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É, tatuagem é permanente

Quando eu tinha 18 anos, eu era anarquista. Autoridade, hierarquia, até as fronteiras entre países, tudo isso me sufocava. Eu desejava um mundo sem poder centralizado em figura nenhuma, nem Estado nem Mercado. Odiava tudo que impusesse algo. Queria ser livre.

E na minha imensa profundidade de então (de lá pra cá consegui ficar ainda menos profunda), decidi que o símbolo da opressão era a lei da gravidade. Essa maldição que nos mantinha presos ao chão. Ela era a prova última de que nunca seríamos livres (e daí vieram mil delírios de fazer mudança para o espaço sideral, único lugar em que se experimenta a liberdade total. Ainda sonho com o dia que poderei experimentar a ausência da gravidade, mas hoje já não tenho mais angústias infinitas quando percebo que estou colada ao colchão quando deito para dormir – acredite, isso era o motivo de muita angústia na minha profunda alma adolescente e anarquista).

Como além de ser livre eu queria muito ser engraçada, eu também me afiliava intelectualmente aos abolicionistas penais, um grupo que previa a extinção de todas as leis – “inclusive a da gravidade”, dizia eu, com um sorriso meio ensaiado, misturando um grupo de estudiosos sérios a uma ideia de desenho animado (eu tinha assistido um episódio de A Vaca e o Frango ou Eu Sou o Máximo, não lembro mais, em que os personagens viravam legisladores e revogavam a lei da gravidade e tudo voava, depois eles revogavam a lei apenas para vacas, apenas para geladeiras, apenas para isso, apenas para aquilo, e tudo ficava caindo e voando, era engraçado).

Parêntese:
Eu deveria esperar fazer 36 anos para escrever este texto. Porque a partir de lá vai fazer mais tempo que eu convivo com a tatuagem do que o tempo que eu não convivi com ela. Mas deu vontade de falar isso hoje, depois de ler este texto aqui.

Bom, meu anarquismo-abolocionista-penal somado à certeza de que eu deveria sempre lembrar da angústia de não ser livre me fizeram tatuar nas costas um par de asas.

Quác! diria eu, hoje, desafiando a Helô de 18 anos a revisar a falta de lógica desse salto de pensamento. E quác, eu digo, às vezes, quando vejo as asinhas meio tortas, meio pequenas, meio desbotadas, uma delas tem até um erro mesmo, uma pena que começa direito mas termina errada porque na hora que a agulha bateu no osso da costela eu dei um pulo e o risco foi pro lado (tipo aquele comercial, lembra, de uma mulher que ia cortar o cabelo e o cara ligava a máquina e ela espirrava e ele cortava sem querer um monte de cabelo).

Mas por mais defeitos que essas asinhas tenham e por mais que às vezes eu pense que preferia ter as costas lisas, livres de desenhos e principalmente livres de desenhos com penas erradas, eu adoro o bilhete que a Helô-anarquista-abolicionista-penal-de-meia-tigela deixou pra mim. Esse bilhete-lembrete me faz sempre lembrar que imposições existem para ser contrariadas, que tudo deve ser questionado e, de preferência, mudado e, de preferência, para melhor (ainda hoje, tantos anos depois, eu me vi pensando, na janela, que quem diz que regras são regras esquece de notar que não existe nenhuma regra dizendo que as regras não podem ser mudadas, o que invalida, portanto, todas as regras. Percebam como a lógica dessa minha cabeça oca não evoluiu tanto assim).

A diferença é que aos 18 eu achava que todas as imposições eram pequenas prisões, jaulinhas doidas para conter um pedaço da minha vida. Hoje, vejo cada uma delas como um convite a um exercício de achar a brecha e ser livre. Parece que tudo virou ao contrário. Acho que a Helô de 18 anos se orgulharia de ler isso aqui. Do mesmo jeito que eu me orgulho do que ela escreveu nas minhas costas, embora, hoje, ache super cliché.

