Pelas ruas de Baltimore

 

A Ana, minha amiga, lançou uma pergunta ao vento (mentira, foi no Facebook): qual foi a experiência de viagem bate-volta mais louca que você viveu. Apesar de ser pra todo mundo e há semanas, resolvi responder.

Ana, tirando o fim de semana que passei em Guadalajara só para namorar (o cara mora nos EUA, eu no Brasil, onde a gente se encontra? Depende. Mas um ano atrás foi em um fim de semana chuvoso na cidade mexicana mais estranha que já visitei — conheço dez cidades no México. Não é pouca coisa), o bate-volta mais louco que fiz foi pra Baltimore.

Estava em Washington para escrever uma matéria sobre a Obamania. Obama tinha acabado de vencer a eleição que fez dele o primeiro presidente americano negro. Eram outros tempos.

Meu namorado da época foi comigo e ele queria ir a MICA, Maryland Institute College of Art, pra ver uma mulher fodona do design. Lá fomos nós de trem para Baltimore, onde ficava MICA, daqui pra frente tratada como a universidade.

Breve parêntese
Baltimore dá play em duas músicas no meu shuffle mental: o hino norte-americano, que foi criado lá, por um cara que tava num barco olhando pra bandeira depois de uma importante batalha da independência (1812, batalha de Baltimore, leia mais aqui no site do Smithsonian Museum), e Baltimore, country dos bons na voz do melhor de todos os tempos, Gram Parsons (curiosamente trilha sonora mental do fim do meu namoro com onamorado que estava comigo lá. Não a música Baltimore, mas o disco The Return of The Grevious Angel, com a Emilou Harrys, que disco! Presente do querido Fred Leal).

Dá play em Baltimore pra entrar no clima.

 

Chegando na universidade, o cara achou a sala, encontrou a fodona do design, se ajeitou e deu aquele adeus, se vira, vai lá fazer alguma coisa, até breve.

Eu já tinha um plano, claro. Eu sempre tenho um plano (cada um com sua nóia, a minha é sempre ter um plano na manga). Baltimore era conhecida por seus excelentes crab cakes com coleslaw. Naquela época, a gente usava o Zagat pra saber onde comer, qual era o melhor lugar, essas coisas. E o melhor crab cake segundo o Zagat era o do Fadley, no Lexington Market. Hoje, se você digita Baltimore crab cake market, o Tripadvisor diz: Os melhores – mas mais assustadores – crab cakes de Baltimore, sobre os crab cakes do Lexington Market. (Não clique agora, pra não ter spoiler. Mas depois, se duvidar de mim, pode clicar e vai ver que não foi viagem da minha cabeça.)

Naquela época não havia tanto medo (olha que frase ampla e cheia de sentido). E no Zagat só se falava sobre comida. Então sabendo apenas que aqueles eram supostamente os melhores crab cakes com coleslaw de Baltimore, decidi que a única coisa a ser feita em Baltimore era andar até Lexington Market pra comer crab cakes com coleslaw.

Outro breve parêntese
Tenho loucura por comida que não conheço. E tendo a me satisfazer com o nome, sem muita investigação, pra não estragar o primeiro encontro. É igual paquera nesses tempos de redes sociais – já vem muita informação de bandeja, tudo ali no about. Eu vejo muita graça na primeira conversa, no momento em que o cara conta, por exemplo, o que faz da vida. Quanto tempo demora pra chegar nesse assunto, como ele apresenta o assunto  e nunca vou me esquecer do momento em que meu atual namorado contou que é arqueólogo, do tipo que escava, como se nada fosse. Enfim. Eu não tinha ideia do que era crab cake (sabia que teria carne de caranguejo, mas só). Muito menos que coleslaw era uma saladinha besta de repolho com cenoura. Se soubesse, talvez essa história não estivesse aqui para ser contada, talvez tivesse ficado na biblioteca do campus da universidade lendo o livro que tinha comprado sobre como identificar as folhas das árvores norte-americanas (que aliás é incrível e está em excelentes mãos, com a Ligia, em Chicago).

Bom, saí do campus, abri o mapa, vi onde era o mercado e decidi que o jeito mais fácil de chegar era seguir um trilho de trem ou bonde, não lembro. Eu sabia que a margem de trilhos tendem a ser áreas degradadas e sabia que Baltimore era uma cidade violenta, mas dei uma olhada ao redor e achei que tava tudo bem.

Guardei o mapa, comecei a caminhada e acendi um cigarro (naquela época eu era fumante). Em meia tragada, estava cercada de gente pedindo cigarro. Sempre tive como regra número 1 que cigarro não se nega. Meu maço inteiro se foi ali mesmo, antes de dar tempo de soltar a fumaça. Sem problemas, a regra número 2 era sempre carregar um maço reserva.

