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O aleatório enciclopédico

 

A Enciclopédia Britânica foi impressa pela última vez. Agora, só em plataformas digitais.

Eu fico entre ir correndo comprar os 32 volumes (e dar um jeito de me livrar de 32 volumes das minhas lotadas estantes para dar lugar) ou comprar um tablet. E a última edição da enciclopédia é bem mais cara que um tablet, custa quase US$ 1.400.

Se o orçamento fosse irrestrito, comprava os dois (e contratava um marceneiro para fazer mais estantes). Mas danem-se as minhas contas. Quero falar de enciclopédias. Eu amo enciclopédias.

Elas trazem em si o mundo do acaso. São um livro mágico em que você pode ler sobre abdômens, Abraham Lincoln ou ábaco. Lá em casa não tinha Britânica. Tinha Conhecer e Larousse. E eu e meu irmão inventamos um jogo, éramos CDF, que funcionava assim: um cantava uma palavra e o outro tinha que percorrer a estante (que tinha outras coleções de biologia, história, geografia, nossos pais são CDFs também) e formular uma definição. Lembro direitinho de quando minha mãe ganhou um vaso de cyclamen e a gente descobriu que ele vinha da Pérsia, que precisava de sol e crescia de um tubérculo.

Anos depois, quando eu trabalhava no caderno de Turismo da Folha, sempre que alguém precisava tirar alguma dúvida enciclopédica e virava para o computador e começava a digitar Wikip… O editor do caderno, Silvio Cioffi, levantava apressado já com sua edição miniatura da Britânica, uma caixinha linda, com três volumes, e interrompia e ia abrindo e procurando a dúvida em questão dizendo que não dá, na Wikipedia não, tem a Britânica aqui, é menor mas é melhor. Eu adorava fuçar aqueles livrinhos, que tinham umas ilustrações delicadas e miúdas.

Daí esses dias, a gente publicou, no Link, um texto incrível do Evgeny Morozov sobre o fim do flâneur na internet. E o Luiz Américo contou que flana na Wikipedia. E é legal também flanar na Wikipedia. Ele resumiu assim: “Não é incrível começar lendo um verbete sobre pinot noir, ir pulando de link em link e acabar nos hititas?”. É lindo.

Mas aí ontem conversando sobre o fim da versão impressa da Britânica eu pensei no seguinte: uma coisa é ir para um link dentro de um verbete que, num primeiro momento, foi procurado com intenção. Outra é abrir o livro e cair num verbete como quem abre a Bíblia procurando uma luz. Abriu na página de Nsukka. E aprende que é uma cidade no estado de Enugu, na Nigéria. Onde vive o povo lgbo que cultiva milho, mandioca e inhame.

Eu nunca pensaria em digitar Nsukka.

 

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