Arquivo da categoria: Uncategorized

A busca pela vocação

Foi numa gavetinha assim que essa busca começou

Quando eu era moleca, a professora do pré 2 ou da primeira série, talvez da segunda, algo assim, passou uma redação pra classe cujo tema era “a casa da vó”.

Enquanto todas aquelas criancinhas tontas fizeram redações tontas sobre como era a casa da avó delas, eu fiz uma espécie de peça de teatro que se passava na gaveta da máquina de costura da minha vó (que eu guardo aqui em casa com muito orgulho. Não minha vó, a máquina de costura. Se bem que talvez fosse a máquina da outra vó, mas isso não vem ao caso).

O que acontecia lá dentro? Um elaborado diálogo entre a agulha e o carretel de linha. Eu não lembro se eles chegavam a debater a penetração da linha do carretel no buraco da agulha, mas lembro que eu fiz um desenho na mesma folha. Nada muito diferente do que faço hoje neste blog (texto/imagem). Esse foi um marco. A professora chamou minha mãe na escola e naquele dia elas decidiram que eu escrevia bem (e cá estou eu até hoje pagando o preço dessa decisão).

Uns cinco anos atrás, eu fui fazer uma matéria pro caderno de Turismo da Folha na Califórnia. Era uma matéria de esqui e eu passei uns cinco dias em montanhas geladas da região de Lake Tahoe.

Foi lá que eu quebrei o cóccix. Foi lá também que eu achei que tinha descoberto meu verdadeiro talento. Eu quebrei o cóccix no terceiro dia de montanha gelada. Mas entre o primeiro e o terceiro dias eu achava que tinha nascido para ser snowboarder.

O sonho terminou rápido, porque eu não pude mais esquiar com o cóccix quebrado. E desde que voltei de lá, nunca mais retornei às montanhas geladas para tirar a prova e mostrar ao mundo que nasci para deslizar pela neve.

Foram trinta anos buscando o meu verdadeiro talento. Escondido na gaveta da máquina de costura, desviado por uma curva mal-feita numa montanha das Rochosas. Demorou, mas eu achei: meu maior talento nesta vida é fazer lasanha.

Sério. Não há nada que eu faça, em qualquer posição, segundo qualquer padrão moral ou imoral, que cause tantos hmmmmms ou nhaaaams quanto a minha lasanha. Ela é mítica, é única, é equilibrada e é cheia de regras.

Como eu não consigo guardar segredo (a não ser que me ameacem fisicamente), vou dividir aqui as minhas regras e rituais para a execução daquela que é a lasanha mais elogiada que eu já vi na vida.

1. A minha lasanha não leva presunto.

Essa é a única regra.

O ritual:

1. O molho é preparado de véspera.

E pronto.

A receita é simples: molho bolonhesa, massa, queijo, molho, massa, queijo, molho, massa queijo, molho, molho branco, queijo ralado. Forno, gratina e serve e hmmmmmm.

2.519 caracteres com espaço

Venha para o mundo de namoro

Suspiro...

Faz alguns meses eu me mudei para um mundo mágico. Um lugar que eu já descrevi aqui como rubicundo. É um mundo de pinguim feliz. De impulsos irresistíveis. De tanta vontade que o desejo vira um verbo conjugável. E o braço só serve pra fazer laço.

Todo mundo pode viver nesse mundo mágico. Mas não é que você chega e pede pra entrar. É ele que entra em você, normalmente sem pedir antes. Quase sempre sem dar aviso. E daí é só se deixar levar-levinho.

Aqui neste mundo tudo é mais gostoso. O idioma oficial é o cafuné. E as pessoas falam pouco, porque quase sempre estão com a boca ocupada em demorados beijos. Ao chegar, você é rebatizado. E temos muitos xarás por aqui. É que quem rebatiza é quem trouxe você pra cá, e essas pessoas têm predileção por nomes como xuxu, linda, gata, amor e por aí vai, porque aqui ninguém tem medo de ridículo e os apelidos-amorecos são liberados.

Mas ao mesmo tempo em que é rebatizado, você rebatiza a pessoa que trouxe você. Nessa hora dá uma certa confusão, você fica um pouco sem saber se foi ela que trouxe você ou você que trouxe ela. Mas é fácil entender isso aí. É só olhar pra entrada: aqui todo mundo entra de dupla e pisa nesse território mágico no exato mesmo segundo, aquele segundo inesquecível, em que a mágica acontece. Aquele segundo que você sempre relembra quando vai contar pra alguém como foi que a gente se conheceu. (Nesse caso, por incrível que pareça, esse aqui.)

