8 na versão média. E basta um, dois se a fome for grande. Daí é só esperar o peixe chegar (a fila da churrasqueira costuma ser grande, assim como a espera) e se divertir com as trapalhadas da Família Guaxelo.

Aproveitando o tema Guaxelo, eu tive uma incrível interação com ele alguns dias depois do jantar, quando fui lá comprar cigarros (a casa fica aberta durante o dia como mercearia e é dos poucos lugares que vendem Marlboro). Entrei e me dirigi ao balcão (eu já tinha comprado cigarro ali antes, da senhora Guaxelo, um docinho, que parou de cortar a macaxeira do jantar para me atender e explicar que, sim, o cigarro tinha sobretaxa porque ela comprava lá em cima e vendia cá embaixo). O Guaxelo me viu entrando e entrou também.

Eu disse: eu quero um Marlboro.
Ele disse:
– Pegue lá o Marlboro pra menina.

Só que nenhum de seus muitos filhos estava ali. Na verdade, só estávamos eu e ele. Então eu mesma peguei o cigarro, que ficava em cima do balcão. Dei o dinheiro (R$ 10, o cigarro custava R$ 6). E ele disse:

– Pegue lá o troco da menina.

Mas, como já dito, nenhum de seus muitos filhos estava ali. Ficamos os dois em silêncio, porque eu não podia simplesmente abrir a gaveta de dinheiro do cara e tirar meu troco de lá. Silêncio. Ele olhando pro alto e pro lado com minha nota na mão.

Silêncio.

Não apareceu ninguém. Então ele foi para trás do balcão e começou a pegar o troco. E disse:

– Pegue lá R$ 2 pro troco da menina.

Eu já não conseguia mais conter o quase-riso. Ele notou. Sorriu e ficou com cara de criança pega na traquinagem.

Deu uma nota de R$ 5 e disse: depois, se passar aqui, você me dá R$ 1. Saí do lugar e pedi R$ 1 pro Rafa, voltei e entreguei pra ele, que ainda estava olhando para cima e para o lado diante da gaveta de troco aberta.
Eu disse:

– Aí.

E trocamos sorrisões.

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Submersa na cerveja

Essa obviamente não sou eu, mas tá tudo aí. A banheira, a cerveja, a torneira e o chope servido durante o banho

Foi uma experiência espumante. Eu hesitei, por não estar com a depilação em dia. Mas consegui dobrar meus pudores e mergulhar nesse passeio singular. Na viagem que fiz à República Tcheca, uma das paradas foi no bucólico vilarejo de Chodova Plana. Eu fiquei hospedada no Hotel Spa U Sladka. E lá a especialidade é banho de cerveja.

Eu cheguei ao espaço do spa, recebi um lençol branco e fui conduzida ao trocador. Tirei a roupa, me embrulhei no lençol e fui guiada uma banheira metálica cheia de cerveja meio escura. Meu primeiro temor foi ficar com cheiro de Quarta-Feira de Cinzas, aquele odor de cerveja amanhecida. Mas o cheiro não passava nem perto de nada azedo, era meio adocicado até.

O cenário tinha um quê hospitalar, com cortinas separando os ‘leitos’. Entre três cortinas (o outro lado era a parede) havia a banheira metálica com chopeira no lugar da torneira e um banco com um canecão de chope gelado. Me desenrolei do lençol e entrei na banheira de cerveja morna. A espuma da cerveja parece quando você é criança e coloca xampu na banheira pra fazer espuma. Ela dá umas estaladinhas. O banho dura vinte minutos. E quando dá dez minutos a mulher entra ali e troca o chope por um novinho em folha. Cada um tem 500 ml.

Eu nunca vi muita graça em banho de banheira (depois de cinco minutos já fico meio entediada, meio com sono, meio molenga demais). E no caso esse era um banho de banheira com cerveja. Então não há muito pra contar além disso. A parte mais emocinante foi quando, lá pelas tantas, decidi submergir na cerveja pra ver qual é. Foi uma ideia estranha, porque entrou cerveja no meu nariz e escorreu pela garganta de maneira que senti o gosto da cerveja morna lá no fundo da boca.

Era uma cerveja bem diferente mesmo, um pouco doce e menos gasosa. Depois me explicaram que usam uma cerveja só um tiquinho fermentada para o banho. Não é a cerveja feita até o fim. Por isso que não é tão ácida, por isso eu não morri quando aspirei o líquido sem querer pelo nariz (deve arder muito aspirar cerveja de verdade).

