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Solitária pride!

Me deixa entrar nas suas entranhas, viver nas suas vísceras, me internar no seus intestinos

O começo de tudo foi bem estranho. Eu estava sozinha em casa. Foi então que aconteceu. É escatológico demais até para mim. Não vou dizer como foi, mas naquele momento encasquetei que estava com um verme. Era outubro de 2009.

Segui adiante, eu tinha dez dias de recesso conjugal pela frente. Não era hora de chorar o verme entranhado.

Alguns dias depois, achei meu irmão, que é também médico, o que faz dele o meu médico pessoal em eterno plantão. Descrevi a cena acima censurada. E ele fez umas perguntas, uns testes etc e tal e diagonosticou:

– É solitária, tênia bovina, deve ter já uns belos metros e deve morar aí dentro há meses.

Solitária, metros, meses.
Solitária, metros, meses.
Solitária, metros, meses.
Solitária, metros, meses.

O diagnóstico reverberava.

Primeiro, vergonha. Era como se eu tivesse escolhido abrigar uma longa tripa parasita nas minhas entranhas. Não quis contar para ninguém, afinal, verme é coisa de gente porca.

Depois veio a campanha. É preciso desestigmatizar o verme.
Solitária pride!
Saí falando pra todo mundo.

Eu mesma fiz esse flyer bem bonito

Nesse intervalo, contei para o Dani, meu marido, que estava viajando. Via mensagem de celular:

Estou com verme. Solitária.

Ele achou que era um versinho de saudade e não um verminho de verdade.
Desfeita a confusão, ele aceitou numa boa.

Foram muitas fases.

Tive o momento alien: “e se esse bicho não for apenas um verme, mas uma forma de vida se preparando para tomar o comando do meu corpo e me transformar num membro de um exército alienígena?”
Tive o momento de apego àquela companhia invisível porém fiel. Isso durou bem pouco, mas eu cheguei até a colocar a mão na barriga para ‘sentir’ o verme, Freud explica…
Tive o de comemoração: essa pancinha que cresceu aqui é da bicha, e vai embora quando ela morrer! Meu irmão depois explicou que não, a pancinha é gordura mesmo, blé.
Tive o momento de medo: “eu não vou tomar vermífugo porque esse verme vai ser vivo daqui de dentro, apavorado pelo remédio, e eu não quero viver essa experiência”. Meu irmão jurou que isso não ia acontecer. E assim foi.

Tomei o vermífugo, não aconteceu nada de escatológico. E essa história acabou.

Fiz até um hai-kaizinho quase palindrômico:

Solitária
sem a minha
Solitária

Quinze dias depois tomei outro vermífugo, para garantir.
E logo mais vou tomar de novo, porque depois dessa, decidi tomar vermífugo todo ano. E a sabedoria popular diz que é para tomar vermífugo em mês que não tem erre no nome, então estou esperando maio chegar.

Como eu peguei o verme? Provavelmente salada mal lavada. Se você é da saladinha, sugiro adotar o vermífugo anual.

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