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Isso, aquilo e tal e coisa

 

O Pantanal continua lindo. Estava, como sempre, exuberante, com aquela paisagem que nunca é igual, que muda a cada 500 metros, que mesmo que você vá 10 vezes para lá, vai surpreender. Eu sugiro a todo mundo que vá ao Pantanal. O Brasil parece que fica maior e mais bonito. Eu sei que pode ser difícil trocar a praia do litoral do Nordeste ou a ida à gringa por uns dias no meio do mato, mas, juro, eles são surpreendentes.

Nova York também continua linda. Fui para lá também. E a Belle continua muito linda. Fui visitá-la em Chicago, minha nova cidade favorita nos EUA, onde ela mora.

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O Haddad ganhou e eu fiquei muito feliz. Não sem reservas, mas diante das alternativas, fodam-se as reservas. A única coisa que quase me fez anular o voto no segundo turno foi o Lula dizer que a vitória do Haddad em SP era um recado sobre o mensalão. Não, querido, não mistura as coisas. Meu voto no Haddad tem nada que ver com o mensalão. Ele tem a ver com o meu bode do trio Kassab-Serra-Alckmin e a merda de política do ‘saiam todos das ruas’ praticada em SP. Não tem nada a ver, nada, nadica de nada, a ver com o mensalão.

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Agora ao que interessa: eu estou grávida. Isso explica em parte as férias prolongadas por aqui. Tenho muito sono e muita preguiça. Acontece muita coisa. Nesses dois meses, eu parei de fumar (oxalá continue assim depois), passei a comer, sem esforço algum, de acordo com aquelas cartilhas de nutrição que você acha que nunca serão obedecidas por um ser humano normal (a cada duas horas, basicamente frutas, nada pesado antes de dormir, menos carboidratos vazios, mais folhas verde-escuro, etc.), e passei a fazer aquelas coisas caxias que ninguém cumpre embora saiba que deva cumprir: passar filtro solar todos os dias: check. Passar fio dental todos os dias: check. Passar hidratante todos os dias: check. A pena de não cumprir essas tarefas é muito alta. Manchas na pele, gengiva em transe, explosão de estrias.

E eu jurei para um amigo querido, o meu editor erudito favorito, Paulo Werneck, que não ia virar mãe blogueira e nem transformar este Caracs em um blog sobre fraldas de pano X fraldas descartáveis. A ideia é que tudo continue igual por aqui, embora, é claro, como esse blog no fundo, na verdade, é uma grande egotrip, o assunto será inevitável.

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Por fim, desculpem a longa ausência, não garanto muita frequência, mas estou de volta. Se você estiver lendo de manhã, coe um cafezinho, que o café de coador tá usando (como você pode ou pôde ver no maravilhoso Paladar de algumas semanas atrás).

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Você, eu e todas as jornalistas

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Belle, que vergonha essa minha demora. Eu ando um pouco inábil com o tempo. Mas isso não é desculpa, porque nossas cartas são prioritárias. Par avion. Prioritaire. (Tenho quase certeza de que essas foram as duas primeiras palavras que eu aprendi em francês. Sei lá porque tenho uma lembrança ancestral de um envelope com vários avisos de prioridade em vários idiomas.)

Vou direto ao ponto: eu amo seu amor renovado pelo jornalismo.

Quando pintou esse papo de Chicago e você começou a falar das coisas que pensava em fazer aí, eu até torci secretamente para que você acabasse numa cozinha profissional e virasse a chef Belle. Mas quando você se reapaixonou pelo reportagem eu reverberei.

Pode ser que tenha a ver com a idade ou pode ser que tenha a ver com o tempo de profissão, e essas duas coisas podem ser uma só, mas recentemente eu me vi tentando identificar a “nossa geração”. Será que ela tem uma cara? Será que daqui 30 anos, nas redações dos jornais paulistanos, será mencionada a geração dos anos 2000? Será que somos a geração dos anos 2000? Será que ficar pensando nisso é sinal de loucura, narcisismo e falta do que fazer? Pode ser.

Mas, sério, eu comemoro muito a sua renovação de votos com o jornalismo. Gosto de ser sua colega de profissão. E, pra mim, você é peça central nessa tal geração que eu fico procurando. Você e um punhado de outras pessoas que trabalharam com a gente. E sem falar que seu novo amor pelo ofício recria e reforça a chance de a gente trabalhar juntas de fato algum dia. Já foram, o que, duas tentativas? Uma hora vai. E vai ser demais.

