Bem-vindo ao mundo, Sudão do Sul

Parabéns a Goran Tomasevic, da Reuters, que captou esse lindo momento buscapé

Nasceu no sábado o Sudão do Sul. Ele já é um dos países mais pobres do mundo e já vem com uma guerra no horizonte. É que os caras ali não se entendem direito. Eles moravam todos no Sudão, quase se dizimaram uns aos outros (até onde eu sei, uns quase exterminaram aos outros num conflito que poderia ter acabado por W.O.). Pois bem, agora eles se dividiram em dois países.

Parece pouco emocionante?, ouça essa:

“Meu corpo inteiro se sente feliz”, diz George Garang, professor de inglês que perdeu pai, avô e 11 irmãos na guerra.
(New York Times)

O Sudão agora tem maioria árabe. O Sudão do Sul é de maioria animista e católica. Claro que não dá pra simplicar a guerra que já dura décadas (há quem diga duas, há quem diga cinco, depende do marco inicial, não quero me aprofundar nisso) e fez mais de 2 milhões de vítimas em uma briga árabes versus não-árabes.

Tem reserva de petróleo (a maior parte no Sudão do Sul), área de pasto (no Sudão do Sul, que é onde tem água), cabeças de gado (no Sudão do Sul, que é onde tem pasto), pobreza (no Sudão do Sul também) e uma boa dose de loucura na combinação que foi dar em machadadas, refugiados, vilas devastadas e estupros sistemáticos em uma guerra civil hiper cruel dessas que duram tanto que acabam sendo ignoradas pelo noticiário depois de um tempo. A história é tão complicada e dá tanta volta que, lá, o Bush é um mocinho pacifista.

Só porque os macacos andam reinando por aqui: um deles apareceu no ensaio da cerimônia de independência. Obrigada a Goran Tomasevic, da Reuters

O que o Sudão e sua guerra civil interminável e o massacre brutal (só neste ano, morreram mais 2 mil sudaneses) e o novo país que já nasce na pior estão fazendo aqui, neste blog tão dado a amenidades?

Eu curto o Sudão. Eu curto muito o Sudão. E eu morro de vontade de ir pra lá. Mas aí esses caras ficam se matando e atrapalham bem esse meu projeto.

Essa vontade começou por onde começam quase todas as vontades de ir a lugares exóticos: livros. Foram dois os que me fizeram ir ao Sudão. E eu recomendo fortemente a leitura de ambos.

Amkoullel – O Menino Fula, que reúne as histórias de Amadou Hampâté Bâ, e O Que é o Quê, que conta a história de Valentino Achak Deng.

Amadou Hampâté Bâ é um griot, um contador de histórias e guardião dos conhecimentos fula. Ele nem é sudanês, é do Mali. Mas é de antes de um monte dessas divisões, então ele vivia numa região que compreendia o Sudão (é arco de alguma coisa, algum rio, que pega Mali, Níger, Chade e Sudão, agora fale tudo isso bem rápido: Mali, Níger, Chade, Sudão. Eu sempre acabo falando Mali, Níger, Chade e Chudão, haha).

A mágica desse livro é a seguinte, pelo menos pra mim foi assim: leia a história da guerra civil sudanesa e em cinco minutos você odeia os árabes malditos da milícia Janjaweed que saem pelas vilas matando os africanos não-árabes que têm uma cultura ancestral e tradições super lindas e conectadas com a natureza e o ciclo da vida. Daí você conta um-dois-três e isso aí vira: detesto árabes. Daí você lê o livro do Amadou e reconstrói esse raciocínio. Os africanos muçulmanos não são uns carniceiros malditos. Eles têm tradições igualmente lindas e conectadas com a natureza e o ciclo da vida. (Os Janjaweed são carniceiros malditos e merecem ser levados a tribunais por crimes contra a humanidade.) Toda vez que eu acho que estou correndo o risco de colocar árabes do lado mau do mundo por causa de coisas que um punhado de débeis mentais faz, lembro desse livro e do quanto ele desperta o amor por essa cultura.

