Desconcordância

A mulher queria descer a Angélica. Ela tava em Pinheiros. Ela dizia saber chegar à Angélica via Pirituba, que é de onde costuma vir. Mas dali de Pinheiros, não conhecia os ônibus. Ela explicou tudo isso ao cobrador e quando foi perguntar, se atrapalhou com os plurais e as concordâncias e lançou:

– Qual sãos?

Eu, do meu lugar, respondi mentalmente:

– Todo insanos.

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Um canta, outro rebola

Morri de hiperglicemia.

Tribal e monocromático

Repare no tanto de coisa sobreposta ela veste. É saia, saia, cinto, cinto, sobressaia, colar, colar e colar com mais colar.

Eu adoraria ter ido antes a essa exposição, para poder recomendar a visita. Mas ontem foi o último dia. Então não dá mais pra ir lá ver. A mostra Hereros, com fotos de Sérgio Guerra (todas as que reproduzo aqui) e alguns poucos artefatos desse povo nômade que vive no deserto no sul de Angola, estava em cartaz no Museu Afro Brasil, lá no Ibirapuera.

Repara no enfeite na cabeça, é tipo uma tiara com um laçarote de pele de vaca

A exposição em si era até um pouco confusa (eu ainda estou tentando decidir o que achei do museu inteiro, todo ele meio bagunçado. Tem um lado muito legal que é uma impressão de que você está na casa de alguém louco pelo assunto, passeando por cômodos e quartos e corredores cheios de fotos, desenhos, obras e artefatos. Por outro lado, isso dá uma cansada, especialmente quando você está tentando ouvir um áudio e ele se mistura a outro).

Os textos para explicar quem são os Hereros e porque são assim, além de serem poucos, vinham escritos num tom-sobre-tom desses que os designers ou acham lindo ou fazem de propósito pra depois ficar dando risada do povo balançando o corpo em busca de um ângulo em que se consiga distinguir as letras.

Mas os tais Hereros compensavam a confusão. Os caras vivem lá no deserto angolano com seus bois, atribuídos de muita importância para eles, e seu visual absurdamente sofisticado. O mais chocante são essas mulheres com os cabelos divididos em gomos – muito bem descrito pelo Rafa como penteado do Predador – totalmente cobertas de pigmento vermelho e parcialmente cobertas de adornos e enfeites e roupas, em muitas camadas, tudo vermelho.

Os Hereros se dividem em grupos, com características de estilo bastante diferentes entre si. Características. Porque o estilo sempre está lá.

Olha esse chapéu. Olha essa mulher. É foda.

(Breve parêntese histórico: Em um dos textos da exposição, estava dito que o isolamento desse povo privou seus integrantes dos conflitos que se seguiram à independência de Angola. Eles ficaram lá, e a confusão rolou e eles nem viram. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Porque quando o assunto é África e grupos étnicos e confrontos pós-independência, em geral dá merda. Os Hereros de Angola parecem ser de fato sortudos. Mas seus primos namibianos não tiveram tanta sorte. E a merda pra eles veio bem antes. Angola e Namíbia fazem fronteira, e os Hereros se espalham por ambas. No início do século 20, em 1904, os alemães que colonizaram a Namíbia promoveram um dos primeiros genocídios do século 20 contra os Hereros, que se rebelaram diante da recém-chegada e auto-intitulada autoridade colonial. Resultado: foram massacrados. Os sobreviventes foram levados a campos de concentração que, pelo que pude sacar do que li, são vistos como a escola que foi dar nos campos de concentração da Alemanha nazista. O governo alemão pediu desculpas oficiais em 2004.)

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A morte da matéria

Benefits Supervisor Resting (1994, 160x150 cm)

Ontem morreu Lucian Freud. Ele já estava velhinho, tinha 88 anos, então não estamos diante de uma grande surpresa. Mas não é porque não há surpresa que não há tristeza. Nos meus delírios de “quando eu ganhar a mega sena” sempre houve um espaço para a fantasia de contratar o Freud pra fazer meu retrato, tipo o da Rainha da Inglaterra, ou o de Sue, a mulher que serviu de modelo para o quadro acima. Ou ainda o de Kate Moss. Agora não dá mais pra saber como ia sair. E agora vou ter de pensar em outro. Tomara que exista outro que ame tanto as peles e dobras e coisas.

PS: Nossa, eu tinha escrito “para fazer meu autorretrato”… Freud explica… quer dizer, o outro Freud, né.

