No ouro do brasileiro, a língua do chinês

Eu gosto médio de Olimpíadas, trocaria fácil Olimpíadas por Copa, para a gente ter com mais frequência aquela rotina de encontros com os amigos no meio da semana típica de jogo do Brasil, mas agora que moro com a Lu, uma entusiasta dos esportes olímpicos, me deixei contaminar e tenho visto algumas provas em horários em que normalmente eu estaria fazendo outras coisas – em geral mais úteis.

Faz algumas horas que o Brasil levou o ouro nas argolas. E dessa competição histórica e emocionante, a minha cena favorita não envolve o brasileiro. É que eu fiquei muito tocada, mas muito tocada mesmo, quando o chinês, medalha de prata, ao aterrisar perfeitamente de sua sequência de equilíbrios e cambalhotas, abriu um sorrisão e mordeu a língua.

Eu simpatizo muito com as pessoas que mordem a língua em momentos de muita emoção. Eu mordo a língua quando faço força, o que sempre rende uma ou outra piadinha. Quando eu era uma criança e adolescente karateca, o meu sensei, que é como karatecas chamam o professor principal, sempre fazia troça: “Cuidado com a língua, Helô. Se você tomar um uraken, vai cair um pedaço fora”. Meu pai morde a língua quando precisa se concentrar, por exemplo, se precisa passar a linha pelo buraco da agulha.

Só quem tem o cacoete de morder a língua sabe o quanto ele é incontrolável. É dessas coisas que mostram o quanto o corpo pode ter vontade própria. Então quando o cara terminou a sua apresentação cravado, perfeitinho, lá foi a língua para o meio dos dentes.

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Piercingless

Depois de onze anos ininterruptos, tirei o piercing do nariz pela primeira vez desde que ele foi colocado lá. O motivo: uma radiografia da cara.

Quando vi o aviso dizendo que piercings, brincos e correntes deveriam ser retirados para a radiografia panorâmica achei que era daqueles que ninguém obedece. Tipo no metrô: antes de entrar, espere os outros saírem. Ou no elevador: antes de entrar, verifique se o mesmo encontra-se ali mesmo.

Então perguntei pra mulher: sério que tem que tirar?
Ela me olhou com cara de ênfase: muito sério.

Fui ao banheiro e rapidamente tirei a argola da napa. Quando me vi sem piercing achei bem diferente. E fui tirar radiografia.

*

Ainda estou sem o piercing. E ninguém. Ninguém. Ninguém reparou. Nem meu irmão. Nem a Lu. Nem o Rafa. Com ele, foi assim:

– Você não notou nada diferente?
– Você fez limpeza nos dentes!, disse ele, porque sabia que eu tinha ido à dentista de manhã.
– Ahã, mas não é isso.
– Cortou o cabelo?
– Não.
– Mudou o cabelo?
– Não.
– Tirou a sombrancelha?
– Não.

Daí eu cocei o nariz. Só então ele percebeu.

*

Mas mudou alguma coisa. E eu não devolvi a argola ao nariz. E lá se vão meses. Ainda não sei exatamente o que mudou. Mas tenho alguns palpites.

– Minha cara parece que ficou inteira.
– Eu não virei outra pessoa só porque tirei o piercing. Eu sei que isso não parece fazer sentido. Mas faz.
– O que me faz crer que importa cada vez menos como eu pareço ou se eu pareço o que sou. O que leva à conclusão: estou, definitivamente, ficando velha. Jajá vou começar a achar que tudo bem sair por aí descabelada. Ah, não, isso eu já faço desde sempre. Será que daqui a pouco vou começar a pentear o cabelo? Não é possível. Ainda bem que guardei a argola bem guardada. Qualquer coisa corro lá e coloca ela de volta.

 

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Gosto e não gosto

 

Eu gosto de tudo que vem do milho.
Gosto muito de tapioca.
Não gosto de banana.

Eu gosto de ônibus.
E não gosto de metrô.
Adoro táxi, mas é caro.
Eu não dirijo.

Amo Seinfeld.
Adorei Sopranos.
Pirei com Twin Peaks.
Curti Entourage.
Gamei no House.
Estou apaixonada por Sherlock.

De queijo, eu gosto.
De leite, eu não gosto tanto.

Adoro Faroeste.
Até gosto de musical.
Não vejo filme de terror.

