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A força de um vilão e a aula de natação

Vi Bastardos Inglórios no cinema. Faz uns 10 anos. Todo mundo lembra como Christopher Waltz colocou seu tijolinho na construção do imaginário de vilão com sua interpretação no filme. Posso apontar exatamente o momento em que isso ficou claro para mim.

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Óbvio: quando ele apaga um cigarro num strudel com creme. Somente um monstro apaga um cigarro na comida.

Na semana passada, levei meu filho à  natação e fiquei assistindo. A aula era com a professora de sempre, que poderia estar no casting de Bastardos Inglórios. Ela tem olhos azuis arregalados e as mais marcantes bochechas rosadas que uma pessoa pode ter sem efeitos de maquiagem (talvez seja culpa da água aquecida).

Mas pintaram alunos extras pra ela, que repassou meu filho, o mais velho da turma, para outro professor, até então encostado na borda da piscina. O cara era obviamente mais experiente e estava no canto só olhando.

Ele pegou meu filho e deu a aula bem na frente de onde eu estava. Bem ali onde eu podia ver, entre os óculos e a touca, que além de um excelente professor ele também era cara do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios. O mesmo sorriso. Lindo, porém igual ao do Christopher Waltz.

Ele sacou que eu era a mãe. E quando meu filho fazia alguma coisa engraçada, olhava pra mim pra sorrir junto. E quando meu filho acertava um movimento, olhava pra mim pra dividir orgulho. Como fazem  todos os outros (excelentes) professores de natação do clube. Mas com a cara (e o sorriso) do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios.

Meu filho foi virando o strudel e eu tava só vendo a hora que ele ia apagar o cigarro na perfeita testa da minha cria. A fantasia vai longe quando você fica 50 minutos vendo um filme mudo – através do vidro – em que um dos protagonistas é a cara do Christopher Waltz em Bastardos Inglórios e o outro saiu do seu ventre.

Quando a aula acabou e fui pegar meu filho, ou melhor, resgatá-lo das garras de um dos maiores vilões do cinema contemporâneo, ele veio correndo e falou: obrigada, mamãe, por me salvar daquele monstro nazista a aula de hoje foi a melhor da minha vida!

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Beleza não vai embora, só muda de lugar

 

Minha vó Edmea tinha voz melosa. E sempre tinha por perto algum adulto virando o olho. E ela falava umas coisas engraçadas. Lembro uma vez, na minha casa, ela desembrulhando uma bala de doce de leite dessas que vêm na palha de milho e falou:

Palha de milho é uma coisa tão romântica… (ela sempre punha reticências nas frases, e olhava pro horizonte). Não tem comparação, plástico, palha de milho.

Adultos virando o olho.

Ela via graça numas coisas improváveis. E se dedicava muito a isso. Por muitos anos, acordava antes do sol nascer em seu apartamento em Itanhaém (naquele prédio que parece um rolo de papel higiênico na Praia do Sonho) e tirava foto do sol nascendo. Com a data/hora da câmera fotográfica ativada. Era sempre o mesmo ângulo, sempre o mesmo horário. E depois ela mostrava pra gente 568 fotos do mesmo sol nascendo nas mesmas pedras e ficava empolgada com a diferença de uma pra outra. O sol nascendo mais pra lá no inverno, mais pra cá no verão, mais tarde no inverno, mais cedo no verão, mais vermelho no inverno, mais amarelo no verão.

Daí de vez em quando ela mandava um pacotinho de fotos do sol nascendo pelo Correio com recados incríveis escritos nos versos das fotos.

Devo ser maluca, só eu para achar graça de ver o sol nascer todos os dias. Mas não é incrível como uma coisa que acontece todos os dias é totalmente diferente a cada dia que passa?

É incrível, vó.

As fotos da minha vó eram um caso à parte. Depois que meu vô morreu, ela calçou rodinhas e foi girar o mundo. Viajou para todos os lados. E a cada viagem, voltava com zilhares de fotos, colocava em  álbuns e escrevia legendas hiper detalhadas e poéticas.

Daí ela chamava a gente pra ir na casa dela ver as fotos e era um programa longuíssimo, porque tinha que olhar uma por uma e ler as legendas.

Adultos virando o olho.

Lembro muito do álbum de Veneza. Tinha umas quatro páginas de fotos dela alimentando os mesmos passarinhos, uns pombos. E as legendas eram assim.