Não tem quem-trouxe-quem. Então é só aproveitar que o cheiro é doce, o chão é fofo e o ar é macio. Aqui, há um fenômemo atmosférico muito particular: a força da gravidade, nessas bandas, incide apenas sobre o corpo só. Quando dois corpos de juntam, em um abraço, ela para de agir e a gente flutua. E quando vai acabando o abraço, a gente vai voltando devagarinho até o pé encostar no chão fofo de novo, plift, sem tranco, nem solavanco.

Tem uns outros fenômenos bem particulares daqui.

Aqui todo mundo é bonito, porque aqui você tem a cara que a pessoa que chegou com você aqui vê. E a pessoa que chegou aqui com você acha você lindo.

O tempo aqui é elástico e funciona assim: quando você está com ele, passa voando. Quando está longe dele, passa devagar sofrido e todo mundo só quer mesmo é saber de voltar pra perto de sua dupla e abraçar-apertado que é a pra gravidade sumir de novo e vamos nós lá pro alto.

Aqui ninguém respira, a gente suspira.

O corpo todo muda um pouco. Estamos em território de frios na barriga, arrepios gostosos e corações acelerados. É tudo tão à flor da pele que olhando assim até parece um grande jardim.

2.512 caracteres com espaço

Quinta rodada

Para entender que papo de rodadas é esse, leia aqui.

Fora do tempo regulamentar, mas estava olhando outras coisas e fez plim. Dante Gabriel Rossetti e um gewurztraminer da Alsácia

Ai, esses vinhos alsacianos são tão lindos…

Essa rodada tem double-Horta. Porque eu atravanquei o jogo (fiquei sem jogar uns dias aí). Então essa começa e termina com ele. Mas daí eu joguei:

Um sauvignon blanc despretensioso, desses de tomar no calor, Josef Albers.

Daí olha só o que o Horta falou (até agora eu tô com sorrisão): Você tem muito talento para este negócio, sabia? Este foi daqueles na mosca, perfeito. Prepare-se para 4a, você depois faz ficha de degustaçao com imagens! Que tarefa!

Uau! Iau! Iupi! Eu adorei a ideia! E estou preparando a minha ficha de degustação de imagens. Não tá fácil, mas jájá fica pronto.

A cartada do Horta veio a seguir e foi a última jogada nessa modalidade. Ela vai mudar em seguida. E fechamos essa etapa com chave de ouro, ou melhor, de ardósia:

Richard Long é a mineralidade de pizarra (ardósia) de um Priorato 2 (detalhe). Tô ficando abarrocado, quando começar a colocar pé de página e bibliografia você me leva atrás do estábulo e sacrifica, bang!

O próximo momento desse jogo é mais didático. Aguardem!

Pra ver todas as rodadas, clique aqui.

Dia de São Valentim

Pode sentar, deitar, fica à vontade, ele é todo seu

Pra ver vinte vezes

Lindo demais esse clipe, linda demais essa música.
Eu já vi umas vintes vezes, porque é tanto desenho bonito que aparece e todos tão rapidinho que eu fico vendo e sempre vejo um que ainda não tinha visto direito.

Vi lá na Dani.

Do milho à pipoca

A primeira vez que eu desejei estar dentro de uma pipoqueira, eu não tinha ideia de que a vida seria feita de desejar estar em lugares impossíveis (depois disso eu já desejei estar no fundo do mar, entre as nuvens, em poros alheios, enfim). Mas o primeiro lugar impossível que eu desejei estar foi a pipoqueira.

A pipoqueira lá de casa era uma panela bem alta, prateada, com a tampa verde clarinho. O puxador da manivela era de madeira clara. Era uma panela linda. E mágica, porque nela se colocavam milhos secos e saía pipoca fresquinha.

Mesmo sem saber que isso poderia ser simbólico, eu sempre achei linda a ideia de que há um pouquinho de água dentro da semente e quando isso é aquecido e essa água se agita e decide ocupar mais espaço ela faz o baguinho de milho explodir e virar pipoca. É linda demais essa lógica. Agora graças ao YouTube dá para fingir um pouquinho que deu pra entrar na pipoqueira:

PS: o video eu vi lá no Matias.
906 caracteres com espaço

Infantil e inútil

Uma bicicleta pode ser prática, levar você daqui para lá. Mas se você somar a ela o inútil do carrossel, que não leva ninguém a lugar nenhum, apenas a álbuns de fotografia da infância, você chega a isso. Duas memórias da infância em um objeto só. E um objeto lindamente inútil.

Vi no Fubiz.

277 caracteres com espaço

No porto geral de Corumbá…

… uma casa é mais bonita do que a outra.

… um barco é mais bonito que o outro.

… e fica todo mundo meio à toa.

Dá uma risadinha pra mim, vai

Porque hoje ainda é terça, a semana vai ser longa e ainda por cima tá frio

Patê de caracteres

Sem entrar no mérito da música, esse patê de caracteres bem que poderia existir de verdade. É como diria a Santarosa: “vai, passa a manteiga no pão”.

150 caracteres com espaço