E eu vibro ainda mais quando vejo textos seus fora dos primeiros cadernos do jornal. Acho graça dessa sua mania de gostar de assunto sério. Uma coisa meio visconde partido ao meio. A metade sua que trabalhou no caderno de economia, na cobertura das eleições, que até em jornal só de economia já trabalhou, estava sempre trabalhando enquanto a metade sua que fala de seriados, comida e sapatos tomava vinho comigo. Acho que as duas se encontraram numa dia em que a gente tentou decidir quantos por cento do salário era permitido gastar nas liquidações de verão. Mas foi um encontro bem relâmpago, que logo o assunto voltou a ser só o vestido. Parcela no cartão de crédito e pronto.

E agora, tcharã, a sua metade lá continua às voltas com chatices macroeconômicas, mas a outra, iuhuuu, se juntou a mim e ao maravilhoso mundo do soft news, que de hard já basta a vida. Nesse mundo macio, os assuntos, quase sempre, coincidem com os hobbies. Verdade que isso pode virar um problema, porque ao menor sinal de descuido lá está você apurando no meio das férias, preocupada em tirar uma foto mais caprichada, porque vai que a matéria vira capa.

Quando eu trabalhava no Turismo era assim. Em todos os meses do ano, meu expediente era das 14h às 20h, menos em dia de fechamento, que não tinha hora pra sair. E no mês de férias era plantão de 24 horas por quantos dias fosse que eu estivesse na estrada. Anota, pergunta, fotografa, pega mapa, preço e o escambau.

Daí eu saí do jornal e do caderno. E dois meses depois fui pra França. E ia pra cima e pra baixo com meu caderninho, anotando as coisas, como se ainda escrevesse sobre isso. Um belo dia, fui de Velib pro canal St. Martin. Parei num boteco para tomar uma cerveja e fui pegar o caderninho para anotar as aventuras do dia. Cadê? Tinha esquecido na cestinha da Velib. Foi uma libertação. Achei poético demais perder meu caderno na cestinha da vélo em Paris. (Fiquei torcendo pra Sophie Calle encontrar meu petit cahier e fazer uma arte com ele. Vai que…)

Só que tem uma coisa que o Milton Hatoum me disse numa entrevista que nunca saiu da minha cabeça. Ele disse assim: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. Depois de algumas viagens sem caderninho, não teve jeito. Ele voltou para a bolsa. Você sai do negócio, mas o negócio não sai de você. E na mala que eu vou levar praí nas minhas férias, lá estará meu caderninho. Vou levar um de presente pra você. O Rafa faz uns cadernos lindos, à mão, com papeis incriveis, costurados.

Voltando ao papo “nossa geração”, pra mim tem duas jornalistas que eu vejo como próximas a mim, você e a Pri, que trabalhou comigo no Turismo. Vocês são totalmente diferentes mas, olha que engraçado, têm duas coisas muito específicas em comum: são duas amantes da comida e já trabalharam na TV, na frente das câmeras. Quando eu penso nessa nossa geração, começo daí. Eu, você e a Pri.

E vou colocando outras pessoas incríveis. E quando me dou conta, é só mulher. E quase todas têm uma mesma característica: fazem alguma outra coisa. Não são, como dizia o Silvio, meu editor lá no Turismo, “mulheres de redação”. Um tipo que parece que não existe fora daquele contexto. A Julia, por exemplo, é bailarina. A Alê Moraes faz O Pintinho. A Marinão traduz poesia. A Olívia, essa você não conhece, trabalha comigo lá no Estadão, toca piano, mano. Piano. A Raq, como eu pago pau pra essa menina, é humorista. Haha, talvez ela não saiba, mas é. Aliás, se tudo der errado, você e a Raq têm essa chance: ganhar a vida fazendo humor. É um belo dum plano B.

(E tem mais tantas, tantas… tem a Jana, a Carol Arantes, a Marreiro, mano, a Marreiro, e a Tati K., que é tipo uma Marreiro digital, a Leca!, a Mari Bastos, a melhor jornalista de esportes que eu conheço, se eu for listar todas, vai acabar o papel almaço… E isso sem falar da new generation, tô apaixonada pelas jornalistas sub-25 que conheci nesses últimos tempos.)

