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Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

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Comer, beber, viver

(A troca de correspondências continua. Embora eu esteja lenta pra xuxu. A Belle respondeu minha carta há tipo uma semana, desculpem a demora)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:

Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez ”Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

Control X, Control V

Desde ontem, eu mudei de cadeira. Dá pra dizer também que eu mudei de emprego. Depende da ênfase. Eu mudei de editoria, mas acho essa descrição técnica demais. Mudei de equipe, mudei de ares. Mudou bastante coisa. E minha cabeça tá um frevo.

Sexta-feira foi meu último dia no Link. E ontem foi meu primeiro dia no Paladar. E pra cada uma dessas frases há uma fileira enorme de coisas. Vou começar pelo que começa. Meu começo no Paladar.

Desde que o Paladar começou eu comecei a querer trabalhar lá. Eu saía da terapia, que era às quintas, passava na banca, comprava o Estadão e ia pra padaria tomar café da manhã e ler o Paladar. Tem uma jequice em pagar pau assim para um suplemento semanal de jornal, ainda mais quando você é jornalista e esse suplemento semanal é feito na sua cidade e você mais ou menos conhece as pessoas que fazem. Mas caguei pra jequice. E assumo que sempre paguei pau.

Então no primeiro dia (que na verdade não foi ontem, porque teve um primeiro dia antes do primeiro dia, mas eu não vou explicar que é pra não ficar confuso), quando eu li a coluna do Dias Lopes (aliás, hoje é aniversário dele, parabéns, Dias Lopes, muitas felicidades para você), eu fiquei tocada. Porque sempre li ela impressa, ‘fechada’, e um texto aberto, estourando, com viúvas, é mais, digamos, íntimo.

E quando a segunda coisa que eu fiz foi pegar um texto da Neide Rigo, que conheci há menos tempo mas que impactou radicalmente coisas tão importantes da minha vida como meus cafés da manhã (aprendi a fazer tapioca lendo o blog dela, o meu kefir veio da casa dela pelas mãos da Jana, e todos os dias de manhã eu como tapioca e tomo lassi feito com o kefir), eu assustei.

Porque o texto era gigante e a retranca não, e o texto falava de umbu, Uauá, bode, refrigério, caatinga, vinagre de umbu, almoço para o ministro e coisa e tal e tal e coisa e corta e corta e corta e corta. E doeu cortar. Mas acho que deu tudo certo. E quem quiser ler o texto inteiro (recomendo muito), a íntegra está no blog dela. (Falando em íntegras, a Belle, minha pen-pal também publicou a íntegra do perfil que fez sobre o Grant Achatz para o Comida no blog dela. Outra leitura que vale a pena).

Bom, são muitas coisas, que ainda estão sendo processadas, enquanto outras tantas vão entrando na fila de coisas e assuntos que eu vou aprendendo a cada conversa.

E isso sem falar de sair do Link… O Link, pouca gente sabe, é uma espécie experimento utópico operante. Quase tudo o que eu achava que a prática do jornalismo deveria ter mais, tem ali. E eu não vou nem tentar explicar, porque é difícil. Mas, em suma, a equipe do Link (e isso engloba as pessoas que já saíram e foram para outro lugares) trabalha de um jeito especial. E, de um ângulo mais pessoal, o Link me devolveu a vontade de fazer jornalismo, que vinha enfraquecendo, enfraquecendo, enfraquecendo…

Eu queria conseguir escrever um comentário sobre cada uma das pessoas de lá, pra deixar registrado esse momento para a posteridade. Mas eu não achei um tom que não fosse piegas. Então vou esperar um pouco para ver se a coisa, mais processada, ganha uma forma melhor.

 

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A revolução da salsinha

(A troca de correspondências continua. Hoje eu respondo a carta da Belle)

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Minha vontade é que mude tudo! Mudança é das minhas coisas favoritas. Gosto até de mudar de casa. Encaixota, fitacrepa, etiqueta. Carrega. Desencaixota, desetiqueta. E tudo que era meio velho fica meio novo. Aqueles móveis cansados ficam atordoados. A cômoda incomodada. É como aqueles suvenires de lugar com neve, que você chacoalha e a neve sobe toda e fica flutuando. Acho lindo.