Dez anos depois, quando fui fazer a tatuagem que fica sobre o meu cotovelo direito, pedi para o tatuador dar uma olhada para ver se rolava cobri-las. Quando eu levantei a blusa e ele viu a tatuagem, soltou um:

— Ah, asinhas…

Ele falou algumas coisas sobre como teria de trabalhar para cobri-las e perguntou em que tipo de desenho eu pensava. Sem pensar muito respondi:

— Asinhas, sei lá, mais bem desenhadas.

Ele não entendeu nada, soltou um “outras asinhas?!”, fez uma cara engraçada e me disse tchau.

Elas continuam aqui. Decidi não cobrir e me recuso a apagar tatuagem, assim como eu não retiro o que eu disse (embora seja a primeira a pedir desculpas quase sempre). E apesar de preferir ser essa metamorfose ambulante, sei bem que o princípio que levou a pseudo-anarquista de 18 anos ao estúdio de tatuagem continua aqui inteirinho. Um pouco transformado pelos anos, talvez levemente amaciado, mas ainda assim aqui.

As vantagens e as desvantagens de não saber falar bem um idioma

 

Estávamos em um café na rambla de Montevidéu. Fazia calor e, naquele dia, meu filho vestia uma camiseta rosada. A senhora-caolha estava na mesa ao lado e elogiou nossa filha:

– Ela tem um olhar muito vivo. Dizem que é sinal de inteligência.

Agradecemos e, em seguida, o Rafa corrigiu:

– Es varón. (Sei lá como escreve em espanhol, mas diz ‘é barón’ e quer dizer que é menino.)

Foi a senha para ela sentar mais perto para conversar mais. Eu fui ao banheiro trocar o barón que tava todo cagado.

Quando voltei, a vovó-pirata me disse umas tantas coisas dentre as quais eu pesquei que ela tinha achado prafrentex que a gente usasse roupa rosa no nosso filho. Contou que tinha umas fazendas a leste de Montevidéu, que tinha 85 anos e se chamava Silvia, mas que todo mundo a conhecia como Bimba, o que faz dela uma autêntica Tia Nenê da banda oriental do rio Uruguai (Bimba é Nenê, e eu me fascino com as velhas-nenês, essas oxímoras em extinção).

Dei a maior bola pra avuela-de-un-ojo. Ela encerrou a conversa, o Rafa mandou um galanteio (gracias por la charla), que arrancou dela um elogio (que gentil é o seu marido), que, por sua vez, arrancou de mim um agradecimento e um auto-elogio (obrigada, eu escolhi muito bem).

Lá pelas tantas ela foi embora do café. Eu fiquei olhando e fiz um pensamento bem positivo para ela, uma coisa tipo “que-sua-vida-seja-ótima,-tia-nenê-pirata”.

Daí veio o Rafa:

– Você não entedeu direito o que ela te disse, né?

E eu:

– Hãn? O que? Em que momento?

– Quando você voltou do banheiro, você não entendeu tudo o que ela disse.

– Não, acho que não.

– Ela disse:  “Olha! Você parece um homem”.

Burn in hell, véia zarolha.

O vizinho estragou Heal the World

Todo domingo, não falha um, um vizinho aqui perto de casa coloca Heal the World, do Michael Jackson, para tocar. A primeira execução é sempre no fim da manhã. Durante a tarde, ela pode se repetir mais umas 3 ou 4 vezes, intercalada a outras músicas que não conheço ou que conheço mas não sei o nome.

Eu gosto de ouvir as músicas do vizinho. Simpatizo com quem acorda no domingo e cria um clima. Eu capricho no café da manhã, preparo tapioca, cuscuz, café e separo o jornal, crio meu clima ‘breafast at comercial de margarina’. Ele cria o clima dele ouvindo as músicas de que gosta todo santo domingo. Estamos juntos nessa, nunca vou reclamar dele.

Mas hoje, apenas hoje, depois de anos e anos de convivência com o setlist dominical notei que ele teve um efeito colateral gravíssimo, que abala a própria noção de quem eu sou.