Depois até vou concedendo espaço para alguns homens. Mas aí desisto e fico com a mulherada mesmo, pago uma homenagem mental à minha primeira editora e guru espiritual, Fátima Mesquita. E depois faço um agradecimento silencioso e sincero a outras mulheres que me inspiram, a minha ídala (esses dias em pensei num trocadilho tão infame: amígdala, a amiga que é ídala, ui), Iara Biderman, a melhor editora de texto que eu já vi em ação, minha xará Helô Helvécia, e a inspiradora Teté Martinho, a quem eu sempre recorro em busca de conselhos. Êta mulherada porrêta. Dia desses eu fui tomar umas com as três naquele baiano novo aqui perto de casa, o Sotero, que eu considero, hoje, a melhor opção para comer, beber e viver aqui na região. Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.

Não é nada contra os jornalistas homens, que eu adoro e admiro muitos colegas e o meu maior parceiro de jornalismo na vida, ou da vida de jornalismo, é homem, o Matias (aliás, você viu que eu consegui me infiltrar no fumoir da internet?).

Mas quando vejo, lá estou eu pensando em todas essas mulheres. E sempre começa com você.

Com amor e admiração
Helo

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Comer, beber, viver

(A troca de correspondências continua. Embora eu esteja lenta pra xuxu. A Belle respondeu minha carta há tipo uma semana, desculpem a demora)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:

Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez ”Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

A revolução da salsinha

(A troca de correspondências continua. Hoje eu respondo a carta da Belle)

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Minha vontade é que mude tudo! Mudança é das minhas coisas favoritas. Gosto até de mudar de casa. Encaixota, fitacrepa, etiqueta. Carrega. Desencaixota, desetiqueta. E tudo que era meio velho fica meio novo. Aqueles móveis cansados ficam atordoados. A cômoda incomodada. É como aqueles suvenires de lugar com neve, que você chacoalha e a neve sobe toda e fica flutuando. Acho lindo.

Mas eu não quero mudar de casa que estou bem aqui. Queria, sim, que você mudasse, de volta aqui pra sua casa do lado da minha. Isso sim! Mas beleza, esse período em Chicago vai ser bom pra você, vai ser bom pro Chico, e, por consequência, pra mim, que estou certa de que você vai ficar muito amiga do Rahm Emanuel. Daí ele vem te visitar e você me chama pra tomar umas no baiano com ele. Aliás, faz isso com o Achatz também? (Aliás aliás, esse perfil que você fez para o Comida hoje parece amuse bouche: dá vontade de muito mais. Aposto que você deve estar aí se contorcendo com a dor de ser jornalista e escrever um texto enorme que precisou se encaixar num espaço que não era nem a metade do tamanho… eu passei por isso recentemente, fazia tempo que não acontecia. Adoro, com cada veia e artéria, o jornal impresso, dedo manchado, braço aberto pra virar a página. Mas bem que podia ter um ‘carregar mais parágrafos’ clicável no fim de cada retranca. Aliás aliás aliás, estou bem digressiva, esses dias ouvi uma história incrível. Vou contar e já volto pras mudanças)

Eu estava conversando com um mineiro das baixelas e ele me contou que na casa dele, todas as manhãs, o jornal era passado. Na tábua de passar roupa, com ferro quente. “Sem vapor, claro”. Havia um ferro específico para o jornal. A empregada abria a edição em cima da tábua e passava página por página. Disse ele que, com isso, o jornal não solta tinta e os dedos continuam limpos depois da leitura. Eu estou para experimentar. Deve ficar lindo o jornal todo lisinho.

Então voltando à mudança. Eu queria muitas. Mas queria muito uma:

Eu queria que todo mundo prestasse atenção ao que come. Que quando as pessoas abrissem o pote de iogurte de manhã, se perguntassem como ele foi feito. Como o leite virou iogurte. Como o leite saiu da teta da vaca? Como vive a vaca?

Comer está na moda, todo mundo vai aos restaurantes do momento, todo mundo sabe de vinhos tais e quetais. Mas e o pão nosso de cada dia?