Mas eu não quero mudar de casa que estou bem aqui. Queria, sim, que você mudasse, de volta aqui pra sua casa do lado da minha. Isso sim! Mas beleza, esse período em Chicago vai ser bom pra você, vai ser bom pro Chico, e, por consequência, pra mim, que estou certa de que você vai ficar muito amiga do Rahm Emanuel. Daí ele vem te visitar e você me chama pra tomar umas no baiano com ele. Aliás, faz isso com o Achatz também? (Aliás aliás, esse perfil que você fez para o Comida hoje parece amuse bouche: dá vontade de muito mais. Aposto que você deve estar aí se contorcendo com a dor de ser jornalista e escrever um texto enorme que precisou se encaixar num espaço que não era nem a metade do tamanho… eu passei por isso recentemente, fazia tempo que não acontecia. Adoro, com cada veia e artéria, o jornal impresso, dedo manchado, braço aberto pra virar a página. Mas bem que podia ter um ‘carregar mais parágrafos’ clicável no fim de cada retranca. Aliás aliás aliás, estou bem digressiva, esses dias ouvi uma história incrível. Vou contar e já volto pras mudanças)

Eu estava conversando com um mineiro das baixelas e ele me contou que na casa dele, todas as manhãs, o jornal era passado. Na tábua de passar roupa, com ferro quente. “Sem vapor, claro”. Havia um ferro específico para o jornal. A empregada abria a edição em cima da tábua e passava página por página. Disse ele que, com isso, o jornal não solta tinta e os dedos continuam limpos depois da leitura. Eu estou para experimentar. Deve ficar lindo o jornal todo lisinho.

Então voltando à mudança. Eu queria muitas. Mas queria muito uma:

Eu queria que todo mundo prestasse atenção ao que come. Que quando as pessoas abrissem o pote de iogurte de manhã, se perguntassem como ele foi feito. Como o leite virou iogurte. Como o leite saiu da teta da vaca? Como vive a vaca?

Comer está na moda, todo mundo vai aos restaurantes do momento, todo mundo sabe de vinhos tais e quetais. Mas e o pão nosso de cada dia?

Num segundo momento, queria que todo mundo de repente pegasse pra si alguns desses processos. Pão? Mistura a farinha com água, coloca o fermento, escolhe suas castanhas favoritas, vê o bichinho crescer, assar, dourar, queimar. Aprende o pão. É o iogurte? Descola um fermento e bastam 10 minutos por dia para ter iogurte fresquinho feito em casa diariamente. E aí você escolhe qual leite usar. E vê como tudo muda se o dia tá quente, se tá frio, se o leite é bom, se o leite é médio. E que se você coar, vira coalhada. Se coar muito e apertar, vira queijinho.

Aí, viria a revolução: todas as pessoas iam querer cultivar suas próprias cebolas, seu próprios chuchus. E iam arrumar cantinhos pela cidade para fazer hortas. No topo do prédio, no canto da varanda, no canteiro do condomínio. No teto da loja da frente, que fica ali só refletindo o calor do sol. E a cidade seria tomada por hortas. E se a minha horta desse muita beterraba e a sua estiver bombando de couve, a gente troca! Eu dou umas beterrabas pra você, que me dá uns pés de couve. E a gente se conhece e conhece aquele outro vizinho que deu de cobrir a fachada do prédio com lindos pés de maracujá!

Ok, talvez minha utopia roceira não aconteça e São Paulo não se transforme numa enorme fazenda… Mas essa minha sugestão é só um meio para um fim, para a mudança que eu quero e venho tentando fazer na minha vida: parar de consumir sem pensar. E não estou falando de bolsa cara, sapato de grife.

Estou falando de você ir ao supermercado e ter: frango.

Como assim frango? Queria que o consumidor do meu bairro, da minha cidade e, no limite, do Brasil, ficasse cricri e se perguntasse: como assim frango? Eu quero frango criado livre, quero frango caipira. Galinho carijó, galinha d’Angola. Pato, ganso, codorna.

É isso. E você tava achando que tava hippie demais porque queria um pouco mais de paz…

Beijo, que agora eu vou lá vestir meu poncho e tocar flauta de pan.

