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Jeri-coacoa-quá-quá-quá-rá-rá-rá-rá

Já botei cerveja no congeladoooor...

Muita areia, muito vento e muita música ao vivo. A dupla areia+vento é defeito/qualidade. Enche o saco, chicoteia a batata da perna quando você tá andando na praia, chicoteia suas costas quando você senta na praia e chicoteia sua cara quando você tenta ler na praia. Por outro lado, ela enche os olhos (no sentido poético, embora no literal também aconteça) quando tá toda empilhada formando dunas ou quando escorre feito líquido pela encosta da duna ou quando faz você ter certeza que a duna é de nuvem porque a areia tá ali voando e parece que a duna não tem um limite exato de onde ela termina e começa o céu, bem nuvem mesmo. Daí ela chicoteia sua canela, porque, afinal, enquanto você brisa na duna/nuvem, vento/areia castigam sua batata.

Já a música ao vivo é só defeito mesmo. Ela enche o saco e ponto. No primeiro dia é até engraçadinho ouvir o Black Power, um músico com apelido autoexplicativo, cantando “Burguesinha”, “Mangueira” e todas as outras músicas do Seu Jorge intercaladas a discursos para “passar uma mensagem”. Mas aí você sai do bar e vai pro outro e ele tá lá. E no outro também. E assim por diante. O Black Power que canta Seu Jorge é a prova daquele ditado que diz que caiçara brota da areia. Como aqui, como já dito, tem muita areia, ele brota umas cinco vezes ao mesmo tempo em bares diferentes.

Pior ainda é quando não é ele e você fica com saudade dele, porque sempre pode ser pior e o cara pode tocar mal e cantar sofrivelmente. E quando você percebe que está lamentando que a música ao vivo não é com Black Power descobre que o problema é a onipresença absoluta da música ao vivo. Daí só resta lamentar que em dez dias em Jeri é difícil lembrar de ter ouvido o barulho do vento.

E esse é o único verdadeiro defeito do lugar — embora eu pudesse gastar algumas linhas reclamando de algumas outras coisas, mas seria ranzinzice. O resto é só beleza, boa comida e bom humor.

Dadas as impressões gerais, algumas pontuais, caso você algum queira ir para lá sabendo quais foram as minhas preferências.

Os bares da praia são bem diferentes entre si. O See Sea Jeri é legalzinho, tem mesas octógonais e é bem posicionado. Drinks e porções nada demais. O cardápio em italiano oferecendo uma “caipitália”, feita com grappa, dá a entender que o dono é italiano. O Bar do Alexandre é um terror. Fuja. É bem lá que você corre o risco de sentir saudade do Black Power. Aliás, se sentir saudade do Black Power é só ir ao See Sea, que um deles toca lá o tempo inteiro.

O bar da pousada Capitão Thomaz tem um ar de “o capitão Thomaz saiu pro almoço e os marujos tomaram conta de tudo”. Os garçons fazem o que querem, ouvem o que querem, fecham o bar no auge do movimento e outras anarquias quetais. A boa é que os caras têm bom gosto musical. Ali você corre o risco de passar a tarde ouvindo Beatles.

O melhor bar da praia é Beco do Caranguejo, o QG da resistência. É o único que cobre as mesas com toalhas coloridas feitas pelas crocheteiras de Jeri. Nessas poucas mesas não há concessões para a padronização turística. Nada de som genérico pra agradar gringo, nada de ampliar as instalações, nem música ao vivo ele tem. No Beco do Caranguejo tudo é tudo bem e os garçons explicam, com orgulho, que a goma de mandioca usada pra fazer tapioca ali é comprada de uma senhorinha que faz em casa, ‘Porque essas de mercado não prestam’. Na verdade, esse bar talvez não tenha nada demais, é apenas um boteco simpático. Mas como ele está cercado por outros, que são todos meio nada, acaba ficando bem especial.

Mesa do Beco

Agora, o melhor bar de Jeri, o melhor dos melhores, o mais incrível e maravilhoso (e para entender essa definição, sugiro a leitura do post logo abaixo), é o bar do Chagas. Eu não vou nem tentar explicar como ele é, porque minhas habilidades narrativas e descritivas não bastam. Detalhe importante: ele fica longe da praia, não tem porções e quase sempre é preciso chamar umas cinco vezes pelo Chagas para ele apareça. Mas uma vez que ele aparece, seja bem-vindo a Jeri.