Num segundo momento, queria que todo mundo de repente pegasse pra si alguns desses processos. Pão? Mistura a farinha com água, coloca o fermento, escolhe suas castanhas favoritas, vê o bichinho crescer, assar, dourar, queimar. Aprende o pão. É o iogurte? Descola um fermento e bastam 10 minutos por dia para ter iogurte fresquinho feito em casa diariamente. E aí você escolhe qual leite usar. E vê como tudo muda se o dia tá quente, se tá frio, se o leite é bom, se o leite é médio. E que se você coar, vira coalhada. Se coar muito e apertar, vira queijinho.

Aí, viria a revolução: todas as pessoas iam querer cultivar suas próprias cebolas, seu próprios chuchus. E iam arrumar cantinhos pela cidade para fazer hortas. No topo do prédio, no canto da varanda, no canteiro do condomínio. No teto da loja da frente, que fica ali só refletindo o calor do sol. E a cidade seria tomada por hortas. E se a minha horta desse muita beterraba e a sua estiver bombando de couve, a gente troca! Eu dou umas beterrabas pra você, que me dá uns pés de couve. E a gente se conhece e conhece aquele outro vizinho que deu de cobrir a fachada do prédio com lindos pés de maracujá!

Ok, talvez minha utopia roceira não aconteça e São Paulo não se transforme numa enorme fazenda… Mas essa minha sugestão é só um meio para um fim, para a mudança que eu quero e venho tentando fazer na minha vida: parar de consumir sem pensar. E não estou falando de bolsa cara, sapato de grife.

Estou falando de você ir ao supermercado e ter: frango.

Como assim frango? Queria que o consumidor do meu bairro, da minha cidade e, no limite, do Brasil, ficasse cricri e se perguntasse: como assim frango? Eu quero frango criado livre, quero frango caipira. Galinho carijó, galinha d’Angola. Pato, ganso, codorna.

É isso. E você tava achando que tava hippie demais porque queria um pouco mais de paz…

Beijo, que agora eu vou lá vestir meu poncho e tocar flauta de pan.

 

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(A Belle respondeu minha carta na nossa troca de correspondências! Ó só:)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Minha saudosa Cuíca, Helozita-amada,

Entendo sua piração no possessivo porque, de fato, é muito bom sentir-se dono das coisas que ama. Das pessoas, dos lugares, etc. e tal. E, convenhamos, mais legal pirar no possessivo do que no imperativo. É mais doce e causa menos espanto alheio. Ainda assim, acho que requer cuidado. Pra ficar só na língua e não virar uma neurose real. (E realmente acho que não é seu caso.)

Confesso que invejei o fato de você já ter conhecido a pequena e gloriosa filha do nosso Otto. De longe, a sensação que eu tenho é que a vida tá passando rápido demais e eu não tô vendo nada, não tô compartilhando as coisas importantes que estão acontecendo aos amigos, boas e ruins. O botão share do Facebook ainda não dá conta disso. Hoje mesmo, quando entrei na internet pela primeira vez, descobri que uma tinha mudado de marido, outra perdeu a mãe (:~), outra pediu demissão para ser empreendedora. Foi rápido, ninguém teve tempo de me contar (e por que parariam tudo pra me contar?), mas eu vi que aconteceu. E aqui, às vezes parece que o tempo tá meio parado, só o vento se mexe.

Quer dizer, pensando bem não parece não. São seis meses desde que parti e eu acho que (ufa, finalmente) me adaptei. Eu tenho uma vida aqui. Só não tenho tanta excitação e tantos amigos pra compartilhar as minhas coisas e com quem compartilhar as coisas deles, mas tenho alguma coisa. O Chico falou em versão desidratada, mas eu acho que é mais minimalista. Notei que até o nas roupas a coisa minguou – trouxe 40, uso seis. E isso pode não ser ruim. A galera consciente fica falando em viver com menos, né? Acho que tô levando isso a sério, inconscientemente. E não é ruim, parece que a gente começa a valorizar mais tudo. E no final, a gente também se adapta a tudo, né?

Sobre o conservadorismo, eu acho que gosto quando é do bem, mas tenho medo das ideias extremas, da direita à esquerda. Eu gosto do F da família, mas TFP é sim FDP, mesmo achando que às vezes tradição pode ser ok e até desejando algo do gênero, como o lance de ser noiva e tal.

E gosto também quanto tem mudança boa. Se a moda pega e as gordinhas gostosas voltarem com tudo, eu vou adorar. Eu quero muito que mude o padrão de beleza. Eu também queria, pra variar, que o mundo ficasse um pouco em paz. Parece meio hippie, né? Mas, como o Clint falou, isso já foi um ideal até dos republicanos… Hoje a coisa é bem diferente e eu temo pelo Irã e Israel. O mundo tá estranho e dá um medinho daqueles.

