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Angela, a ariranha, as baleias e eu

Quando faltavam oito meses para eu completar 30 anos eu decidi que era hora de começar uma coleção de arte. Eu estava convivendo há um mês com as paredes recém-esvaziadas da minha casa. E cheguei à conclusão de que era preciso olhar para isso.

Eu, a Santa e a Lu fomos passar o fim de semana na praia. Em uma casa cheia de obras de arte. E a Santa é artista plástica. E a gente não tinha muita coisa pra fazer além de ficar panguando, então inventamos uma brincadeira que era assim: de todas essas obras, qual você teria? E qual não teria? E a coisa foi indo.

Então passamos um tempo discutindo qual seria a minha primeira obra de arte, qual artista teria o papel de ser o primeiro a entrar para a minha nascente coleção?

Pensei, pensei e pensei e fiquei muito feliz quando enfim decidi que a primeira obra de arte da minha coleção (que continua tendo apenas uma obra) seria da Angela Leite.

Eu sou fã da Angela há muito tempo. Desde 2003, quando fiz uma entrevista com ela para uma reportagem sobre o Pantanal (um dos meus lugares favoritos do mundo, para o qual vou voltar daqui a uma semana, nas minhas férias). Ela mistura as duas coisas mais importantes do mundo (arte e natureza) em uma obra de vida inteira. Ela é muito inteira. E faz xilogravuras e desenhos da fauna e da flora brasileira que eu acho que todo mundo deveria ver. Ao menos ver. Porque na verdade eu acho que todo mundo deveria ter a sua planta favorita ou seu bicho de predileção na sala de casa, para lembrar que eles precisam continuar existindo fora da parede da sala.

Eu tenho uma ariranha. A mais linda ariranha. Ganhei de presente da minha mãe no meu aniversário de 30 anos. Alguns meses antes a gente tinha ido a Corumbá e passeando pelo rio Paraguai demos com um ninho de ariranha, que ficaram putas e expulsaram a gente de lá.

Agora quero também o pirarurucu, os brotos da mata, o pequi e o almecegueiro. E todas as baleias (que fazem parte de um outro episódio muito emocionante, em que em uma edição sobre observação de baleias, do caderno de Turismo da Folha, todas as páginas começavam com lindas baleias desenhadas pela Angela). As baleias, ou melhor, os cetáceos, são o tema da exposição da Angela que vai até setembro na Galeria Gravura Brasileira, na rua Franco da Rocha, 61, em Perdizes. É claro que eu acho que todo mundo deveria ir. E ver. Porque na verdade eu acho que todo mundo deveria ter um pouco de natureza e arte em casa. Ah é, já disse isso.

 

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Devora geral

Faz semanas que eu estou com o verbo devorar na cabeça (eu devoro, tu devoras, ele devora, nós devoramos…). Coisa de mudanças, né? Você entra na sua casa recém-reformada e ela impõe o desafio: ocupa-me ou devoro-te. Incrível como a casa ganhou personalidade depois da reforma.

Daí quando eu estou menos fina, a esfinge grega dá lugar ao Djavan (Noutro plano/Te devoraria/Tal Caetano/A Leonardo DiCaprio…). Nada a ver com Caetano ou Leonardo DiCaprio. É o verbo que está na minha cabeça mesmo. Talvez a casa esteja me enlouquecendo. Ocupa-me ou eu te devoro tal Caetano…

Enfim, brisa à parte, foi no meio dessa febre verbal que topei com essa linda imagem de ressonância magnética de uma cobra digerindo um rato. Esquece o lado nojento da natureza e aprecie a beleza da imagem. Eu achei apropriada.

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Criatura translúcida

Sabe quando você está num lugar mas parece que ninguém se deu conta da sua presença? Uma amiga minha dia desses se queixou disso. Foi a uma reunião e ninguém nem notou que ela estava lá.

“Parecia que eu era de vidro. Fiquei lá, feito um vaso.”

Pois essas lindas criaturinhas (veja todas aqui) sentem isso na pele todos os dias (se é que dá para chamar isso de pele, deve haver algum termo mais apropriado). E por isso que eu proponho uma revisão na esgarçada expressão vítrea. Uma alternativa a esse transparente lugar comum.

Minha sugestão é que ao passar despercebido, você preste uma homenagem a essa gelatinosa fatia da fauna terrestre e diga:

“Lá fiquei eu, como criatura translúcida das fossas abissais.”

Além de ser menos clichê, é bem mais dramático.

Todo mundo tem seus dias de criaturinha translúcida. A única pena é que a gente não brilha no escuro que nem elas.

PS: Sim, a internet voltou. Na sexta. Mas eu trabalhei no sábado e, no sétimo dia, merecia um descanso, vai.


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