O cheiro do cavalo fedido de Napoleão

Historiadores refizeram o perfume que Napoleão usava

Pense em algumas de suas memórias mais poderosas, e é bem provável que elas tenham um cheiro: o perfume do filtro solar na praia, o cheiro fresco da grama recém-cortada, a trilha floral do perfume da sua mãe. “Os cheiros estão muito ligados à lembrança”, diz o perfumista Christophe Laudamiel.

Mas apesar de sua primazia em nossas vidas, o sentido do olfato é frequentemente ignorado quando nós gravamos nossa história. Tentamos nos conectar com o passado visualmente, olhamos para objetos dispostos em um museu, para fotografias em um documentário, para a caligrafia em um manuscrito. Às vezes, podemos ouvir um discurso antigo. Ou tocar um artefato ancestral e imaginar como era usá-lo. Mas o nosso conhecimento do passado é quase completamente desodorizado.

“É notável para mim que a gente viva num mundo em que temos todos os sentidos para explorá-lo e, no entanto, de alguma forma, nós assumimos que o passado fosse desprovido de cheiros”, diz o historiador sensorial Mark Smith.

Historiador sensorial! Qual era o perfume do Napoleão, de flores que já foram extintas, de uma vila viking. Nada como uma boa matéria sobre um assunto curioso. Leia aqui.

A verdade é que ninguém quer tapar esse sol com essa peneira

A Carol resolveu monopolizar o Caracs hoje. A pauta deste dia 20 de julho é, portanto, assinada por Carol Arantes. Obrigada.

É que bem agora, quase do fim do expediente, lá vem ela lá do outro lado do corredor:

– Helô, lembra aquele post que você fez do adesivo de tapar o (sinal com a mão, porque estamos em ambiente de trabalho, néam) dos bichinhos?

E eu: sim, nossa, faz muito tempo!

E ela: Vê aí o que eu vou te mandar por email.

Pois bem. São lindos adesivos feitos de jeans enfeitados com uma borboleta de strass para “esconder” o cofrinho. Esconder, tá. Veja como esconde bem:

Parece um modess noturno, aqueles bem longos, saindo pra fora da calça

Segundo informações do Guia dos Curiosos, link que a Carol enviou, a criadora desses tapa-cofrinhos com borboletinha de strass acha o seguinte: “Se você vai mostrá-los, certifique-se de que vale a pena vê-los”. E para que valha a pena vê-los, ela sugere esse bandaid jeans com uma borboletinha de strass, a que ela deu o lindo nome de “Backtacular Gluteal Cleft Shield”.

Eu tentei fugir do óbvio mas não dá e eu vou falar o óbvio. É assim: querida criadora do Backtangular Gluetal Cleft Shield, a gatinha que não quer mostrar o cofrinho, ela usa uma calça mais alta ou uma blusa comprida ou uma calcinha grandona. A gatinha que quer mostrar o cofrinho, ela quer mostrar o cofrinho. Ela não quer cobrir o cofrinho com um treco feio desses.

Grata.

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Versinhos de domingo

Belkis é nome de rainha
da rainha de Sabá
Nem sei bem se isso é reino,
mas é ela que manda lá

Li Pornopopéia
e depois
Tanto Faz
e agora quero escrever
igual o Reinaldo Moraes

O poodle do xerox é preto
está sempre na escadinha
já viveu muito tempo
e parece uma pessoinha

O Rafa roeu as cascas
limpou cada ferida
sobraram umas marcas
mas nem precisou band-aid

O Rafa rói tudinho
descasca a pele
e mói os ossos
e tudo fica molinho

Daqui a dois meses,
falta pouco
Belle e Chico se mudam daqui
Eu fingo que não ouço
o pipoco
do meu coração
espatifando igual caqui

Veri vem do verbo varrer
No lugar da vassoura,
ela empunha o escracho

e vai varrendo
varrendo e varrendo
tudo aquilo que é chato

No fim, nem usa pázinha
só dá um soprão
E o pó da chateação
sai voando pelos ares

Descongelei as fatias
espremi as alcaparras
misturei com azeite
e uma colher de mostarda

Com o pão, peguei o carpaccio
com grana padano ralado
comi fazendo versinhos
e o iPad ficou todo lambuzado

Quero conhecer o Chico
filho do Edu e da Beth
Quero ver o Otto
filho da Thany e do marido dela
que eu não conheço
Quero dar um beijo no Vicente
filho da Marina e do Cohen
meio-irmão da Alice
A Ana Flor eu conheci
como é linda a filha
dos amados Meg e Ray
Mas de todos esses e outros
o que eu quero mais mesmo
é brincar com meu sobrinho
que não tem sexo, nem nome nem nada
E ainda vai morar um bom tempo
na barriga da minha cunhada

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