Mas pensando bem, o mundo sempre foi estranho. Isso é um fato que consta da ala conservadora, não muda.

O que será que muda, e o que não vai mudar? O que a gente quer que mude e o que não mude? Me conta a SUA vontade, continuando na onda possessiva, que eu vou pensar na MINHA.

Saudades, amor,

Belle

Nosso, seu e meu-meu-meu

Essa é a primeira carta da minha correspondência com a Belle. Para entender que porra é essa, leia isso. A referência é essa.

Minha Mattosa, aqui é sua Cuíca. Ando pirando no possessivo, meu, minha, as minha pira. E eu piro e se botasse lenha na pira acabaria escrevendo um Mein Kunin, a minha luta anarquista, com a bênção de Bakunin e o perdão do trocadilho infame.

É que, você sabe, o Cuenca, do seu Mattoso, minha Belle, veio na primeira carta dele com um nosso isso, nosso aquilo. E esse possessivo do plural virou possessão. E assim foi que eu pirei no que é meu, no que é seu e no que veio a ser nosso.

Ele disse:

“Nosso Rubem Braga virou, de facto, um fazendeiro. Nosso Otto está experimentando as alegrias e dificuldades da paternidade.”

Eu pensei: Se é um nosso e outro nosso, também quero ser nossa. Achei o meu:

– Nossa Assim Você me Mata.

(Obrigada, Veri, Nossa Senhora dos Achados Infames, que esse é de facto malandro.)

Voltando aos nossos assuntos: hoje, bem hoje, conheci a filha do Nosso Otto, meu querido, e puxa vida. Ela é inacreditável. Ela não dá chances. Ela espia, faz alguma coisa aleatória, olha pra cima e abre um sorrisão. E aí você tem certeza que é pra você. Que aquilo foi especial. E tudo fica glorioso. E a manhã passa devagarinho e você começa a achar, de repente, que tomar café da manhã é igual a ir jantar.

A família. Anda tão fora de moda, né. Mas aí você vai vai lá e percebe que poucas coisas fazem tannto sentido como o pronome possesivo da família quando você começa uma. Eu mandei um e-mail para ele dizendo: Sua família é linda. E é a família dele mesmo. E ela é linda mesmo. A mulher dele é linda e a filha dele é linda. E ele é lindo. E eles três juntos são lindos e eles três juntos formam essa família. Portanto, a Família deles é linda. Mas esse F…, quando aparece com o T e P de TFP fica meio FDP. Mas, né.

Isso está entre algumas das coisas que você que me ensinou. Que o conservadorismo às vezes não está onde a gente acha. E às vezes eles está bem onde a gente acha que não tá. Ah, você e suas seriedades…. Pois bem, isso me fez lembrar que hoje, ainda que tarde, eu vi um trecho da entrevista do Clint Eastwood na GQ. Veja só, na minha tradução livríssima:

“Eu era um republicano-Eisenhower quando comecei aos 21, porque ele prometeu tirar a gente da Guerra da Coreia. E, ao longo dos anos, eu percebi que havia uma filosofia republicana de que eu gostava. E aí eles perderam isso. E os libertários tinham isso. Porque eu acredito no seguinte: vamos gastar mais tempo deixando as pessoas em paz.”

Você acha que dá para entender?
Beijo

Is a Belle Époque

Para receber meus amigos, a cidade até fez uma estátua nova

Tudo nessa vida tem seus prós e contras. Recentemente, a Belle e o Chico enfiaram na cabeça que queriam ir morar fora. Foi-que-foi e eles foram pra Chicago no fim da semana passada. Eu estava aqui sofrendo como se estivesse no famoso inverno de lá quando veio um quentinho acalentar meu coração.

É que a Belle finalmente criou um blog, o Is a Belle Époque.

E eu fiz um versinho para eles em Chicago. É bem maroto, saca só:

Eu ia dizer:
Chico e Belle,
bem-vindos a
Chicago.
Mas é mais certo
dizer assim:
Chicago,
bem-vinda a
Belle e Chico

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Lá vem a noiva, deixa vir a noiva

E não é que, no fim das contas, o príncipe Harry ficou mais bonito que o William?