É que uma das esquisitices que eu cultivava como sendo parte desse personagem a que eu chamo de eu era o fato de eu nutrir uma relação muito forte com Heal The World. Era, ao lado de You Are Not Alone, a minha música favorita secreta do Michael Jackson. Em público eu sempre direi que é Billie Jean. Mas aqui dentro sei que na verdade sou brega e sentimentalista e gosto mesmo de Heal the World e You Are not Alone. Tipo vamos todos juntos salvar o mundo, as crianças da África, vamos odiar a guerra e você não está só, estamos juntos, eu estou aqui, mesmo que estejamos longe.

E eu curtia muito essa minha verruga musical. Me afeiçoei muito a ela nos últimos tempos, tempos de voga do Michael pelo mais triste dos motivos, a morte.

Pois hoje, quando eu tostava duas fatias de pão germânico da padaria Aracaju (uma delícia, recomendo) com manteiga e passava o café, depois de já ter preparado uma colorida salada de frutas e ter transformado o leite em espuma para fazer a minha cena “o mundo pode cair, mas o meu café da manhã sempre será incrível” começou a tocar a Heal the World de todo santo domingo e eu percebi que o vizinho estragou minha verruga.

Eu não gosto mais da música. De tanto ouvi-la, de ouvi-la todo domingo, banalizou. Fodeu. Ela não é mais minha música favorita do Michael empatada com You Are No Alone. Agora You Are Not Alone está alone. Mas em público eu vou sempre dizer Billie Jean.

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No ouro do brasileiro, a língua do chinês

Eu gosto médio de Olimpíadas, trocaria fácil Olimpíadas por Copa, para a gente ter com mais frequência aquela rotina de encontros com os amigos no meio da semana típica de jogo do Brasil, mas agora que moro com a Lu, uma entusiasta dos esportes olímpicos, me deixei contaminar e tenho visto algumas provas em horários em que normalmente eu estaria fazendo outras coisas – em geral mais úteis.

Faz algumas horas que o Brasil levou o ouro nas argolas. E dessa competição histórica e emocionante, a minha cena favorita não envolve o brasileiro. É que eu fiquei muito tocada, mas muito tocada mesmo, quando o chinês, medalha de prata, ao aterrisar perfeitamente de sua sequência de equilíbrios e cambalhotas, abriu um sorrisão e mordeu a língua.

Eu simpatizo muito com as pessoas que mordem a língua em momentos de muita emoção. Eu mordo a língua quando faço força, o que sempre rende uma ou outra piadinha. Quando eu era uma criança e adolescente karateca, o meu sensei, que é como karatecas chamam o professor principal, sempre fazia troça: “Cuidado com a língua, Helô. Se você tomar um uraken, vai cair um pedaço fora”. Meu pai morde a língua quando precisa se concentrar, por exemplo, se precisa passar a linha pelo buraco da agulha.

Só quem tem o cacoete de morder a língua sabe o quanto ele é incontrolável. É dessas coisas que mostram o quanto o corpo pode ter vontade própria. Então quando o cara terminou a sua apresentação cravado, perfeitinho, lá foi a língua para o meio dos dentes.

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Hoje vou ao Bar Balcão

Na minha separação, dois anos atrás, na divisão de bens, o Bar Balcão ficou com o meu ex. Foi a primeira coisa que decidimos. A conversa foi assim:

– É isso mesmo?
– É.
– Então é isso, né? É.
– É isso? É.
– Tá.
– Tá.
(breve silêncio)
– E quem vai ficar com o Balcão?

A discussão foi longa. Ele conhecia o bar primeiro. A primeira vez que fui lá, foi porque ele me levou. Mas, no caminho para o banheiro, tem um quadrinho com um texto meu para o Divirta-se falando sobre o hamburguer do Dudu (é verdade que eu tive a manha de errar o endereço, mas quando você vai sempre ao lugar, o endereço acaba perdendo relevância). E eu sou jornalista e todo mundo sabe que o Balcão é bar de jornalista. O que naturalmente deixaria o Balcão comigo.

Bem, como eu queria muito ficar com o sofá e com um quadro de luta-livre mexicana (ambos itens potencialmente polêmicos na hora de decidir o que era de quem), cedi o Balcão para garantir El Enmascarado de Plata.

