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Sempre pode ser gases (mas acho que não é)

pink-smoke

Prólogo
A última vez que contei alguma história aqui – lá se vão quase três meses – foi uma história bonita, mas meio superficial, embora, claro, eu tenha tentado extrair dela o suprassumo do que o momento pedia.

Se eu soubesse que hoje estaria lendo sobre o fechamento das fronteiras norte-americanas para cidadãos de sete países de maioria muçulmana, teria logo chutado a canela daquela véia louca e dado início à barbárie só para ser avant garde. Mentira, jamais faria isso. Mas eu tava otimista naquele dia. Hoje não dá pra estar.

Porém. However (Ráu-éver, eu tô aprendendo inglês, me deixa). Véi, porém… aconteceu tanta coisa de lá pra cá, que se eu pudesse escrever do jeito que Splash, Uma Sereia em Minha Vida faz pra ler, eu mandava ver e todo mundo que ainda insiste em acompanhar esse blog (<3 amo vcs) ficaria com os olhos marejadinhos comigo. (Pra quem não tem a referência, a Splash Uma Sereia Em Minha Vida coloca o braço no meio do livro e lê tudo de uma vez só.)

Vamos ao que interessa
Vou contar só uma, em nome da história desse Caracteres, sempre tão dedicado à escatologia, aos encantamentos e ao amor.

Vamos chamar os personagens de a mina (claro que sou eu) e o cara (óbvio, meu namorado). Contexto: o namoro tem 8 meses, mas somando todo o tempo que passamos juntos dá 25 dias. Menos de um mês. Namoro à distância, cada um num canto do mundo, deu pra sacar, né, blz.

A mina e o cara vão ficar juntos por uma semana. Ela foi pra casa dele, numa cidade remota no inverno setentrional. No segundo dia, eles decidem caminhar au bord de la riviére, ir a um dive bar e encher a cara. Na volta pra casa, bem bêbados, ela peida. Inverno setentrional. "Ela peida" o caralho…, peidei. O peido fica preso no casaco, e sai meio pelo pescoço e o cara exclama:

– Que fedô!
– Deve ser o rio (malandra, repertório Tietê)
– Estranho, o rio nunca fedeu (sim, estamos a mais de 8 mil km de SP)
– É estranho, mas, voltando, o alfabeto frígio afinal deriva do grego?

Assunto encerrado. Corta. Dois dias depois é noite de Réveillon. Eles estão em outro dive bar, que ele chama de neighbourhood pub (aqip, eu posso explicar as categorias em pvt, só mandar inbox). Óbvio, é Réveillon, e a ideia é ficar bêbado. Eis que… bate um… fedô.

– Que fedô! (mas desta vez é a mina, eu, que reclama)
– Nossa, verdade, terrível. A gente sentou perto do banheiro
– Verdade, que cagada. (Risos.)
– Cagada, mas, voltando, o alfabeto frígio é contemporâneo ao grego.

Corta. Cinco dias depois. Hora de despedir. No carro a caminho do aeroporto, ele diz.

– Preciso contar um segredo.
– Hm?
– Lembra no Réveillon, que a gente sentiu um cheiro de merda porque tava perto do banheiro?
– Lembro.
– Eu peidei.

Ah, meu, mano, véi. Eu, euzinha, autora dos manifestos mais escatológicos, do MLP, da Solitária Pride. Eu, ali, ouvindo, derreti.

– Jura? Wow (uau). Lembra aquele dia que a gente tava andando na beira do rio e veio um cheiro de merda?
– Lembro.
– Eu peidei.

Risos.

Eu sei que não é sexy. Mas ainda bem, porque mesmo se fosse, não ia dar pra dar vazão ao tesão (a sequência dos acontecimentos foi: uber, aeroporto, vôos para distintas partes do continente, mensagens de celular). Mas, vai, se isso não é amor de vdd, eu não sei o que é. Quer dizer, sempre pode ser gases.

Aquela dor no peito, é verdade, ela sempre pode ser gases.

Mas, ai, acho que não é.

Tomara.

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A imagem que ilustra o post, veja que belissima escolha, ela mescla a ideia de inverno setentrional à de peido rosa de amor, é da fotógrafa Maria Lax e está à venda aqui.

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Isso, aquilo e tal e coisa

 

O Pantanal continua lindo. Estava, como sempre, exuberante, com aquela paisagem que nunca é igual, que muda a cada 500 metros, que mesmo que você vá 10 vezes para lá, vai surpreender. Eu sugiro a todo mundo que vá ao Pantanal. O Brasil parece que fica maior e mais bonito. Eu sei que pode ser difícil trocar a praia do litoral do Nordeste ou a ida à gringa por uns dias no meio do mato, mas, juro, eles são surpreendentes.

Nova York também continua linda. Fui para lá também. E a Belle continua muito linda. Fui visitá-la em Chicago, minha nova cidade favorita nos EUA, onde ela mora.

**

O Haddad ganhou e eu fiquei muito feliz. Não sem reservas, mas diante das alternativas, fodam-se as reservas. A única coisa que quase me fez anular o voto no segundo turno foi o Lula dizer que a vitória do Haddad em SP era um recado sobre o mensalão. Não, querido, não mistura as coisas. Meu voto no Haddad tem nada que ver com o mensalão. Ele tem a ver com o meu bode do trio Kassab-Serra-Alckmin e a merda de política do ‘saiam todos das ruas’ praticada em SP. Não tem nada a ver, nada, nadica de nada, a ver com o mensalão.

