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Eu só queria um cafezinho

JC em todos os lugares

De uns tempos pra cá, abriu aqui perto de casa um simpático café chamado BookCafe.

De fora, olhando pra dentro, dava pra ver uns livros e um ambiente razoavelmente aconchegante. Mas um pouco fora de mão para o dia-a-dia (é muito perto de casa, mas há outros cafés mais bem localizados, como entre o restaurante e a casa, entre a depilação e a casa e assim por diante).

Pois um dia desses, depois do almoço, decidi passar lá pra ver qual era. Entramos, eu e Rafa, naquele ambiente todo meio branco, espiamos aqui e acolá e pedimos dois cafés. Sentamos na mesa e tinha ali dois livros.

Um era um catálogo de uma editora de livros religiosos, que eu peguei pra ver. O outro era um livro de um cara chamado Dong Yu Lan, que o Rafa pegou pra ver. Quando abri o catálogo chegaram os cafés e começou a conversa:

Eu (falando para o Rafa): – Dong Yu Lan, Dong Yu Lan, Dong Yu Lan. Ô loko, todos os livros dessa editora são desse cara.
Garçom: – Ele é chinês.
(Eu pensei por um segundo: jura? Achei que era italiano. Mas repensei: ah, o cara tá só sendo simpático)
Eu: – Ah, é? Legal.
Rafa (falando pra mim): Não sabia que tinha chinês cristão.
Garçom (agora em tom professoral): – Ele fugiu da China, se mudou para o Brasil e se tornou um mestre. Os livros trazem o ensinamento (daí eu parei de prestar atenção. Ele seguiu falando um tanto sobre os ensinamentos de Dong Yu Lan, mas notei que ele tinha sotaque e que estava afim de falar então emendei).
Eu: Ele é chinês e você? É de onde?
Garçom: Paraguayo. Sou missionário. Vocês são católicos?
Eu e Rafa: Não.
Garçom: Mas acreditam em Deus, NÉ?
Eu e Rafa: Não.

E eu já pensando: caralho, viu, agora vem. Que saco. Se o lugar se chamasse Cafétólico e eu ia achar graça.. Podia chamar Cafétequese. Mas Bookcafé?! É uma arapuca! Você acha que vai tomar um cafezinho folheando um livro? Achou errado. Você vai tomar café sendo catequizado.

Acontece que eu já fui catequizada. E crismada. Estudei em colégio religioso. Rezava terço e, se não me engano, já rezei até rosário. Já fui em missa em latim, padre de costas. Já fui em missa de Quarta-Feira-de-Cinzas (ajoelha, levanta, senta, ajoelha, levanta, ajoelha, senta, levanta). Já fiz novena, vigília, quaresma. Sei a Salve-Rainha e o Credo decor (que Pai Nosso e Ave Maria é coisa de iniciante). E mais: vi, a minha vida inteira, a minha vó dar a primeira xícara de café recém-coado para São Benedito, ou seja, nem me incomodo de misturar café com religião. Mas me sinto no mais absoluto direito de não querer ser catequizada de novo, assim logo depois do almoço.

Disse: – Pô, do lado de fora não há um sinal de que esse é um café religioso.

O cara que estava no caixa resolveu intervir.
Caixa: – É que qualquer um pode vir aqui.
Eu (quase aliviada por conseguir interromper a catequese): – Ah, que bom.
Caixa: – E qualquer um pode consultar nossa biblioteca (apontando pra outra sala). Lá tem livros para jovens como vocês. Casais jovens, como vocês.

Desistimos e ficamos em silêncio olhando as xícaras ainda pela metade. Golão de café, quanto é? Obrigada. Tchau.

Na saída, fiz questão de checar se na fachada havia algum sinal de que aquele era centro de conversão. Nada. Apenas o letreiro: Bookcafé.

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