Arquivo da categoria: Por aí

Comida em forma de vagina

Eu tenho certeza que tem a ver com o feminismo. Também tenho certeza que, assim como a moda, a comida vai se impregnando do zeitgeist, do espírito do tempo. E as receitas em voga refletem isso.

Faz semanas que tenho notado em meu feed de instagram fotos de comida em forma de vagina. De pessoas influentes. O sanduíche da temporada nos EUA, o kachapuri tem a maior cara de ppk. E, quase sempre, vem com um ovo dentro. Pode ser mais feminino que isso? Um ovo numa xoxota.

 

É o pão com ovo feminista.

 

Eu ainda tô pensando nisso e quero ouvir todas as mulheres que conheço, das mais feministas as que acham esse papo um saco: você olha pra essas fotos e vê bucetas? Fica com vontade de comer? Ou perde o apetite com a associação? Acha que isso tem a ver com feminismo? O que acha que quer dizer?

Pra mim, quer dizer que não tem volta. Sabe todos os mitos de quando alguém vê alguma coisa e quer desver e não consegue (ex. Édipo, que chegou a arrancar os olhos mas não conseguiu desver), tipo isso. O mundo não vai desver a opressão de gênero. Não tem volta: as mulheres estão olhando mais para si (na minha amostra, aqui nessas fotos, são dois posts de mulheres e um de um blog que pertence a mulheres).

Não tem volta, uma vez que você perceba que as comidas em formato de vagina estão na moda, vai vê-las em todos os lugares. É buceta pra todo lado. Viva!

Se vir alguma por aí, printa e manda pra mim? Quero fazer uma coleção.

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Cadê você, mulher?

patty carol

– Oi! Tô aqui cuidando do jardim.

***

A fotógrafa Patty Carroll tem uma série com mulheres escondidas, camufladas, emaranhadas em tarefas comuns. As legendas são impagáveis (para essa das plantas: Ao decorar sua casa em busca de uma experiência mais agradável, ela experimentou combinar suas plantas com seus vestidos e deu bem certo. Infelizmente, as folhas não responderam bem à camada de tinta). Patty Carroll explica a história assim: “Nessa série, a mulher faz tarefas domésticas e é presa por seus objetos e obssessões. Eu estou construindo naturezas-mortas de objetos em tamanho real. O espaço e as histórias são suspeitas, evocando o hilário e o pathos de nossa relação com ‘coisas’.”

Uma foto, duas ausências

bowie mcqueen melhor

As duas mais duras mortes de gente distante em uma foto só. Não sou muito de sofrer quando morre famoso, mesmo que eu admire, mas McQueen (em 2010) e Bowie (hoje) doeram.

Como cortar uma cebola

Eu não sei dizer pontualmente porque gosto tanto deste vídeo. E hoje vi de novo e continuo gostando sem saber pontualmente o motivo. Pode ser porque ele ensina a cortar cebola de um jeito definitivo. Pode ser porque de algum jeito eu acho a mulher meio Seinfeld. Pode ser porque as coisas que ela fala sobre cozinhar e sobre o efeito que cozinhar tem sobre quem cozinha sejam exatamente aquelas que fazem que o maior cômodo da minha seja a cozinha.

 

As vantagens e as desvantagens de não saber falar bem um idioma

 

Estávamos em um café na rambla de Montevidéu. Fazia calor e, naquele dia, meu filho vestia uma camiseta rosada. A senhora-caolha estava na mesa ao lado e elogiou nossa filha:

– Ela tem um olhar muito vivo. Dizem que é sinal de inteligência.

Agradecemos e, em seguida, o Rafa corrigiu:

– Es varón. (Sei lá como escreve em espanhol, mas diz ‘é barón’ e quer dizer que é menino.)

Foi a senha para ela sentar mais perto para conversar mais. Eu fui ao banheiro trocar o barón que tava todo cagado.

Quando voltei, a vovó-pirata me disse umas tantas coisas dentre as quais eu pesquei que ela tinha achado prafrentex que a gente usasse roupa rosa no nosso filho. Contou que tinha umas fazendas a leste de Montevidéu, que tinha 85 anos e se chamava Silvia, mas que todo mundo a conhecia como Bimba, o que faz dela uma autêntica Tia Nenê da banda oriental do rio Uruguai (Bimba é Nenê, e eu me fascino com as velhas-nenês, essas oxímoras em extinção).

Dei a maior bola pra avuela-de-un-ojo. Ela encerrou a conversa, o Rafa mandou um galanteio (gracias por la charla), que arrancou dela um elogio (que gentil é o seu marido), que, por sua vez, arrancou de mim um agradecimento e um auto-elogio (obrigada, eu escolhi muito bem).

Lá pelas tantas ela foi embora do café. Eu fiquei olhando e fiz um pensamento bem positivo para ela, uma coisa tipo “que-sua-vida-seja-ótima,-tia-nenê-pirata”.

Daí veio o Rafa:

– Você não entedeu direito o que ela te disse, né?

E eu:

– Hãn? O que? Em que momento?

– Quando você voltou do banheiro, você não entendeu tudo o que ela disse.

– Não, acho que não.

– Ela disse:  “Olha! Você parece um homem”.

Burn in hell, véia zarolha.

Eu e o William Kentridge

Dia desses eu sonhei que desenhava com o William Kentridge. Ele é um dos meus artistas favoritos. A gente sentava na mesa com umas cartolinas, bem primeira-série, e ficava desenhando e eu estava muito feliz de poder ver como ele constrói seus desenhos. Como sonho é muito mais legal que vida real, a cartolina dele era tipo uma tela, e o desenho que ele fazia era animado.

Acho que em parte o sonho foi influenciado pela exposição sobre ele que tá rolando no IMS do Rio até 17 de fevereiro. Ela vem a SP no fim de agosto e fica até novembro. Marque na agenda e, se não conhece o cara, vai vendo:

Uma mente inquieta a menos

aaron

Sexta-feira, Aaron Swartz se matou. Aos 26 anos. Nós, jornalistas, estamos acostumados a colocar uma vírgula para resumir a pessoa. E nesse caso ficaria assim: Aaron Swartz, 26, programador e ativista, se matou. O que diz pouco. O certo talvez fosse Aaron Swartz, 26, libertário, se matou. Mas também não é isso.

Todo mundo deveria saber quem é Swartz em detalhes. E os jornais deveriam ter noticiado a morte dele com destaque. A Tati postou, aqui no vizinho Esquina, um texto que dimensiona bem a importância dele. E também dimensiona bem o tamanho da tristeza que é a morte dele. Faço minhas as palavras da Tati: o mundo precisa de mais almas e mentes inquietas como a dele.