“Um momento muito feliz”

“Agora imagina, um momento mais feliz ainda”

“Eu nunca poderia imaginar que teria um momento tão feliz como esse, os pássaros em Veneza”

E assim ia, e se ela lembrasse de qualquer outra coisa, anotava ali mesmo na legenda da viagem, e a gente ver aqueles álbuns era viajar pra dentro da cabeça engraçada dela.

Mas ela não era só um docinho. Era brava, não tinha papas na língua e xingava feio – depois dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Meio Zacarias.

A mão dela sempre tinha a unha feita, com o formato bem oval, meio pontudo, pintado de rosa, daquele rosa cintilante que parece casca de concha. Quando eu era pequena eu achava que a unha da minha vó era de concha do mar.

É que eu sempre achei ela muito bonita. Ela tinha o olho bem azul e a bochecha com aquele risco de quem tem a maçã rosto bem alta. A boca era fina, bem fina. A pele dela, então, era mais fina ainda e você conseguia ver umas veiazinhas bem fininhas nas bochechas, na testa, no queixo.

Ela decidiu que era alemã – era filha de pai e mãe brasileiros, com avôs brasileiros de um lado e franco-alemães do outro. E como cozinhava bem!

Era compota de laranja, geleia de jabuticaba, rocambole, bolinhos vienenses (meus favoritos de infância, um pão de ló assado em forminha de empada recheado de doce de leite e salpicado com açúcar de confeiteiro) e uns bolos de frutas secas tipo strudel horrorosos que eu nunca gostei porque não gostava de frutas secas.

E tinha um bolo que minha nossa senhora, era um bolo simples, com café, e em cima dele ia uma cobertura crespinha de café com manteiga que eu não tenho nenhuma dúvida que é das coisas mais maravilhosas que eu já comi na vida. Nunca mais vou comer. Nem quero que tentem fazer de novo. Mesmo que façam igual. Essa lembrança não deixo tirarem de perto dela. Junto com a xícara de café com leite cheio de nata. Ela adorava quando o leite formava nata. Eu tinha nojo na época. Hoje amo todas as expressões da gordura do leite. Deve correr no sangue, coisa de DNA.

Foi na casa dela que eu aprendi a abrir nozes na quina da porta (apenas uma palavra: camafeu. Camafeu, velho. Não tem nada no mundo melhor que camafeu. Tem: camafeu que sua vó fez.). Foi na casa dela que aprendi a colocar disco para tocar na vitrola. Foi na casa dela que aprendi a ler gibi – ela tinha um armário lotado de gibis. Lotado. Foi na casa dela que aprendi a dar tiro de espingarda de chumbinho. Foi na casa dela que vi como fazia massa caseira (apesar de a vó italiana ser do outro lado, era a Edmea que tinha máquina de fazer macarrão, que sempre passava do ponto de cozimento, óbvio, mas foda-se).

Na casa dela tinha um relógio-porta-canetas azul da boêmia que tocava Pour Elise. Eu amava e odiava aquele porta-canetas. Ele era a coisa mais brega e maravilhosa que eu já vi na minha vida. Mesmo pequena, mesmo sem nenhum senso de estilo (mentira, eu já tinha, mas quero soar modesta), eu olhava praquele relógio-porta-caneta e sentia profundo amor e profundo ódio. Porque era o azul mais bonito do mundo. Mas o objeto mais abjeto que se pode imaginar. Tutututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuuu-tututututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuu. Era o tempo (relógio), a escrita (a caneta), a música (pour elise) e as cores (o azul era de fato impressionante) aprisionados num objeto que nunca teve nenhuma serventia (ninguém via as horas ali, ninguém usava aquela caneta, ninguém gostava da musiquinha e ninguém notava que azul bonito era aquele). Só servia pra gente tomar bronca dos adultos quando tocava a música mil vezes e eles não aguentavam mais.

Põe essa caneta no lugar, pelo amor de Deus.

Alguém sempre gritava da sala. Porque era só tirar a caneta do porta-caneta pro bichinho começar a cantar.

Na caixa de joias dela aprendi a diferença entre joia, bijuteria e extravagância de plástico. Aprendi o que é laqueado e o que é baquelite. E aprendi que pra saber mais coisa tem que falar mais língua.

Na casa dela a gente tomava café com licor.

