A diarista e o colunista

A gente acorda e...

A Zeni é minha faxineira há uns bons dez anos. Além de faxineira, ela cuida de todas as minhas coisas, decide o lugar de tudo e, volta e meia, ainda me dá bons conselhos. Ela é uma boa conselheira. E quando a gente se encontra em casa, o que é raro, a gente toma um cafezinho e fica conversando.

Num desses papos, a Zeni estava me perguntando sobre o meu namoro, como estavam as coisas e tal. A coisa foi indo até que ela lançou uma pergunta enigmática:

– Helô, ele sonha os seus sonhos?

Eu fiquei em silêncio. Não sabia responder. Meus sonhos? Se ele sonha?

Ela emendou:

– Parece besteira, mas precisa. Um sonhar o sonho do outro, mesmo que nada nunca aconteça.

Achei lindo, mas continuei meio muda e decidi que era hora de ir trabalhar.

No caminho fui pensando no que ela tinha dito. O que faz um namoro existir? Amor, claro. Tesão, carinho, companheirismo. Admiração, respeito mútuo, interesse pelo que o outro traz para a sua pauta. Permeabilidade, infiltração, entrega. Eu nunca tinha colocado os sonhos de cada um nessa equação. Os planos, sim. Os projetos também. Mas os sonhos, eles me haviam escapado.

Continuei investigando o que a Zeni tinha me dito e me lembrei de uma brincadeira que eu e o Rafa fizemos um dia que era contar um para o outro como é o cotidiano ideal. E essa rotina foi se fazendo de elementos dos sonhos dos dois. Dos meus, entrou o mel feito no meu apiário dos sonhos. Dos dele, entrou uma cachoeira dos sonhos para tomar banho.

Então eu fiquei torcendo pra encontrar a Zeni de novo e dizer: sim! Sonhamos os sonhos um do outro. Mesmo que eles nunca aconteçam. Daí, veja só você, eu ontem estava lendo a Folha e, como era quinta, era dia de ler a coluna do Calligaris. E ela dizia:

Em outras palavras, é possível e, às vezes, necessário renunciar a nossos sonhos, mas é preciso escolher como parceiro alguém que goste desses sonhos e dos jeitos um pouco malucos que usamos para acalentá-los (no caso de Pender, passeios por Paris à meia-noite e na chuva).

No meu, a narração do cotidiano ideal.
E terminava assim:

Se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja; molhe-se.

Conclusão 1: caralho, como eu sou sortuda.
Conclusão 2: a Zeni deveria ter uma coluna na Folha.
Conclusão 3: tomara que ela não queira reajustar a faxina pela tabela do Calligaris, que aí eu tô fudida.

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2 Respostas para “A diarista e o colunista

  1. A Zeni e uma genia! também nunca havia colocado os sonhos na balança ou nomeado essa categoria como algo importante, mas de fato e. A Zeni tem toda a razão!

  2. heloisa, que condução mais graciosa. adorei o texto, a zeni e o argumento. e o seu jeito de contar a história tbem :)

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