Eu bem que tentei, mas não deu para passar batido pelo casamento real, a nova princesa e todas essas coisas. Eu vou aproveitar o gancho para dar minha controversa opinião sobre casamento. Gancho, para quem não sabe, é o nome que nós, jornalistas, damos para o truque de pegar um assunto momentoso (o casamento real) para fazer um trololó sem fim (veja a seguir).

Eu tentei ignorar a gênese da princesa Kate. Mas hoje, no meu maravilhoso plantão, assisti a um compacto da cerimônia. E foram tantas reflexões a partir do breve resumo em vídeo que a única coisa que eu posso afirmar categoricamente é: sorte a nossa que eu não vi a cerimônia inteira, se não esse blog ia ficar falando do casório por dias a fio.

Dito isso, vamos ao casamento. Não o compromisso, a relação, a vida a dois, nada disso. Mas a cerimônia, a festa, a hora do sim.

É que em algum momento, sei lá eu como foi que isso aconteceu, alguma mulher, ou algum casal, ou sei-lá-eu-o-quê, mas certamente alguém muito mal humorado, resolveu espalhar por aí que casamento é bobagem, que é uma instituição falida e que a coisa mais jeca do mundo é fazer festa de casamento, com bolo, tim-tim e vestido branco.

Resultado: uma geração inteira de mulheres foi privada do direito de querer casar vestida de princesa, com dia de noiva, aceita?, sim!, é de livre e espontânea vontade?, sim!, então pode beijar a noiva, chuác. Nanananina. Nada disso. Não pode, a gente é moderna, independente. Isso aí é pra mulherzinha besta.

O ritual do casamento para essas pobres infelizes (entre as quais eu me incluo) é super emocionante. Veja só, é assim: encaixota tudo, chama o carreto, desce as caixas, vruum, sobe as caixas, desempacota, arruma, arruma e arruma. Fazer mudança é chato, né? Pois é. A gente casa assim. E parece que isso aí, essa absoluta ausência de festa e de graça, garante uma relação mais verdadeira, um casamento mais autêntico. Ah, tenha dó!

Então (repare, esse é o truque do gancho) aproveitando o casamento de Kate e William, eu venho aqui, diante de todos, defender abertamente que toda mulher (até as modernas!) tem o direito de sonhar com um casamento completo, com cerimônia, festa, madrinhas e bufê. Atenção, você, mulher independente, que trabalha muito e ganha bem, que lê muitos livros e assiste a muitos filmes, que ouve rock e vai para a balada com as amigas: querer casar não vai transformar você em uma dona de casa. Pode ficar tranquila. Seu marido não vai virar um autoritário machista só porque alguém disse: pode beijar a noiva.

Aliás, se você for feminista pra valer, pode pedir pra quem for celebrar a sua cerimônia que diga: pode beijar o noivo. Acho que isso resolve a crise do machismo, não? (Se pode isso? É você que manda no seu casamento, ué. E se você quiser que o cara diga pode beijar o noivo, manda ele dizer.)

Ser noiva, ou, traduzindo em miúdos, ser o centro das atenções, é seu direito. Mesmo que você se vista de branco, que, convenhamos, não favorece ninguém. Mesmo que signifique carregar para a igreja seus amigos ateus. Mesmo sabendo que alguma amiga sua vai ser motivo de piadas porque vai errar o look. Sim, você pode (inclusive tirar sarro da amiga mal vestida)!

Noiva é chata? Às vezes sim. Por isso não vale ser malandra e querer fazer a noiva por um ano. Tem muita mulher por aí usando esse truque.

– Eu vou casar!
– Jura! Que lindo! Quando?
– Em SETEMBRO DE 2012.

Querer usufruir do status de noiva por mais de três meses é a igual a querer ficar grávida por dois anos só pra furar fila. Não cola, esquece, ninguém vai dar bola pra conversa sobre o cardápio da festa por mais de três meses. Porque a gente adora conversar sobre o cardápio da festa com as amigas que vão casar. Mas é porque elas são nossas amigas e não porque a gente realmente goste de conversar sobre isso.