Lá fui eu, andando pelas streets of Baltimore, achando tudo bem peculiar. Marcas de antigos cartazes nas paredes, sombras de antigos letreiros nos muros, rabiscos de antigas fachadas comerciais. Nada novo, nada presente, só um ou outro passante com cara de siderado.

Lá pelas tantas, vinha vindo um garoto na direção oposta. Ele parecia apavorado e surpreso ao mesmo tempo. Assim que cruzou comigo, me parou, colocou as mãos nos meus ombros e disse:

– O que você está fazendo aqui?

Na hora fiquei confusa. Pensei: te conheço? De verdade que parecia a atitude de um conhecido. Respondi:

– Estou indo pro mercado comer crab cakes, e você?

Ele ficou estupefato, me largou e foi embora apressado.

Foi só uma quadra depois que me deu um estalo e eu me liguei no  que estava acontecendo. Eu estava muito fora de lugar. E estava cercada de pessoas bem estranhas. Ainda faltava um chão para chegar ao mercado. E não era mais o caso de voltar.

Fiz cara de malandra, apertei o passo, botei as mãos no bolso e parei de achar poesia nas fachadas destruídas ao meu redor.

Foi uma caminhada nervosa, eu pensando o tempo inteiro no meu mantra de viajante intrépida: “não saí de São Paulo para ser assaltada em (nome de qualquer cidade aqui)”.

Quando cheguei ao mercado, estava sendo descaradamente seguida. Assim que entrei, os caras caíram fora e o segurança do mercado veio reto na minha direção.

– É sério que você veio caminhando?

– Sério, bicho. Sérião. Onde fica a barraca de crab cake?

Ele mostrou, fui lá, vi o crab cake com coleslaw, achei tudo com uma cara ótima e decidi que o meu namorado ia curtir o bolinho com salada. Então não comi, voltei para a universidade para pegar o gatinho e levá-lo até o mercado.

Claro que voltei a pé. Agora que sabia que a área era da pesada, estava ligeira e sabia como me virar. Cheguei lá, encontrei o cara e retomei o meu trajeto sentido mercado, dessa vez por outra rota, longe do trilho, num bairro claramente mais tranquilo (hoje pensando deve ser tipo a diferença de andar debaixo do Minhocão ou na Alameda Barros, em Santa Cecília).

Enquanto caminhávamos, ele foi contando dos projetos que tinham sido apresentados na aula que ele assistiu. O mais legal era sobre os arredores do hospital universi…

– Tário!! Vamos passar em frente jajá, é no caminho pro mercado!

– … A área mais violenta de Baltimore e provavelmente da costa leste dos Estados Unidos. O que? Vamos passar lá?

–  Aham, é na próxima quadra!

– Helo, eu tô com meu computador aqui! (Ele era meio assustado. Muito gente boa, brilhante, mas um pouco assustado.)

Continuamos a caminhada, de novo entramos no mercado sob muitos  olhares, de novo o segurança veio falar comigo.

– Sério  que vocês vieram caminhando? Garota, qual seu problema?

IMG_4442

Comemos o crab cake. Não era nada demais.  Nem lembro, na real. Esquecível. Já o coleslaw eu amei. Dez a zero comparado com a salada de repolho cru mal temperada que eu comia na infância (com todo respeito, mãe, mas tempero de salada nunca foi o forte lá em casa).

De lá apanhamos um táxi para a estação de trem, para voltar a Washington. Quando a gente chegou na estação, tinha uma revoada de passarinhos, tipo andorinha, uma ave bem pequena. O Dani sacou o celular, filmou os passarinhos fazendo aquelas manchas bonitas no céu e aquela ficou sendo a imagem, bucólica, da passagem dele por Baltimore.

Eu não tirei foto, sempre esqueço de tirar. Mas a minha memória dessa day-trip fica entre ter quase 20 cigarros levados de minha mão em segundos (muito gentilmente, thank you sista, god bless you, etc) e o menino bonitinho me chacoalhando pelos ombros perguntando o que estava fazendo ali. Os espaços de antigos cartazes também foram marcantes. E o coleslaw entrou na minha vida.

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PS. Quem clicou no link do TripAdvisor pode ter notado que trata-se de uma avaliação de 2009, um ano depois de minha visita a Baltimore. Basta ler o comentário pra ver que não exagerei, o lugar era perigoso mesmo. Talvez hoje tenha mudado, gentrificação, pá (entrei no Google Street View pra matar a saudade e achei que tá meio diferente).

PS2: As imagens do post são do Google Images, busquei o nome da rua, o nome do mercado. Estava cansada e esqueci de pegar os créditos. Se forem suas, me conta? The images in this post are from Google Images, i searched the name of the street and of the market to find them. I was tired and forgot to get the credits. If they belong to you, let me know and i’ll be happy to give the credits and link to your profile.

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