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Agora ao que interessa: eu estou grávida. Isso explica em parte as férias prolongadas por aqui. Tenho muito sono e muita preguiça. Acontece muita coisa. Nesses dois meses, eu parei de fumar (oxalá continue assim depois), passei a comer, sem esforço algum, de acordo com aquelas cartilhas de nutrição que você acha que nunca serão obedecidas por um ser humano normal (a cada duas horas, basicamente frutas, nada pesado antes de dormir, menos carboidratos vazios, mais folhas verde-escuro, etc.), e passei a fazer aquelas coisas caxias que ninguém cumpre embora saiba que deva cumprir: passar filtro solar todos os dias: check. Passar fio dental todos os dias: check. Passar hidratante todos os dias: check. A pena de não cumprir essas tarefas é muito alta. Manchas na pele, gengiva em transe, explosão de estrias.

E eu jurei para um amigo querido, o meu editor erudito favorito, Paulo Werneck, que não ia virar mãe blogueira e nem transformar este Caracs em um blog sobre fraldas de pano X fraldas descartáveis. A ideia é que tudo continue igual por aqui, embora, é claro, como esse blog no fundo, na verdade, é uma grande egotrip, o assunto será inevitável.

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Por fim, desculpem a longa ausência, não garanto muita frequência, mas estou de volta. Se você estiver lendo de manhã, coe um cafezinho, que o café de coador tá usando (como você pode ou pôde ver no maravilhoso Paladar de algumas semanas atrás).

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Comer, beber, viver

(A troca de correspondências continua. Embora eu esteja lenta pra xuxu. A Belle respondeu minha carta há tipo uma semana, desculpem a demora)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:

Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez ”Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

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(A Belle respondeu minha carta na nossa troca de correspondências! Ó só:)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Minha saudosa Cuíca, Helozita-amada,

Entendo sua piração no possessivo porque, de fato, é muito bom sentir-se dono das coisas que ama. Das pessoas, dos lugares, etc. e tal. E, convenhamos, mais legal pirar no possessivo do que no imperativo. É mais doce e causa menos espanto alheio. Ainda assim, acho que requer cuidado. Pra ficar só na língua e não virar uma neurose real. (E realmente acho que não é seu caso.)

Confesso que invejei o fato de você já ter conhecido a pequena e gloriosa filha do nosso Otto. De longe, a sensação que eu tenho é que a vida tá passando rápido demais e eu não tô vendo nada, não tô compartilhando as coisas importantes que estão acontecendo aos amigos, boas e ruins. O botão share do Facebook ainda não dá conta disso. Hoje mesmo, quando entrei na internet pela primeira vez, descobri que uma tinha mudado de marido, outra perdeu a mãe (:~), outra pediu demissão para ser empreendedora. Foi rápido, ninguém teve tempo de me contar (e por que parariam tudo pra me contar?), mas eu vi que aconteceu. E aqui, às vezes parece que o tempo tá meio parado, só o vento se mexe.

Quer dizer, pensando bem não parece não. São seis meses desde que parti e eu acho que (ufa, finalmente) me adaptei. Eu tenho uma vida aqui. Só não tenho tanta excitação e tantos amigos pra compartilhar as minhas coisas e com quem compartilhar as coisas deles, mas tenho alguma coisa. O Chico falou em versão desidratada, mas eu acho que é mais minimalista. Notei que até o nas roupas a coisa minguou – trouxe 40, uso seis. E isso pode não ser ruim. A galera consciente fica falando em viver com menos, né? Acho que tô levando isso a sério, inconscientemente. E não é ruim, parece que a gente começa a valorizar mais tudo. E no final, a gente também se adapta a tudo, né?

Sobre o conservadorismo, eu acho que gosto quando é do bem, mas tenho medo das ideias extremas, da direita à esquerda. Eu gosto do F da família, mas TFP é sim FDP, mesmo achando que às vezes tradição pode ser ok e até desejando algo do gênero, como o lance de ser noiva e tal.

E gosto também quanto tem mudança boa. Se a moda pega e as gordinhas gostosas voltarem com tudo, eu vou adorar. Eu quero muito que mude o padrão de beleza. Eu também queria, pra variar, que o mundo ficasse um pouco em paz. Parece meio hippie, né? Mas, como o Clint falou, isso já foi um ideal até dos republicanos… Hoje a coisa é bem diferente e eu temo pelo Irã e Israel. O mundo tá estranho e dá um medinho daqueles.

Mas pensando bem, o mundo sempre foi estranho. Isso é um fato que consta da ala conservadora, não muda.

O que será que muda, e o que não vai mudar? O que a gente quer que mude e o que não mude? Me conta a SUA vontade, continuando na onda possessiva, que eu vou pensar na MINHA.

Saudades, amor,

Belle

Is a Belle Époque

Para receber meus amigos, a cidade até fez uma estátua nova

Tudo nessa vida tem seus prós e contras. Recentemente, a Belle e o Chico enfiaram na cabeça que queriam ir morar fora. Foi-que-foi e eles foram pra Chicago no fim da semana passada. Eu estava aqui sofrendo como se estivesse no famoso inverno de lá quando veio um quentinho acalentar meu coração.

É que a Belle finalmente criou um blog, o Is a Belle Époque.

E eu fiz um versinho para eles em Chicago. É bem maroto, saca só:

Eu ia dizer:
Chico e Belle,
bem-vindos a
Chicago.
Mas é mais certo
dizer assim:
Chicago,
bem-vinda a
Belle e Chico

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