Algumas das roupas mais bonitas que eu uso eram da minha vó. Hoje mesmo, para o funeral dela, vou com uma saia preta de lã com duas pregas na frente que sempre sempre sempre que uso alguém elogia (escrevi esse pedaço no dia exato em que ela morreu). A saia deve ter uns 50 anos, sem brincadeira. Eu uso há uns bons 15 anos. E sempre recebo elogio. Assim como sempre que vou a um casamento com a saia longa azul marinho de pregas que era dela, ouço elogios à elegância da peça.

Ou quando fui prum casamento  em Oxford (cóf) e coloquei um vestido de seda incrível que era dela e todo mundo babou. Ou quando coloco o vestido meio Pucci anos 1960 todo mundo pergunta. Esse, aliás, só me serve quando eu tô bem magrinha.

A vó Edmea era muito elegante, corpo de ampulheta, ganhou concurso de miss e tudo. Era uma velha bonita, mesmo na UTI, sem a dentadura, sem a unha rosa-concha, sem conseguir falar, sem conseguir acreditar na bosta da situação, abria aquele olhão de água e sorria com a maçã do rosto deixando claro que a beleza não vai embora, só muda de lugar.

Quando ela caiu – e toda essa chatice de velhice começou a pegar pesado – a informação chegou pra mim meio atrapalhada. A minha família desse lado não é muito boa de passar notícia. Ninguém sabia nada direito e tinha só um rumor de que a vó tinha caído e ido pro hospital com o tio Zezinho – ou Julinho, se lá. Sendo eu a única jornalista dos dois lados, de pai e de mãe, saí fazendo meu trabalho. Lista de hospitais de Campinas, em ordem alfabética, vamo que vamo. Liguei aqui, liguei lá, pedi pra transferir pro quarto, quem atende? Ela mesma.

Alô.
Vó? É a Helô (já falei chorando, porque, né, falou que velho caiu em casa sozinho eu já enterrei). O que aconteceu? Tá tudo bem?

Ela respondeu brava, com um tom de voz que era muito dela, entre o resmungo e a bronca.

Ah, olha, uma patetada. Fui virar da cama, caí no chão, que nem saco de batata. É um saco ficar velha, agora vou ter que operar, botar placa, precisa aprovação do convênio. (Aqui ela voltou a falar com a voz melosa de sempre:) Ai, minha netinha, uma chateação. (Risada aguda)

Era um barato como ela fazia isso, falava as groselhas que bem queria e para deixar claro que sabia bem o que tinha feito, dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Tipo Zacarias.

O plano aprovou, operou, botou placa, voltou pra casa. Em uma semana, AVC. Depois de um ano, morreu.

Minha sorte, além de toda a sorte de ter sido neta dela, é que um dia, dez anos atrás, no casamento do meu irmão, chamei minha vó no canto e contei tudo pra ela. Respirei fundo, agradeci ao vinho pela tagalerice e expliquei tintim por tintim como ela era parte de quem eu sou. Ou melhor, como ela era parte de quem eu escolhi ser.

 

revirando os olhos

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Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

Dois meses e quase seis meses

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Vai fazer dois meses que estou trabalhando em um Macintosh. Não, para, peraí: Macintosh é vintage. Melhor: em um imac. Um Apple. E já acontece que quando reencontro meu PCzão velho de guerra estamos nos desentendendo. Estranho todos os atalhos, todos os comandos. Junto os dois dedos pra rolar a tela no touchpad e fico com raiva que ele não me entende. Vem comigo, PCzão, rola essa tela…
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Vai fazer dois meses que estou trabalhando em um lugar em que só se fala de comida e de cozinhar. E cada vez mais acho que não faz sentido falar de qualquer outra coisa. Você engole essas coisas, bicho. Coloca esses nacos de comida na sua boca, mastiga e engole e caga. Vem cá: eles são mais importantes que o amor da sua vida. Porque por mais que você queira, você não engole (nem mastiga, nem caga) os amores da sua vida.
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Vai fazer dois meses que estou trabalhando com pessoas novas e isso só faz reafirmar a extrema felicidade que tenho de conhecer pessoas novas. É como ganhar uma lanterna, a primeira lanterna que você ganha na vida, e descobre que pode iluminar esse canto aqui, aquele canto ali. A vantagem de conhecer gente nova depois de um tempo é que você já tem uns cantos iluminados e pode correr iluminar outros. Novos cantos iluminados. Com a outra vantagem ainda de que conforme a vida vai passando a luz dessa lanterna vai ganhando potência — e a gente ganha cada vez mais a capacidade de se encantar. Como é bom conhecer gente inteligente!
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Vai fazer dois meses — e quinze anos — que eu trabalho com o que eu trabalho hoje. E se por um lado me dá uma curiosidade danada de entender como são outros trabalhos (quem não tem a fantasia de mudar?), por outro mais eu fico feliz de ter um trabalho que convida as cabeças a pensar junto, num bailão de habilidades. Eu amo a inteligência dos outros. Amo mesmo. Com o fundo do meu coraçã… Na-na-não. Com o fundo do meu cérebrinho.
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Daqui 12 dias vai fazer seis meses que comecei um “Era uma vez…” que era pra ser conto de fadas, história de princesa, príncipe e espada e dragão cuspindo labaredas calorentas… e sobre isso ainda não tenho nenhuma conclusão charmosa para contar (embora o dragão continue cuspindo labaredas calorentas na boca do meu estômago). Agora, vem cá, vou dizer uma coisa: quando vier, quando eu conseguir formular… Segura, peão. Porque vai ser fuerte.