Depois de 20 minutos marinando na semi-cerveja, entrou uma mulher bem gradona ali, pegou meu lençol, fez sinal para que eu levantasse e me embrulhou no pano. Deu até uma saudadinha de quando a minha mãe me tirava do banho e me embrulhava na toalha.

Dali, fui direto para o chuveiro, porque meu cabelo ficou um tanto quanto grudento depois do mergulho no chope. Agora, eu tenho notado que ele, meu cabelo, está num momento bom, volumoso, formando uns cachos enfáticos. Pode ser efeito da cevada.

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Comida de peixe

O cenário é Praga. Nove da noite, estamos na rua eu e meu amigo de viagem Henri, o holandês bebedor, procurando um pub, o U Pinkasů. Perdidos, paramos uma menina pra pedir informação. Ela não sabe onde é o bar, mas é tão simpática e solícita que liga pra alguém que dá as instruções. Então ela diz:

– Vocês devem descer essa rua aqui. Vocês vão passar em frente ao lugar que faz “fish massage”, depois uma loja de maquiagem, daí tem um túnel. Entra no túnel e o bar está à esquerda. Eu estou indo nessa direção, venham comigo.

Descemos a rua com ela. Ela diz que é búlgara, se chama Anni, ouviu dizer que a presidente do Brasil tem ascendência búlgara e me diz que o nome Rousseff é búlgaro. Repete as instruções. Desce, “fish massage”, loja de maquiagem, túnel.

Desce, “fish massage”, loja de maquiagem, túnel.

Ela se despede porque agora vai em outro sentido. E assim que ela sai de perto eu digo a Henri:

– Podemos concluir que t em búlgaro tem som de sh. É feet massage (nos pés) e não fish (peixe).

Ele assentiu e comentou: é que nem no Brasil, quando vocês falam “leitche”. Então eu começo a fazer piada. Imagina um peixinho, cansado depois da piracema, parando no “fish massage” e dizendo: “minha nadadeira dorsal está me matando”, “estou com as nadadeiras muito tensas”. Rio alto. Henri começa a rir também. E repete minha piada em inglês com sotaque holandês:

– Oh, my dorsal fin is killing me today.

A gente continuou descendo e de longe eu avistei a loja de maquiagem. Olhei para o lado… E não é que era fish massage mesmo.

No dia seguinte, eu contei essa história pro Holger, um alemão com humor inglês, e ele disse: mas que ótima ideia, vocês podiam fazer isso no Brasil com piranhas

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Um abraço em São Luiz do Paraitinga

Uma parede de cada vez

Eu acho graça como a gente guarda e guarda o dinheiro para viajar pra longe e de vez em quando esquece de conhecer umas coisas aqui pertinho. Neste ano eu decidi dar uma colher de chá pra esse chão (num misto de resgate de gostos pessoais que estava meio de lado e medida de restrição orçamentária).

Minhas férias quero passar em Minas. Já nem lembro com quem estava conversando, mas a pessoa mandou a seguinte frase, que eu adotei: ir a Minas como se vai à França (dando trela pra cada cidadezinha que produz isso ou aquilo). Voilà. Estou bem Mário-Quintana-provinciano-é-sair-da-Província e abracei o caipirismo, já que ele de fato nunca saiu de mim. E esse longo trololó é para tentar convencer você a fazer como eu. E, mais especificamente, a fazer como eu fiz esses dias e ir visitar São Luiz do Paraitinga.

Eu estive lá na minha folga recente. E senti uma certa urgência.

Vulto da igreja protege as obras de reconstrução

A cidade está se reerguendo com rapidez. Não é a mesma coisa que era antes da chuva forte que a derrubou. Eu não conheci São Luiz antes da enchente. Então só imagino, imagino como era a praça principal antes de a igreja matriz ir abaixo. Imagino como era o cenário antes de todas as casas de uma das laterais da praça ruírem. Onde hoje estão escombros e tapumes. Mas não é desolador. Pelo contrário. É animador. Há um vulto da igreja (a cobertura das obras de reconstrução reproduz a silhueta da matriz, que boa ideia, porque daí ninguém esquece dela). E você pode ver pelo alambrado as coisas sendo feitas, o que sobrou sendo cuidado, separado, e o resto sendo reconstruído. E os tapumes que cobrem as casas em reconstrução ou recuperação têm a pomba da festa do Divino desenhado. Nada de tapume marrom mal-cuidado, não. É tudo vermelho e branco, com a pombinha de enfeite. Ou seja, sim, é uma cidade em reconstrução, mas sim, ainda assim, é uma cidade linda, ainda cheia de coisas legais pra fazer.

Quem deu o tom de urgência na conversa foi a Sandra, da pousada rural dos Curiangos, onde fiquei e recomendo.