 

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Jeri-coacoa-quá-quá-quá-rá-rá-rá-rá

Já botei cerveja no congeladoooor...

Muita areia, muito vento e muita música ao vivo. A dupla areia+vento é defeito/qualidade. Enche o saco, chicoteia a batata da perna quando você tá andando na praia, chicoteia suas costas quando você senta na praia e chicoteia sua cara quando você tenta ler na praia. Por outro lado, ela enche os olhos (no sentido poético, embora no literal também aconteça) quando tá toda empilhada formando dunas ou quando escorre feito líquido pela encosta da duna ou quando faz você ter certeza que a duna é de nuvem porque a areia tá ali voando e parece que a duna não tem um limite exato de onde ela termina e começa o céu, bem nuvem mesmo. Daí ela chicoteia sua canela, porque, afinal, enquanto você brisa na duna/nuvem, vento/areia castigam sua batata.

Já a música ao vivo é só defeito mesmo. Ela enche o saco e ponto. No primeiro dia é até engraçadinho ouvir o Black Power, um músico com apelido autoexplicativo, cantando “Burguesinha”, “Mangueira” e todas as outras músicas do Seu Jorge intercaladas a discursos para “passar uma mensagem”. Mas aí você sai do bar e vai pro outro e ele tá lá. E no outro também. E assim por diante. O Black Power que canta Seu Jorge é a prova daquele ditado que diz que caiçara brota da areia. Como aqui, como já dito, tem muita areia, ele brota umas cinco vezes ao mesmo tempo em bares diferentes.

Pior ainda é quando não é ele e você fica com saudade dele, porque sempre pode ser pior e o cara pode tocar mal e cantar sofrivelmente. E quando você percebe que está lamentando que a música ao vivo não é com Black Power descobre que o problema é a onipresença absoluta da música ao vivo. Daí só resta lamentar que em dez dias em Jeri é difícil lembrar de ter ouvido o barulho do vento.

E esse é o único verdadeiro defeito do lugar — embora eu pudesse gastar algumas linhas reclamando de algumas outras coisas, mas seria ranzinzice. O resto é só beleza, boa comida e bom humor.

Dadas as impressões gerais, algumas pontuais, caso você algum queira ir para lá sabendo quais foram as minhas preferências.

Os bares da praia são bem diferentes entre si. O See Sea Jeri é legalzinho, tem mesas octógonais e é bem posicionado. Drinks e porções nada demais. O cardápio em italiano oferecendo uma “caipitália”, feita com grappa, dá a entender que o dono é italiano. O Bar do Alexandre é um terror. Fuja. É bem lá que você corre o risco de sentir saudade do Black Power. Aliás, se sentir saudade do Black Power é só ir ao See Sea, que um deles toca lá o tempo inteiro.

O bar da pousada Capitão Thomaz tem um ar de “o capitão Thomaz saiu pro almoço e os marujos tomaram conta de tudo”. Os garçons fazem o que querem, ouvem o que querem, fecham o bar no auge do movimento e outras anarquias quetais. A boa é que os caras têm bom gosto musical. Ali você corre o risco de passar a tarde ouvindo Beatles.

O melhor bar da praia é Beco do Caranguejo, o QG da resistência. É o único que cobre as mesas com toalhas coloridas feitas pelas crocheteiras de Jeri. Nessas poucas mesas não há concessões para a padronização turística. Nada de som genérico pra agradar gringo, nada de ampliar as instalações, nem música ao vivo ele tem. No Beco do Caranguejo tudo é tudo bem e os garçons explicam, com orgulho, que a goma de mandioca usada pra fazer tapioca ali é comprada de uma senhorinha que faz em casa, ‘Porque essas de mercado não prestam’. Na verdade, esse bar talvez não tenha nada demais, é apenas um boteco simpático. Mas como ele está cercado por outros, que são todos meio nada, acaba ficando bem especial.

Mesa do Beco

Agora, o melhor bar de Jeri, o melhor dos melhores, o mais incrível e maravilhoso (e para entender essa definição, sugiro a leitura do post logo abaixo), é o bar do Chagas. Eu não vou nem tentar explicar como ele é, porque minhas habilidades narrativas e descritivas não bastam. Detalhe importante: ele fica longe da praia, não tem porções e quase sempre é preciso chamar umas cinco vezes pelo Chagas para ele apareça. Mas uma vez que ele aparece, seja bem-vindo a Jeri.