Banida no Balcão, passei a frequentar o Bar da Dida (que eu já frequentava e sempre esteve na lista de bares favoritos). Eu achei bom mudar de ares, e os ares tinham definitivamente mudado. Embora não tenha nem mudado de quadra.

Mas como as regras são feitas para serem quebradas – e eu tenho meus informantes – quando o ex tá viajando ou dormindo (tenho a impressão de que a notivaguice ficou pra mim), volta e meia eu volto o Balcão. Já cheguei lá bem tarde, meia dúzia de gato-pingado, pra tomar dois bloody marys e falar mal do jantar afetado que nunca terminava num restaurante ali perto. E quando marco de encontrar amigos lá, amigos que sabem que fui banida do bar, adoro os primeiros momentos da conversa, em que faço uma cara de clandestina e digo: ‘eu não poderia estar aqui’.

Por obra do destino, a dona do Bar Balcão ficou sabendo dessa história e decretou:

– Ela pode vir aqui sim!

Bom, ela é a dona do estabelecimento, né. Então hoje, se o Bar Balcão abrir, eu faço questão de ir lá tomar um chope.

Quero manifestar meu carinho aos garçons, que ontem à noite foram agredidos no mais recente caso da onda de arrastões que parece querer dar o tiro na testa, aquele último, com indícios de execução, na vida paulistana.

Eu aceitei abrir mão do Balcão na divisão de bens. Mas me recuso – me recuso – a permitir que roubem o Balcão (e o Carlota, e a pizzaria Bráz etc etc e os resturantes e o bares e os bares que abrem às segundas-feiras e as pessoas que vão a bares na segunda-feira e essa coisa paulistana de se achar capital da gastronomia e da vida noturna mundial, que é um pouco jeca, mas tem uma graça toda própria) de mim e de todo mundo. Vamo?

PS. Ontem eu fui ao Dry, bar que não combina muito com meu estilão, e, na volta pra casa, passei na frente do Balcão. Era tipo meia-noite e pouco. E eu pensei: ai, a gente podia parar pra tomar uma saiderinha no Balcão. Mas era segunda-feira e o pessoal aqui em casa acorda cedo e tava aquela neblina toda sugerindo cama-cama-cama-cama. Um hora depois, cinco homens armados renderam um garçom do Balcão que estava fechando a casa, roubaram os poucos clientes que deviam estar insistindo naquela última rodada, e agrediram os garçons para roubar o caixa, de onde levaram R$ 200. Agrediram os garçons, mano. Os garçons do Balcão. Que são os garçons mais legais do mundo depois do Eugênio, o garçom do Prainha (de Higienópolis, não da Prainha da Paulista).

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O cobrador mágico

Olhando de fora, parece um ônibus de linha. Mas não é. É uma máquina de alegria. Funciona assim: você entra pela porta da frente cansado, desanimado, mal-humorado, tristonho, pensativo, o que for. E sai pela porta de trás feliz. Certo de que o Homem é bom. Certo de que vai dar tudo certo. De que estamos no caminho certo.

Esse ônibus especial faz a linha 719-P (Metrô Armênia-Pinheiros).

E o motor dessaa máquina de alegria responde pelo nome de Chicão. Olhando de fora, ele é cobrador. Mas isso é só disfarce. Eu não decidi ainda direito o que ele é na verdade. Preciso da ajuda de vocês. Vou me esforçar para descrever bem o Chicão.

(Mas antes de começar a falar do Chicão, um breve parêntese sobre mim mesma. Vejam como eu sou sortuda. Eu pego o ônibus do Chicão para voltar da terapia para casa. Da terapia, mano. Então quando digo que se você está tristonho, pensativo, desanimado o que for, o ônibus do Chicão te deixa feliz é porque SEI do que estou falando.)

Funciona assim. Você está na Teodoro Sampaio, aquele trânsito, aquela confusão. Aí entra no ônibus e ao passar na roleta ouve:

– Bom dia, minha linda.

Toma um susto, olha pra frente e dá de cara com um sorriso gigante, branco, num rosto bem preto, careca.

Daí mal dá tempo de responder e ele já está falando com a pessoa de trás:

– Oi, minha linda, tudo bom com você hoje? Mas você tá linda demais hoje, não quer namorar o negão, não?

