Salvem o milho cozido, a pipoca e a tapioca

O carrinho de hot dog na capa feita no iPhone para a New Yorker pelo Jorge Colombo foi notícia em todo canto

Atenção, muita atenção, caros leitores: um dos principais patrimônios paulistanos está sendo perseguido. Perseguido literalmente. Pela polícia.

Estou falando do milho cozido, da pipoca, do café da manhã de carrinho, com bolo de nada e pingado de garrafa térmica, do vendedor de fatia de abacaxi docinho, do coco caramelizado, do tapioqueiro. Meu Deus, o tapioqueiro…

De uns dias para cá, todo taxista me fala disso. Da Guarda Civil Metropolitana perseguindo os ambulantes de comida. “Eles pegam a comida e colocam tudo num saco e jogam fora”, me disse o Márcio, taxista amigo e grande conhecedor de comida de rua. (É claro que isso vem na esteira de outras reclamações sobre o Kassab. Quanto tempo falta para acabar esse pesadelo mesmo?)

O Aristenes, taxista “mineiro de nome grego, vê-se-pode?”, chorou de verdade, chorou de fungar e diminuir a velocidade para enxugar o rosto, ao contar a história de um casal de aposentados que vendia milho cozido, pamonha e curau no Bom Retiro. A Guarda Civil levou tudo embora, carrinho, milho e curau. E os dois ficaram ali, sem rumo. Segundo o Nenê, apelido do Aristenes, “a polícia depois vende tudo, os carrinhos, e aí depois vão lá e tomam de novo e vendem de novo”.

À parte a denúncia de corrupção do Nenê, o que acho mais grave aí é: isso é nosso patrimônio. Comer comida na rua faz parte da minha cultura e deve fazer parte da sua também. Pode parecer que não, mas veja só.

Sem a comida de carrinho, onde vamos comer tapioca?
Eu não quero ter de ir ao restaurante da moda comer tapioca invocada. Quero tapioca simples, comida de pé, na confusão da calçada. Tapioca brejeira, não tapioca playboy.

E o milho cozido com um montão de manteiga?
Mesmo que seja cometida a barbárie de tirar os grãos e colocar naquele pratinho plástico, ainda assim é milho. Eu prefiro o meu na espiga, pra comer igual máquina de escrever. Mas integro ou dessabugado, milho é fundamental.

E o carrinho de pipoca?
Sem ele, seremos obrigados a pagar mais caro para comer a pipoca do cinema. Isso não pode ser bom, reduzir as opções de consumo nunca é bom. Quer dizer, é bom pro dono da pipoqueira dentro do cinema. Só pra ele.

E pior, nesses três exemplos, ainda há segunda via. Extinguiram o carrinho de milho? Você pode fazer milho cozido em casa. Mas e o coco caramelizado? Você vai fazer em casa? E o algodão-doce?

Entendo os riscos da comida de rua. Acho nobre a preocupação com a saúde. Cachorro-quente de van, eu evito, porque sei lá quantas vezes aquela água da salsicha não foi trocada. Também evito yakissoba. Mas isso vai de cada um com seu estômago, uns mais fortes, outros mais frágeis.

Blindada ou sensível, nossa pança não pode ser alijada do carinho que vem do carrinho.

O Rodrigo Oliveira, do Mocotó, disse, em palestra no evento Paladar Cozinha do Brasil (em que ele apresentou um café da manhã sertanejo de fazer núvem-de-lágrimas-sobre-meus-olhos de tanta delícia):

“O Alex Atala fala que a boa cozinha coloca o ingrediente no seu melhor momento. O cara do carrinho de tapioca, que faz tapioca todos os dias há 20 anos, coloca a tapioca em seu melhor momento. Ele deve ter alguma coisa para ensinar pra gente. É esse cara que eu quero ouvir”.

Pois é, a Guarda Civil Metropolitana nem ouve, já vem tirando a tapioca do tapioqueiro e, de lambuja, tirando de nós o direito ao lanche rueiro.

Claro que a prefeitura tem de cuidar para que regras sejam cumpridas, para que seja limpo, para que não contamine. Mas eliminar a comida de rua não pode ser a solução. Quer dizer, poder pode, mas é a solução mais burra.

E se você acha que isso não tem nada a ver com você, então não venha dizer que o cachorro-quente de Nova York é incrível. Não poste no Instagram sua foto comendo salsicha incrível nas ruas de Berlim. Nem me venha falar que o crepe da esquina da rue tal com a rue tal em Paris é incrível.