Há muitos restaurantes em Jeri e em todos a que fui a comida era pelo menos honesta. Meus dois favoritos foram esses:

O Pimenta Verde é, considerados os aspectos técnicos, o melhor restaurante da vila. A comida é excelente. Para entender a graça do restaurante, peça o filé matuto. Um prato bem simples, bem típico e executado com capricho comovente. A apresentação é de restaurante chique e o preço é justo (algo em torno de R$ 20 para um prato mais do que bem servido). Só não é meu favorito por uma questão de coerência (quem elege o bar do Chagas como o melhor de Jeri não pode decidir que o Pimenta Verde é o melhor restaurante, simplesmente porque existe a Peixaria Brasil).

E quanto à Peixaria Brasil… que lugar inacreditável essa casa verde, de esquina, com as paredes pintadas com uma imagem de um pescador segurando um peixão e as instruções: escolha seu peixe, polvo ou lagosta e espere ele ser assado na churrasqueira montada na calçada. O acompanhamentos são ‘deliciosa comida caseira’.

Todos os atendentes são da mesma família, o clã do seu Guaxelo, o pescador representado na pintura da parede. O Guaxelo é um senhor barrigudo de bermuda de náilon branca e aquela cara entre safada e perdida que eu acho que ensinam para os pescadores na escola de pescadores. “Aula 1: Técnicas de olhar para cima e para o lado e ainda assim ver o que acontece à sua frente”.

O serviço é péssimo, a casa não aceita cartão e vive lotada. Há duas explicações possíveis, e provavelmente a resposta é ambas. 1. A comida é maravilhosa. 2. É restaurante-sitcom.

Os quinze, ou onze, não lembro, filhos do Guaxelo atendem e desatendem e se atrapalham e brigam entre si e bufam com a mãe e tomam bronca do pai (bronca de pescador, “Aula 2: Como dar bronca usando apenas os olhos e sem deixar de ver o que acontece à sua frente”).

Se você não tomar as rédeas da situação, não vai jantar. O primeiro passo é achar uma mesa, muitas são compartilhadas e você pode pedir licença e sentar com estranhos. Depois, é preciso laçar um garçom e pedir uma cerveja. Aí, levante-se e vá até a peixaria, que é encostada ali do lado, e escolha seu peixe. Eu queria polvo. O cara disse: “O polvo é de ontem… não tá fresco, pega o peixe que é de hoje e ainda não foi congelado”. Escolhido o peixe, ele é pesado e vai pra grelha. Daí é só laçar o garçom de novo e pedir mais uma cerveja e os acompanhamentos (salada, purê de mandioca, mandioca frita, farofa, o que você quiser). O quilo do peixe custa R$ 30. Pra dois, basta. Cada acompanhamento custa entre R$ 6 e R$ 8 na versão média. E basta um, dois se a fome for grande. Daí é só esperar o peixe chegar (a fila da churrasqueira costuma ser grande, assim como a espera) e se divertir com as trapalhadas da Família Guaxelo.

Aproveitando o tema Guaxelo, eu tive uma incrível interação com ele alguns dias depois do jantar, quando fui lá comprar cigarros (a casa fica aberta durante o dia como mercearia e é dos poucos lugares que vendem Marlboro). Entrei e me dirigi ao balcão (eu já tinha comprado cigarro ali antes, da senhora Guaxelo, um docinho, que parou de cortar a macaxeira do jantar para me atender e explicar que, sim, o cigarro tinha sobretaxa porque ela comprava lá em cima e vendia cá embaixo). O Guaxelo me viu entrando e entrou também.

Eu disse: eu quero um Marlboro.
Ele disse:
– Pegue lá o Marlboro pra menina.

Só que nenhum de seus muitos filhos estava ali. Na verdade, só estávamos eu e ele. Então eu mesma peguei o cigarro, que ficava em cima do balcão. Dei o dinheiro (R$ 10, o cigarro custava R$ 6). E ele disse:

– Pegue lá o troco da menina.