Daí você olha pra trás e vê uma senhorinha meio rindo meio envergonhada, que estende a mão pro Chicão beijar.

E se entra um homem, não tem problema. É bom dia, meu lindo. Meu querido, minha linda, meu amor, gata. Nesse ônibus, todo mundo é lindo. Todo mundo sorri, dá risada. Todo mundo conversa. O Chicão vai comandando o papo e as descidas.

– Avenida Angélica, até número 2.600 é aqui. Prédio tal, laboratório sei lá qual, conjunto das quantas? Desce aqui.

E vai avisando parada a parada. Cadê a minha linda que queria descer no Lavoisier? É aqui, gata, pode descer. Xuxu, você ainda não, seu ponto é mais pra frente, confia no negão que eu não esqueço não.

Daqui a pouco aparece um jornalzinho Destak. Quem quer ler jornal? Tem dois aqui. Tó. As pessoas pegam o jornal pra ler e quando acabam passam pra outra pessoa que manifestou que também queria ler. E quando todo mundo termina de ler o jornal volta pro Chicão que pergunta de novo: Quem quer ler jornal? Táqui meu lindo, depois passa ali pra minha linda de vermelho que ela quer ler também. É transporte coletivo. (Toda vez que ando no ônibus do Chicão penso nisso. Isso sim é que é transporte coletivo. Todo mundo está junto ali dentro. É o contrário daquela chatice de gente obstruindo a porta, gente que não percebe o outro. Hoje mesmo parei pra olhar com atenção e ninguém, ninguém, estava com fone de ouvido. Todo mundo estava ouvindo o papo do Chicão.)

Aí entra uma mulher. E grita. AAAAAAH! Meu amor! Quanto tempo! Chicão, você é a pessoa mais linda do mundo! Eu amo você. E o Chicão quase chora. Ah, minha doida, não faz isso com o negão!

Fazia tempo que eu não via o Chicão. Tava até pensando em ligar pra SPTrans pra perguntar se ele tinha mudado de linha ou se aposentado (porque numa viagem, há algum tempo, eu lembro de ele ter dito que queria aposentar). Então quando entrei no ônibus e vi o Chicão quase que não acredito. Quando fui passar na roleta puxei papo:

– Tava sumido, Chicão!

E ele:

– É que eu tô ficando folgado. Só faço dias viagens agora. Tá na hora de aposentar, viu, minha linda. Trabalho há 39 anos. 16 nessa linha. Tem que parar antes de ficar chato.

Fiquei ali bem perto pra poder fazer umas perguntas pra ele. Mas antes que eu pudesse começar, ele emendou:

– Já comprei até meu filtro solar. Quero aposentar e ir pra praia, aprender a nadar, beijar na boca e transar na areia. Já imaginou que loucura?

A mulherada começou a chiar. Ah, não, Chicão. Você não pode aposentar. O que vai ser da gente? Perguntei o que faltava pra ele se aposentar. Idade. Chicão tem 53 anos.

Começou maior rasgação de seda pro Chicão. E ele foi me dizendo: Sabe, gata, a gente vai criando amizade. Vê aqui: essa aqui, minha loira, eu amo ela. E essa outra (se estica inteiro pra pegar a mão de uma passageira), é meu amor. Eu amo você, minha linda. Aquele ali (aponta um senhor sentado, que olha pra ele sorrindo) é meu amigão. Eu fico amigo dos meus clientes. E vai ficando difícil.

É muito amor nesse ônibus.

Todo mundo entra na dele. Chicão, se você parar, todo mundo vai chorar de tristeza. O Chicão vai se emocionando.

– Ai, assim eu vou chorar. Vocês, viu… eu preciso aposentar. Se não vou virar um chato. Vocês vão fazer o negão chorar desse jeito. (Silêncio) Não, eu não vou chorar.

Então ele começa a contar a história do Meu Pai. Um cobrador de uma linha que não me lembro mais qual é e que está na mesma linha há trinta e sei lá quantos anos.