Há muitos restaurantes em Jeri e em todos a que fui a comida era pelo menos honesta. Meus dois favoritos foram esses:

O Pimenta Verde é, considerados os aspectos técnicos, o melhor restaurante da vila. A comida é excelente. Para entender a graça do restaurante, peça o filé matuto. Um prato bem simples, bem típico e executado com capricho comovente. A apresentação é de restaurante chique e o preço é justo (algo em torno de R$ 20 para um prato mais do que bem servido). Só não é meu favorito por uma questão de coerência (quem elege o bar do Chagas como o melhor de Jeri não pode decidir que o Pimenta Verde é o melhor restaurante, simplesmente porque existe a Peixaria Brasil).

E quanto à Peixaria Brasil… que lugar inacreditável essa casa verde, de esquina, com as paredes pintadas com uma imagem de um pescador segurando um peixão e as instruções: escolha seu peixe, polvo ou lagosta e espere ele ser assado na churrasqueira montada na calçada. O acompanhamentos são ‘deliciosa comida caseira’.

Todos os atendentes são da mesma família, o clã do seu Guaxelo, o pescador representado na pintura da parede. O Guaxelo é um senhor barrigudo de bermuda de náilon branca e aquela cara entre safada e perdida que eu acho que ensinam para os pescadores na escola de pescadores. “Aula 1: Técnicas de olhar para cima e para o lado e ainda assim ver o que acontece à sua frente”.

O serviço é péssimo, a casa não aceita cartão e vive lotada. Há duas explicações possíveis, e provavelmente a resposta é ambas. 1. A comida é maravilhosa. 2. É restaurante-sitcom.

Os quinze, ou onze, não lembro, filhos do Guaxelo atendem e desatendem e se atrapalham e brigam entre si e bufam com a mãe e tomam bronca do pai (bronca de pescador, “Aula 2: Como dar bronca usando apenas os olhos e sem deixar de ver o que acontece à sua frente”).

Se você não tomar as rédeas da situação, não vai jantar. O primeiro passo é achar uma mesa, muitas são compartilhadas e você pode pedir licença e sentar com estranhos. Depois, é preciso laçar um garçom e pedir uma cerveja. Aí, levante-se e vá até a peixaria, que é encostada ali do lado, e escolha seu peixe. Eu queria polvo. O cara disse: “O polvo é de ontem… não tá fresco, pega o peixe que é de hoje e ainda não foi congelado”. Escolhido o peixe, ele é pesado e vai pra grelha. Daí é só laçar o garçom de novo e pedir mais uma cerveja e os acompanhamentos (salada, purê de mandioca, mandioca frita, farofa, o que você quiser). O quilo do peixe custa R$ 30. Pra dois, basta. Cada acompanhamento custa entre R$ 6 e R$ 8 na versão média. E basta um, dois se a fome for grande. Daí é só esperar o peixe chegar (a fila da churrasqueira costuma ser grande, assim como a espera) e se divertir com as trapalhadas da Família Guaxelo.

Aproveitando o tema Guaxelo, eu tive uma incrível interação com ele alguns dias depois do jantar, quando fui lá comprar cigarros (a casa fica aberta durante o dia como mercearia e é dos poucos lugares que vendem Marlboro). Entrei e me dirigi ao balcão (eu já tinha comprado cigarro ali antes, da senhora Guaxelo, um docinho, que parou de cortar a macaxeira do jantar para me atender e explicar que, sim, o cigarro tinha sobretaxa porque ela comprava lá em cima e vendia cá embaixo). O Guaxelo me viu entrando e entrou também.

Eu disse: eu quero um Marlboro.
Ele disse:
– Pegue lá o Marlboro pra menina.

Só que nenhum de seus muitos filhos estava ali. Na verdade, só estávamos eu e ele. Então eu mesma peguei o cigarro, que ficava em cima do balcão. Dei o dinheiro (R$ 10, o cigarro custava R$ 6). E ele disse:

– Pegue lá o troco da menina.

Mas, como já dito, nenhum de seus muitos filhos estava ali. Ficamos os dois em silêncio, porque eu não podia simplesmente abrir a gaveta de dinheiro do cara e tirar meu troco de lá. Silêncio. Ele olhando pro alto e pro lado com minha nota na mão.

Silêncio.

Não apareceu ninguém. Então ele foi para trás do balcão e começou a pegar o troco. E disse:

– Pegue lá R$ 2 pro troco da menina.

