A Grande Arte

(Por uma espécie de ausência de critério, este post tem três poemas, para ler todos os três, é preciso ir até o fim. Há um critério, porém, de ordenação de qualidade. Primeiro: BANDEIRA, Manuel. Segundo: LOBO, Reinaldo. Terceiro: COM ESPAÇO, Caracteres)

Um delegado brasiliense fez um B.O. poético. Como esse blog é dado ao poético e ao patético (esses dias eu tava ouvindo rádio Cultura e aprendi que patético é ‘aquilo que causa emoções’, o locutor disse não saber direito quando o patético ganhou os contornos de hoje. Pra mim patético vinha de palhaço, mas pelo visto meus talentos etmológicos são nulos) eu me sinto no dever de reproduzir a obra. Mas antes de reproduzi-la, preciso dizer que, em sua simplicidade, ela me lembrou essa, do Manuel Bandeira:

Poema tirado de uma noticia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Bandeira é tão lindo. Agora vamos à obra do delegado Reinaldo Lobo:

Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo

O plantão estava tranqüilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar

Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado

Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranquilão
Estava em uma motocicleta com restrição

(eu adoro a rima autorização-tranquilão)

A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação

O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa

(desculpa-culpa
Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa fé era furada

Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante

Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população

A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada

Já hoje aqui esteve pra testemunhá
A vítima, meu quase chará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho

As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar

Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia

Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão

O Caracteres com Espaço,
blog que eu mesma faço,

em seu humilde afã,
é um assumido fã

do delegaldo
Reinaldo

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Me and Harry McGee

Foto tirada por Ilan Kow, que, como fotógrafo, é um excelente editor. Tão bom editor que mandou a foto assim: Harry and the McGirls (esse é o McGee, eu no meio e a Camila, vou falar deles no post, calma, lê aí que você vai entender)

Eu finalmente entendi porque tem gente que fica moscando ao redor de famosos. Foi assim: no fim de semana rolou o Paladar Cozinha do Brasil, evento do Paladar, caderno de gastronomia do Estadão, onde eu trabalho, em que chefs mostram achados, discutem técnicas, apontam rumos, descobrem, trocam, enfim, só coisa linda.

E um dos convidados era ninguém menos que Harold McGee, o mito, o gênio (entre as pessoas que curtem o assunto, claro. Em linhas gerais, o cara é um cientista maluco que escreveu um livro que chama On Food and Cooking que é uma enciclopédia-bíblia em que ele derruba mitos tais como ‘selar a carne preserva os sucos’). Acontece que o Harry não fala português. Então eu fui convidada a cuidar dele no domingo, último dia do evento. Nos outros dias ele ficou sob cuidado da Camila, muito mais apta para a tarefa (que vocabulário… ela soube descrever, sem gaguegar, em inglês, aquela parte da polpa do abacate que fica mais perto do caroço. Foi impressionante).

Pois bem, eu fiquei 13 horas na cola do cara. Foram 13 horas mágicas. De conversas maravilhosas, em que eu aprendi mais do que se tivesse passado 13 horas lendo. E bastaram essas 13 horas ao lado do cara para que eu fosse citada em dois blogs! Voilá. Fique meio dia ao lado de uma celebridade e pule várias casas na sua rota em busca da fama (não que eu busque a fama, não é isso. Deu pra entender, né?).

Pois bem, a primeira citação merece um prelúdio só para ela. Eu apareci no blog da Nina Horta. Eu vou repetir, porque ainda não acredito: eu apareci no blog da Nina Horta. De fato, eu conversei com a Nina Horta. Eu sou muito fã da Nina Horta. A primeira receita que eu fiz com a intenção de começar a entender de cozinha pra valer (eu sempre cozinhei por herança) saiu de um livro dela. O primeiro livro sobre comida que eu li foi uma compilação de crônicas dela. E a primeira gafe gastronômica que eu cometi na vida foi com ela (mas isso é assunto pra outro post).

