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Yukiko? Tudo.

 

A mulher atrás de mim, jaqueta de nylon matelassê branca, cabelo ondulado na altura do ombro e aquela idade incalculável que as mulheres orientais têm o privilégio de ter, puxou papo.

Que horas é seu vôo?

Era o assunto da fila para imigração: tava todo mundo na bica de perder a conexão.

Respondi sem entusiasmo. Ela insistiu. Estava preocupada: de Atlanta voava para outra cidade e então para Japão. Se perdesse a conexão, perderia o vôo para casa.

Minha curiosidade embarcou na conversa. A fila era de chegadas internacionais a Atlanta. Já tinha conseguido mapear 4 voos (Espanha, México, Brasil e Nigéria). De onde será que ela vinha? Para onde esta japonesa de idade incalculável, inglês perfeito e cheia de vontade de conversar viajou? De onde ela agora voltava para casa?

“De São Paulo. E você?”

Também! Moro lá. Primeira vez no Brasil? – Sim.
Visitou mais lugares? – Recife e Porto de Galinhas.
Família? – Amigo.
Foi à Liberdade? Sempre quis saber a opinião de um japonês sobre a Liberdade. – Não.
Não? Péra, não te levaram lá? – Não.

“Ih, vai ter que voltar!”, brinquei e parei.

Em quase três anos de namoro internacional, aprendi que no Brasil a gente tem outra noção de privacidade e intimidade. Desde então, quando converso com estrangeiros, seguro a língua e o questionário.

Foi a vez dela perguntar.
O que vem fazer nos EUA? – Visitar meu namorado.
Brasileiro? – Não.
Dá certo namorar à distância? – Pra gente tem dado.

Ela ficou olhando o chão e apertando o travesseiro de pescoço que estava enfiado na bolsa. Virou pra mim e desembestou.

“Olha, sei que mal conheci você, que a gente está aqui na fila do passaporte e você vai me achar louca, mas preciso falar. Ele é o amor da minha vida”, já chorando. E chorando contou que desde que saiu de São Paulo chorou em todas as situações possíveis:

No lounge do terminal 2, no check-in, na fila de embarque, no avião, no desembarque e agora na fila do controle de passaporte.

(Sei como é, às vezes acontece comigo, é chato pra caramba.)

Outra coisa que aprendi é que as pessoas não-brasileiras tendem a se tocam menos. Eu queria abraçar essa mulher, passar a mão no cabelo dela e mandar aquele “pronto, pronto, passou, vai passar”. Mas só encostei a mão nas costas. “Não acho louca não, vamos aproveitar que temos no mínimo mais uma hora de fila. Conta, como foram esses dias com ele em São Paulo.”

Pelo visto foram estranhos. Entendi que a viagem terminou com um término. “Sinto muito”.

– Não, ele não terminou, apenas deixou as coisas claras.
Hm. Então vocês estão em um relacionamento? – Não.
Vocês não estão juntos, certo? – Não estamos.
Mas ficaram juntos esses dias. – Sim, ficamos juntos todos esses dias.

Concluí que tinham ficado juntos de um jeito, mas deve ter sido de outro.

Ela foi contando. Ele foi trabalhar no Japão, eles se conheceram. Ele foi transferido para o Brasil, ela veio visitar. “Ele não me convidou. Eu que fui.” Ela começou a gostar dele ainda no Japão e quando ele foi embora, começaram a trocar e-mails. Cada vez mais envolvida, ela pegou os 10 dias de folga que ganhou porque mudou o imperador de seu país e veio para o Brasil atrás do amor de sua vida que não tinha a mais vaga ideia do que estava acontecendo.

Mas, espera, você nunca disse a ele qual era o motivo de sua visita ao Brasil? Você já tinha se declarado para ele? – Sim, escrevi um cartão, dizendo que gostava dele e que tinha muito respeito por ele.

(Amo choque de cultura, é algo que sempre me impressiona.)

No último dia da estada em São Paulo, ele encerrou a história que nem chegou a começar. Lançou o papo de não estar no momento de viver um relacionamento.

Tentei consolar minha nova amiga. “Que bom que você fez essa viagem. Está doendo muito agora, mas foi a melhor coisa que você poderia fazer por você. E me parece a única maneira seguir em frente: você tirou a prova, não rolou, agora o lance é se desligar dele.”

Especulamos sobre ele, falamos sobre relações amorosas passadas e sonhos pro futuro. Conversamos sobre nossos trabalhos, nossas famílias, o novo imperador japonês e o desastre político brasileiro. Deu para cobrir quase tudo até ela se dar conta de que ou furava a fila ou perderia seu vôo e o vôo seguinte.

Trocamos e-mails e juras de manter contato. Nada na vida é por acaso, você precisa voltar ao Brasil, ter outra experiência, venha ao Japão com seu filho. Demos dois abraços apertados e tchau.

Assim que ela correu para salvar seu vôo, o senhor nigeriano que estava atrás de nós me cutucou.

Desculpe, não pude não ouvir o que vocês falavam. Foi muito interessante para mim, como homem, ter acesso a essa conversa.
E o que você, como homem, acha? – Olha, para mim parece bem simples: ele não está afim dela.
Mas ela atravessou o planeta! – Pode ser que ele seja um babaca? Pode. Mas pode ser que ele não seja afim dela e aí não tem muito o que interpretar.
Mas ela atravessou o planeta! – Olha, garota, ela precisava botar para fora, você ouviu. Vai ficar tudo bem.

