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Beleza não vai embora, só muda de lugar

 

Minha vó Edmea tinha voz melosa. E sempre tinha por perto algum adulto virando o olho. E ela falava umas coisas engraçadas. Lembro uma vez, na minha casa, ela desembrulhando uma bala de doce de leite dessas que vêm na palha de milho e falou:

Palha de milho é uma coisa tão romântica… (ela sempre punha reticências nas frases, e olhava pro horizonte). Não tem comparação, plástico, palha de milho.

Adultos virando o olho.

Ela via graça numas coisas improváveis. E se dedicava muito a isso. Por muitos anos, acordava antes do sol nascer em seu apartamento em Itanhaém (naquele prédio que parece um rolo de papel higiênico na Praia do Sonho) e tirava foto do sol nascendo. Com a data/hora da câmera fotográfica ativada. Era sempre o mesmo ângulo, sempre o mesmo horário. E depois ela mostrava pra gente 568 fotos do mesmo sol nascendo nas mesmas pedras e ficava empolgada com a diferença de uma pra outra. O sol nascendo mais pra lá no inverno, mais pra cá no verão, mais tarde no inverno, mais cedo no verão, mais vermelho no inverno, mais amarelo no verão.

Daí de vez em quando ela mandava um pacotinho de fotos do sol nascendo pelo Correio com recados incríveis escritos nos versos das fotos.

Devo ser maluca, só eu para achar graça de ver o sol nascer todos os dias. Mas não é incrível como uma coisa que acontece todos os dias é totalmente diferente a cada dia que passa?

É incrível, vó.

As fotos da minha vó eram um caso à parte. Depois que meu vô morreu, ela calçou rodinhas e foi girar o mundo. Viajou para todos os lados. E a cada viagem, voltava com zilhares de fotos, colocava em  álbuns e escrevia legendas hiper detalhadas e poéticas.

Daí ela chamava a gente pra ir na casa dela ver as fotos e era um programa longuíssimo, porque tinha que olhar uma por uma e ler as legendas.

Adultos virando o olho.

Lembro muito do álbum de Veneza. Tinha umas quatro páginas de fotos dela alimentando os mesmos passarinhos, uns pombos. E as legendas eram assim.

“Um momento muito feliz”

“Agora imagina, um momento mais feliz ainda”

“Eu nunca poderia imaginar que teria um momento tão feliz como esse, os pássaros em Veneza”

E assim ia, e se ela lembrasse de qualquer outra coisa, anotava ali mesmo na legenda da viagem, e a gente ver aqueles álbuns era viajar pra dentro da cabeça engraçada dela.

Mas ela não era só um docinho. Era brava, não tinha papas na língua e xingava feio – depois dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Meio Zacarias.

A mão dela sempre tinha a unha feita, com o formato bem oval, meio pontudo, pintado de rosa, daquele rosa cintilante que parece casca de concha. Quando eu era pequena eu achava que a unha da minha vó era de concha do mar.

É que eu sempre achei ela muito bonita. Ela tinha o olho bem azul e a bochecha com aquele risco de quem tem a maçã rosto bem alta. A boca era fina, bem fina. A pele dela, então, era mais fina ainda e você conseguia ver umas veiazinhas bem fininhas nas bochechas, na testa, no queixo.

Ela decidiu que era alemã – era filha de pai e mãe brasileiros, com avôs brasileiros de um lado e franco-alemães do outro. E como cozinhava bem!

Era compota de laranja, geleia de jabuticaba, rocambole, bolinhos vienenses (meus favoritos de infância, um pão de ló assado em forminha de empada recheado de doce de leite e salpicado com açúcar de confeiteiro) e uns bolos de frutas secas tipo strudel horrorosos que eu nunca gostei porque não gostava de frutas secas.

E tinha um bolo que minha nossa senhora, era um bolo simples, com café, e em cima dele ia uma cobertura crespinha de café com manteiga que eu não tenho nenhuma dúvida que é das coisas mais maravilhosas que eu já comi na vida. Nunca mais vou comer. Nem quero que tentem fazer de novo. Mesmo que façam igual. Essa lembrança não deixo tirarem de perto dela. Junto com a xícara de café com leite cheio de nata. Ela adorava quando o leite formava nata. Eu tinha nojo na época. Hoje amo todas as expressões da gordura do leite. Deve correr no sangue, coisa de DNA.