Chalé na beira do rio

Primeiro, a recomendação: a pousada dos Curiangos fica na roça, mas é perto da cidade. São vários chalés na beira do rio, num sítio todo lindo e bem cuidado. A diária custa R$ 80 por chalé (cabem 4 pessoas, mas o ideal é 2 mesmo). As casinhas têm lareira, frigobar e fogãozinho. Não tem café da manhã (eles pararam de servir depois da enchente). Mas tem, na porta do sítio, dois lindos Sacis. Daí quando você entra, eu recomendo pedir licença dizendo em voz alta quando passar. Licença, Saci.

(Para quem for no fim de semana, outra dica é a pousada Trilha das Sete Cachoeiras, que fica pro lado de Catuçaba e tem passeio por cachoeiras. Como eu fui dia de semana, quando eles estão fechados, não deu pra conhecer. Mas jajá eu volto lá e conto melhor como é.)

Voltando à Sandra dos Curiangos, ela que deu o tom de urgência. Eu perguntei pra ela porque eles pararam de servir café da manhã e ela disse assim:

– Depois da enchente, todo mundo sumiu. E a gente teve que repensar tudo. Precisamos reconstruir a cidade. Tivemos de reconstruir a pousada. A diária era R$ 160 e incluía café, um café farto, com coisas artesanais. Resolvemos cortar o preço pela metade, para as pessoas voltarem. E cortamos o café. A cidade inteira está assim. Todo comerciante está gastando para reconstruir, a gente tá gastando muito. Mais do que está recebendo.

Olha que lindo esse saci-chocalho feito de cabacinha!

Daí eu fiquei pensando. Por que a cidade merece ser visitada? Porque é uma cidade histórica bonita, porque tem uma cultura regional particular e cuidadosamente preservada, cheia de músicas e sacis, porque a comida é boa (que delícia o afogado, um cozido de carne com bastante caldo pra misturar com a farinha e fazer um angu no prato), porque a região é linda e cheia de trilhas e cachoeiras e passeios, porque você vai no mercado e sai de lá cheio de farinhas de milho que não vendem no supermercado daqui. E porque também é responsabilidade sua ajudar a reconstruí-la.

São Luiz do Paraintinga é patrimônio nacional, portanto é patrimônio meu, seu, da Sandra e dos Curiangos. E está aqui pertinho. A responsabilidade de cuidar da cidade não é só dos moradores de lá, nem é só do governo ou só do Iphan. É de todo mundo. Porque se tudo desaparece de vez de lá, a gente fica em casa fazendo as mesmas coisas de sempre e resmungando “é um verdadeiro absurdo que o Brasil não cuide de suas cidades históricas, um absurdo! Veja só São Luiz do Paraitinga…”. Pois é, veja só, se a gente for pra lá fazer umas coisas diferentes, tipo uma caminhada na roça e um passeio no centro histórico, as pousadas ganham dinheiro, os restaurantes ganham dinheiro, a gente fica feliz porque passeou e eles ficam felizes porque a gente voltou pra lá. E o nosso patrimônio fica preservado de verdade, sem virar cidade-cenário ou, o horror, sem sucumbir à condição de ruína.

Faça as contas comigo. Duas noites (R$ 160), você pode levar o café da manhã ou comprar no mercado (eu comprei uma caneca de ágata, um coador de pano e 250 g de café Pindense. Pra comer, sortuda que só vendo, eu tinha na bagagem umas broinhas assadas na folha de bananeira feitas pela Ana, mãe do Rafa). Uns R$ 50 por refeição (pra 2, comendo um montão e tomando cerveja, cachaça, suco, água. Eu, inclusive, fiz uma refeição por dia, que a comida é tanta que nem dava vontade de comer mais de noite). Dá R$ 260 para os básicos. Um tanque de gasolina, uns R$ 90, e os pedágios, que deve dar uns R$ 20 ida-e-volta. Deu uns R$ 370. Põe mais R$ 30 pra tomar um cafezinho, comprar um saci e trazer umas delícias. Deu R$ 400, R$ 200 por pessoa. Não é muito mais do que você gasta ficando em São Paulo (só um cinema+bar e um restaurante já estouram essa cota).

Quer mais um motivo? Começa amanhã e vai até dia 21 a festa do padroeiro, São Luiz de Tolosa. Depois, em setembro, tem a semana da Canção Brasileira. Em outubro tem a festa do Saci. Depois tem o Carnaval. E a festa do Divino em junho do ano que vem. Aqui tem o calendário completo.

Vai lá dar um abraço na cidade.

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