Arquivo da categoria: Moi Redux

Homenagem póstuma a meu iPhone

Meu iPhone morreu. Ele decidiu nadar no mar na Bahia e desde então se recusa a funcionar. Em homenagem a ele, meu bom companheiro de tantas aventuras, escrevi um texto-brisa no Link que saiu na segunda-feira:

Celular faz-tudo não deixa você chupar cana e assoviar

Ele é menos volumoso do que um cafezinho (são 65 ml do iPhone contra 75 ml da xícara de café). Mas dá para enfiar ali sua câmera fotográfica e as fotos tiradas, discos, e-mails, amigos, e, claro, o telefone.
É impressionante. É multitarefa. Está sempre à mão e… força você a fazer uma coisa de cada vez. Não tem conversa: quanto mais coisas o seu celular faz, mas ele desafia o usuário: só há espaço para um multitarefa nessa relação. Ou é ele ou é você.

Se um aparelho só toca suas músicas e tira suas fotos, esqueça a ideia de registrar a vista da janela ao mesmo tempo em que ouve um disco gravado no seu iPhone plugado no dock. Ou é música ou é fotografia. E se o telefone tocar, não vai ser nem um nem outro. Para tudo para dizer alô. E não dá para conversar no telefone e checar e-mail ao mesmo tempo. Se a conversa estiver chata, a única opção é encerrá-la. E depois decidir se vai checar e-mail ou ouvir música. Ou tirar uma fotografia.

Você quer chupar cana e assobiar? Então comece pelos sambas de uma nota só e recupere sua câmera fotográfica e seu aparelho de som. Com eles, veja só que impressionante, você pode atender o celular ouvindo música com o outro ouvido e tirando foto com a outra mão.

A equação é simples: para você ser multitarefas, precisa de vários aparelhos para cada uma delas. Se um deles serve para tudo, conforme-se a fazer uma delas de cada vez.

1.644 caracteres com espaço

Refeição madrilenha acaba quando termina

Cheia de travessas e cercada de pessoas que não dão sinal de que vão arredar suas garupas da cadeira. Bem-vindo à mesa espanhola, na qual nunca falta comida tampouco papo. O tempo é elástico, gasta-se dele quanto for. Para provar disso tudo, vamos ao cozido.

Prepare-se para enfrentar sérias dificuldades ao contar as tigelas, pois isso vai longe. Antes de mais nada, vem a sopa de grão-de-bico e fidelinho, no caldo em que foram cozidos os itens do prato principal. A sopa é vigorosa. Mas não exagere: é só o aquecimento.

Depois de se fartar da sopa, vêm as rodadas de travessas. Primeiro, os vegetais: grão-de-bico, repolho, cenoura e batata. Esqueça esse papo de cenoura em rodelas. Ela vem logo inteira, cabeleira de folhas inclusive, e vai assim, incólume, para o prato. Em seguida vêm o frango, a carne, o porco, a costela, o presunto, o mocotó, o toucinho e a linguiça. Um de cada um para cada conviva.

Agora, às contas: no seu prato tem uma colher de grão-de-bico, uma cenoura, uma batata inteira, uma colher de repolho, uma coxa de frango, um pedaço de carne, uma costela, uma cabeça de presunto, um pedaço de osso, um quadrado de toucinho e uma linguiça. Dimensione o prato. Errou. É maior.

Diante do osso recheado com mocotó, poucas pessoas se mostram dispostas a sugar a gelatina intra-óssea de qualquer bicho. Mas eles explicam: “Pegue a gelatina com uma faca e passe-a no pão”. Outro item que centraliza olhares é a cabeça de presunto. Trata-se da parte mais larga da peça, oposta ao osso, cozida. As faixas de gordura se separam da carne, que fica fibrosa e saborosa.

Refestelados e estatelados em suas cadeiras, os comensais, nesse momento, acreditam ter quebrado o recorde de quantidade de alimento consumida de uma só vez. Mas em cada prato, por guloso que seja o seu dono, há sobras.

Versão reeditada de texto meu publicado no caderno de Turismo da Folha em 12 de janeiro de 2004. O título é o mesmo que saiu lá.