Porque, sim, eles são de fato incríveis. O cachorro-quente é patrimônio de NY. O crepe é a cara de Paris. E a salsicha alemã é a alma berlinense. Assim como o chincharrón e o taco mexicano, o choripán argentino, as sardinhas portuguesas e quantos tantos outros exemplos maravilhosos (me ajudem a lembrar, deu branco).

Essas coisas são mágico-prosaicas e nos 5 anos que eu trabalhei no caderno de Turismo eu vi que sempre, sempre, comida de rua rende matéria. Com fotos incríveis. Houve sempre, inclusive, um desejo de fazer um especial de comida de rua. Que eu acho que o Paladar fez. Fez, né? Depois eu acho eu coloco aqui. Pois é, pelo andar do carrinho, São Paulo não vai entrar nessa edição.

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PS: Esses dias eu conversava com o Matias sobre a relação das pessoas com os bairros de São Paulo e lembramos da Moóca e do tiozinho do churros, que infelizmente morreu e não está mais lá. Imagina a polícia confiscando o carrinho dele?

PS2: Eliminar os carrinhos de SP equivale a proibir vendedor ambulante na praia no Rio. Adeus, Mate. Adeus, biscoito Globo. E adeus queijo de coalho feito na brasa nas praias do Nordeste.

PS3: Falando em Nordeste, isso é igual a banir as baianas do acarajé. Isso é crime contra o patrimônio.

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8 Respostas para “Salvem o milho cozido, a pipoca e a tapioca

  1. o mundo ta ficando chato e o Brasil é campeão nisso. Não sabe como fazer as coisas direito e proíbe, que o diga a sacolinha plástica que virou vilã e não as pessoas com seus consumos desenfreados.. Só pensam nos lobys das grandes empresas e o cidadão comum sempre,sempre sai prejudicado.
    Afinal é super cool comer na rua nos outros países mas quero ver comer milho no carrinho desabugado ou não… Brasileiro é fo-da e o mundo está cada vez mais chato, isso isso mesmo hj lá no casa, falando de outra coisa, mas no fundo é isso mesmo. Tudo muito sem graça, careta e ainda vão apoiar a retirada da comida de rua porque não é cool comer milho na ua, o legal mesmo é comer num restaurante caro onde vc possa postar a sua localização no facebook e compartilhar com os outros a sua mediocridade, enquanto na semana seguinte jura que sempre comeu os hot dogs de ny desde criancinha.
    Falou tudo Helô!

  2. Também adoro comida de rua!
    Oque não nos mata nos fortalece!! Rsrs!
    Pode ser informal, ilegal… mas é trabalho! Pena que isso esteja acontecendo, tem outros meios de resolver o problema!

  3. Se todo estabelecimento comercial “oficial” dessa cidade fosse decente em termos de higiene, ou seja, aprovado pela vigilância sanitária, aí sim alguém poderia encher o saco dos ambulantes de comida.

    Se este país desse emprego digno para todos, aí sim poderiam encher o saco dos ambulantes.

    Sempre comi milho verde na JP e 25 de março, sempre comi o abacaxi docinho, sempre comi café com pão de queijo na frente do metrô S. Judas e nunca me deu nem um piriri.

    E os caras ficam enchendo o saco dos ambulantes de comida pois a higiene é mínima. Helo, vc sabe que sou da área de alimentos. Tenho que admitir que esse povo não é lá tão limpinho mesmo, mas tudo isso sempre existiu e estamos todos aqui bem saudáveis contando nossas histórias.

    O QUE NÃO MATA, ENGORDA!!! E vamu que vamu…

    ps: não vou comentar o fato da policia apreender os carrinhos e vendê-los, senão destruo o computador e até seu blog, tamanha é minha ira com relação a isso!!!!

  4. Não dá para antecipar o término da gestão Kassab? O cara segue com passos firmes para acabar com a alma de SP.

  5. e o churrasquinho grego que virou kebab?

    agora só nos resta a tapioca de mauricinho =/

  6. helô, o tiozinho dos churros da r. Ana Neri, até onde sei, se aposentou faz uns três anos. a família ficou de reabrir, mas nada até agora.

  7. clap clap clap. Viva a tapioca e o milho!

  8. Pingback: Todas as rotas levam ao queijo | Caracteres com espaco

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