O vizinho estragou Heal the World

Todo domingo, não falha um, um vizinho aqui perto de casa coloca Heal the World, do Michael Jackson, para tocar. A primeira execução é sempre no fim da manhã. Durante a tarde, ela pode se repetir mais umas 3 ou 4 vezes, intercalada a outras músicas que não conheço ou que conheço mas não sei o nome.

Eu gosto de ouvir as músicas do vizinho. Simpatizo com quem acorda no domingo e cria um clima. Eu capricho no café da manhã, preparo tapioca, cuscuz, café e separo o jornal, crio meu clima ‘breafast at comercial de margarina’. Ele cria o clima dele ouvindo as músicas de que gosta todo santo domingo. Estamos juntos nessa, nunca vou reclamar dele.

Mas hoje, apenas hoje, depois de anos e anos de convivência com o setlist dominical notei que ele teve um efeito colateral gravíssimo, que abala a própria noção de quem eu sou.

É que uma das esquisitices que eu cultivava como sendo parte desse personagem a que eu chamo de eu era o fato de eu nutrir uma relação muito forte com Heal The World. Era, ao lado de You Are Not Alone, a minha música favorita secreta do Michael Jackson. Em público eu sempre direi que é Billie Jean. Mas aqui dentro sei que na verdade sou brega e sentimentalista e gosto mesmo de Heal the World e You Are not Alone. Tipo vamos todos juntos salvar o mundo, as crianças da África, vamos odiar a guerra e você não está só, estamos juntos, eu estou aqui, mesmo que estejamos longe.

E eu curtia muito essa minha verruga musical. Me afeiçoei muito a ela nos últimos tempos, tempos de voga do Michael pelo mais triste dos motivos, a morte.

Pois hoje, quando eu tostava duas fatias de pão germânico da padaria Aracaju (uma delícia, recomendo) com manteiga e passava o café, depois de já ter preparado uma colorida salada de frutas e ter transformado o leite em espuma para fazer a minha cena “o mundo pode cair, mas o meu café da manhã sempre será incrível” começou a tocar a Heal the World de todo santo domingo e eu percebi que o vizinho estragou minha verruga.

Eu não gosto mais da música. De tanto ouvi-la, de ouvi-la todo domingo, banalizou. Fodeu. Ela não é mais minha música favorita do Michael empatada com You Are No Alone. Agora You Are Not Alone está alone. Mas em público eu vou sempre dizer Billie Jean.

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3 Respostas para “O vizinho estragou Heal the World

  1. Eu ri muito…

  2. Que texto ótimo! Se fosse comigo na terceira semana já tinha mandado uma bomba pra ele.

  3. Cândice Guzmán

    Sei como você se sente. Tenho vizinhos e trilhas sonoras pra todos os desgostos. Um deles sempre coloca as músicas de acordo com a época do ano + datas comemorativas. Então se é carnaval, como moramos em Recife, rolam todos os frevos possíveis. As festas juninas nunca passam em branco, e no natal a vila fica parecendo uma loja de departamento em decadência. O repertório vai de Roberto Carlos até Simone com requintes de John Lennon e a sua Happy Xmas.
    Mas ele não é o pior. O sentimento de desgostar não vem dele, e sim da pior vizinha ever. Uma mala que escuta Shakira, Gal Costa, Raul, Lady Gaga, Shakira, Beatles, Shakira… NO SHUFFLE + REPEAT. Claro, na tentativa de compartilhar sua pseudo intelectualidade, joga um Beatles alí e acolá, e pra dizer que é alternas, grita como uma louca junto com o Raul. Lembro de quando o Paul veio tocar aqui em Recife. Passei uma semana ouvindo os hits do cara, que ela não parava de tocar. Não consegui ir ao show. Ela nunca mais escutou o Paul, mas o Raul segue firme, forte e morto. Shakira es parceira también.

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