Todas as rotas levam ao queijo

Eu acredito em sinais. Quando as coisas empurram você numa direção. E, nos últimos dias, tudo tem me empurrado para o cinema, para ver o documentário “O Mineiro e o Queijo” (trailer acima, em cartaz nesses lugares). Até terça eu vou e conto depois o que achei.

Veja só quantos sinais. Lembra do Aristenes, taxista mineiro de nome grego, vê-se-pode? Aquele que chorou ao contar pra mim que viu um casal de vendedores de milho e curau ser vítima dos abusos higienistas da guarda civil metropolitana? Então, depois que ele enxugou as lágrimas e nós retomamos o trajeto, o assunto naturalmente foi para o queijo minas.

Uns anos atrás, eu comprava queijo minas meia-cura na porta do metrô Marechal Deodoro. Limpo, assim, limpíssimo não era. Era um carrinho com uma pilha de queijos e um rolo de sacos e um cara simpático. Pedia o queijo, ele punha no saco e lá ia eu pra casa. E era maravilhoso.

Depois eu comprava queijo minas meia-cura na Casa de Queijos Havaí, que fechou. Os vendedores de queijo de rua sumiram do mapa. Tinha um cara que vendia no ponto de táxi da rua de cima da minha. Segundo os taxistas dali, na terceira vez que a polícia prendeu a geladeira de isopor dele cheia de queijo ele anunciou sua saída de cena. Disse que cada tungada daquela equivalia a R$ 700 em mercadoria. Era prejuízo demais.

E o que sobra para nós? Sobra aquele “minas padrão” que parece polenguinho de tanta falta de gosto e excesso de gordura de plástico. Ali perto da minha casa ainda tem umas boas opções: os sacolões vendem dois queijos minas salgados e saborosos, o Serrana e o Branco ou Brinco de Latte ou Leite, nunca lembro o nome porque eles cortam o queijo na metade e ou eu compro o branco, brinco ou bianco ou o latte ou o leite, mas tem uma vaca no rótulo e eu acho que é Branco de Leite mesmo (porque o Bianco Latte tem uma vaca branca e séria, a vaca do queijo que eu compro é vermelha e tá dando uma piscadinha).

Esses queijos chegam aos estabelecimentos no começo da semana e na quarta já quase acabaram. No geral eu vou bem na segunda ou na terça e já compro logo duas metades. Fico ali testando um pouco para ver se acho duas metades do mesmo queijo, mas isso já é graça minha.

Pois bem, o que acontece não é novidade: há uma lei de 1952 que impede que laticínios feitos de leite cru, caso do queijo minas, sejam transportados além da fronteira estadual (o Paladar fez uma matéria legal, aqui). Pois. Eu já não sou muito fã de fronteira, essa linha imaginária que coloca eu e um amazonense no mesmo país e um amazonense do Amazonas e o amazonense da Amazônia peruana em países diferentes. Agora, me dizer que desde a década de 1950 a fronteira entre Minas e São Paulo me impede de comer o queijo… não dá para não ser anarquista, sério. Anarquista abolicionista penal.

Acontece que, como eu disse ali em cima, eu comprava queijo mineiro chulezento maravilhoso na boca do metrô Marechal Deodoro. E o que aconteceu? O cara sumiu de lá. Por que? Porque além de a gente ter uma lei babalu de 1950, a gente tem um governo que decide cumprir essa lei babalu. Engraçado, que se a gente vivesse na Suécia e todas as leis, todas-todinhas, fossem cumpridas, vá lá. Mas não, né. A fiscalização perseguiu justo os vendedores de queijo…

Quem sai ganhando? Os grandes laticínios, especializados em fabricar queijo sem gosto pra gente. E quem sai perdendo? Eu, você, o patrimônio imaterial (o queijo da Serra da Canastra é tombado. É tombado!), o pão de queijo…

Teve gente que já me ofereceu telefone de traficante de queijo. Senhoras que desafiam a lei e vendem o produto clandestino por aí, em escolas de balé, intervalos de escola. Eu, justo eu, que faço tudo para andar na linha, eu que atravesso na faixa de pedestres bem antes de isso virar moda, que odeio sequer pensar na possibilidade de tomar uma dura de um policial, estou seriamente inclinada a praticar esse crime. Estou planejando inclusive uma ação de tráfico interestadual, uma vez que vou passar férias em Minas.

O que me chama mais atenção nesse caso é que, de novo, o que está em jogo é um patrimônio brasileiro. E, nesse caso, um patrimônio oficial, tombado pelo órgão responsável, no caso, o Iphan. Agora veja, o treco é tombado é clandestino. O que nos leva à conclusão que, por aqui, a “higiene” é mais importante que a “história”. Confere? Pelo tratamento dado ao patrimônio brasileiro, me parece que qualquer coisa é mais importante do que história por aqui. Ainda mais essa história prosaica, popular, da cozinha rural.

Pois bem, justo quando eu cogitei cometer meu primeiro crime interestadual, o documentário lá do primeiro parágrafo entrou em cartaz. E diretor chama Helvécio Ratton. Ratton! Ratton fez o filme sobre queijo! Agora vai.

PS: Recomendo a leitura da entrevista que o Ratton, de quem já virei fã, deu à mineira maneira Clara Massote e a Deborah Couto e Silva. Olha só o que ele diz:

Pra quem você fez o filme?
Eu queria que, em primeiro lugar, o público visse o filme, pra se informar de uma situação absurda. A primeira condição pra que você possa mudar uma realidade é que as pessoas se informem. E, em um segundo momento, que as autoridades vejam o filme e respondam aos questionamentos que são feitos. O documentário tem uma proposta dupla de informar e polemizar, e de questionar se as restrições que existem até hoje são justas. É importante que a gente saiba porque isso é assim e, se for o caso, porque deve continuar assim.

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5 Respostas para “Todas as rotas levam ao queijo

  1. comi curau na frente do madrid ontem <3

  2. Já viu o filme, Helô? Depois conta o que achou, mas já te falo o que eu mais gostei nele: o fato, muito bem explorado pelo Helvécio, de que as fazendas de queijo têm mais “vida” que as de leite. E o bom humor dos produtores, quem guenta? “Se nosso queijo faz mal, bota um aviso daqueles igual tem no cigarro. Se a pessoa quiser correr o risco de ingerir uns ‘estafilocoquim’, aí é com ela!” Que bom que gostou da entrevista. Eu sou fã do Caracteres não é de hoje…

  3. Letícia de Almeida Alves

    Lembra da minha irmã, Helô? Ela tem mestrado em História da Alimentação e está se especializando em queijos, especialmente estes aí. Ela faz pesquisa para uma Ong que quer salvar os produtores de queijos (os que produzem com leite cru, marginalizados) do Brasil e da França. E eu só queria poder comprar um meia-cura honesto, saboroso e artesanal sem ter que pedir para alguém peloamordedeus trazer de Minas pra mim. Adorei o post! beijo!

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