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Tributo a McQueen

O vídeo é de Nick Knight, a trilha, criada para ele, é da Björk. Em homenagem ao estilista que se matou em fevereiro.

New Yorker homenageia McQueen

Homage, de Ana Juan

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A capa do exemplar de março da New Yorker homenageia Alexander McQueen. Quem assinar a revista pode ler na versão digital um obituário, na página 72. Se quiser ter a bondade de copiar o texto e mandar para mim por email, eu agradeço.

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Sem pelos, nem cascas, nem banhas, nem mucosas

Uma pessoa sem sobrancelhas passa uma imagem de saúde debilitada. Uma pessoa esquálida passa uma imagem de desnutrição. Mas por algum motivo pessoas muito magras e sem sobrancelhas são tidas como modelo de beleza nas passarelas da SPFW.

Até aí nada de novo. A moda prima por esquisitices e faz sentido que seja assim: uma das funções dela é experimentar estéticas. Estranho é quando esse padrão se espalha por diversas passarelas. Isso normalmente indica que aquilo vai acabar virando moda de fato.

A questão da magreza é velha conhecida, está em pauta há tempos e eu vou voltar a falar disso aqui.

Agora eu quero falar do fato de terem apagado as sobrancelhas.

Breve retrospecto
Tudo começou nas unhas. O esmalte nude entrou na moda há algum tempo. Ele tem a cor da pele de uma pessoa de pele branca. E quando você passa ele nas unhas, elas ficam cor da pele e a sua mão fica igual à dos personagens da Turma da Mônica. Depois vieram as bocas. O batom cor da pele, que existe desde sempre, veio com tudo e apagou os lábios das mulheres.

Agora é a vez das sobrancelhas. Vai entrar na moda esse papo de descolorir as pestanas, de deixá-las invisíveis. O resultado pode ser descrito de duas formas:

1. A sobracelha descolorida suaviza a expressão
2. A sobracelha descolorida deixa a mulher com cara de doente

Não depende só de quem está olhando. Tem gente que embirra com tudo que é moda. Eu não tenho birra e acho divertido que algumas pessoas vistam todas essas camisas. Depende sim de quem olha mas também de quem adota. Se combina, se não combina etc e tal. Mas isso é papo para revista feminina e não para blog.

Eu quero chegar a outro ponto. O que quer dizer apagar as unhas, a boca e a sobrancelha?

Eu arrisco um palpite. Para mim, a moda quer apagar o que é de bicho no homem. Se cagamos, mijamos, suamos e temos pelos, coisas grotescas que nos lembram o tempo todo que somos animais, isso não interessa à moda. Então que seja escondido. Que pelos, banhas, cascas, cacas e mucosas sejam todos apagados da nossa cara e do nosso corpo.

Esse é o meu palpite.

Mas é preciso separar as coisas. Porque essa sugestão de transformação do corpo humano pode caber na moda. Uma das funções dos criadores é propor visões não-convencionais, experimentar, testar fronteiras. (O excelente livro Fashion at the Edge, de Caroline Evans, dá conta de vários momentos em que a moda chocou, machucou, destruiu e massacrou a imagem da mulher, quase sempre como uma proposta de reflexão).

Coleção primavera/verão 2001 de Alexander McQueen, a imagem veio do (excelente) livro Fashion at the Edge

No desfile de verão de 2001, Alexander McQueen (veja o desfile aqui) prendeu as modelos em um aquário, enfaixou a cabeça delas e criou uma atmosfera de manicômio. Ele quer dizer que ser doido é bonito? Sim e não. Ele quer incomodar? Sim. Ele quer provocar a reflexão? Provavelmente. (E se sobrar tempo, ele quer que você ache as roupas lindas e pague os tubos por uma delas).

O que incomoda nessa moda de apagar as sobrancelhas na SPFW é que marcas nada conceituais, como Fórum, Iódice, etc. adotaram esse look. E a diferença é essa: eles não estão propondo uma reflexão, não estão apresentando uma ideia. Eles estão dizendo: isso é bonito.

Não querem testar limites do corpo. Querem que você entenda que é assim que deve ser.

Ok. Mas há ainda uma outra forma de olhar para isso. A grife apaga o rosto e o corpo da modelo (esse papo de que elas são meros cabides) para direcionar a atenção para as roupas.

Primavera-verão 2009, Martin Margiela. A foto é da galeria do Style.com

No desfile da temporada primavera/verão 2009, o estilista belga Martin Margiela (veja o desfile aqui) cobriu a cara das modelos com uma meia cor da pele. Eram não-pessoas, mas a Maison Margiela é tradicionalmente porta-voz de experiências e de fato havia motivo para direcionar a atenção para as roupas.

Desfile de inverno 2010 da Ellus

Agora olhem de novo para as passarelas nacionais. Aqui os rostos não estão apagados. Há uma sugestão, as modelos estão penteadas, maquiadas, elas estão sendo mostradas, sim, com uma ideia de beleza. Então esse papo de chamar a atenção para a roupa nesse caso não cola.

Se isso vai ficar restrito ao mundinho da moda? Pode ser. Mas que tem alguma coisa muito estranha aí, isso tem.

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PS: Escrevi sobre a moda de apagar as sobrancelhas para o blog de Moda do Estadão, veja post aqui, e na versão impressa do jornal de 20/1, veja aqui

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