Eu sou realmente fã dela. E olha o que ela escreveu sobre o Harry, a Camila e euzinha-da-silva:

Ao meu lado está o famosíssimo Harold Mc Gee fazendo de conta de que vê dois peixes daquele por dia, lá na remota Inglaterra. Ele recebe um copinho de açaí e vai comendo pelas beiradas, aquele roxo lindo, e depois de muitas caras e bocas resolve que o açaí tem mesmo gosto de weeds. Qual weed, específicamente, senhor? Ele está falando é em grama mesmo, gosto de grama. É a primeira vez que ouço esta definição e não me parece estapafúrdia. É, pois não é? Se tivéssemos nascido perto do açaí ele saberia a um néctar, assim é a vida. Enquanto não nos viciamos nele pedimos Coca light, pelo menos a cor é parecida.

As tradutoras do autor inglês eram excepcionalmente boas. Prestei atenção para ver como traduziriam torresmo de pele de peixe, pitiú, (que é o mau cheiro de peixe), e abiú, (camarãozinho do tamanho daqueles krill que as baleias comem). Peixe reimoso. Ninguém merece, pobres meninas. (O cozinheiro Thiago entrou neste assunto de coisas quentes e frias, conceitos já de Galeno, só isto daria um simpósio inteiro na Inglaterra, são gamados por este assunto.)

Contaram de tudo. Como criam os pirarucus, como o despescam. (Entendem o que digo sobre as tradutoras?)

O que a Nina não contou é que ela, linda num casacão estilosérrimo, com o cabelo preso no cocoruto, parecendo uma diva de cinema europeu com uma simpatia e generosidade de quem cresceu no sítio, me ajudou e muito na hora de traduzir torresminho. Ela disse que chama chitterling em inglês, e escreveu chitterling no papel com uma letra de princesa que nunca fez aulas de caligrafia porque já nasceu com a letra linda. O Harry daí falou que chitterling é mais usado para descrever uma preparação com intestino e não barriga. E eu comentei que chitterling e chinchuline então são a mesma coisa e olha só como parece a palavra. E a gente ficou os três ali pensando nas tripas, nos chitterlings e nos chinchulines.

Foi uma conversa deliciosa, com dois gigantes e euzinha, sortudona, ali no meio. Eu fiquei me beliscando debaixo da mesa pra ver se era verdade aquela conversa deliciosa sobre as delícias feitas de entranhas. Era.

O segundo blog é o da Alexandra Forbes, foodtrotter e colunista da Folha. Tem até foto lá. Que vergonha. Um cineminha do meu papo ao pé do ouvido do papa. Ó só:

You know, I mean, it's kind of like that thing that is more or less like this and that

Minha timidez bateu forte. Não gosto de ficar aparecendo por aí. Gosto que todos apareçam por aqui para ler esses posts sobre nada, mas aparecer, minha cara, meus óculos verde-limão, meu turbante israelense e minha camisa de pois fúcsia… curto não. (Verdade que eu mesma postei a foto que o Ilan tirou. Mas é que, né, abriu a porteira…)

A Alexandra escreveu o seguinte:

Achei a maior graça em ver o grande cientista Harold McGee, idolatrado por tantos chefs americanos, passar quase desapercebido pelas salas e saguões. Ele assistiu às palestras da Helena, do Alex, do Pedro e do Thiago Castanho, sempre com uma intérprete ao lado (que, logicamente, jamais poderia transmitir tudo o que era dito e mostrado).

