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Padecer no paraíso

Às vezes deve ser chato pra caralho ter filho. Eu entenderia se minha mãe me desse um bica dessas enquanto eu brincava de dar show musical pela casa inteira com o meu super microfone sintonizado em todos os aparelhos de som da casa.

O Google e o fim do papinho de portão

Desde pequenos, éramos treinados na arte de jogar conversa fora. Na foto, eu sou a menor. À dir., minha mãe e bem no meio, minha vó com meu irmão o colo. À esq. é a Lili, minha prima mais velha

Embora Campinas não seja exatamente uma cidadezinha interiorana, mantêm-se, lá, alguns hábitos da vida no interior. Um deles é o título da principal categoria dos posts desse blog (e quase foi o nome do blog): o papinho de portão. Jogar conversa fora, contar causo, especular sobre a vida alheia e afins são atividades desenvolvidas desde a mais tenra idade. Se não em toda a cidade de Campinas, certamente na minha casa.

Eu e minha mãe, quando nos encontramos, passamos horas e horas a fio sentadas tomando algo e jogando conversa fora. Se for de dia, é café. Se for à noite, é cerveja. Se tiver comida junto, é vinho. Mas essa arte, a arte do trololó sobre assuntos aleatórios (outro traço desse blog), está ameaçada por um gigante que não dá sinais de recuo: o Google.

Como assim? Assim: recentemente estávamos num desses dias de imersão na tagarelice debatendo por que, no Brasil, não há uma forte produção de queijo de cabra. Há leite de cabra? Sim. Há cabras? Muitas. E por que, então, não há o maravilhoso queijo nesse país, meu Deus do céu? Foram horas de debate. O que eu entendo de cabras? Nada. O que a minha mãe sabe de caprinocultura? Nada. Essa é a graça.

Em seguida, foram mais algumas horas dedicadas ao enigma: por que nós não tomamos leite de porca? Pensamos em Remo e Rômulo, nas proibições bíblicas, no casco fendido, nas restrições dos judeus aos suínos, nisso e naquilo. O que eu entendo de porco? Nada. O que a minha mãe sabe deles? Muito pouco.

Mas é assim que as horas passam. De “ouvi uma vez que” em “conheço um fulano que disse que”, a discussão avança e, no idos de outrora, não chegaríamos a lugar algum.

Outra importante modalidade de conversa: o papo pela janela da cozinha. Na época era mulheres dentro e homens fora. Hoje seria invertido. A gata que cozinha é a minha vó paterna, Edméia. Do lado de fora, o vô Bô

Talvez, depois de algumas semanas, a minha mãe encontrasse um conhecido que tem um amigo que conhece um caprinocultor e voltaria com uma resposta mais ou menos clara. Talvez eu virasse para o lado para perguntar para a editora do Suplemento Agrícola por que não tomamos leite de porca. E assim as amizades seriam feitas. E assim um dia o tal caprinocultor, sabendo do interesse da minha mãe sobre queijo de cabra talvez fizesse um queijo e mandasse para o conhecido entregar pro amigo que entregaria para ela, o que leva à rica tradição do trânsito de potinhos. Na minha infância sempre foi assim, lá vinha um bolo de fubá com goiabada porque três semanas antes alguém tinha pedido para a alguém a receita da tia-avó daquela vizinha que sabia como ninguém fazer um bolo de fubá com goiabada. E logo chegava o bolo. E dez versões da receita.

Como o Google acaba com isso? Voltemos aos debates sobre cabras e porcos. Depois de 12 horas conversando sem chegar a lugar algum, fomos dormir. No dia seguinte, minha mãe, que é madrugadeira, já tinha acordado, comprado pãezinhos, passado um cafezinho, arrumado a cama, montado a mesa, e… googlado os enigmas do dia anterior.

Remo e Rômulo, restrições bíblicas, proibições judaicas, cascos fendidos, focinho de tomada, todas essas especulações ricas e livres deram lugar a isso:

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