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Momento erudito

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Em dia de arrumação, abri uma caixa de CDs e dei com uns discos que o Rods, meu amigo mais erudito, gravou para mim. Músicas que havíamos ouvido juntos, ou que ele achava que eu ia gostar, ou que eu já havia dito que gostava. Coloquei um dos CDs para ouvir e lá veio ela, uma das minhas músicas favoritas, porque tudo nela é estranho, triste e, bem, quase divertido.

Chama Erlkönig, ou Rei dos Elfos. A música é de Schubert, a partir de um poema do Goethe. E o que é quase divertido nela é o seguinte: são quatro personagens falando. E um cantor, que fica parecendo meio um maluco fazendo várias vozes conversando entre si. São elas:

– O narrador, no comecinho e o no finzinho.
– O pai, que tem uma voz segura, quase autoritária, mas confortante. Bem pai mesmo.
– O filho, apavorado, desesperado, meio gritando.
– O Rei dos Elfos, malandro, meio sádico, meio sedutor.

A história é a seguinte: o filho está doente, o pai está a cavalo levando o menino pra casa. O moleque fica vendo o Rei dos Elfos chamá-lo para ir morar no seu reino, que é o que acontece com as crianças que morrem. Daí ele vai contando isso pro pai, que fica dizendo que não é nada. E o Rei dos Elfos segue descrevendo pro menino as maravilhas que acontecem lá na área dele.

Aqui vão duas versões, a primeira é minha favorita absoluta, mas a segunda é impressionante também. Se tiver paciência, veja logo as duas. Se não, volta aqui depois pra ver a outra.

Esse cara cantando é o Dietrich Fischer-Dieskau, ele é barítono. Repare como quando ele vai fazer o Rei dos Elfos ele levanta a sobrancelha e dá um risinho estranho. Mas aqui tudo é sóbrio. Nesse outro a coisa é mais agitada. A Jessye Norman se joga nas caretas e a câmera fica girando no meio dessa instalação do artista austríaco Peter Kogler. Dá até uma tonturinha.

Se quiser saber o que diabos eles estão falando, aqui vai uma tradução que eu peguei por aí:

Quem cavalga tão tarde pela noite e pelo vento?
É um pai com seu filho.
Ele leva a criança em seus braços,
Ele o segura firme, ele o mantém aquecido.

“Meu filho, por que esconde tanto seu rosto?”
“Não vê, pai, o Rei dos Elfos?
O Rei dos Elfos com sua coroa e manto?”
“Meu filho… É apenas um filete de névoa.”

“Você, criança querida, venha comigo
Muitas belas brincadeiras jogarei contigo,
Flores coloridas estão na praia,
E minha mãe tem para você vestes douradas.”

“Meu pai, meu pai, não consegue ouvir
O que o Rei dos Elfos sorrateiramente me disse?”
“Fique calmo, meu filho,
Pois era apenas o vento passando pelas folhas secas.”

“Querido menino, quer vir comigo?
Minhas filhas irão te tratar bem,
Minhas filhas irão conduzir danças nortunas
E assim te embalarão, a dançar e a cantar.”

“Meu pai, meu pai, não consegue ver?
As filhas do Rei dos Elfos naquele
tenebroso lugar?”
“Meu filho, meu filho, bem sei o que vejo:
Apenas os velhos e cinzentos salgueiros.”

“Eu o amo, suas belas formas me encantam,
Mas, caso não queira, então usarei a força!”
“Meu pai, meu pai, ele me pegou!
O Rei dos Elfos está me machucando!”

O pai, a tremer, apressa a montada.
Ele segura em seus braços o queixoso menino.
Mas, mal chegando em sua morada,
Em seu braço o menino já jazia morto.