Apenas uma correção, que ela não teria como saber por não ter passado o dia no pé do cara: ele era parado a cada três minutos, para apertos de mão, fotografias, autógrafos e rasgações de seda. A Heloisa Bacellar, que além de ser minha xará e também uma referência de estilo pra mim, ficou até com os olhinhos meio marejados na conversa com McGee. Eram chefs, alunos, leitores, fãs, convivas. A gente dava cinco passos e lá vinha alguém: Mister McGee (eu sempre rindo por dentro porque ouvia Mister McGoo e pensava no ceguinho), I’m your fan. Um-dois-três-quatro-cinco, lá vinha alguém: Mister McGee (e eu rindo por dentro cantarolando Me and Bobby McGee numa versão Me and Harry McGee, à la Janis Joplin, Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lordy Lord Hey, hey, hey, Harry McGee, Lord! e nem ouvia o que diziam pra ele). Era lindo de se ver. Digo, a comoção das pessoas diante ele.

(Breve parêntese pra falar de uma cena linda. O Luiz Horta, meu amigo de truco-vinho-arte e também um ídolo, esses Horta, viu vou te contar, eita família porreta, que eu nem acho que eles são da mesma família, a Nina e o Luiz, mas eles têm o mesmo sobrenome e eu sou fã dos dois então pra mim eles são primos, bom, o Luiz Horta chegou com dois exemplares de On Food and Cooking pra autografar. Um deles era velhão, o livro é de meados da década de 80, e tava cheio de post-it grudado. O McGee pegou os livros e disse: “Eu gosto de ver essas edições antigas. E essa, bem, essa foi bem usada”.)

E eu acho que ele não viu a palestra da Helena, porque a gente tinha combinado de que ia ser cansativo demais. Combinamos um intervalo, inclusive da presença um do outro. Eu jurava que ele tinha ido descansar, mas pode ser que descanso para ele fosse ver a Helena toda linda mostrando beterrabas, mandioquinhas e afins. Eu concordo que isso pode ser descanso, porque eita mulher bonita e inteligente.

Quanto à intérprete ao lado (que, logicamente, jamais poderia transmitir tudo o que era dito e mostrado). Verdade. Não tinha como. Eu até expliquei pra ele o que era peixe reimoso e descrevi o pituí, mas o McGee certamente perdeu muito por ter as palestras filtradas por mim. Eu estou tentando compensar traduzindo trechos d’A História da Alimentação no Brasil e mandando pra ele por e-mail. Mas não é a mesma coisa.

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Desconcordância

A mulher queria descer a Angélica. Ela tava em Pinheiros. Ela dizia saber chegar à Angélica via Pirituba, que é de onde costuma vir. Mas dali de Pinheiros, não conhecia os ônibus. Ela explicou tudo isso ao cobrador e quando foi perguntar, se atrapalhou com os plurais e as concordâncias e lançou:

– Qual sãos?

Eu, do meu lugar, respondi mentalmente:

– Todo insanos.

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Um canta, outro rebola

Morri de hiperglicemia.

Tribal e monocromático

Repare no tanto de coisa sobreposta ela veste. É saia, saia, cinto, cinto, sobressaia, colar, colar e colar com mais colar.

Eu adoraria ter ido antes a essa exposição, para poder recomendar a visita. Mas ontem foi o último dia. Então não dá mais pra ir lá ver. A mostra Hereros, com fotos de Sérgio Guerra (todas as que reproduzo aqui) e alguns poucos artefatos desse povo nômade que vive no deserto no sul de Angola, estava em cartaz no Museu Afro Brasil, lá no Ibirapuera.

Repara no enfeite na cabeça, é tipo uma tiara com um laçarote de pele de vaca

A exposição em si era até um pouco confusa (eu ainda estou tentando decidir o que achei do museu inteiro, todo ele meio bagunçado. Tem um lado muito legal que é uma impressão de que você está na casa de alguém louco pelo assunto, passeando por cômodos e quartos e corredores cheios de fotos, desenhos, obras e artefatos. Por outro lado, isso dá uma cansada, especialmente quando você está tentando ouvir um áudio e ele se mistura a outro).

Os textos para explicar quem são os Hereros e porque são assim, além de serem poucos, vinham escritos num tom-sobre-tom desses que os designers ou acham lindo ou fazem de propósito pra depois ficar dando risada do povo balançando o corpo em busca de um ângulo em que se consiga distinguir as letras.