Gosto mais de Vargas Llosa que de García Marquez.
Detesto Saramago.
Mas juro que não sou conservadora.

Pavement, Spoon, Grandaddy: gosto.
Hank Williams, Dolly Parton, Johnny Cash: gosto.
Bob Dylan: gosto muito.
Radiohead: gosto muito muito.
Schubert: cataploft.

Estilista favorito, empate: Chalayan, McQueen, Margiela, Viktor&Rolf.
Paira sobre todos: Schiaparelli.

Discovery Channel, National Geographic, Animal Planet: sim.
Desenho animado: sim, até os ruins.
Saga fantástica: não, com algumas exceções.

Atender telefone: não.
Receber sms: sim.
Desde que não seja da TIM.

Adoro Gtalk.
Detesto MSN.

Twitter não.
Facebook até que vai.
Mas prefiro mesa de bar.
Sem exagerar no Instagram.

 

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Hoje vou ao Bar Balcão

Na minha separação, dois anos atrás, na divisão de bens, o Bar Balcão ficou com o meu ex. Foi a primeira coisa que decidimos. A conversa foi assim:

– É isso mesmo?
– É.
– Então é isso, né? É.
– É isso? É.
– Tá.
– Tá.
(breve silêncio)
– E quem vai ficar com o Balcão?

A discussão foi longa. Ele conhecia o bar primeiro. A primeira vez que fui lá, foi porque ele me levou. Mas, no caminho para o banheiro, tem um quadrinho com um texto meu para o Divirta-se falando sobre o hamburguer do Dudu (é verdade que eu tive a manha de errar o endereço, mas quando você vai sempre ao lugar, o endereço acaba perdendo relevância). E eu sou jornalista e todo mundo sabe que o Balcão é bar de jornalista. O que naturalmente deixaria o Balcão comigo.

Bem, como eu queria muito ficar com o sofá e com um quadro de luta-livre mexicana (ambos itens potencialmente polêmicos na hora de decidir o que era de quem), cedi o Balcão para garantir El Enmascarado de Plata.

Banida no Balcão, passei a frequentar o Bar da Dida (que eu já frequentava e sempre esteve na lista de bares favoritos). Eu achei bom mudar de ares, e os ares tinham definitivamente mudado. Embora não tenha nem mudado de quadra.

Mas como as regras são feitas para serem quebradas – e eu tenho meus informantes – quando o ex tá viajando ou dormindo (tenho a impressão de que a notivaguice ficou pra mim), volta e meia eu volto o Balcão. Já cheguei lá bem tarde, meia dúzia de gato-pingado, pra tomar dois bloody marys e falar mal do jantar afetado que nunca terminava num restaurante ali perto. E quando marco de encontrar amigos lá, amigos que sabem que fui banida do bar, adoro os primeiros momentos da conversa, em que faço uma cara de clandestina e digo: ‘eu não poderia estar aqui’.

Por obra do destino, a dona do Bar Balcão ficou sabendo dessa história e decretou:

– Ela pode vir aqui sim!

Bom, ela é a dona do estabelecimento, né. Então hoje, se o Bar Balcão abrir, eu faço questão de ir lá tomar um chope.

Quero manifestar meu carinho aos garçons, que ontem à noite foram agredidos no mais recente caso da onda de arrastões que parece querer dar o tiro na testa, aquele último, com indícios de execução, na vida paulistana.

Eu aceitei abrir mão do Balcão na divisão de bens. Mas me recuso – me recuso – a permitir que roubem o Balcão (e o Carlota, e a pizzaria Bráz etc etc e os resturantes e o bares e os bares que abrem às segundas-feiras e as pessoas que vão a bares na segunda-feira e essa coisa paulistana de se achar capital da gastronomia e da vida noturna mundial, que é um pouco jeca, mas tem uma graça toda própria) de mim e de todo mundo. Vamo?

PS. Ontem eu fui ao Dry, bar que não combina muito com meu estilão, e, na volta pra casa, passei na frente do Balcão. Era tipo meia-noite e pouco. E eu pensei: ai, a gente podia parar pra tomar uma saiderinha no Balcão. Mas era segunda-feira e o pessoal aqui em casa acorda cedo e tava aquela neblina toda sugerindo cama-cama-cama-cama. Um hora depois, cinco homens armados renderam um garçom do Balcão que estava fechando a casa, roubaram os poucos clientes que deviam estar insistindo naquela última rodada, e agrediram os garçons para roubar o caixa, de onde levaram R$ 200. Agrediram os garçons, mano. Os garçons do Balcão. Que são os garçons mais legais do mundo depois do Eugênio, o garçom do Prainha (de Higienópolis, não da Prainha da Paulista).

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O cobrador mágico

Olhando de fora, parece um ônibus de linha. Mas não é. É uma máquina de alegria. Funciona assim: você entra pela porta da frente cansado, desanimado, mal-humorado, tristonho, pensativo, o que for. E sai pela porta de trás feliz. Certo de que o Homem é bom. Certo de que vai dar tudo certo. De que estamos no caminho certo.

Esse ônibus especial faz a linha 719-P (Metrô Armênia-Pinheiros).

E o motor dessaa máquina de alegria responde pelo nome de Chicão. Olhando de fora, ele é cobrador. Mas isso é só disfarce. Eu não decidi ainda direito o que ele é na verdade. Preciso da ajuda de vocês. Vou me esforçar para descrever bem o Chicão.

(Mas antes de começar a falar do Chicão, um breve parêntese sobre mim mesma. Vejam como eu sou sortuda. Eu pego o ônibus do Chicão para voltar da terapia para casa. Da terapia, mano. Então quando digo que se você está tristonho, pensativo, desanimado o que for, o ônibus do Chicão te deixa feliz é porque SEI do que estou falando.)

Funciona assim. Você está na Teodoro Sampaio, aquele trânsito, aquela confusão. Aí entra no ônibus e ao passar na roleta ouve:

– Bom dia, minha linda.

Toma um susto, olha pra frente e dá de cara com um sorriso gigante, branco, num rosto bem preto, careca.

Daí mal dá tempo de responder e ele já está falando com a pessoa de trás:

– Oi, minha linda, tudo bom com você hoje? Mas você tá linda demais hoje, não quer namorar o negão, não?

Daí você olha pra trás e vê uma senhorinha meio rindo meio envergonhada, que estende a mão pro Chicão beijar.

E se entra um homem, não tem problema. É bom dia, meu lindo. Meu querido, minha linda, meu amor, gata. Nesse ônibus, todo mundo é lindo. Todo mundo sorri, dá risada. Todo mundo conversa. O Chicão vai comandando o papo e as descidas.

– Avenida Angélica, até número 2.600 é aqui. Prédio tal, laboratório sei lá qual, conjunto das quantas? Desce aqui.

E vai avisando parada a parada. Cadê a minha linda que queria descer no Lavoisier? É aqui, gata, pode descer. Xuxu, você ainda não, seu ponto é mais pra frente, confia no negão que eu não esqueço não.

Daqui a pouco aparece um jornalzinho Destak. Quem quer ler jornal? Tem dois aqui. Tó. As pessoas pegam o jornal pra ler e quando acabam passam pra outra pessoa que manifestou que também queria ler. E quando todo mundo termina de ler o jornal volta pro Chicão que pergunta de novo: Quem quer ler jornal? Táqui meu lindo, depois passa ali pra minha linda de vermelho que ela quer ler também. É transporte coletivo. (Toda vez que ando no ônibus do Chicão penso nisso. Isso sim é que é transporte coletivo. Todo mundo está junto ali dentro. É o contrário daquela chatice de gente obstruindo a porta, gente que não percebe o outro. Hoje mesmo parei pra olhar com atenção e ninguém, ninguém, estava com fone de ouvido. Todo mundo estava ouvindo o papo do Chicão.)

Aí entra uma mulher. E grita. AAAAAAH! Meu amor! Quanto tempo! Chicão, você é a pessoa mais linda do mundo! Eu amo você. E o Chicão quase chora. Ah, minha doida, não faz isso com o negão!

Fazia tempo que eu não via o Chicão. Tava até pensando em ligar pra SPTrans pra perguntar se ele tinha mudado de linha ou se aposentado (porque numa viagem, há algum tempo, eu lembro de ele ter dito que queria aposentar). Então quando entrei no ônibus e vi o Chicão quase que não acredito. Quando fui passar na roleta puxei papo:

– Tava sumido, Chicão!

E ele:

– É que eu tô ficando folgado. Só faço dias viagens agora. Tá na hora de aposentar, viu, minha linda. Trabalho há 39 anos. 16 nessa linha. Tem que parar antes de ficar chato.

Fiquei ali bem perto pra poder fazer umas perguntas pra ele. Mas antes que eu pudesse começar, ele emendou:

– Já comprei até meu filtro solar. Quero aposentar e ir pra praia, aprender a nadar, beijar na boca e transar na areia. Já imaginou que loucura?

A mulherada começou a chiar. Ah, não, Chicão. Você não pode aposentar. O que vai ser da gente? Perguntei o que faltava pra ele se aposentar. Idade. Chicão tem 53 anos.

Começou maior rasgação de seda pro Chicão. E ele foi me dizendo: Sabe, gata, a gente vai criando amizade. Vê aqui: essa aqui, minha loira, eu amo ela. E essa outra (se estica inteiro pra pegar a mão de uma passageira), é meu amor. Eu amo você, minha linda. Aquele ali (aponta um senhor sentado, que olha pra ele sorrindo) é meu amigão. Eu fico amigo dos meus clientes. E vai ficando difícil.

É muito amor nesse ônibus.

Todo mundo entra na dele. Chicão, se você parar, todo mundo vai chorar de tristeza. O Chicão vai se emocionando.

– Ai, assim eu vou chorar. Vocês, viu… eu preciso aposentar. Se não vou virar um chato. Vocês vão fazer o negão chorar desse jeito. (Silêncio) Não, eu não vou chorar.

Então ele começa a contar a história do Meu Pai. Um cobrador de uma linha que não me lembro mais qual é e que está na mesma linha há trinta e sei lá quantos anos.

– O Meu Pai foi fazendo amizade com os clientes da linha, todo mundo conhece ele. Só que os clientes do Meu Pai foram morrendo. Morreram todos os amigos dele da linha. E hoje ele é um chato.

Cá com meu egoísmo, eu torço pro Chicão virar um chato e se aposentar só depois da hora da nossa morte. Amém.

PS. Hoje os ônibus estavam em média 1h30min atrasados por problemas no trânsito. O 719-P estava abarrotado. Fazia muito tempo que os passageiros estavam esperando o ônibus. Todo mundo entrava bufando, atrasado. Uma mulher reclamou com o Chicão. Faz uma hora que estou no ponto esperando! E o Chicão: não briga comigo, minha linda, tá tudo parado. Era pra gente já estar na Armênia a essa hora. Eu não vou ao banheiro desde as 6h30 da manhã. Se desse para dar um nozinho na ponta pra eu não fazer xixi na calça, juro que eu dava. E a mulher, que tava toda emburrada, riu, pediu desculpas e emendou – É só um desabafo.

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Conversa com o limoeiro

Eu estava saindo de casa na sexta-feira à noite para ir para o sítio quando me dei conta de que ia esquecendo o carregador de bateria do celular. O Rafa perguntou: quer voltar? Eu disse não. Mal terminava de colocar o til no a quando lembrei das fotos que não poderia postar no Instagram. Mantive o não e partimos.

O Instagram, essa linda versão ilustrada e editada da vida, formula, automaticamente, um projeto editorial fotográfico. (Na minha opinião, é a coleção de momentos em que eu consegui tirar uma foto, na minha vida real, da vida que eu quero ter). E nesse projeto editorial, sítio vai bem.

Quando amanheceu e eu dei uma volta no pomar, arrependi. O maracujá estava florido. Mexerica, limão, laranja, pitanga, tudo apinhado. Bolo quente saindo do forno, pamonha fumegante saindo da panela e o café de coador de pano envolto numa nuvem de vapor, porque tava frio pra chuchu. Aliás, tinha um monte de chuchu. As cestas cheias de hortaliças recém-colhidas. Os ramos de alecrim com flores minúsculas, alface verdinha, couve. E quando saiu a comida, os pratos de ágata com arroz, feijão e costela com canjiquinha, quase que eu choro. Queria todas essas fotos. Tudo com o filtro Earlybird, aquele em que é seis da manhã para todo o sempre.

Fui refletir no pomar: se meu projeto editorial é tão matinal e campestre, o que estou fazendo longe da fazenda?

Primeiro, tive meu pé parcialmente comido por formigas (isso que dá insistir em não usar sapato). Mas não recuei, fiquei na frente do limoeiro e comecei a pensar.

Se essa imagem me importa tanto, será que eu consigo entender cada pedaço dela? Consigo descrever esse limoeiro? Contar para todo mundo como ele é? Eu conseguiria descrever o tronco e as curvas dos galhos, como um limão nasce perto do outro, como tem um limão que está difícil de pegar porque ele ficou preso no meio de três galhos, como o destino dele é apodrecer no pé, porque tem tanto limão ali que ninguém vai insistir em desemaranhar aquele?

Dá para explicar como é difícil de tirar o limão do pé sem romper o umbigo dele, como você precisa fazer que saia, junto do limão, um pedacinho de galho, porque se não faz um buraco e ele apodrece rápido? E será que eu consigo confessar, sem ficar com vergonha, como me sinto boba de não saber o que é limão e o que é mexerica, porque esse limão é tão amarelinho que parece mexerica? Que o único jeito de decifrar foi morder um e outro e fazer careta e dar risada.

E já que eu tava plantada na frente do limoeiro, decidi ir fundo e fazer uma pergunta pra ele.

Meu limão, meu limoeiro, é isso mesmo? É pra viver no campo? É vontade de verdade ou é só para tirar foto? Dá pra mudar agora mesmo ou só quando aposentar? Os amigos vêm visitar? Vai dar saudade? E dá pra matar a saudade comendo grumixama?

Ele respondeu:

Uma vez tindolelê, outra vez tindolalá.

 

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Você, eu e todas as jornalistas

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Belle, que vergonha essa minha demora. Eu ando um pouco inábil com o tempo. Mas isso não é desculpa, porque nossas cartas são prioritárias. Par avion. Prioritaire. (Tenho quase certeza de que essas foram as duas primeiras palavras que eu aprendi em francês. Sei lá porque tenho uma lembrança ancestral de um envelope com vários avisos de prioridade em vários idiomas.)

Vou direto ao ponto: eu amo seu amor renovado pelo jornalismo.

Quando pintou esse papo de Chicago e você começou a falar das coisas que pensava em fazer aí, eu até torci secretamente para que você acabasse numa cozinha profissional e virasse a chef Belle. Mas quando você se reapaixonou pelo reportagem eu reverberei.

Pode ser que tenha a ver com a idade ou pode ser que tenha a ver com o tempo de profissão, e essas duas coisas podem ser uma só, mas recentemente eu me vi tentando identificar a “nossa geração”. Será que ela tem uma cara? Será que daqui 30 anos, nas redações dos jornais paulistanos, será mencionada a geração dos anos 2000? Será que somos a geração dos anos 2000? Será que ficar pensando nisso é sinal de loucura, narcisismo e falta do que fazer? Pode ser.

Mas, sério, eu comemoro muito a sua renovação de votos com o jornalismo. Gosto de ser sua colega de profissão. E, pra mim, você é peça central nessa tal geração que eu fico procurando. Você e um punhado de outras pessoas que trabalharam com a gente. E sem falar que seu novo amor pelo ofício recria e reforça a chance de a gente trabalhar juntas de fato algum dia. Já foram, o que, duas tentativas? Uma hora vai. E vai ser demais.

E eu vibro ainda mais quando vejo textos seus fora dos primeiros cadernos do jornal. Acho graça dessa sua mania de gostar de assunto sério. Uma coisa meio visconde partido ao meio. A metade sua que trabalhou no caderno de economia, na cobertura das eleições, que até em jornal só de economia já trabalhou, estava sempre trabalhando enquanto a metade sua que fala de seriados, comida e sapatos tomava vinho comigo. Acho que as duas se encontraram numa dia em que a gente tentou decidir quantos por cento do salário era permitido gastar nas liquidações de verão. Mas foi um encontro bem relâmpago, que logo o assunto voltou a ser só o vestido. Parcela no cartão de crédito e pronto.

E agora, tcharã, a sua metade lá continua às voltas com chatices macroeconômicas, mas a outra, iuhuuu, se juntou a mim e ao maravilhoso mundo do soft news, que de hard já basta a vida. Nesse mundo macio, os assuntos, quase sempre, coincidem com os hobbies. Verdade que isso pode virar um problema, porque ao menor sinal de descuido lá está você apurando no meio das férias, preocupada em tirar uma foto mais caprichada, porque vai que a matéria vira capa.

Quando eu trabalhava no Turismo era assim. Em todos os meses do ano, meu expediente era das 14h às 20h, menos em dia de fechamento, que não tinha hora pra sair. E no mês de férias era plantão de 24 horas por quantos dias fosse que eu estivesse na estrada. Anota, pergunta, fotografa, pega mapa, preço e o escambau.

Daí eu saí do jornal e do caderno. E dois meses depois fui pra França. E ia pra cima e pra baixo com meu caderninho, anotando as coisas, como se ainda escrevesse sobre isso. Um belo dia, fui de Velib pro canal St. Martin. Parei num boteco para tomar uma cerveja e fui pegar o caderninho para anotar as aventuras do dia. Cadê? Tinha esquecido na cestinha da Velib. Foi uma libertação. Achei poético demais perder meu caderno na cestinha da vélo em Paris. (Fiquei torcendo pra Sophie Calle encontrar meu petit cahier e fazer uma arte com ele. Vai que…)

Só que tem uma coisa que o Milton Hatoum me disse numa entrevista que nunca saiu da minha cabeça. Ele disse assim: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. Depois de algumas viagens sem caderninho, não teve jeito. Ele voltou para a bolsa. Você sai do negócio, mas o negócio não sai de você. E na mala que eu vou levar praí nas minhas férias, lá estará meu caderninho. Vou levar um de presente pra você. O Rafa faz uns cadernos lindos, à mão, com papeis incriveis, costurados.

Voltando ao papo “nossa geração”, pra mim tem duas jornalistas que eu vejo como próximas a mim, você e a Pri, que trabalhou comigo no Turismo. Vocês são totalmente diferentes mas, olha que engraçado, têm duas coisas muito específicas em comum: são duas amantes da comida e já trabalharam na TV, na frente das câmeras. Quando eu penso nessa nossa geração, começo daí. Eu, você e a Pri.

E vou colocando outras pessoas incríveis. E quando me dou conta, é só mulher. E quase todas têm uma mesma característica: fazem alguma outra coisa. Não são, como dizia o Silvio, meu editor lá no Turismo, “mulheres de redação”. Um tipo que parece que não existe fora daquele contexto. A Julia, por exemplo, é bailarina. A Alê Moraes faz O Pintinho. A Marinão traduz poesia. A Olívia, essa você não conhece, trabalha comigo lá no Estadão, toca piano, mano. Piano. A Raq, como eu pago pau pra essa menina, é humorista. Haha, talvez ela não saiba, mas é. Aliás, se tudo der errado, você e a Raq têm essa chance: ganhar a vida fazendo humor. É um belo dum plano B.

(E tem mais tantas, tantas… tem a Jana, a Carol Arantes, a Marreiro, mano, a Marreiro, e a Tati K., que é tipo uma Marreiro digital, a Leca!, a Mari Bastos, a melhor jornalista de esportes que eu conheço, se eu for listar todas, vai acabar o papel almaço… E isso sem falar da new generation, tô apaixonada pelas jornalistas sub-25 que conheci nesses últimos tempos.)

Depois até vou concedendo espaço para alguns homens. Mas aí desisto e fico com a mulherada mesmo, pago uma homenagem mental à minha primeira editora e guru espiritual, Fátima Mesquita. E depois faço um agradecimento silencioso e sincero a outras mulheres que me inspiram, a minha ídala (esses dias em pensei num trocadilho tão infame: amígdala, a amiga que é ídala, ui), Iara Biderman, a melhor editora de texto que eu já vi em ação, minha xará Helô Helvécia, e a inspiradora Teté Martinho, a quem eu sempre recorro em busca de conselhos. Êta mulherada porrêta. Dia desses eu fui tomar umas com as três naquele baiano novo aqui perto de casa, o Sotero, que eu considero, hoje, a melhor opção para comer, beber e viver aqui na região. Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.

Não é nada contra os jornalistas homens, que eu adoro e admiro muitos colegas e o meu maior parceiro de jornalismo na vida, ou da vida de jornalismo, é homem, o Matias (aliás, você viu que eu consegui me infiltrar no fumoir da internet?).

Mas quando vejo, lá estou eu pensando em todas essas mulheres. E sempre começa com você.

Com amor e admiração
Helo

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