A Belle, a minha Kate, porque pra mim ela é a noiva do ano e a princesa mais linda, foi que trouxe esse tema para o rol de coisas sobre as quais eu penso. A Belle, para quem não conhece, é um mulherão. Gata, brilhante e com um humor desses que só acontecem a cada 100 bilhões de anos. Ela encarnou a bridezilla no início deste ano. E entre escolher o convite, definir o cardápio e provar o vestido, eu acompanhei feliz da vida os dramas da noiva do ano. E sempre ouvia dela, ainda que nas entrelinhas, o pedido: me deixa ser noiva com N maiúsculo? Posso pirar? Quero ser princesa!

Vai lá, gata, arrasa! Você pode! E você também pode!

Pois bem, e foi a Belle que me ensinou o segredo do casamento feliz. Para tudo dar certo, a noiva precisa usar something old, something new, something borrowed, something blue (algo novo, algo velho, algo emprestado e algo azul). E com isso, a-há, voltamos ao casamento real. No caso de Kate, o something old era a renda do vestido feito pela Sarah Burton, da Alexander McQueen. É uma renda tradicional irlandesa, chama Carrickmacross, foi feita à mão pela Royal School of Needlework (achei meio trapaceado isso aí, porque pra mim something old é uma coisa usada mesmo, mas vá lá). O something new eram os brincos, presente dos pais dela. Blue era um lacinho costurado por dentro do vestido, para não melar a rima nem o look.

A não ser que você tenha dinheiro para comprar uma joia Cartier vintage, não tenta copiar não. Não vai ficar igual

Mas o que realmente importa neste caso é o something borrowed. Se você pira em caixa de jóias de vó (eu piro e a Belle eu sei que pira, também. Ela até conseguiu um anel da caixa da vó), imagina quando a vó do seu marido é a rainha da Inglaterra. A Kate entrou linda na abadia usando uma coroa de diamantes da Cartier, de 1936, vinda direto da caixinha de jóias da vó Bete. Pas mal.

Até que hoje, nessa pálida manhã de sábado de plantão, a TV aqui ligada, eu vi uma matéria com a repercussão do casamento em uma feira de noivas em SP. E lá estavam as tentativas de cópia da tal coroa, fazendo o maior sucesson entre as novas noivas por causa da Kate.

Ai, tristezinha, elas não entenderam direito! Não é pra copiar a coroa! É muito mais legal copiar a ideia da coisa. Em vez de ir na feira de noivas procurar uma coroa que pode ser que seja parecida com aquela da princesa, copia a atitude e vai procurar alguma coisa bonita na caixa de jóias da vó.

A sua vovózinha era pobre-pobre de marré derci e não tem nenhuma joia, nenhuminha da silva? Eu duvido, mas, tá, vasculha o armário da velha que alguma coisa legal sempre aparece. Sempre tem alguma coisa bonita no armário, na penteadeira, no criado-mudo da vó. As minhas sempre me surpreenderam (elas são duas lindas, mas nunca chegaram a ser princesas, embora uma tenha sido miss primavera ou algo assim).

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O fim de Lost, graças a Deus

Hoje acaba Lost. Eu tentei gostar de Lost. Aluguei a primeira temporada, abri o peito, apertei play e fiquei esperando ser inoculada pelo vírus. Não rolou. E no terceiro episódio desisti daquilo para sempre. Hoje acaba essa papagaiada. E o Matias está fazendo um especial lá no Trabalho Sujo.

Eu participei com o desenho abaixo. (O post continua lá embaixão)

A melhor parte do fim de Lost é que essas conversas absurdas “a ilha é um receptáculo eletromagnético de experiências científicas da viagem no tempo que curam o câncer e dão a imortalidade aos escolhidos” estão perto do fim. Só mais uma semaninha, para a galera comentar o final. E acabou. Nunca mais monstro de fumaça. Graças a Deus.

A Belle também participou do especial do Matias. Ela também não gosta de Lost. E resumiu bem a antipatia.

“Mas o que pega é que eu não gosto de queda de avião. Não gosto de volta no tempo. Nem de coisas fantásticas, tipo urso polar em ilha paradisíaca. Também não transo gincana. E sou zero da aventura. Inseto me dá aflição, e eu tenho muito medo da morte.”

Estou com ela e não abro. Entre um bando de náufragos às voltas com essas bizarrices todas e aqueles homens lindos, bem vestidos e totalmente em crise de Mad Men, fico com a segunda opção. Sem pestanejar.

Por fim, só mais um anti-Lost, esse da Veri, autora dos topetes daqui do Caracteres com Espaço, mandou essa há muito tempo, lá no Dona Margot:

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