Foi na casa dela que eu aprendi a abrir nozes na quina da porta (apenas uma palavra: camafeu. Camafeu, velho. Não tem nada no mundo melhor que camafeu. Tem: camafeu que sua vó fez.). Foi na casa dela que aprendi a colocar disco para tocar na vitrola. Foi na casa dela que aprendi a ler gibi – ela tinha um armário lotado de gibis. Lotado. Foi na casa dela que aprendi a dar tiro de espingarda de chumbinho. Foi na casa dela que vi como fazia massa caseira (apesar de a vó italiana ser do outro lado, era a Edmea que tinha máquina de fazer macarrão, que sempre passava do ponto de cozimento, óbvio, mas foda-se).

Na casa dela tinha um relógio-porta-canetas azul da boêmia que tocava Pour Elise. Eu amava e odiava aquele porta-canetas. Ele era a coisa mais brega e maravilhosa que eu já vi na minha vida. Mesmo pequena, mesmo sem nenhum senso de estilo (mentira, eu já tinha, mas quero soar modesta), eu olhava praquele relógio-porta-caneta e sentia profundo amor e profundo ódio. Porque era o azul mais bonito do mundo. Mas o objeto mais abjeto que se pode imaginar. Tutututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuuu-tututututututututuuuuuu tutututuuuuuu tutututuuuuuu. Era o tempo (relógio), a escrita (a caneta), a música (pour elise) e as cores (o azul era de fato impressionante) aprisionados num objeto que nunca teve nenhuma serventia (ninguém via as horas ali, ninguém usava aquela caneta, ninguém gostava da musiquinha e ninguém notava que azul bonito era aquele). Só servia pra gente tomar bronca dos adultos quando tocava a música mil vezes e eles não aguentavam mais.

Põe essa caneta no lugar, pelo amor de Deus.

Alguém sempre gritava da sala. Porque era só tirar a caneta do porta-caneta pro bichinho começar a cantar.

Na caixa de joias dela aprendi a diferença entre joia, bijuteria e extravagância de plástico. Aprendi o que é laqueado e o que é baquelite. E aprendi que pra saber mais coisa tem que falar mais língua.

Na casa dela a gente tomava café com licor.

Algumas das roupas mais bonitas que eu uso eram da minha vó. Hoje mesmo, para o funeral dela, vou com uma saia preta de lã com duas pregas na frente que sempre sempre sempre que uso alguém elogia (escrevi esse pedaço no dia exato em que ela morreu). A saia deve ter uns 50 anos, sem brincadeira. Eu uso há uns bons 15 anos. E sempre recebo elogio. Assim como sempre que vou a um casamento com a saia longa azul marinho de pregas que era dela, ouço elogios à elegância da peça.

Ou quando fui prum casamento  em Oxford (cóf) e coloquei um vestido de seda incrível que era dela e todo mundo babou. Ou quando coloco o vestido meio Pucci anos 1960 todo mundo pergunta. Esse, aliás, só me serve quando eu tô bem magrinha.

A vó Edmea era muito elegante, corpo de ampulheta, ganhou concurso de miss e tudo. Era uma velha bonita, mesmo na UTI, sem a dentadura, sem a unha rosa-concha, sem conseguir falar, sem conseguir acreditar na bosta da situação, abria aquele olhão de água e sorria com a maçã do rosto deixando claro que a beleza não vai embora, só muda de lugar.

Quando ela caiu – e toda essa chatice de velhice começou a pegar pesado – a informação chegou pra mim meio atrapalhada. A minha família desse lado não é muito boa de passar notícia. Ninguém sabia nada direito e tinha só um rumor de que a vó tinha caído e ido pro hospital com o tio Zezinho – ou Julinho, se lá. Sendo eu a única jornalista dos dois lados, de pai e de mãe, saí fazendo meu trabalho. Lista de hospitais de Campinas, em ordem alfabética, vamo que vamo. Liguei aqui, liguei lá, pedi pra transferir pro quarto, quem atende? Ela mesma.

Alô.
Vó? É a Helô (já falei chorando, porque, né, falou que velho caiu em casa sozinho eu já enterrei). O que aconteceu? Tá tudo bem?

Ela respondeu brava, com um tom de voz que era muito dela, entre o resmungo e a bronca.