O primeiro maracujá maduro

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Em setembro, contei a história do meu pé de maracujá. Terminava assim: “Agora só falta as mamangavas descobrirem que ele está aqui para polinizarem as flores para nascerem frutos que eu vou apanhar na camiseta dobrada, bater no liquidificador e tomar o suco e fingir que sou vizinha da Hilda Hilst.”

Elas vieram e polinizaram as flores. O pavor que eu tinha de mamangavas (o ferrão gigante, o barulho de helicóptero de guerra) virou amor (os pelos da testa cobertos de pólen, o vôo pesado). Em novembro, um dia olhei pra cima e pimba. Um maracujá! Uma semana depois, dezenas deles. Dezenas.

As semanas passaram devagar. E nada dos meus maracujás amadurecerem. No última dia do ano, eu às voltas com minhas resoluções de deixar em 2015 um tanto de coisa que não queria deixar para trás, sentada no quintal na sombra do pé, com minha mãe, ela me diz:

— Olha, meus amigos estão começando a postar fotos dos primeiros maracujás maduros.

Olhei para cima e gritei:

— Ouviu, pessoal? E aí? E vocês, porra?

Juro, não deu 2 minutos, um maracujá caiu no meio da mesa. Passou raspando na cabeça de minha mãe. “Caralho! Não precisava ficar puto”, disse rindo e já a caminho da cozinha, para abrir o kamikaze e ver qual era a de sua polpa.

Estava amarelinha, foi para o copo, um pouco de açúcar, um bocado de cachaça. Meu primeiro maracujá maduro virou caipirinha. Arrisquei colher outros dois. Mas estavam verdes, polpa seca, só caroço. Retumbavam a amarga lição: não queira tirar a fruta do pé antes do tempo. Bode de lado, a caipirinha ficou demais e ajudou a engolir os caroços de um ano que acabou tão duro.

Agora estou aqui ninando os outros tantos. Preciso comprar mais cachaça.

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(Enquanto bebia a caipirinha, fingi, como havia dito, que minha vizinha é Hilda Hilst. Chamei Hilda em casa para dar uns goles do meu copo, contei de minhas dores e ela recitou um poema. Te sei. Em vida/ Provei teu gosto./ Perdas, partidas/ Memória, pó./ Com a boca viva provei/ Teu gosto, teu sumo grosso./ Em vida, morte, te sei. Matou a caipirinha, mascou de boca aberta os caroços do fundo do copo e foi embora.)

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Por todas as esquisitices

Nossa senhora que lugar bonito

Não faz nem meia hora eu me vi diante de um desses meus gostos que eu tenho que confirmam pra mim que sim, faça o que eu quiser, vá eu para onde for, sofistique-me, complique-me, requinte-me, sou uma caipira das grossas.

Estou em Jericoacoara e as opções de banho aqui vão do glorioso mar emoldurado por dunas às gloriosas e azuis lagoas emolduradas por dunas passando por outras lagoas e outras praias e terminando na honesta piscina do hotel, cercada por lindas primaveras com flores dos mais distintos tons.

Pois bem hoje, meu último dia aqui nesse paraíso tropical luxuriante, eu fui tomar uma ducha no hotel e abri o sorrisão. Foi, de longe, disparado, sem discussão, o melhor banho que eu tomei. A ducha fica do lado do tanque onde as funcionárias do hotel lavam as coisas. Dá pra ver um canto da duna entre os galhos de um pé de hibisco. O chãozinho da ducha, menor — bem menor — que o box lá de casa é de azulejo amarelinho, em volta é tudo areia. Na frente tem o tal pé de hibisco, no fundo a duna, do lado o tanque e na parede uns vasos com umas plantas dessas de folha mesmo. Eu fiquei feliz com a luz brilhante do fim da tarde e a água fresquinha entrando pela minha cabeleira sem deixar um rastro de areia por onde passa, a água batendo no azulejinho amarelo do chão e respingando depois na areia, o sabão azulzinho descansando no tanque. Foi o melhor banho que tomei em Jeri.