– O Meu Pai foi fazendo amizade com os clientes da linha, todo mundo conhece ele. Só que os clientes do Meu Pai foram morrendo. Morreram todos os amigos dele da linha. E hoje ele é um chato.

Cá com meu egoísmo, eu torço pro Chicão virar um chato e se aposentar só depois da hora da nossa morte. Amém.

PS. Hoje os ônibus estavam em média 1h30min atrasados por problemas no trânsito. O 719-P estava abarrotado. Fazia muito tempo que os passageiros estavam esperando o ônibus. Todo mundo entrava bufando, atrasado. Uma mulher reclamou com o Chicão. Faz uma hora que estou no ponto esperando! E o Chicão: não briga comigo, minha linda, tá tudo parado. Era pra gente já estar na Armênia a essa hora. Eu não vou ao banheiro desde as 6h30 da manhã. Se desse para dar um nozinho na ponta pra eu não fazer xixi na calça, juro que eu dava. E a mulher, que tava toda emburrada, riu, pediu desculpas e emendou – É só um desabafo.

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Conversa com o limoeiro

Eu estava saindo de casa na sexta-feira à noite para ir para o sítio quando me dei conta de que ia esquecendo o carregador de bateria do celular. O Rafa perguntou: quer voltar? Eu disse não. Mal terminava de colocar o til no a quando lembrei das fotos que não poderia postar no Instagram. Mantive o não e partimos.

O Instagram, essa linda versão ilustrada e editada da vida, formula, automaticamente, um projeto editorial fotográfico. (Na minha opinião, é a coleção de momentos em que eu consegui tirar uma foto, na minha vida real, da vida que eu quero ter). E nesse projeto editorial, sítio vai bem.

Quando amanheceu e eu dei uma volta no pomar, arrependi. O maracujá estava florido. Mexerica, limão, laranja, pitanga, tudo apinhado. Bolo quente saindo do forno, pamonha fumegante saindo da panela e o café de coador de pano envolto numa nuvem de vapor, porque tava frio pra chuchu. Aliás, tinha um monte de chuchu. As cestas cheias de hortaliças recém-colhidas. Os ramos de alecrim com flores minúsculas, alface verdinha, couve. E quando saiu a comida, os pratos de ágata com arroz, feijão e costela com canjiquinha, quase que eu choro. Queria todas essas fotos. Tudo com o filtro Earlybird, aquele em que é seis da manhã para todo o sempre.

Fui refletir no pomar: se meu projeto editorial é tão matinal e campestre, o que estou fazendo longe da fazenda?

Primeiro, tive meu pé parcialmente comido por formigas (isso que dá insistir em não usar sapato). Mas não recuei, fiquei na frente do limoeiro e comecei a pensar.

Se essa imagem me importa tanto, será que eu consigo entender cada pedaço dela? Consigo descrever esse limoeiro? Contar para todo mundo como ele é? Eu conseguiria descrever o tronco e as curvas dos galhos, como um limão nasce perto do outro, como tem um limão que está difícil de pegar porque ele ficou preso no meio de três galhos, como o destino dele é apodrecer no pé, porque tem tanto limão ali que ninguém vai insistir em desemaranhar aquele?

Dá para explicar como é difícil de tirar o limão do pé sem romper o umbigo dele, como você precisa fazer que saia, junto do limão, um pedacinho de galho, porque se não faz um buraco e ele apodrece rápido? E será que eu consigo confessar, sem ficar com vergonha, como me sinto boba de não saber o que é limão e o que é mexerica, porque esse limão é tão amarelinho que parece mexerica? Que o único jeito de decifrar foi morder um e outro e fazer careta e dar risada.

E já que eu tava plantada na frente do limoeiro, decidi ir fundo e fazer uma pergunta pra ele.

Meu limão, meu limoeiro, é isso mesmo? É pra viver no campo? É vontade de verdade ou é só para tirar foto? Dá pra mudar agora mesmo ou só quando aposentar? Os amigos vêm visitar? Vai dar saudade? E dá pra matar a saudade comendo grumixama?

Ele respondeu:

Uma vez tindolelê, outra vez tindolalá.

 

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