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Engata a primeira e vai

Cada pé num pedal, uma mão no volante, a outra no câmbio, um olho no gato, outro no peixe... eu, hein, prefiro ônibus

Eu não dirijo. Eu até tirei carta, mas ela está vencida há muitos anos. Eu gostava de dirigir e não lembro direito como foi que parei de gostar. Só sei que num dado momento da vida, em que havia um carro na garagem que eu poderia dirigir, essa tarefa já me parecia por demais complicada.

São algumas as complicações que me afastam do volante (e eu nem vou entrar aqui nos assuntos baliza e ladeira, muito menos na combinação baliza na ladeira).

Em primeiro lugar, eu fico confusa diante de tantos espelhos. Tem de olhar para os três e ainda olhar pelo vidro. Eu só tenho dois olhos e eles não trabalham de maneira independente, não dou conta de quatro alvos. Em segundo lugar, sabe aqueles bonequinhos que têm um tambor nas costas, uns chocalhos na perna e tocam corneta e marcham e pararatimbum, tudo ao mesmo tempo? Eu me sinto assim no carro: aperta o pedal, mexe no câmbio, vira o volante, olha pro espelho e pararatimbum. Sério, não é pra mim.

E tem mais uma coisa que me intriga, que é esse papo de mudar a marcha. Na vida, eu sou adepta do engata-a-primeira-e-vai. No carro, esse princípio dá bem certo, mas é por pouco tempo. “O carro pede”, sempre me ensinam quando eu digo que não entendo direito quando é que muda a marcha. Na verdade, da primeira pra segunda e pra terceira eu até entendo o pedido do carro. Ele dá uma espécie de gritinho mesmo. O que eu nunca saquei é o momento de reduzir a marcha…

Daí que hoje eu estava pensando nisso, não exatamente nisso, mas quase, e me liguei que essa é uma boa metáfora para a vida. É difícil saber a hora de reduzir a marcha. Eu vou nesse engata-a-primeira-e-vai e não percebo quando é hora de voltar pra marcha anterior, de pisar no freio e reduzir. Para o alto e avante, né? Pois é, às vezes não. E o que acontece quando você não faz isso direito? O carro dá aquelas engasgadas. Na pior das hipóteses morre. E daí toca dar a partida de novo.

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Ainda sobre metrô

“Na hora do rush nada como uma tristeza expressa! No ônibus lotado a tristeza não tem fim!”

Fernanda Pappalardo
Estilista e, a partir de agora, para mim, poeta

Falando em metrô

A Tati achou esse video que tem tudo a ver com esse papo de cara de metrô.

Merci!

Cara de metrô

Eu não dirijo. Tirei carta de motorista e tal, mas não dirijo, o que considero um privilégio, levando em conta que moro em São Paulo, onde tomar a decisão de dirigir é aceitar que muitos minutos do seu dia serão bem tensos.

Antonio Jorge Gonçalves viaja o mundo desenhando as pessoas no metrô; essa é em SP

Além de não dirigir, eu não gosto de andar de metrô. Não quer dizer que eu não goste do metrô. Sou a favor de que esburaquem a cidade inteira para fazer infinitas estações, o que é evidentemente a melhor solução para diversos problemas.

Mas pessoalmente, ou existencialmente até, eu não gosto do metrô. Em primeiro lugar, porque o metrô descontextualiza tudo. Você entra num buraco e alguns minutos sai de outro buraco em outro canto da cidade. Como você chegou até lá? De metrô, claro. Mas qual foi o caminho? A resposta pode parecer simples se você morou em São Paulo a vida inteira. Mas se até um dia desses você não sabia que Perdizes era vizinho da Barra Funda, não é andando de metrô que você vai descobrir.

Jorge Colombo, o cara que fez a capa da New Yorker no iPhone, depois fez a da Serrote, também tem uma série de desenhos no metrô. De NY

Prefiro andar de ônibus. O ônibus é mais ensolarado, mais ventilado. As pessoas conversam ali. Cobrador e motorista estão à vista, são os donos do pedaço. Eles ditam a dinâmica do ambiente coletivo. As conversas são mais engraçadas. As chances de uma grande interação entre vários passageiros é maior no ônibus. Eu já estive em cenas inacreditáveis em trajetos de linhas paulistanas.

Mas, voltando ao metrô, o pior mesmo, para mim, é a “cara de metrô”. Ali, no subterrâneo, naquele mundo sem contexto, todo mundo parece que lembra de todos os cansaços, todas as frustrações, tudo. E todo mundo faz cara de metrô. Olhando o nada, refazendo o dia ou prevendo como ele será. Ninguém olha pra ninguém. E quando olha, é de canto de olho e quase sempre em reprovação.

Mas eu acho que quem puxou essa fila foi Walker Evans, fotógrafo norte-americano, que tirava fotos dos passageiros com uma câmera das quantas que era bem discreta

Eu entro no metrô normal e saio de lá uns dois graus mais triste e mais preocupada com a humanidade. Baixa uma espécie de Madre Teresa de Calcutá do bom humor. “Precisamos salvar o estado de espírito das pessoas”, sempre penso quando volto à superfície.

Mais um do Gonçalves (você pode ver todos no site Subway-Life.com). Este é em NY também

PS: Por algum motivo, eu não consigo colocar link nas legendas. Então aqui vai: para ver os desenhos de Gonçalves, clique aqui. Para ver os de Jorge Colombo, aqui. E para ver os do Walker Evans, dá um Google nele (que é o que fiz aqui).

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Sexo e religião no coletivo

Este blog apoia e incentiva o uso de transporte coletivo como única alternativa viável ao problema do trânsito em São Paulo

Tive a grande sorte de testemunhar, dia desses, um debate cantado no ônibus da linha Terminal Vila Nova Cachoeira-Terminal Princesa Isabel.

Foi assim: lá no fundão do coletivo tinha um sujeito com o celular tocando alto um funk bem sacana do tipo atoladinha. E ele cantava junto, versinho por versinho, em uma letra que dizia algo como mete fundo, vai metendo, mais assim, mais assado e por aí a coisa ia.

E assim foi, por alguns minutos. Até que, do meio do ônibus, uma mulher puxou o duelo e começou a cantar, a plenos pulmões, mais ou menos assim:

– SENHOOOOOOOR, AFASTA O PECADO DE MIM, TENTAÇÃO VAI EMBORA, SENHOOOOR, LIVRAI-NOS DO PECADOOOOOOOOO TENTAÇÃÃÃÃÃÃÃÃO.

E o cara cantando as sacanagens:

– mete fundo, mete, vai, vem, isso e aquilo e de ladinho atoladinha

Durou um tanto esse improvável mashup. O cara se deu por vencido, desligou o celular, cessou a cantoria. E a mulher, então, parou de invocar os céus.

A viagem seguiu calma, sem sexo nem senhor, até que, do nada, a mulher voltou à carga celestial:

– SENHOOOOOOOR, AFASTA O PECADO DE MIM, TENTAÇÃO VAI EMBORA, SENHOOOOR, LIVRAI-NOS DO PECADOOOOOOOOO TENTAÇÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Eu tenho certeza que ela não conseguia tirar da cabeça a meteção louca que o cara tinha cantado e estava invocando JC de novo para tentar parar de pensar naquilo.

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