Mas, como já dito, nenhum de seus muitos filhos estava ali. Ficamos os dois em silêncio, porque eu não podia simplesmente abrir a gaveta de dinheiro do cara e tirar meu troco de lá. Silêncio. Ele olhando pro alto e pro lado com minha nota na mão.

Silêncio.

Não apareceu ninguém. Então ele foi para trás do balcão e começou a pegar o troco. E disse:

– Pegue lá R$ 2 pro troco da menina.

Eu já não conseguia mais conter o quase-riso. Ele notou. Sorriu e ficou com cara de criança pega na traquinagem.

Deu uma nota de R$ 5 e disse: depois, se passar aqui, você me dá R$ 1. Saí do lugar e pedi R$ 1 pro Rafa, voltei e entreguei pra ele, que ainda estava olhando para cima e para o lado diante da gaveta de troco aberta.
Eu disse:

– Aí.

E trocamos sorrisões.

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Todas as rotas levam ao queijo

Eu acredito em sinais. Quando as coisas empurram você numa direção. E, nos últimos dias, tudo tem me empurrado para o cinema, para ver o documentário “O Mineiro e o Queijo” (trailer acima, em cartaz nesses lugares). Até terça eu vou e conto depois o que achei.

Veja só quantos sinais. Lembra do Aristenes, taxista mineiro de nome grego, vê-se-pode? Aquele que chorou ao contar pra mim que viu um casal de vendedores de milho e curau ser vítima dos abusos higienistas da guarda civil metropolitana? Então, depois que ele enxugou as lágrimas e nós retomamos o trajeto, o assunto naturalmente foi para o queijo minas.

Uns anos atrás, eu comprava queijo minas meia-cura na porta do metrô Marechal Deodoro. Limpo, assim, limpíssimo não era. Era um carrinho com uma pilha de queijos e um rolo de sacos e um cara simpático. Pedia o queijo, ele punha no saco e lá ia eu pra casa. E era maravilhoso.

Depois eu comprava queijo minas meia-cura na Casa de Queijos Havaí, que fechou. Os vendedores de queijo de rua sumiram do mapa. Tinha um cara que vendia no ponto de táxi da rua de cima da minha. Segundo os taxistas dali, na terceira vez que a polícia prendeu a geladeira de isopor dele cheia de queijo ele anunciou sua saída de cena. Disse que cada tungada daquela equivalia a R$ 700 em mercadoria. Era prejuízo demais.

E o que sobra para nós? Sobra aquele “minas padrão” que parece polenguinho de tanta falta de gosto e excesso de gordura de plástico. Ali perto da minha casa ainda tem umas boas opções: os sacolões vendem dois queijos minas salgados e saborosos, o Serrana e o Branco ou Brinco de Latte ou Leite, nunca lembro o nome porque eles cortam o queijo na metade e ou eu compro o branco, brinco ou bianco ou o latte ou o leite, mas tem uma vaca no rótulo e eu acho que é Branco de Leite mesmo (porque o Bianco Latte tem uma vaca branca e séria, a vaca do queijo que eu compro é vermelha e tá dando uma piscadinha).

Esses queijos chegam aos estabelecimentos no começo da semana e na quarta já quase acabaram. No geral eu vou bem na segunda ou na terça e já compro logo duas metades. Fico ali testando um pouco para ver se acho duas metades do mesmo queijo, mas isso já é graça minha.

Pois bem, o que acontece não é novidade: há uma lei de 1952 que impede que laticínios feitos de leite cru, caso do queijo minas, sejam transportados além da fronteira estadual (o Paladar fez uma matéria legal, aqui). Pois. Eu já não sou muito fã de fronteira, essa linha imaginária que coloca eu e um amazonense no mesmo país e um amazonense do Amazonas e o amazonense da Amazônia peruana em países diferentes. Agora, me dizer que desde a década de 1950 a fronteira entre Minas e São Paulo me impede de comer o queijo… não dá para não ser anarquista, sério. Anarquista abolicionista penal.