Continuo caipira, faço pouco do mar, prefiro rio e, pra mim, numa casa de veraneio, basta uma boa ducha, um bom chuverão ou um belo dum corguinho.

Não espero ser compreendida nessa caipirice de preferir o chuveiro à exuberante paisagem da praia. Sei que é tosquice pura. Só peço um sorrisinho de ‘que doida’. O Rods, em quem eu pensei umas quinze vezes nesses dez dias de idílio tropical, adora contar pra mim (fingindo que tá contando pros outros) uma história que tem a ver com essa.

Foi assim. A gente foi passar um Réveillon no Rio e pra mim a coisa toda foi uma tortura. Com todo respeito aos amigos cariocas ou que vivem no Rio ou adoram o Rio. Eu não gosto muito de lá não, não por causa de nada de lá especificamente (a cidade é obviamente linda, a comida é deliciosa e tudo e tal), mas é que eu sempre me sinto muito trouxa.

Lá estava eu me sentindo trouxa e talvez ainda mais trouxa por não morrer de amores pela praia, o que me era lembrado a cada vez que, bem, a cada vez que íamos à praia. De manhã, fim de tarde, aquela papagaiada toda. O meu mau-humor só aumentando, aumentando, aumentando. Se não virasse o ano, eu teria explodido a cota de catota espiritual naqueles últimos dias de… de sei lá que ano que era já nem lembro mais.

Pois no dia 1, o primeirinho dia do ano seguinte àquele, o Rods precisava achar uma borracharia pra dar um jeito no pneu do carro dele que tinha estourado na vinda e agora ele precisa arrumar pra volta. Me voluntariei pra ir junto, ele mal acreditou. Saímos da Urca, onde estávamos hospedados, e fomos em busca da missão de achar um borracheiro carioca funcionando na manhã do dia um.

Só isso já me deixava mais bem humorada, em parte pela besta rivalidade entre paulistanos obcecados por trabalho e cariocas (se fosse em São Paulo, meu borracheiro atenderia na hora, certeza, na mesma rua, sem pestanejar, já aqui nessa espécie de selva hedonista… Eu sou super a favor de selva e super a favor do hedonismo, mas essa rivalidade besta é daqueles prazerezinhos deliciosos tipo cutucar pelinha no canto do dedo), em parte pelo aspecto gincana (ache um borracheiro funcionando no Rio na manhã do dia primeiro de janeiro. A prova vale cem pontos, valendo!).

Achamos, o Rods foi lá resolver o pneu e eu fiquei conversando com um guardador de carros gordão, com a maior barriga que eu já vi, e ele me contou coisas maravilhosas do funcionamento do mundo dos guardadores de carro da Lapa, me explicou a rotina dele e como as coisas tinham mudado, vinham mudado e ainda iam mudar mais, porque é assim que é. Eu fiquei lá de trololó, com um humor ensolarado e renovado. E quando o Rods, voltou, pneu colado com chiclete, ficou muito impressionado.

E ele sempre dá um jeito de contar essa história pra alguém na minha frente, como um exemplo ou a. de quanto eu não gosto de praia (o que nem é taaanto verdade assim) ou b. do quanto eu sou esquisita. Mas sempre que ele conta pra alguém essa história na minha frente eu fico com a sensação de que ele tá contando ela de novo pra mim, pra me lembrar de a. como ele gosta de mim por essas coisas e b. quanto eu gosto dele por essas coisas.

Enfim, viva a ducha do lado do tanque! Viva o borracheiro da Lapa! E um grande e ruidoso viva para todas as esquistices minhas, suas, delas, deles e todas.

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Curtinhas de sábado

Esses dias fui ao médico, nada grave, dermatologista. Na sala de espera, tocava um jazz bem sala de espera que levou a outra esfera a minha concepção de música de consultório: era uma versão sax melado-bateria wannabe cool de “O Jipe do Padre”, aquela do furo no pneu colado com chiclete.

De plantão, faço a ronda das agências de notícias. Sempre que faço isso acho graça do presunto espanhol. Explico. Veja a notícia que chegou: “Detención provisoria para presunto miembro de ETA detenido en Bélgica”.
Pra mim presunto miembro é miembro muerto. Pra Espanha, é suposto membro.

Plantão é das coisas mais chatas da vida. Mas esse meu está menos chato por dois motivos: 1. estou em boa companhia, com os ótimos Giovanna Montemurro e Gabriel Pinheiro. 2. No próximo sábado, neste horário, estarei esticada em Jericoacoara; e no outro também. Há!

Sempre reinvindico. Daí checo no dicionário e reivindico.

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Awe Maria, foi demais, vê só

Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Ihaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Aiaiaiaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

YO!

Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai! Vai!

Yeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah

E a pistinha bombou!

Quer ver mais? O Matias postou tudo lá no Sujo.

Entre mortos e feridos

Mais uma incrível participação do Thiago Jardim aqui no Caracs. Braceras zuado, ou autorretrato no Paint. Ele é menos forte do que aparece aí, mas essa é a vantagem de autorretrato, néam

Hoje está circulando a edição do Link especial sobre Steve Jobs. Talvez seja o calor da emoção do momento, mas acho que esse é o trabalho que mais gostei de fazer até hoje. Porque acredito no bobo, porque tudo o que quisemos fazer está lá. E porque o que o quisemos fazer não foi pouca coisa.

A gente já sabia, eu e o Matias, qual seria a linha geral dessa edição há algum tempo. A morte de Jobs era esperada. Então meses atrás, combinamos bem baixinho: quando ele morrer, damos a íntegra do discurso de Stanford. É uma afirmação. Um manifesto. Continuem bobos, a gente concorda, a gente faz de tudo para continuar.

Na quarta-feira, quando Jobs morreu, cheguei da redação bem tarde, lavei o rosto, escovei os dentes e fui dormir. Quando deitei, minha barriga roncou. Levantei, fiz comida e sentei para comer.

A gente tinha um problema sério: qualquer veículo brasileiro que publicasse a íntegra do discurso foderia nossa edição. Enquanto eu mastigava mandiocas cozidas com gengibre e cebolinha, me deu o estalo. Fui pra frente do computador e mandei o seguinte e-mail para o Matias.

“Acho que a gente tem de escancarar qualéqueé, e eu faria assim.

Steve Jobs morreu na quarta-feira da semana passada. De lá para cá, tudo o que havia para ser falado ou escrito sobre seu impacto no mundo hoje já foi publicado. É impossível evitar a repetição. Mas o Link não pode deixar de escolher o que quer dizer sobre o cara que moldou parte do mundo que cobrimos todos os dias. Você provavelmente já viu, ouviu ou leu isso. Mas de tudo o que já foi dito sobre Steve Jobs, o que queremos dizer sobre ele é o que ele disse de si mesmo.

Íntegra do discurso e pras bancas.
Statement.
É uma ideia”

Na manhã seguinte, foi a vez dele. “Vamos fazer um pôster.”

A ideia foi para o Thiago Que-Delícia Jardim, nosso amado diagramador. E conversa vai conversa vem, a capa girou, o pôster dobrou de tamanho e deu no que deu (que é o que você pode ver na edição de hoje).

Girar o texto da capa e continuá-lo em direção à contra-capa não é a coisa mais corriqueira, assim, do dia-a-dia da redação. Então era natural que estivéssemos apreensivos em relação ao que nossos chefes achariam. Será que eles iam aprovar aquela maluquice?

Aprovado. Ficamos todos muito pimpões. Nós e a bruxa que estava solta.

Assim que a capa foi aprovada, quando a gente começaria, enfim, a trabalhar pra valer para ela ser finalizada, o Thiago resolveu comemorar com um TigerUppercut e, na volta, pléft. Deu com o cotovelo na mesa.

Não havia tempo a perder, ele voltou para sua estação de trabalho e lá fui eu atrás dele para a gente começar a produção. O cotovelo dele estava uma bola. Eu saí de lá dizendo: cara, se piorar avisa aí que a gente compra um gelol, sei lá.

Piorou, ele foi para o hospital e voltou três horas depois com o braço engessado, um osso fissurado, um nervo esmagado, proibido de trabalhar por uma semana e de tocar bateria por um mês. Dava dó. Bem no dia que a gente virou tudo do avesso (não que ninguém tenha feito isso antes, não estou me gabando disso, mas eu, euzinha, e ele, elezinho, nunca tínhamos feito), ele foi tirado de jogo por uma espécie de auto-carrinho.

Claro que a equipe de Arte abraçou a causa. Cada um pegou um pedaço e todo mundo ajudou e deu tudo certo. Agradecemos a Nossa Senhora do Bom Fechamento pela graça concedida toda semana.

E, bom, depois de uma semana de muitas horas na redação, de muita conversa, muita empolgação e muito trabalho, entre mortos e feridos, todos sobreviveram. Menos o cotovelo do Thiago e, é claro, o objeto da capa.

Taí

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Me and Harry McGee

Foto tirada por Ilan Kow, que, como fotógrafo, é um excelente editor. Tão bom editor que mandou a foto assim: Harry and the McGirls (esse é o McGee, eu no meio e a Camila, vou falar deles no post, calma, lê aí que você vai entender)

Eu finalmente entendi porque tem gente que fica moscando ao redor de famosos. Foi assim: no fim de semana rolou o Paladar Cozinha do Brasil, evento do Paladar, caderno de gastronomia do Estadão, onde eu trabalho, em que chefs mostram achados, discutem técnicas, apontam rumos, descobrem, trocam, enfim, só coisa linda.

E um dos convidados era ninguém menos que Harold McGee, o mito, o gênio (entre as pessoas que curtem o assunto, claro. Em linhas gerais, o cara é um cientista maluco que escreveu um livro que chama On Food and Cooking que é uma enciclopédia-bíblia em que ele derruba mitos tais como ‘selar a carne preserva os sucos’). Acontece que o Harry não fala português. Então eu fui convidada a cuidar dele no domingo, último dia do evento. Nos outros dias ele ficou sob cuidado da Camila, muito mais apta para a tarefa (que vocabulário… ela soube descrever, sem gaguegar, em inglês, aquela parte da polpa do abacate que fica mais perto do caroço. Foi impressionante).

Pois bem, eu fiquei 13 horas na cola do cara. Foram 13 horas mágicas. De conversas maravilhosas, em que eu aprendi mais do que se tivesse passado 13 horas lendo. E bastaram essas 13 horas ao lado do cara para que eu fosse citada em dois blogs! Voilá. Fique meio dia ao lado de uma celebridade e pule várias casas na sua rota em busca da fama (não que eu busque a fama, não é isso. Deu pra entender, né?).

Pois bem, a primeira citação merece um prelúdio só para ela. Eu apareci no blog da Nina Horta. Eu vou repetir, porque ainda não acredito: eu apareci no blog da Nina Horta. De fato, eu conversei com a Nina Horta. Eu sou muito fã da Nina Horta. A primeira receita que eu fiz com a intenção de começar a entender de cozinha pra valer (eu sempre cozinhei por herança) saiu de um livro dela. O primeiro livro sobre comida que eu li foi uma compilação de crônicas dela. E a primeira gafe gastronômica que eu cometi na vida foi com ela (mas isso é assunto pra outro post).

Eu sou realmente fã dela. E olha o que ela escreveu sobre o Harry, a Camila e euzinha-da-silva:

Ao meu lado está o famosíssimo Harold Mc Gee fazendo de conta de que vê dois peixes daquele por dia, lá na remota Inglaterra. Ele recebe um copinho de açaí e vai comendo pelas beiradas, aquele roxo lindo, e depois de muitas caras e bocas resolve que o açaí tem mesmo gosto de weeds. Qual weed, específicamente, senhor? Ele está falando é em grama mesmo, gosto de grama. É a primeira vez que ouço esta definição e não me parece estapafúrdia. É, pois não é? Se tivéssemos nascido perto do açaí ele saberia a um néctar, assim é a vida. Enquanto não nos viciamos nele pedimos Coca light, pelo menos a cor é parecida.

As tradutoras do autor inglês eram excepcionalmente boas. Prestei atenção para ver como traduziriam torresmo de pele de peixe, pitiú, (que é o mau cheiro de peixe), e abiú, (camarãozinho do tamanho daqueles krill que as baleias comem). Peixe reimoso. Ninguém merece, pobres meninas. (O cozinheiro Thiago entrou neste assunto de coisas quentes e frias, conceitos já de Galeno, só isto daria um simpósio inteiro na Inglaterra, são gamados por este assunto.)

Contaram de tudo. Como criam os pirarucus, como o despescam. (Entendem o que digo sobre as tradutoras?)

