Arquivo da tag: versinho

Camadas de um desastre

Tira a gola rolê
e dá de cara
com o decote-vê.

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Banheiro poético 3

Coisa de corpo celeste

Smoothin’ Shine

Abrillantador
Dourado e duradouro

PS: Graças ao bom Rods e abençoada pela mãe Duchampa, retomo os versos ready-made

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Banheiro poético 2

Coisa de mulher

Spray

Fixação normal
Não deixa resíduos
Use sua imaginação
Vaporize

Fixa solto

PS: Graças ao bom Rods e abençoada pela mãe Duchampa, retomo os versos ready-made

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Banheiro poético

Coisa de homem

Invisible solid

Protege/Acalma e protege
Reconstrói
Proteção invisível

PS: Graças ao bom Rods e abençoada pela mãe Duchampa, retomo os versos ready-made

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Menos de dois é mais de um

Nada como o cheiro de giz pela manhã

Até uma aula matinal e obrigatória de gramática (eu adoro gramática, adoro-doro-ouro) pode ser poética. Não duvide, aconteceu comigo, hoje, no módulo concordância verbal.

Foi assim: rindo com desprezo, o professor contou de um leitor, bobão, que escreveu a propósito de um texto sobre a concordância com “menos de cem”. Dizia ele: “Menos de cem pessoas vieram à festa”. O leitor refutou: “Menos de cem pode ser uma. E nesse caso seria menos de cem pessoas veio à festa”.

Ah, poético leitor, estou com você nessa. Em uma festa com menos de cem pessoas, conheci meu namorado. Em todas as histórias de amor, menos de 6 bilhões é sempre um. Em cada uma delas, aquele um ele.

Enquanto eu pensava em amor, veio um estalo gramático: menos de dois é um. À parte a lógica, o que acontece com a concordância nesse caso? Até 1,9, o verbo é no singular. Por exemplo, menos de dois pães embolorou. Tem um pão e meio, ele embolorou. Porque um e meio é singular. E agora?

Resolvi fazer a pergunta, mas saiu pessoa em vez de pão. E isso despertou o lado professor de cursinho do professor em questão. E enquanto o cara reciclava aquelas piadas sem graça que eu, graças a mim, nunca ouvi porque passei direto no vestibular, eu ia perdendo totalmente o interesse na aula. Até que, sem querer, o professor devolveu a poesia ao papo e lá fui eu e meu eu funil.

É que ele começou a dizer, rindo, que “menos de duas pessoas é o que? Uma pessoa e um pescoço, um tornozelo e um antebraço?”

Ah, o alívio. Eu pude, enfim, ficar em paz e apaixonada pela minha concordância verbal. Menos de dois é singular, como notou o caro leitor. Menos de dois abraça. Eu, seu pescoço e seu braço. Menos de dois aconchega: você inteiro, seu suvaco, meu peito. Menos de dois beija, só as bocas, que o resto arrepia. E melhor: pode usar à vontade, que essa regra não tem exceção.

E quanto à aula, bom, ela me deu vários lides para posts (talvez eles venham, talvez não) e, de brinde, me fez reformular um velho ditado. Ele agora ficou assim: quando um não quer, dois não brisa.

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Is a Belle Époque

Para receber meus amigos, a cidade até fez uma estátua nova

Tudo nessa vida tem seus prós e contras. Recentemente, a Belle e o Chico enfiaram na cabeça que queriam ir morar fora. Foi-que-foi e eles foram pra Chicago no fim da semana passada. Eu estava aqui sofrendo como se estivesse no famoso inverno de lá quando veio um quentinho acalentar meu coração.

É que a Belle finalmente criou um blog, o Is a Belle Époque.

E eu fiz um versinho para eles em Chicago. É bem maroto, saca só:

Eu ia dizer:
Chico e Belle,
bem-vindos a
Chicago.
Mas é mais certo
dizer assim:
Chicago,
bem-vinda a
Belle e Chico

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Haikai religioso na porta do banheiro

– Eu amo Jesus!
– Mary him.

PS: Essa obra minimalista, bilíngue, espirituosa e espiritualizada está na porta de um dos banheiros do Estadão.

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