Acontece que, como eu disse ali em cima, eu comprava queijo mineiro chulezento maravilhoso na boca do metrô Marechal Deodoro. E o que aconteceu? O cara sumiu de lá. Por que? Porque além de a gente ter uma lei babalu de 1950, a gente tem um governo que decide cumprir essa lei babalu. Engraçado, que se a gente vivesse na Suécia e todas as leis, todas-todinhas, fossem cumpridas, vá lá. Mas não, né. A fiscalização perseguiu justo os vendedores de queijo…

Quem sai ganhando? Os grandes laticínios, especializados em fabricar queijo sem gosto pra gente. E quem sai perdendo? Eu, você, o patrimônio imaterial (o queijo da Serra da Canastra é tombado. É tombado!), o pão de queijo…

Teve gente que já me ofereceu telefone de traficante de queijo. Senhoras que desafiam a lei e vendem o produto clandestino por aí, em escolas de balé, intervalos de escola. Eu, justo eu, que faço tudo para andar na linha, eu que atravesso na faixa de pedestres bem antes de isso virar moda, que odeio sequer pensar na possibilidade de tomar uma dura de um policial, estou seriamente inclinada a praticar esse crime. Estou planejando inclusive uma ação de tráfico interestadual, uma vez que vou passar férias em Minas.

O que me chama mais atenção nesse caso é que, de novo, o que está em jogo é um patrimônio brasileiro. E, nesse caso, um patrimônio oficial, tombado pelo órgão responsável, no caso, o Iphan. Agora veja, o treco é tombado é clandestino. O que nos leva à conclusão que, por aqui, a “higiene” é mais importante que a “história”. Confere? Pelo tratamento dado ao patrimônio brasileiro, me parece que qualquer coisa é mais importante do que história por aqui. Ainda mais essa história prosaica, popular, da cozinha rural.

Pois bem, justo quando eu cogitei cometer meu primeiro crime interestadual, o documentário lá do primeiro parágrafo entrou em cartaz. E diretor chama Helvécio Ratton. Ratton! Ratton fez o filme sobre queijo! Agora vai.

PS: Recomendo a leitura da entrevista que o Ratton, de quem já virei fã, deu à mineira maneira Clara Massote e a Deborah Couto e Silva. Olha só o que ele diz:

Pra quem você fez o filme?
Eu queria que, em primeiro lugar, o público visse o filme, pra se informar de uma situação absurda. A primeira condição pra que você possa mudar uma realidade é que as pessoas se informem. E, em um segundo momento, que as autoridades vejam o filme e respondam aos questionamentos que são feitos. O documentário tem uma proposta dupla de informar e polemizar, e de questionar se as restrições que existem até hoje são justas. É importante que a gente saiba porque isso é assim e, se for o caso, porque deve continuar assim.

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Salvem o milho cozido, a pipoca e a tapioca

O carrinho de hot dog na capa feita no iPhone para a New Yorker pelo Jorge Colombo foi notícia em todo canto

Atenção, muita atenção, caros leitores: um dos principais patrimônios paulistanos está sendo perseguido. Perseguido literalmente. Pela polícia.

Estou falando do milho cozido, da pipoca, do café da manhã de carrinho, com bolo de nada e pingado de garrafa térmica, do vendedor de fatia de abacaxi docinho, do coco caramelizado, do tapioqueiro. Meu Deus, o tapioqueiro…

De uns dias para cá, todo taxista me fala disso. Da Guarda Civil Metropolitana perseguindo os ambulantes de comida. “Eles pegam a comida e colocam tudo num saco e jogam fora”, me disse o Márcio, taxista amigo e grande conhecedor de comida de rua. (É claro que isso vem na esteira de outras reclamações sobre o Kassab. Quanto tempo falta para acabar esse pesadelo mesmo?)

O Aristenes, taxista “mineiro de nome grego, vê-se-pode?”, chorou de verdade, chorou de fungar e diminuir a velocidade para enxugar o rosto, ao contar a história de um casal de aposentados que vendia milho cozido, pamonha e curau no Bom Retiro. A Guarda Civil levou tudo embora, carrinho, milho e curau. E os dois ficaram ali, sem rumo. Segundo o Nenê, apelido do Aristenes, “a polícia depois vende tudo, os carrinhos, e aí depois vão lá e tomam de novo e vendem de novo”.

À parte a denúncia de corrupção do Nenê, o que acho mais grave aí é: isso é nosso patrimônio. Comer comida na rua faz parte da minha cultura e deve fazer parte da sua também. Pode parecer que não, mas veja só.