Ah, olha, uma patetada. Fui virar da cama, caí no chão, que nem saco de batata. É um saco ficar velha, agora vou ter que operar, botar placa, precisa aprovação do convênio. (Aqui ela voltou a falar com a voz melosa de sempre:) Ai, minha netinha, uma chateação. (Risada aguda)

Era um barato como ela fazia isso, falava as groselhas que bem queria e para deixar claro que sabia bem o que tinha feito, dava uma risada aguda, com a mão na frente da boca. Tipo Zacarias.

O plano aprovou, operou, botou placa, voltou pra casa. Em uma semana, AVC. Depois de um ano, morreu.

Minha sorte, além de toda a sorte de ter sido neta dela, é que um dia, dez anos atrás, no casamento do meu irmão, chamei minha vó no canto e contei tudo pra ela. Respirei fundo, agradeci ao vinho pela tagalerice e expliquei tintim por tintim como ela era parte de quem eu sou. Ou melhor, como ela era parte de quem eu escolhi ser.

 

revirando os olhos

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O copo de suco de maracujá

Eu não sei quantos anos eu tinha e lembro como se fosse filme. É minha única lembrança viva da casa da Tia Maria, uma tia-avó por parte de mãe que morava num sítio perto de Campinas. Chegamos lá e a neta dela, a Cris, que na minha memória é alpinista (mas isso pode ser fantasia de lembrança de infância — não é, acabei de confirmar com minha mãe) perguntou se eu queria suco de maracujá.

Eu adorava (e ainda adoro) suco de maracujá, mas sempre tive (e ainda tenho) um pouco de medo da frustração dolorosa de esperar um suco natural e receber um maguary, um del valle (essa camada de medo veio mais tarde, porque quando eu era criança não tinha suco de caixinha) ou, pesadelo dos pesadelos, um tang.

Mas naquele dia estava impetuosa e aceitei o suco. A Cris, que é uma mulher muito bonita, seguiu numa direção inesperada: em vez de ir pra cozinha, foi para a cerca. Apanhou maracujás que enfiou na blusa dobrada (como eu amo essa técnica, essa bolsa escondida em todas as camisetas do mundo) e então chamou a gente para a cozinha, abriu os maracujás, bateu o suco e me deu.

Foi uma experiência perfeita no panorama de sucos. Expectativas alcançadas, superadas até. Lembro da minha admiração, o exemplar mais fresco possível, o copo ideal de suco de maracujá.

Naquele dia, naquela cozinha, falamos sobre a vizinha da Tia Maria, uma senhora excêntrica que tinha muitos cachorros e era muito querida pela minha família. Aquela figura que ocupou minha cabeça por anos e anos era só a Hilda Hilst. Eu lia as colunas dela no jornal de Campinas e ficava feliz e escandalizada que ela era a vizinha da Tia Maria. Com o tempo, é lógico, virei fã da HH (com quem ainda por cima divido iniciais, HH de Heloisa Helena). Depois ainda fiz aula de ioga com um cara super próximo dela. E esses pontos me fazem acreditar que somos próximas, separadas apenas por uma cerca coberta por um pé de maracujá do qual eu já tomei o suco. O suco ideal.

Tem ainda a história do Nelson, meu tio de segundo grau, casado com a Neza, filha da Tia Maria — todos moravam nesse sítio. Ele é um físico importante (dá um google, as tags vão de MIT a Embraer, passando por Unicamp) e, na minha cabeça de criança, isso queria dizer que ele era um cientista maluco.

Então naquele dia tomei suco de maracujá feito pela minha prima de segundo grau alpinista com maracujá da cerca que dividia a casa do cientista maluco e da poeta excêntrica. Foi um dia e tanto.

Eu sempre soube que desde então um dos meus objetivos nesta vida é ter um belo pé de maracujá, para tentar trazer para perto a poesia, a ciência e a aventura dos personagens deste dia. Mas foi só hoje, quando acordei e fui esquentar a água para passar café, que me dei conta de que ao menos este objetivo está cumprido.

Este é o meu pé de maracujá visto da minha cozinha. Não dá perceber, mas ele é imenso, indomável e cheio de poesia, ciência, aventura e lagartas. Agora só falta as mamangavas descobrirem que ele está aqui para polinizarem as flores para nascerem frutos que eu vou apanhar na camiseta dobrada, bater no liquidificador e tomar o suco e fingir que sou vizinha da Hilda Hilst.

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