O Que é o Quê conta a história em outra época e de outro ponto de vista. Estamos no Sudão, a guerra está começando e Valentino é um garoto perdido. Garotos perdidos são crianças sudanesas que fugiram sozinhas, provavelmente já órfãs, se refugiaram em países vizinhos, como a Etiópia, e depois foram levadas por ações humanitárias aos Estados Unidos. Valentino mora em Atlanta e contou sua história, como se fosse um griot, a Dave Eggers. O livro é de ler com um rolo de papel higiênico do lado, tamanha a sucessão de tragédias.

A mágica desse livro é a seguinte: o Sudão que estava lá longe de repente fica aqui perto. O problema distante passa a ser seu também. Na verdade ele já era. Só você que não sabia.

À parte esses dois livros, tem a Alek Wek, a modelo mais linda da história mundial na minha modesta opinião, sudanesa. Se você olhar bem para as fotos dos sudaneses, vai ver que são milhares de Alek Weks, que em vez de ficar se matando, poderiam bem virar modelo e ganhar uma grana. Mas isso é bobagem, voltemos ao Sudão.

Essa é a Alek Wek, em foto de Steven Meisel

Essas pessoas são bonitas demais. Esse é um membro do grupo étnico Mundari. A foto é de Roberto Schmidt, da agência France Presse

O que eu queria dizer é que eu torço, com todas as minhas torcidas, para que esses caras se entendam.

Torço muito para que eles percebam que quase tudo que eles vêm tentando resolver na base do massacre fica mais bem resolvido com uma boa conversa. Se eles não falam a mesma língua, chama intérprete ou arrisca, sei lá, uma dança, algo menos destruidor. Eu sei que isso parece papo de criança da quinta série, mas eu torço para que esses caras fiquem em paz.

Obrigada a Tyler Hicks, do New York Times, por essa linda foto do povo dançando pra festejar

Torço que a turma toda se entenda, não só no Sudão, e descubra que pode ter animista em país de árabe, pode ter judeu em país cristão, pode ter árabe em país animista, pode ter budista em país cristão. Deixa o cara rezar pra quem for, que no fim as rezas chegam todas pro mesmo cara, coitadinho.

É claro que os três quartos de reserva de petróleo que ficaram no Sudão do Sul atrapalham esse papo de quem reza pra que Deus, mas não custa nada torcer. Tem outra treta. Vou tentar explicar sucintamente:

A guerra que rolou até agora, como já disse, é basicamente árabes contra não-árabes. Pois bem, eles se dividiram. O Sudão agora é árabe. E o Sudão do Sul, animista e católico. E aí a porca torce o rabo de novo. É que lá tem um punhado de grupos étnicos diferentes (o que quer que isso queria dizer) e já há quem preveja que esses caras vão começar a se matar para ver quem vai mandar no recém-nascido país. Parece sem-fim…

Mas eu sigo aqui torcendo. Torcendo muito para que eles não entrem numas e consigam, juntos, construir um país mesmo com tudo jogando contra. Sigo aqui esperando o dia em que todo mundo vai poder ir visitar o Sudão e o Sudão do Sul e voltar que nem griot, contando um monte de histórias legais.

Obrigada a Phil Moore, da agência France Presse, por ter fotografado essa linda sudanesa

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4 Respostas para “Bem-vindo ao mundo, Sudão do Sul

  1. Post lindo, imagens lindas, povo lindo… e eu aqui achando que o mundo inteiro devia conhecer o Sudão e toda a África. Beijos

  2. “Good fences make good neighbors.” — Robert Frost (from “Mending Wall”)

  3. Ótimo Post Helo.. as vezes queremos fugir das amenidades e pensamos 10 vezes antes de fazer.. mas da sempre tudo certo! rs
    Estou me cocando para ler este livro agora!

  4. Povooooooooooooooooooooo lindoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo,gostode gente alegre,sempre feliz….. Eu querooooooooooo ir para Sudão um dia !!E quero conhecer as pessoas maravilhosas de lah!!Ameiii esse povoooooooooooooo ♥♥♥♥♥♥<3♥♥♥♥♥♥!!!Bjokasssssssssssssssss

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