O que a Nina não contou é que ela, linda num casacão estilosérrimo, com o cabelo preso no cocoruto, parecendo uma diva de cinema europeu com uma simpatia e generosidade de quem cresceu no sítio, me ajudou e muito na hora de traduzir torresminho. Ela disse que chama chitterling em inglês, e escreveu chitterling no papel com uma letra de princesa que nunca fez aulas de caligrafia porque já nasceu com a letra linda. O Harry daí falou que chitterling é mais usado para descrever uma preparação com intestino e não barriga. E eu comentei que chitterling e chinchuline então são a mesma coisa e olha só como parece a palavra. E a gente ficou os três ali pensando nas tripas, nos chitterlings e nos chinchulines.

Foi uma conversa deliciosa, com dois gigantes e euzinha, sortudona, ali no meio. Eu fiquei me beliscando debaixo da mesa pra ver se era verdade aquela conversa deliciosa sobre as delícias feitas de entranhas. Era.

O segundo blog é o da Alexandra Forbes, foodtrotter e colunista da Folha. Tem até foto lá. Que vergonha. Um cineminha do meu papo ao pé do ouvido do papa. Ó só:

You know, I mean, it's kind of like that thing that is more or less like this and that

Minha timidez bateu forte. Não gosto de ficar aparecendo por aí. Gosto que todos apareçam por aqui para ler esses posts sobre nada, mas aparecer, minha cara, meus óculos verde-limão, meu turbante israelense e minha camisa de pois fúcsia… curto não. (Verdade que eu mesma postei a foto que o Ilan tirou. Mas é que, né, abriu a porteira…)

A Alexandra escreveu o seguinte:

Achei a maior graça em ver o grande cientista Harold McGee, idolatrado por tantos chefs americanos, passar quase desapercebido pelas salas e saguões. Ele assistiu às palestras da Helena, do Alex, do Pedro e do Thiago Castanho, sempre com uma intérprete ao lado (que, logicamente, jamais poderia transmitir tudo o que era dito e mostrado).

Apenas uma correção, que ela não teria como saber por não ter passado o dia no pé do cara: ele era parado a cada três minutos, para apertos de mão, fotografias, autógrafos e rasgações de seda. A Heloisa Bacellar, que além de ser minha xará e também uma referência de estilo pra mim, ficou até com os olhinhos meio marejados na conversa com McGee. Eram chefs, alunos, leitores, fãs, convivas. A gente dava cinco passos e lá vinha alguém: Mister McGee (eu sempre rindo por dentro porque ouvia Mister McGoo e pensava no ceguinho), I’m your fan. Um-dois-três-quatro-cinco, lá vinha alguém: Mister McGee (e eu rindo por dentro cantarolando Me and Bobby McGee numa versão Me and Harry McGee, à la Janis Joplin, Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lord Hey, hey, hey, Harry McGee, Lord! e nem ouvia o que diziam pra ele). Era lindo de se ver. Digo, a comoção das pessoas diante ele.

(Breve parêntese pra falar de uma cena linda. O Luiz Horta, meu amigo de truco-vinho-arte e também um ídolo, esses Horta, viu vou te contar, eita família porreta, que eu nem acho que eles são da mesma família, a Nina e o Luiz, mas eles têm o mesmo sobrenome e eu sou fã dos dois então pra mim eles são primos, bom, o Luiz Horta chegou com dois exemplares de On Food and Cooking pra autografar. Um deles era velhão, o livro é de meados da década de 80, e tava cheio de post-it grudado. O McGee pegou os livros e disse: “Eu gosto de ver essas edições antigas. E essa, bem, essa foi bem usada”.)

E eu acho que ele não viu a palestra da Helena, porque a gente tinha combinado de que ia ser cansativo demais. Combinamos um intervalo, inclusive da presença um do outro. Eu jurava que ele tinha ido descansar, mas pode ser que descanso para ele fosse ver a Helena toda linda mostrando beterrabas, mandioquinhas e afins. Eu concordo que isso pode ser descanso, porque eita mulher bonita e inteligente.

Quanto à intérprete ao lado (que, logicamente, jamais poderia transmitir tudo o que era dito e mostrado). Verdade. Não tinha como. Eu até expliquei pra ele o que era peixe reimoso e descrevi o pituí, mas o McGee certamente perdeu muito por ter as palestras filtradas por mim. Eu estou tentando compensar traduzindo trechos d’A História da Alimentação no Brasil e mandando pra ele por e-mail. Mas não é a mesma coisa.

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