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As vantagens e as desvantagens de não saber falar bem um idioma

 

Estávamos em um café na rambla de Montevidéu. Fazia calor e, naquele dia, meu filho vestia uma camiseta rosada. A senhora-caolha estava na mesa ao lado e elogiou nossa filha:

– Ela tem um olhar muito vivo. Dizem que é sinal de inteligência.

Agradecemos e, em seguida, o Rafa corrigiu:

– Es varón. (Sei lá como escreve em espanhol, mas diz ‘é barón’ e quer dizer que é menino.)

Foi a senha para ela sentar mais perto para conversar mais. Eu fui ao banheiro trocar o barón que tava todo cagado.

Quando voltei, a vovó-pirata me disse umas tantas coisas dentre as quais eu pesquei que ela tinha achado prafrentex que a gente usasse roupa rosa no nosso filho. Contou que tinha umas fazendas a leste de Montevidéu, que tinha 85 anos e se chamava Silvia, mas que todo mundo a conhecia como Bimba, o que faz dela uma autêntica Tia Nenê da banda oriental do rio Uruguai (Bimba é Nenê, e eu me fascino com as velhas-nenês, essas oxímoras em extinção).

Dei a maior bola pra avuela-de-un-ojo. Ela encerrou a conversa, o Rafa mandou um galanteio (gracias por la charla), que arrancou dela um elogio (que gentil é o seu marido), que, por sua vez, arrancou de mim um agradecimento e um auto-elogio (obrigada, eu escolhi muito bem).

Lá pelas tantas ela foi embora do café. Eu fiquei olhando e fiz um pensamento bem positivo para ela, uma coisa tipo “que-sua-vida-seja-ótima,-tia-nenê-pirata”.

Daí veio o Rafa:

– Você não entedeu direito o que ela te disse, né?

E eu:

– Hãn? O que? Em que momento?

– Quando você voltou do banheiro, você não entendeu tudo o que ela disse.

– Não, acho que não.

– Ela disse:  “Olha! Você parece um homem”.

Burn in hell, véia zarolha.

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Uma colher de doçura pela manhã

La dulzura cambia todo

A dose é fixa, quase um remédio, espécie de antídoto ou vitamina. Um colher de doce de leite por dia, por um semana, dez dias ou até sarar. Como receita médica: um comprimido, a cada oito horas, por 5 dias. Assina, carimba, aí está.

E funcionou. Mas talvez não fizesse sentido sem as referências do contexto. É que aqui no Uruguai, em todos os cafés e restaurantes, o sachê de açúcar é da marca Azucarlito e vem com um recadinho:

“La dulzura puede cambiar el mundo”

Olha, quanto ao mundo, eu não garanto, mas os meus dias, isso sim, com certeza. Foi daí, da frase do sachê da única marca de açúcar do Uruguai (e um país assim tão chiquito não precisa de mais de uma marca de açúcar) que extraí um diagnóstico (falta de doçura), uma receita médica (doce de leite), uma moléstia (azedume) e uma cura (sarei!).

Uma colher de doce de leite por dia, mirando la mar dulce, porque as referências adoçadas não param no Azucarlito.

A vista da janela do café da manhã do hotel em Colonia del Sacramento é para a praia, que aqui é de rio, o rio da Prata, chamado “la mar dulce”. É praia igual, com areia e ondinha, mas aqui o mar é doce. E a vida também. Uma colher de doce de leite por dia, pela manhã, olhando o mar doce e brincando com o sachê do açúcar que propagandeia a doçura como a solução para todos os problemas do mundo.

Essa é a receita.

La mar dulce

E tem esse outro post aqui sobre o poder da docura: “Faz zunzum pra mim

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PS: Pois é, voltei das férias. E, sim, foi incrível.