Sem a comida de carrinho, onde vamos comer tapioca?
Eu não quero ter de ir ao restaurante da moda comer tapioca invocada. Quero tapioca simples, comida de pé, na confusão da calçada. Tapioca brejeira, não tapioca playboy.

E o milho cozido com um montão de manteiga?
Mesmo que seja cometida a barbárie de tirar os grãos e colocar naquele pratinho plástico, ainda assim é milho. Eu prefiro o meu na espiga, pra comer igual máquina de escrever. Mas integro ou dessabugado, milho é fundamental.

E o carrinho de pipoca?
Sem ele, seremos obrigados a pagar mais caro para comer a pipoca do cinema. Isso não pode ser bom, reduzir as opções de consumo nunca é bom. Quer dizer, é bom pro dono da pipoqueira dentro do cinema. Só pra ele.

E pior, nesses três exemplos, ainda há segunda via. Extinguiram o carrinho de milho? Você pode fazer milho cozido em casa. Mas e o coco caramelizado? Você vai fazer em casa? E o algodão-doce?

Entendo os riscos da comida de rua. Acho nobre a preocupação com a saúde. Cachorro-quente de van, eu evito, porque sei lá quantas vezes aquela água da salsicha não foi trocada. Também evito yakissoba. Mas isso vai de cada um com seu estômago, uns mais fortes, outros mais frágeis.

Blindada ou sensível, nossa pança não pode ser alijada do carinho que vem do carrinho.

O Rodrigo Oliveira, do Mocotó, disse, em palestra no evento Paladar Cozinha do Brasil (em que ele apresentou um café da manhã sertanejo de fazer núvem-de-lágrimas-sobre-meus-olhos de tanta delícia):

“O Alex Atala fala que a boa cozinha coloca o ingrediente no seu melhor momento. O cara do carrinho de tapioca, que faz tapioca todos os dias há 20 anos, coloca a tapioca em seu melhor momento. Ele deve ter alguma coisa para ensinar pra gente. É esse cara que eu quero ouvir”.

Pois é, a Guarda Civil Metropolitana nem ouve, já vem tirando a tapioca do tapioqueiro e, de lambuja, tirando de nós o direito ao lanche rueiro.

Claro que a prefeitura tem de cuidar para que regras sejam cumpridas, para que seja limpo, para que não contamine. Mas eliminar a comida de rua não pode ser a solução. Quer dizer, poder pode, mas é a solução mais burra.

E se você acha que isso não tem nada a ver com você, então não venha dizer que o cachorro-quente de Nova York é incrível. Não poste no Instagram sua foto comendo salsicha incrível nas ruas de Berlim. Nem me venha falar que o crepe da esquina da rue tal com a rue tal em Paris é incrível.

Porque, sim, eles são de fato incríveis. O cachorro-quente é patrimônio de NY. O crepe é a cara de Paris. E a salsicha alemã é a alma berlinense. Assim como o chincharrón e o taco mexicano, o choripán argentino, as sardinhas portuguesas e quantos tantos outros exemplos maravilhosos (me ajudem a lembrar, deu branco).

Essas coisas são mágico-prosaicas e nos 5 anos que eu trabalhei no caderno de Turismo eu vi que sempre, sempre, comida de rua rende matéria. Com fotos incríveis. Houve sempre, inclusive, um desejo de fazer um especial de comida de rua. Que eu acho que o Paladar fez. Fez, né? Depois eu acho eu coloco aqui. Pois é, pelo andar do carrinho, São Paulo não vai entrar nessa edição.

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PS: Esses dias eu conversava com o Matias sobre a relação das pessoas com os bairros de São Paulo e lembramos da Moóca e do tiozinho do churros, que infelizmente morreu e não está mais lá. Imagina a polícia confiscando o carrinho dele?

PS2: Eliminar os carrinhos de SP equivale a proibir vendedor ambulante na praia no Rio. Adeus, Mate. Adeus, biscoito Globo. E adeus queijo de coalho feito na brasa nas praias do Nordeste.

PS3: Falando em Nordeste, isso é igual a banir as baianas do acarajé. Isso é crime contra o patrimônio.