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Sobre pais e filhas

Há alguns anos eu vi o filme Secretária (2002). E eu não entendi lá muita coisa até ver o extra do DVD, em que o diretor (Steven Shainberg) explica que queria fazer um filme sobre a possibilidade de um amor sadomasoquista, da mesma forma como já haviam sido feitos inúmeros filmes sobre o amor gay.

Mas no que diz respeito a relações amorosas, para mim o melhor do filme é o amor entre pai e filha. Está lá, em algum momento do longa, a cena mais bonita que eu já vi sobre esse tema no cinema.

Vou explicar o contexto (para assistir à cena, clique aqui. A incorporção foi desativada por solicitação blablabla. De qualquer forma, o trecho específico que eu cito é o 0:34 até o fim).

A mulher é secretária do cara e os dois se apaixonam e são sadomasoquistas. Lá pelas tantas, eu não lembro o motivo, o cara exige da mulher que ela fique sentada com as mãos sobre a mesa, como uma prova de amor, um carinho, algo assim. E assim ela fica, por dias e dias. E vem um monte de gente falar com ela. E um monte de gente fala um monte de bobagem (julgamentos, opiniões, achados, perdidos). Até que vem o pai dela. E ele lê um trecho de livro, que diz:

‘You are the child of God’s
hoIy gift of life.
You come from me,
but you are not me.
Your soul and your body
are your own,…
and yours to do with
as you wish.’

(numa tradução bem porca:
Você é filha de Deus
Um dom sagrado da vida
Você vem de mim,
mas você não é eu
Sua alma e seu corpo
são só seus…
E seus para você fazer com eles
o que você quiser)

E ela responde: Obrigada, pai.

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Passe de mágica

Eu saí da casa dos meus pais já tem mais de dez anos. Então faz tempo que aprendi uma das piores lições da vida: mágica não acontece.

Algumas das mágicas nas quais eu acreditava:

– quando o rolo de papel higiênico acaba, outro novo aparece no lugar (vale para xampu, sabonete, condicionador, etc.)
– quando a lâmpada queima, outra nova aparece no lugar
– quando você termina de comer a bandeja de danoninho, é só esperar uns dias que aparece outra, na mesma prateleira da geladeira
– deu fome? o almoço está na mesa (al-mo-ço. Arroz, feijão, verdura refogada, salada, mistura, suco, sobremesa. Não bife e salada)
a garrafa de água gelada é um objeto mágico: ela é infinita e tem temperatura constante
– pãozinho feito hoje? Ele brota ali na cesta de pão (essa doeu, viu, quando eu descobri que era preciso ir à padaria todos os dias)

Ai, que tristeza. Essas são algumas das descobertas mais difíceis da vida. Com o bônus de elas virem junto da descoberta de que você é (até ali) uma criança mimada, sim, apesar de achar que é um adulto independente (por que, me diz, por que essa gana toda por independência!?).

PS: A imagem lá de cima eu peguei aqui
PS2: Tanto a minha mãe quanto meu pai continuam fazendo mágicas. A minha mãe recentemente passou por aqui e, plim, as coisas vão parar dentro de caixas que se empilham em grandes colunas. Sim, estamos de mudança. Meu pai, da última vez que passou por aqui também fez das suas. A máquina de costura estava quebrada e, shazam!, voltou a funcionar depois dos salamaleques dele.
PS3: Se eu fosse mágica e tivesse que tirar um coelhinho da cartola, faria o número ao som de cooooooelhinho-se-fosse-como-tu; daí a foto do coelhinho voltar a ser publicada num passe de mágica.

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