Perdi meu voo. No caminho para tentar encontrar outro, vi de longe Yukiko embarcando para Seattle, de onde vai voar pra casa. Quando me dei conta, estava arrepiada e pensando no Kiko.

Kiko? Quando eu era adolescente tinha uma mania de “e o kiko”. Era super chato. Funcionava assim: você contava qualquer coisa que tinha acontecido com você e alguém dizia: “e o kiko”. Queria dizer “e o que que eu tenho a ver com isso”.

Yukiko? É sempre bom lembrar que entrar num avião e viajar por mais de 24 horas para tentar realizar um sonho é uma possibilidade. Uma carta que está na mesa – você pode escolher não usar, mas ela está lá. Também é sempre bom lembrar que não precisa dar certo. Que o simples fato de jogar essa carta já vale a rodada. Certeza que Yukiko nunca vai esquecer sua temporada brasileira. Nunca vai esquecer que atravessou o planeta para emplacar um namoro que não rolou, mas com a certeza de que tentou. Também é sempre bom lembrar que a meio caminho de voltar pra casa você já vai encontrando gente para abraçar e ter ainda mais certeza de que essas aventuras valem por si só e deixam a vida mais viva.

 

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Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

Cadê você, mulher?

patty carol

– Oi! Tô aqui cuidando do jardim.

***

A fotógrafa Patty Carroll tem uma série com mulheres escondidas, camufladas, emaranhadas em tarefas comuns. As legendas são impagáveis (para essa das plantas: Ao decorar sua casa em busca de uma experiência mais agradável, ela experimentou combinar suas plantas com seus vestidos e deu bem certo. Infelizmente, as folhas não responderam bem à camada de tinta). Patty Carroll explica a história assim: “Nessa série, a mulher faz tarefas domésticas e é presa por seus objetos e obssessões. Eu estou construindo naturezas-mortas de objetos em tamanho real. O espaço e as histórias são suspeitas, evocando o hilário e o pathos de nossa relação com ‘coisas’.”

Uma foto, duas ausências

bowie mcqueen melhor

As duas mais duras mortes de gente distante em uma foto só. Não sou muito de sofrer quando morre famoso, mesmo que eu admire, mas McQueen (em 2010) e Bowie (hoje) doeram.

Como cortar uma cebola

Eu não sei dizer pontualmente porque gosto tanto deste vídeo. E hoje vi de novo e continuo gostando sem saber pontualmente o motivo. Pode ser porque ele ensina a cortar cebola de um jeito definitivo. Pode ser porque de algum jeito eu acho a mulher meio Seinfeld. Pode ser porque as coisas que ela fala sobre cozinhar e sobre o efeito que cozinhar tem sobre quem cozinha sejam exatamente aquelas que fazem que o maior cômodo da minha seja a cozinha.

 

As vantagens e as desvantagens de não saber falar bem um idioma

 

Estávamos em um café na rambla de Montevidéu. Fazia calor e, naquele dia, meu filho vestia uma camiseta rosada. A senhora-caolha estava na mesa ao lado e elogiou nossa filha:

– Ela tem um olhar muito vivo. Dizem que é sinal de inteligência.

Agradecemos e, em seguida, o Rafa corrigiu:

– Es varón. (Sei lá como escreve em espanhol, mas diz ‘é barón’ e quer dizer que é menino.)

Foi a senha para ela sentar mais perto para conversar mais. Eu fui ao banheiro trocar o barón que tava todo cagado.

Quando voltei, a vovó-pirata me disse umas tantas coisas dentre as quais eu pesquei que ela tinha achado prafrentex que a gente usasse roupa rosa no nosso filho. Contou que tinha umas fazendas a leste de Montevidéu, que tinha 85 anos e se chamava Silvia, mas que todo mundo a conhecia como Bimba, o que faz dela uma autêntica Tia Nenê da banda oriental do rio Uruguai (Bimba é Nenê, e eu me fascino com as velhas-nenês, essas oxímoras em extinção).

Dei a maior bola pra avuela-de-un-ojo. Ela encerrou a conversa, o Rafa mandou um galanteio (gracias por la charla), que arrancou dela um elogio (que gentil é o seu marido), que, por sua vez, arrancou de mim um agradecimento e um auto-elogio (obrigada, eu escolhi muito bem).

Lá pelas tantas ela foi embora do café. Eu fiquei olhando e fiz um pensamento bem positivo para ela, uma coisa tipo “que-sua-vida-seja-ótima,-tia-nenê-pirata”.

Daí veio o Rafa:

– Você não entedeu direito o que ela te disse, né?

E eu:

– Hãn? O que? Em que momento?

– Quando você voltou do banheiro, você não entendeu tudo o que ela disse.

– Não, acho que não.

– Ela disse:  “Olha! Você parece um homem”.

Burn in hell, véia zarolha.

Eu e o William Kentridge

Dia desses eu sonhei que desenhava com o William Kentridge. Ele é um dos meus artistas favoritos. A gente sentava na mesa com umas cartolinas, bem primeira-série, e ficava desenhando e eu estava muito feliz de poder ver como ele constrói seus desenhos. Como sonho é muito mais legal que vida real, a cartolina dele era tipo uma tela, e o desenho que ele fazia era animado.

Acho que em parte o sonho foi influenciado pela exposição sobre ele que tá rolando no IMS do Rio até 17 de fevereiro. Ela vem a SP no fim de agosto e fica até novembro. Marque na agenda e, se não conhece o cara, vai vendo: