Hoje vou ao Bar Balcão

Na minha separação, dois anos atrás, na divisão de bens, o Bar Balcão ficou com o meu ex. Foi a primeira coisa que decidimos. A conversa foi assim:

– É isso mesmo?
– É.
– Então é isso, né? É.
– É isso? É.
– Tá.
– Tá.
(breve silêncio)
– E quem vai ficar com o Balcão?

A discussão foi longa. Ele conhecia o bar primeiro. A primeira vez que fui lá, foi porque ele me levou. Mas, no caminho para o banheiro, tem um quadrinho com um texto meu para o Divirta-se falando sobre o hamburguer do Dudu (é verdade que eu tive a manha de errar o endereço, mas quando você vai sempre ao lugar, o endereço acaba perdendo relevância). E eu sou jornalista e todo mundo sabe que o Balcão é bar de jornalista. O que naturalmente deixaria o Balcão comigo.

Bem, como eu queria muito ficar com o sofá e com um quadro de luta-livre mexicana (ambos itens potencialmente polêmicos na hora de decidir o que era de quem), cedi o Balcão para garantir El Enmascarado de Plata.

Banida no Balcão, passei a frequentar o Bar da Dida (que eu já frequentava e sempre esteve na lista de bares favoritos). Eu achei bom mudar de ares, e os ares tinham definitivamente mudado. Embora não tenha nem mudado de quadra.

Mas como as regras são feitas para serem quebradas – e eu tenho meus informantes – quando o ex tá viajando ou dormindo (tenho a impressão de que a notivaguice ficou pra mim), volta e meia eu volto o Balcão. Já cheguei lá bem tarde, meia dúzia de gato-pingado, pra tomar dois bloody marys e falar mal do jantar afetado que nunca terminava num restaurante ali perto. E quando marco de encontrar amigos lá, amigos que sabem que fui banida do bar, adoro os primeiros momentos da conversa, em que faço uma cara de clandestina e digo: ‘eu não poderia estar aqui’.

Por obra do destino, a dona do Bar Balcão ficou sabendo dessa história e decretou:

– Ela pode vir aqui sim!

Bom, ela é a dona do estabelecimento, né. Então hoje, se o Bar Balcão abrir, eu faço questão de ir lá tomar um chope.

Quero manifestar meu carinho aos garçons, que ontem à noite foram agredidos no mais recente caso da onda de arrastões que parece querer dar o tiro na testa, aquele último, com indícios de execução, na vida paulistana.

Eu aceitei abrir mão do Balcão na divisão de bens. Mas me recuso – me recuso – a permitir que roubem o Balcão (e o Carlota, e a pizzaria Bráz etc etc e os resturantes e o bares e os bares que abrem às segundas-feiras e as pessoas que vão a bares na segunda-feira e essa coisa paulistana de se achar capital da gastronomia e da vida noturna mundial, que é um pouco jeca, mas tem uma graça toda própria) de mim e de todo mundo. Vamo?

PS. Ontem eu fui ao Dry, bar que não combina muito com meu estilão, e, na volta pra casa, passei na frente do Balcão. Era tipo meia-noite e pouco. E eu pensei: ai, a gente podia parar pra tomar uma saiderinha no Balcão. Mas era segunda-feira e o pessoal aqui em casa acorda cedo e tava aquela neblina toda sugerindo cama-cama-cama-cama. Um hora depois, cinco homens armados renderam um garçom do Balcão que estava fechando a casa, roubaram os poucos clientes que deviam estar insistindo naquela última rodada, e agrediram os garçons para roubar o caixa, de onde levaram R$ 200. Agrediram os garçons, mano. Os garçons do Balcão. Que são os garçons mais legais do mundo depois do Eugênio, o garçom do Prainha (de Higienópolis, não da Prainha da Paulista).

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O cobrador mágico

Olhando de fora, parece um ônibus de linha. Mas não é. É uma máquina de alegria. Funciona assim: você entra pela porta da frente cansado, desanimado, mal-humorado, tristonho, pensativo, o que for. E sai pela porta de trás feliz. Certo de que o Homem é bom. Certo de que vai dar tudo certo. De que estamos no caminho certo.

Esse ônibus especial faz a linha 719-P (Metrô Armênia-Pinheiros).

E o motor dessaa máquina de alegria responde pelo nome de Chicão. Olhando de fora, ele é cobrador. Mas isso é só disfarce. Eu não decidi ainda direito o que ele é na verdade. Preciso da ajuda de vocês. Vou me esforçar para descrever bem o Chicão.

(Mas antes de começar a falar do Chicão, um breve parêntese sobre mim mesma. Vejam como eu sou sortuda. Eu pego o ônibus do Chicão para voltar da terapia para casa. Da terapia, mano. Então quando digo que se você está tristonho, pensativo, desanimado o que for, o ônibus do Chicão te deixa feliz é porque SEI do que estou falando.)

Funciona assim. Você está na Teodoro Sampaio, aquele trânsito, aquela confusão. Aí entra no ônibus e ao passar na roleta ouve:

– Bom dia, minha linda.

Toma um susto, olha pra frente e dá de cara com um sorriso gigante, branco, num rosto bem preto, careca.

Daí mal dá tempo de responder e ele já está falando com a pessoa de trás:

– Oi, minha linda, tudo bom com você hoje? Mas você tá linda demais hoje, não quer namorar o negão, não?

Daí você olha pra trás e vê uma senhorinha meio rindo meio envergonhada, que estende a mão pro Chicão beijar.

E se entra um homem, não tem problema. É bom dia, meu lindo. Meu querido, minha linda, meu amor, gata. Nesse ônibus, todo mundo é lindo. Todo mundo sorri, dá risada. Todo mundo conversa. O Chicão vai comandando o papo e as descidas.

– Avenida Angélica, até número 2.600 é aqui. Prédio tal, laboratório sei lá qual, conjunto das quantas? Desce aqui.

E vai avisando parada a parada. Cadê a minha linda que queria descer no Lavoisier? É aqui, gata, pode descer. Xuxu, você ainda não, seu ponto é mais pra frente, confia no negão que eu não esqueço não.

Daqui a pouco aparece um jornalzinho Destak. Quem quer ler jornal? Tem dois aqui. Tó. As pessoas pegam o jornal pra ler e quando acabam passam pra outra pessoa que manifestou que também queria ler. E quando todo mundo termina de ler o jornal volta pro Chicão que pergunta de novo: Quem quer ler jornal? Táqui meu lindo, depois passa ali pra minha linda de vermelho que ela quer ler também. É transporte coletivo. (Toda vez que ando no ônibus do Chicão penso nisso. Isso sim é que é transporte coletivo. Todo mundo está junto ali dentro. É o contrário daquela chatice de gente obstruindo a porta, gente que não percebe o outro. Hoje mesmo parei pra olhar com atenção e ninguém, ninguém, estava com fone de ouvido. Todo mundo estava ouvindo o papo do Chicão.)

Aí entra uma mulher. E grita. AAAAAAH! Meu amor! Quanto tempo! Chicão, você é a pessoa mais linda do mundo! Eu amo você. E o Chicão quase chora. Ah, minha doida, não faz isso com o negão!

Fazia tempo que eu não via o Chicão. Tava até pensando em ligar pra SPTrans pra perguntar se ele tinha mudado de linha ou se aposentado (porque numa viagem, há algum tempo, eu lembro de ele ter dito que queria aposentar). Então quando entrei no ônibus e vi o Chicão quase que não acredito. Quando fui passar na roleta puxei papo:

– Tava sumido, Chicão!

E ele:

– É que eu tô ficando folgado. Só faço dias viagens agora. Tá na hora de aposentar, viu, minha linda. Trabalho há 39 anos. 16 nessa linha. Tem que parar antes de ficar chato.

Fiquei ali bem perto pra poder fazer umas perguntas pra ele. Mas antes que eu pudesse começar, ele emendou:

– Já comprei até meu filtro solar. Quero aposentar e ir pra praia, aprender a nadar, beijar na boca e transar na areia. Já imaginou que loucura?

A mulherada começou a chiar. Ah, não, Chicão. Você não pode aposentar. O que vai ser da gente? Perguntei o que faltava pra ele se aposentar. Idade. Chicão tem 53 anos.

Começou maior rasgação de seda pro Chicão. E ele foi me dizendo: Sabe, gata, a gente vai criando amizade. Vê aqui: essa aqui, minha loira, eu amo ela. E essa outra (se estica inteiro pra pegar a mão de uma passageira), é meu amor. Eu amo você, minha linda. Aquele ali (aponta um senhor sentado, que olha pra ele sorrindo) é meu amigão. Eu fico amigo dos meus clientes. E vai ficando difícil.

É muito amor nesse ônibus.

Todo mundo entra na dele. Chicão, se você parar, todo mundo vai chorar de tristeza. O Chicão vai se emocionando.

– Ai, assim eu vou chorar. Vocês, viu… eu preciso aposentar. Se não vou virar um chato. Vocês vão fazer o negão chorar desse jeito. (Silêncio) Não, eu não vou chorar.

Então ele começa a contar a história do Meu Pai. Um cobrador de uma linha que não me lembro mais qual é e que está na mesma linha há trinta e sei lá quantos anos.

– O Meu Pai foi fazendo amizade com os clientes da linha, todo mundo conhece ele. Só que os clientes do Meu Pai foram morrendo. Morreram todos os amigos dele da linha. E hoje ele é um chato.

Cá com meu egoísmo, eu torço pro Chicão virar um chato e se aposentar só depois da hora da nossa morte. Amém.

PS. Hoje os ônibus estavam em média 1h30min atrasados por problemas no trânsito. O 719-P estava abarrotado. Fazia muito tempo que os passageiros estavam esperando o ônibus. Todo mundo entrava bufando, atrasado. Uma mulher reclamou com o Chicão. Faz uma hora que estou no ponto esperando! E o Chicão: não briga comigo, minha linda, tá tudo parado. Era pra gente já estar na Armênia a essa hora. Eu não vou ao banheiro desde as 6h30 da manhã. Se desse para dar um nozinho na ponta pra eu não fazer xixi na calça, juro que eu dava. E a mulher, que tava toda emburrada, riu, pediu desculpas e emendou – É só um desabafo.

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Conversa com o limoeiro

Eu estava saindo de casa na sexta-feira à noite para ir para o sítio quando me dei conta de que ia esquecendo o carregador de bateria do celular. O Rafa perguntou: quer voltar? Eu disse não. Mal terminava de colocar o til no a quando lembrei das fotos que não poderia postar no Instagram. Mantive o não e partimos.

O Instagram, essa linda versão ilustrada e editada da vida, formula, automaticamente, um projeto editorial fotográfico. (Na minha opinião, é a coleção de momentos em que eu consegui tirar uma foto, na minha vida real, da vida que eu quero ter). E nesse projeto editorial, sítio vai bem.

Quando amanheceu e eu dei uma volta no pomar, arrependi. O maracujá estava florido. Mexerica, limão, laranja, pitanga, tudo apinhado. Bolo quente saindo do forno, pamonha fumegante saindo da panela e o café de coador de pano envolto numa nuvem de vapor, porque tava frio pra chuchu. Aliás, tinha um monte de chuchu. As cestas cheias de hortaliças recém-colhidas. Os ramos de alecrim com flores minúsculas, alface verdinha, couve. E quando saiu a comida, os pratos de ágata com arroz, feijão e costela com canjiquinha, quase que eu choro. Queria todas essas fotos. Tudo com o filtro Earlybird, aquele em que é seis da manhã para todo o sempre.

Fui refletir no pomar: se meu projeto editorial é tão matinal e campestre, o que estou fazendo longe da fazenda?

Primeiro, tive meu pé parcialmente comido por formigas (isso que dá insistir em não usar sapato). Mas não recuei, fiquei na frente do limoeiro e comecei a pensar.

Se essa imagem me importa tanto, será que eu consigo entender cada pedaço dela? Consigo descrever esse limoeiro? Contar para todo mundo como ele é? Eu conseguiria descrever o tronco e as curvas dos galhos, como um limão nasce perto do outro, como tem um limão que está difícil de pegar porque ele ficou preso no meio de três galhos, como o destino dele é apodrecer no pé, porque tem tanto limão ali que ninguém vai insistir em desemaranhar aquele?

Dá para explicar como é difícil de tirar o limão do pé sem romper o umbigo dele, como você precisa fazer que saia, junto do limão, um pedacinho de galho, porque se não faz um buraco e ele apodrece rápido? E será que eu consigo confessar, sem ficar com vergonha, como me sinto boba de não saber o que é limão e o que é mexerica, porque esse limão é tão amarelinho que parece mexerica? Que o único jeito de decifrar foi morder um e outro e fazer careta e dar risada.

E já que eu tava plantada na frente do limoeiro, decidi ir fundo e fazer uma pergunta pra ele.

Meu limão, meu limoeiro, é isso mesmo? É pra viver no campo? É vontade de verdade ou é só para tirar foto? Dá pra mudar agora mesmo ou só quando aposentar? Os amigos vêm visitar? Vai dar saudade? E dá pra matar a saudade comendo grumixama?

Ele respondeu:

Uma vez tindolelê, outra vez tindolalá.

 

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Você, eu e todas as jornalistas

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Belle, que vergonha essa minha demora. Eu ando um pouco inábil com o tempo. Mas isso não é desculpa, porque nossas cartas são prioritárias. Par avion. Prioritaire. (Tenho quase certeza de que essas foram as duas primeiras palavras que eu aprendi em francês. Sei lá porque tenho uma lembrança ancestral de um envelope com vários avisos de prioridade em vários idiomas.)

Vou direto ao ponto: eu amo seu amor renovado pelo jornalismo.

Quando pintou esse papo de Chicago e você começou a falar das coisas que pensava em fazer aí, eu até torci secretamente para que você acabasse numa cozinha profissional e virasse a chef Belle. Mas quando você se reapaixonou pelo reportagem eu reverberei.

Pode ser que tenha a ver com a idade ou pode ser que tenha a ver com o tempo de profissão, e essas duas coisas podem ser uma só, mas recentemente eu me vi tentando identificar a “nossa geração”. Será que ela tem uma cara? Será que daqui 30 anos, nas redações dos jornais paulistanos, será mencionada a geração dos anos 2000? Será que somos a geração dos anos 2000? Será que ficar pensando nisso é sinal de loucura, narcisismo e falta do que fazer? Pode ser.

Mas, sério, eu comemoro muito a sua renovação de votos com o jornalismo. Gosto de ser sua colega de profissão. E, pra mim, você é peça central nessa tal geração que eu fico procurando. Você e um punhado de outras pessoas que trabalharam com a gente. E sem falar que seu novo amor pelo ofício recria e reforça a chance de a gente trabalhar juntas de fato algum dia. Já foram, o que, duas tentativas? Uma hora vai. E vai ser demais.

E eu vibro ainda mais quando vejo textos seus fora dos primeiros cadernos do jornal. Acho graça dessa sua mania de gostar de assunto sério. Uma coisa meio visconde partido ao meio. A metade sua que trabalhou no caderno de economia, na cobertura das eleições, que até em jornal só de economia já trabalhou, estava sempre trabalhando enquanto a metade sua que fala de seriados, comida e sapatos tomava vinho comigo. Acho que as duas se encontraram numa dia em que a gente tentou decidir quantos por cento do salário era permitido gastar nas liquidações de verão. Mas foi um encontro bem relâmpago, que logo o assunto voltou a ser só o vestido. Parcela no cartão de crédito e pronto.

E agora, tcharã, a sua metade lá continua às voltas com chatices macroeconômicas, mas a outra, iuhuuu, se juntou a mim e ao maravilhoso mundo do soft news, que de hard já basta a vida. Nesse mundo macio, os assuntos, quase sempre, coincidem com os hobbies. Verdade que isso pode virar um problema, porque ao menor sinal de descuido lá está você apurando no meio das férias, preocupada em tirar uma foto mais caprichada, porque vai que a matéria vira capa.

Quando eu trabalhava no Turismo era assim. Em todos os meses do ano, meu expediente era das 14h às 20h, menos em dia de fechamento, que não tinha hora pra sair. E no mês de férias era plantão de 24 horas por quantos dias fosse que eu estivesse na estrada. Anota, pergunta, fotografa, pega mapa, preço e o escambau.

Daí eu saí do jornal e do caderno. E dois meses depois fui pra França. E ia pra cima e pra baixo com meu caderninho, anotando as coisas, como se ainda escrevesse sobre isso. Um belo dia, fui de Velib pro canal St. Martin. Parei num boteco para tomar uma cerveja e fui pegar o caderninho para anotar as aventuras do dia. Cadê? Tinha esquecido na cestinha da Velib. Foi uma libertação. Achei poético demais perder meu caderno na cestinha da vélo em Paris. (Fiquei torcendo pra Sophie Calle encontrar meu petit cahier e fazer uma arte com ele. Vai que…)

Só que tem uma coisa que o Milton Hatoum me disse numa entrevista que nunca saiu da minha cabeça. Ele disse assim: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. Depois de algumas viagens sem caderninho, não teve jeito. Ele voltou para a bolsa. Você sai do negócio, mas o negócio não sai de você. E na mala que eu vou levar praí nas minhas férias, lá estará meu caderninho. Vou levar um de presente pra você. O Rafa faz uns cadernos lindos, à mão, com papeis incriveis, costurados.

Voltando ao papo “nossa geração”, pra mim tem duas jornalistas que eu vejo como próximas a mim, você e a Pri, que trabalhou comigo no Turismo. Vocês são totalmente diferentes mas, olha que engraçado, têm duas coisas muito específicas em comum: são duas amantes da comida e já trabalharam na TV, na frente das câmeras. Quando eu penso nessa nossa geração, começo daí. Eu, você e a Pri.

E vou colocando outras pessoas incríveis. E quando me dou conta, é só mulher. E quase todas têm uma mesma característica: fazem alguma outra coisa. Não são, como dizia o Silvio, meu editor lá no Turismo, “mulheres de redação”. Um tipo que parece que não existe fora daquele contexto. A Julia, por exemplo, é bailarina. A Alê Moraes faz O Pintinho. A Marinão traduz poesia. A Olívia, essa você não conhece, trabalha comigo lá no Estadão, toca piano, mano. Piano. A Raq, como eu pago pau pra essa menina, é humorista. Haha, talvez ela não saiba, mas é. Aliás, se tudo der errado, você e a Raq têm essa chance: ganhar a vida fazendo humor. É um belo dum plano B.

(E tem mais tantas, tantas… tem a Jana, a Carol Arantes, a Marreiro, mano, a Marreiro, e a Tati K., que é tipo uma Marreiro digital, a Leca!, a Mari Bastos, a melhor jornalista de esportes que eu conheço, se eu for listar todas, vai acabar o papel almaço… E isso sem falar da new generation, tô apaixonada pelas jornalistas sub-25 que conheci nesses últimos tempos.)

Depois até vou concedendo espaço para alguns homens. Mas aí desisto e fico com a mulherada mesmo, pago uma homenagem mental à minha primeira editora e guru espiritual, Fátima Mesquita. E depois faço um agradecimento silencioso e sincero a outras mulheres que me inspiram, a minha ídala (esses dias em pensei num trocadilho tão infame: amígdala, a amiga que é ídala, ui), Iara Biderman, a melhor editora de texto que eu já vi em ação, minha xará Helô Helvécia, e a inspiradora Teté Martinho, a quem eu sempre recorro em busca de conselhos. Êta mulherada porrêta. Dia desses eu fui tomar umas com as três naquele baiano novo aqui perto de casa, o Sotero, que eu considero, hoje, a melhor opção para comer, beber e viver aqui na região. Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.

Não é nada contra os jornalistas homens, que eu adoro e admiro muitos colegas e o meu maior parceiro de jornalismo na vida, ou da vida de jornalismo, é homem, o Matias (aliás, você viu que eu consegui me infiltrar no fumoir da internet?).

Mas quando vejo, lá estou eu pensando em todas essas mulheres. E sempre começa com você.

Com amor e admiração
Helo

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Comer, beber, viver

(A troca de correspondências continua. Embora eu esteja lenta pra xuxu. A Belle respondeu minha carta há tipo uma semana, desculpem a demora)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:

Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez ”Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

Control X, Control V

Desde ontem, eu mudei de cadeira. Dá pra dizer também que eu mudei de emprego. Depende da ênfase. Eu mudei de editoria, mas acho essa descrição técnica demais. Mudei de equipe, mudei de ares. Mudou bastante coisa. E minha cabeça tá um frevo.

Sexta-feira foi meu último dia no Link. E ontem foi meu primeiro dia no Paladar. E pra cada uma dessas frases há uma fileira enorme de coisas. Vou começar pelo que começa. Meu começo no Paladar.

Desde que o Paladar começou eu comecei a querer trabalhar lá. Eu saía da terapia, que era às quintas, passava na banca, comprava o Estadão e ia pra padaria tomar café da manhã e ler o Paladar. Tem uma jequice em pagar pau assim para um suplemento semanal de jornal, ainda mais quando você é jornalista e esse suplemento semanal é feito na sua cidade e você mais ou menos conhece as pessoas que fazem. Mas caguei pra jequice. E assumo que sempre paguei pau.

Então no primeiro dia (que na verdade não foi ontem, porque teve um primeiro dia antes do primeiro dia, mas eu não vou explicar que é pra não ficar confuso), quando eu li a coluna do Dias Lopes (aliás, hoje é aniversário dele, parabéns, Dias Lopes, muitas felicidades para você), eu fiquei tocada. Porque sempre li ela impressa, ‘fechada’, e um texto aberto, estourando, com viúvas, é mais, digamos, íntimo.

E quando a segunda coisa que eu fiz foi pegar um texto da Neide Rigo, que conheci há menos tempo mas que impactou radicalmente coisas tão importantes da minha vida como meus cafés da manhã (aprendi a fazer tapioca lendo o blog dela, o meu kefir veio da casa dela pelas mãos da Jana, e todos os dias de manhã eu como tapioca e tomo lassi feito com o kefir), eu assustei.

Porque o texto era gigante e a retranca não, e o texto falava de umbu, Uauá, bode, refrigério, caatinga, vinagre de umbu, almoço para o ministro e coisa e tal e tal e coisa e corta e corta e corta e corta. E doeu cortar. Mas acho que deu tudo certo. E quem quiser ler o texto inteiro (recomendo muito), a íntegra está no blog dela. (Falando em íntegras, a Belle, minha pen-pal também publicou a íntegra do perfil que fez sobre o Grant Achatz para o Comida no blog dela. Outra leitura que vale a pena).

Bom, são muitas coisas, que ainda estão sendo processadas, enquanto outras tantas vão entrando na fila de coisas e assuntos que eu vou aprendendo a cada conversa.

E isso sem falar de sair do Link… O Link, pouca gente sabe, é uma espécie experimento utópico operante. Quase tudo o que eu achava que a prática do jornalismo deveria ter mais, tem ali. E eu não vou nem tentar explicar, porque é difícil. Mas, em suma, a equipe do Link (e isso engloba as pessoas que já saíram e foram para outro lugares) trabalha de um jeito especial. E, de um ângulo mais pessoal, o Link me devolveu a vontade de fazer jornalismo, que vinha enfraquecendo, enfraquecendo, enfraquecendo…

Eu queria conseguir escrever um comentário sobre cada uma das pessoas de lá, pra deixar registrado esse momento para a posteridade. Mas eu não achei um tom que não fosse piegas. Então vou esperar um pouco para ver se a coisa, mais processada, ganha uma forma melhor.

 

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O aleatório enciclopédico

 

A Enciclopédia Britânica foi impressa pela última vez. Agora, só em plataformas digitais.

Eu fico entre ir correndo comprar os 32 volumes (e dar um jeito de me livrar de 32 volumes das minhas lotadas estantes para dar lugar) ou comprar um tablet. E a última edição da enciclopédia é bem mais cara que um tablet, custa quase US$ 1.400.

Se o orçamento fosse irrestrito, comprava os dois (e contratava um marceneiro para fazer mais estantes). Mas danem-se as minhas contas. Quero falar de enciclopédias. Eu amo enciclopédias.

Elas trazem em si o mundo do acaso. São um livro mágico em que você pode ler sobre abdômens, Abraham Lincoln ou ábaco. Lá em casa não tinha Britânica. Tinha Conhecer e Larousse. E eu e meu irmão inventamos um jogo, éramos CDF, que funcionava assim: um cantava uma palavra e o outro tinha que percorrer a estante (que tinha outras coleções de biologia, história, geografia, nossos pais são CDFs também) e formular uma definição. Lembro direitinho de quando minha mãe ganhou um vaso de cyclamen e a gente descobriu que ele vinha da Pérsia, que precisava de sol e crescia de um tubérculo.

Anos depois, quando eu trabalhava no caderno de Turismo da Folha, sempre que alguém precisava tirar alguma dúvida enciclopédica e virava para o computador e começava a digitar Wikip… O editor do caderno, Silvio Cioffi, levantava apressado já com sua edição miniatura da Britânica, uma caixinha linda, com três volumes, e interrompia e ia abrindo e procurando a dúvida em questão dizendo que não dá, na Wikipedia não, tem a Britânica aqui, é menor mas é melhor. Eu adorava fuçar aqueles livrinhos, que tinham umas ilustrações delicadas e miúdas.

Daí esses dias, a gente publicou, no Link, um texto incrível do Evgeny Morozov sobre o fim do flâneur na internet. E o Luiz Américo contou que flana na Wikipedia. E é legal também flanar na Wikipedia. Ele resumiu assim: “Não é incrível começar lendo um verbete sobre pinot noir, ir pulando de link em link e acabar nos hititas?”. É lindo.

Mas aí ontem conversando sobre o fim da versão impressa da Britânica eu pensei no seguinte: uma coisa é ir para um link dentro de um verbete que, num primeiro momento, foi procurado com intenção. Outra é abrir o livro e cair num verbete como quem abre a Bíblia procurando uma luz. Abriu na página de Nsukka. E aprende que é uma cidade no estado de Enugu, na Nigéria. Onde vive o povo lgbo que cultiva milho, mandioca e inhame.

Eu nunca pensaria em digitar Nsukka.

 

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