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Eu, meu dread e a hippie dentro de mim

Mais um pouco e eu ia ficar assim

Ele foi se insinuando aos poucos. As primeiras aparições vieram nas férias. Mas tudo começou um pouco antes. Permita-me um breve retrocesso.

Eu sempre tive o cabelo curto. Mas em algum momento decidi deixar ele crescer. E sempre tive o cabelo liso, mas à medida que ele foi crescendo, vieram as ondas, uns cachos tímidos. Acho que foi no início de novembro que eu tomei, então, a decisão de parar de pentear o cabelo. Estava gostando daquelas ondulações que até então desconhecia. E quanto menos eu penteava, mais elas ondulavam. Assumi o look sauvage. E foi então que ele começou a se insinuar.

As primeiras aparições foram nas férias de janeiro. Eu e minha cabeleira selvagem fomos passear em Buenos Aires. E lá, um belo dia, ele surgiu, perto do cangote, um começo de dreadlock. Minhas amigas tiraram sarro, me chamaram de hippie e insistiram que eu devia usar condicionador e pente. Fiz pouco caso. E ele voltou dias depois. E sumia. Depois aparecia de novo. E sumia.

Assim foi indo. Eu fui hippieficando; e os intervalos sem ele, diminuindo. Ele foi se consolidando. E eu comecei a aceitar aquele dread, comecei a entender que ele era o meu eu-hippie se manifestando. Ele cada vez mais frequente, eu cada vez mais hippie.

Então na sexta-feira ele se consolidou. Eu acordei e ele estava lá, indesembaraçável. Condicionador, pente, creme… nada. Não dava nem pra saber onde começava e onde terminava. Era um claro bololô.

Eu, que faço meu próprio pão e estou esperando o tempo esquentar um pouco para fazer meu próprio fermento, que fui até o interior do Estado do Rio ver uma festa de jongo num quilombo, que marchei pela liberdade na avenida Paulista, que tenho um pau de chuva e vários batuques em cestos de palha no chão da sala, concluí que o ciclo fechava, manja? Podscrê, a hippieficação completa. Eu concluí que o dread podia seguir seu rumo e eu o meu.

Foi assim que eu cheguei ao salão do Pedro com aquele bololô no cangote e pedi: corta. E ele: meu DEUS, O QUE ACONTECEU aí? Eu fiquei com uma certa preguiça de explicar para ele que aquilo era o fruto de um processo, um fruto amadurecido, que estava na hora de cortar, que era para ele cortar tudo de uma vez só que eu ia guardar aquele dread espontâneo em uma linda caixa que eu mesma fiz de papier-machê… Então apenas disse para ele: peloamordedeus me livra desse ninho de rato!

E assim, desde sexta-feira, eu aderi à tendência dos médios.

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Eu adoro papo de mulher

Ontem, no jantar, a respeito do tempo seco

– Nossa, meu nariz está ardendo.
– Eu tô com as pálpebras ardendo.
– Eu dormi com uma toalha dentro do quarto. Acordei no meio da noite de secura. Fui ao banheiro, enchi a pia de água, molhei a toalha e levei pro quarto. Só aí dormi bem.
– Esse tempo seco é foda.
– Eu tô à base de rinossoro e colírio.
– E creminho disso e daquilo.
– Ai, mas o cabelo fica lindo, né?
– Fica ótimo!
– Meu, quando vejo as minhas fotos no deserto do Atacama, eu tava com o cabelo comprido, naquele tempo seco, muito lindo…
– Mesma coisa minhas fotos no México, parece L’Oreal!
– É, o cabelo fica foda.
– Fica, fica lindo.

Agradecimentos a Ana e Tati.

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