Eu já não conseguia mais conter o quase-riso. Ele notou. Sorriu e ficou com cara de criança pega na traquinagem.

Deu uma nota de R$ 5 e disse: depois, se passar aqui, você me dá R$ 1. Saí do lugar e pedi R$ 1 pro Rafa, voltei e entreguei pra ele, que ainda estava olhando para cima e para o lado diante da gaveta de troco aberta.
Eu disse:

– Aí.

E trocamos sorrisões.

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Todas as rotas levam ao queijo

Eu acredito em sinais. Quando as coisas empurram você numa direção. E, nos últimos dias, tudo tem me empurrado para o cinema, para ver o documentário “O Mineiro e o Queijo” (trailer acima, em cartaz nesses lugares). Até terça eu vou e conto depois o que achei.

Veja só quantos sinais. Lembra do Aristenes, taxista mineiro de nome grego, vê-se-pode? Aquele que chorou ao contar pra mim que viu um casal de vendedores de milho e curau ser vítima dos abusos higienistas da guarda civil metropolitana? Então, depois que ele enxugou as lágrimas e nós retomamos o trajeto, o assunto naturalmente foi para o queijo minas.

Uns anos atrás, eu comprava queijo minas meia-cura na porta do metrô Marechal Deodoro. Limpo, assim, limpíssimo não era. Era um carrinho com uma pilha de queijos e um rolo de sacos e um cara simpático. Pedia o queijo, ele punha no saco e lá ia eu pra casa. E era maravilhoso.

Depois eu comprava queijo minas meia-cura na Casa de Queijos Havaí, que fechou. Os vendedores de queijo de rua sumiram do mapa. Tinha um cara que vendia no ponto de táxi da rua de cima da minha. Segundo os taxistas dali, na terceira vez que a polícia prendeu a geladeira de isopor dele cheia de queijo ele anunciou sua saída de cena. Disse que cada tungada daquela equivalia a R$ 700 em mercadoria. Era prejuízo demais.

E o que sobra para nós? Sobra aquele “minas padrão” que parece polenguinho de tanta falta de gosto e excesso de gordura de plástico. Ali perto da minha casa ainda tem umas boas opções: os sacolões vendem dois queijos minas salgados e saborosos, o Serrana e o Branco ou Brinco de Latte ou Leite, nunca lembro o nome porque eles cortam o queijo na metade e ou eu compro o branco, brinco ou bianco ou o latte ou o leite, mas tem uma vaca no rótulo e eu acho que é Branco de Leite mesmo (porque o Bianco Latte tem uma vaca branca e séria, a vaca do queijo que eu compro é vermelha e tá dando uma piscadinha).

Esses queijos chegam aos estabelecimentos no começo da semana e na quarta já quase acabaram. No geral eu vou bem na segunda ou na terça e já compro logo duas metades. Fico ali testando um pouco para ver se acho duas metades do mesmo queijo, mas isso já é graça minha.

Pois bem, o que acontece não é novidade: há uma lei de 1952 que impede que laticínios feitos de leite cru, caso do queijo minas, sejam transportados além da fronteira estadual (o Paladar fez uma matéria legal, aqui). Pois. Eu já não sou muito fã de fronteira, essa linha imaginária que coloca eu e um amazonense no mesmo país e um amazonense do Amazonas e o amazonense da Amazônia peruana em países diferentes. Agora, me dizer que desde a década de 1950 a fronteira entre Minas e São Paulo me impede de comer o queijo… não dá para não ser anarquista, sério. Anarquista abolicionista penal.

Acontece que, como eu disse ali em cima, eu comprava queijo mineiro chulezento maravilhoso na boca do metrô Marechal Deodoro. E o que aconteceu? O cara sumiu de lá. Por que? Porque além de a gente ter uma lei babalu de 1950, a gente tem um governo que decide cumprir essa lei babalu. Engraçado, que se a gente vivesse na Suécia e todas as leis, todas-todinhas, fossem cumpridas, vá lá. Mas não, né. A fiscalização perseguiu justo os vendedores de queijo…

Quem sai ganhando? Os grandes laticínios, especializados em fabricar queijo sem gosto pra gente. E quem sai perdendo? Eu, você, o patrimônio imaterial (o queijo da Serra da Canastra é tombado. É tombado!), o pão de queijo…

Teve gente que já me ofereceu telefone de traficante de queijo. Senhoras que desafiam a lei e vendem o produto clandestino por aí, em escolas de balé, intervalos de escola. Eu, justo eu, que faço tudo para andar na linha, eu que atravesso na faixa de pedestres bem antes de isso virar moda, que odeio sequer pensar na possibilidade de tomar uma dura de um policial, estou seriamente inclinada a praticar esse crime. Estou planejando inclusive uma ação de tráfico interestadual, uma vez que vou passar férias em Minas.