Mas os tais Hereros compensavam a confusão. Os caras vivem lá no deserto angolano com seus bois, atribuídos de muita importância para eles, e seu visual absurdamente sofisticado. O mais chocante são essas mulheres com os cabelos divididos em gomos – muito bem descrito pelo Rafa como penteado do Predador – totalmente cobertas de pigmento vermelho e parcialmente cobertas de adornos e enfeites e roupas, em muitas camadas, tudo vermelho.

Os Hereros se dividem em grupos, com características de estilo bastante diferentes entre si. Características. Porque o estilo sempre está lá.

Olha esse chapéu. Olha essa mulher. É foda.

(Breve parêntese histórico: Em um dos textos da exposição, estava dito que o isolamento desse povo privou seus integrantes dos conflitos que se seguiram à independência de Angola. Eles ficaram lá, e a confusão rolou e eles nem viram. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Porque quando o assunto é África e grupos étnicos e confrontos pós-independência, em geral dá merda. Os Hereros de Angola parecem ser de fato sortudos. Mas seus primos namibianos não tiveram tanta sorte. E a merda pra eles veio bem antes. Angola e Namíbia fazem fronteira, e os Hereros se espalham por ambas. No início do século 20, em 1904, os alemães que colonizaram a Namíbia promoveram um dos primeiros genocídios do século 20 contra os Hereros, que se rebelaram diante da recém-chegada e auto-intitulada autoridade colonial. Resultado: foram massacrados. Os sobreviventes foram levados a campos de concentração que, pelo que pude sacar do que li, são vistos como a escola que foi dar nos campos de concentração da Alemanha nazista. O governo alemão pediu desculpas oficiais em 2004.)

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A morte da matéria

Benefits Supervisor Resting (1994, 160x150 cm)

Ontem morreu Lucian Freud. Ele já estava velhinho, tinha 88 anos, então não estamos diante de uma grande surpresa. Mas não é porque não há surpresa que não há tristeza. Nos meus delírios de “quando eu ganhar a mega sena” sempre houve um espaço para a fantasia de contratar o Freud pra fazer meu retrato, tipo o da Rainha da Inglaterra, ou o de Sue, a mulher que serviu de modelo para o quadro acima. Ou ainda o de Kate Moss. Agora não dá mais pra saber como ia sair. E agora vou ter de pensar em outro. Tomara que exista outro que ame tanto as peles e dobras e coisas.

PS: Nossa, eu tinha escrito “para fazer meu autorretrato”… Freud explica… quer dizer, o outro Freud, né.

O cheiro do cavalo fedido de Napoleão

Historiadores refizeram o perfume que Napoleão usava

Pense em algumas de suas memórias mais poderosas, e é bem provável que elas tenham um cheiro: o perfume do filtro solar na praia, o cheiro fresco da grama recém-cortada, a trilha floral do perfume da sua mãe. “Os cheiros estão muito ligados à lembrança”, diz o perfumista Christophe Laudamiel.

Mas apesar de sua primazia em nossas vidas, o sentido do olfato é frequentemente ignorado quando nós gravamos nossa história. Tentamos nos conectar com o passado visualmente, olhamos para objetos dispostos em um museu, para fotografias em um documentário, para a caligrafia em um manuscrito. Às vezes, podemos ouvir um discurso antigo. Ou tocar um artefato ancestral e imaginar como era usá-lo. Mas o nosso conhecimento do passado é quase completamente desodorizado.

“É notável para mim que a gente viva num mundo em que temos todos os sentidos para explorá-lo e, no entanto, de alguma forma, nós assumimos que o passado fosse desprovido de cheiros”, diz o historiador sensorial Mark Smith.

Historiador sensorial! Qual era o perfume do Napoleão, de flores que já foram extintas, de uma vila viking. Nada como uma boa matéria sobre um assunto curioso. Leia aqui.