O que me chama mais atenção nesse caso é que, de novo, o que está em jogo é um patrimônio brasileiro. E, nesse caso, um patrimônio oficial, tombado pelo órgão responsável, no caso, o Iphan. Agora veja, o treco é tombado é clandestino. O que nos leva à conclusão que, por aqui, a “higiene” é mais importante que a “história”. Confere? Pelo tratamento dado ao patrimônio brasileiro, me parece que qualquer coisa é mais importante do que história por aqui. Ainda mais essa história prosaica, popular, da cozinha rural.

Pois bem, justo quando eu cogitei cometer meu primeiro crime interestadual, o documentário lá do primeiro parágrafo entrou em cartaz. E diretor chama Helvécio Ratton. Ratton! Ratton fez o filme sobre queijo! Agora vai.

PS: Recomendo a leitura da entrevista que o Ratton, de quem já virei fã, deu à mineira maneira Clara Massote e a Deborah Couto e Silva. Olha só o que ele diz:

Pra quem você fez o filme?
Eu queria que, em primeiro lugar, o público visse o filme, pra se informar de uma situação absurda. A primeira condição pra que você possa mudar uma realidade é que as pessoas se informem. E, em um segundo momento, que as autoridades vejam o filme e respondam aos questionamentos que são feitos. O documentário tem uma proposta dupla de informar e polemizar, e de questionar se as restrições que existem até hoje são justas. É importante que a gente saiba porque isso é assim e, se for o caso, porque deve continuar assim.

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Molho fálico

'Agora você sabe de onde as baby carrots vêm'

Jantar com amigos (meio intelectuais, meio de esquerda) é dos meus programas favoritos. Ainda mais se estiverem todos bêbados. E foi isso que fiz isso ontem.

Conversa vai, conversa vem, todos à mesa, o macarrão foi servido e começaram os elogios. E uma das mulheres à mesa discorre sobre como estavam especialmente boas as linguiças que foram cozidas com o tomate:

– Hmmmm, é muito bom pegar a linguiça….

Pouco depois, o cozinheiro da noite foi questionado sobre o porquê de colocar cenouras para cozinhar com o molho. Eu critico a superstição de que elas cortem a acidez. Ele concorda e tenta dizer que é só para dar cor e sabor, mas a frase é interrompida e sai assim:

– Eu não defendo a entrada da cenoura…

Abacadabra, diante de todos, o molho bolonhesa virou uma sopa fálica

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Bocados de shuffle

Grande partidária do shuffle que sou, esses dias aprimorei o modo aleatório de vida em dois níveis até então inéditos para mim: o da leitura e o da alimentação. Ambos com resultados positivos.

Leitura
Só funciona se você não estiver na sua casa, como é meu caso. Estou hospedada na casa de um casal de amigos com muitos mas muitos livros. Posso escolher o que eu quiser para ler. Mas não quero escolher. Então, em vez de pegar um livro na estante, eleito a partir de parâmetros como “gosto desse escritor” ou “lembro desse título”, resolvi apertar o botão shuffle da vida. E tunguei o primeiro livro que estava na cabeceira. Como são doces as surpresas do aleatório: Big Loira, da Dorothy Parker. Estou me divertindo horrores por um lado. Por outro, fiquei horrorizada com o fato de que quase cem anos atrás isso tudo já era feito (ok, ficou vago, mas qualquer dia eu explico melhor).

Alimentação
Esse já é um pouco mais difícil. Porque você precisa de dois ingredientes: um restaurante de confiança e um acompanhante. Eu escolhi o Così. No almoço, eles têm um menu de entrada, prato e sobremesa que é sempre bom (custa um pouco caro, R$ 29). Eu já tentei dizer: quero o menu, sem saber o que é. Mas o garçom estragou a surpresa e disse. Daí ontem eu pedi ao Dani que pedisse pra mim enquanto eu ia ao banheiro. Resultado, os pratos foram chegando, uma surpresa atrás da outra. Salada verde com presunto defumado e pupunha, ravióli de berinjela com ricota e molho de tomate com azeitona e abacaxi caramelizado com sorvete de creme. Tudo gostoso e tudo surpresa.

Leia aqui embaixo o que o Américo, autor da sempre boa coluna “Eu Só Queria Jantar”, achou do Così:

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O Google e o fim do papinho de portão

Desde pequenos, éramos treinados na arte de jogar conversa fora. Na foto, eu sou a menor. À dir., minha mãe e bem no meio, minha vó com meu irmão o colo. À esq. é a Lili, minha prima mais velha

Embora Campinas não seja exatamente uma cidadezinha interiorana, mantêm-se, lá, alguns hábitos da vida no interior. Um deles é o título da principal categoria dos posts desse blog (e quase foi o nome do blog): o papinho de portão. Jogar conversa fora, contar causo, especular sobre a vida alheia e afins são atividades desenvolvidas desde a mais tenra idade. Se não em toda a cidade de Campinas, certamente na minha casa.

Eu e minha mãe, quando nos encontramos, passamos horas e horas a fio sentadas tomando algo e jogando conversa fora. Se for de dia, é café. Se for à noite, é cerveja. Se tiver comida junto, é vinho. Mas essa arte, a arte do trololó sobre assuntos aleatórios (outro traço desse blog), está ameaçada por um gigante que não dá sinais de recuo: o Google.

Como assim? Assim: recentemente estávamos num desses dias de imersão na tagarelice debatendo por que, no Brasil, não há uma forte produção de queijo de cabra. Há leite de cabra? Sim. Há cabras? Muitas. E por que, então, não há o maravilhoso queijo nesse país, meu Deus do céu? Foram horas de debate. O que eu entendo de cabras? Nada. O que a minha mãe sabe de caprinocultura? Nada. Essa é a graça.

Em seguida, foram mais algumas horas dedicadas ao enigma: por que nós não tomamos leite de porca? Pensamos em Remo e Rômulo, nas proibições bíblicas, no casco fendido, nas restrições dos judeus aos suínos, nisso e naquilo. O que eu entendo de porco? Nada. O que a minha mãe sabe deles? Muito pouco.

Mas é assim que as horas passam. De “ouvi uma vez que” em “conheço um fulano que disse que”, a discussão avança e, no idos de outrora, não chegaríamos a lugar algum.

Outra importante modalidade de conversa: o papo pela janela da cozinha. Na época era mulheres dentro e homens fora. Hoje seria invertido. A gata que cozinha é a minha vó paterna, Edméia. Do lado de fora, o vô Bô

Talvez, depois de algumas semanas, a minha mãe encontrasse um conhecido que tem um amigo que conhece um caprinocultor e voltaria com uma resposta mais ou menos clara. Talvez eu virasse para o lado para perguntar para a editora do Suplemento Agrícola por que não tomamos leite de porca. E assim as amizades seriam feitas. E assim um dia o tal caprinocultor, sabendo do interesse da minha mãe sobre queijo de cabra talvez fizesse um queijo e mandasse para o conhecido entregar pro amigo que entregaria para ela, o que leva à rica tradição do trânsito de potinhos. Na minha infância sempre foi assim, lá vinha um bolo de fubá com goiabada porque três semanas antes alguém tinha pedido para a alguém a receita da tia-avó daquela vizinha que sabia como ninguém fazer um bolo de fubá com goiabada. E logo chegava o bolo. E dez versões da receita.

Como o Google acaba com isso? Voltemos aos debates sobre cabras e porcos. Depois de 12 horas conversando sem chegar a lugar algum, fomos dormir. No dia seguinte, minha mãe, que é madrugadeira, já tinha acordado, comprado pãezinhos, passado um cafezinho, arrumado a cama, montado a mesa, e… googlado os enigmas do dia anterior.

Remo e Rômulo, restrições bíblicas, proibições judaicas, cascos fendidos, focinho de tomada, todas essas especulações ricas e livres deram lugar a isso:

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Madonna, mas não aquela

Em mais um post patrocinado espiritualmente pelo Stumble Upon – por uma vida cada vez mais aleatória – a dica do dia é o Paul Madonna. Selecionei dois cartuns dele, sobre temas de que gosto muito: gastronomia e moda.

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Alergia a amendoim

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