Crítica de Segunda: Dzi Croquettes

É verdade, todo mundo já foi ver Dzi Croquettes. Pois eu não tinha ido. Fui no domingo. Aliás, fui sozinha ao cinema, como não fazia há uns 12 anos. E, ao menos na companhia desses tresloucados vanguardistas, achei bem bom o programa. Pois depois não conseguia tirar os caras da cabeça.
Resultado: a Crítica de Segunda é sobre eles.

Eu sei, eu sei, só se fala em Semana de Moda de NY, Semana de Moda de Londres e tudo o que está rolando nessas semanas no mundo da moda. E eu vi fotos e achei uns desfiles legais, outros menos, mas tudo mais ou menos como sempre.

Daí, no domingo, em plena tardinha chuvosa, lá fui eu ao cinema para ver o documentário Dzi Croquettes. E que me perdoem todos os estilistas em atividade nas duas principais capitais da moda no mundo, mas não há porque falar deles depois de ver esse filme. Desde as 15h de ontem, pode mostrar pra mim o melhor look da semana de moda de NY: eu só consigo pensar em Dzi Croquettes.

Leia tudo aqui.

Welcome do fabulous Las Vegas

Esse é o cassino Paris!, repare na cor do teto (sim, aquilo é um teto, não o céu). É sempre começo de noite

Nenhuma janela está aberta, mas é permitido fumar. O ruído eletrônico das centenas de caça-níqueis não para. Descombinando com papéis de parede decorados, carpetes estampados escandalosamente cobrem o chão e exalam um cheiro esquisito – misto de suor e de fumaça, com toques de mofinho. E esse cheiro nunca vai embora, pois, como já dito, nenhuma janela está aberta. Bem-vindo a um cassino, ambiente proibido para menores de 21 anos e para qualquer pessoa com tendências depressivas.

Centenas de pessoas ficam horas ali perdendo rapidamente seu dinheiro. Por isso ou para isso, a bebida é por conta da casa. É só colocar uma moedinha na máquina que aparece uma garçonete perguntando o que vai ser. Escolha o que quiser e dê gorjeta – no mínimo US$ 1.

O cassino é o lugar da suspensão das mudanças naturais do dia. A temperatura é constante. Em uma cidade em que à meia-noite a temperatura pode ser de 31 graus, em um cassino faz sempre quase 22. Lá dentro, as horas só passam no relógio. A iluminação isola os jogadores do fato de ser dia ou noite. Pessoas bebem uísque às 8h. Elas podem não ter ido dormir, podem não saber que já amanheceu. Vive-se uma espécie de começo de noite infinito. É possível querer jantar antes mesmo de ter almoçado.

Reza a lenda que as janelas não abrem para evitar o suicídio dos que perderam muito dinheiro. Os gerentes de hotéis negam a medida precavida; alegam que o ar-condicionado precisa do ambiente fechado para combater o calor do deserto.

Existe uma hierarquia velada entre os jogadores: o último degrau é formado pelos acompanhantes, os que não jogam. O penúltimo é o nível dos caçadores de níqueis. Então vêm os apostadores de jogos tradicionais – cartas, roleta, dados, apostas esportivas. Acima de todos, pairam os apostadores de fortunas, que têm salas separadas para perder seus milhares de dólares sem o assédio dos mortais.

Em um lugar em que se entreter é a máxima, estar triste é quase proibido. Las Vegas não é destino para quem vive uma fase difícil. Perambular pelo cassino observando as pessoas é receita certa para chafurdar na inquietude de uma alma machucada. A epidemia de obesidade, a hipnose dos caça-níqueis e a aparente solidão coletiva destroem qualquer chance de recuperação para quem está entristecido.


PS: Reedição de matéria minha publicada no caderno de Turismo da Folha de S.Paulo em julho de 2005. Como é reedição, não conta letrinha.
PS2: Las Vegas é um dos meus cantos favoritos no mundo.
PS3: A foto é desse cara aqui.

Crítica de segunda – Rever Hussein Chalayan é sempre bom

O meu estilista favorito do mundo é Hussein Chalayan. E eu tive a grande sorte de estar em Londres enquanto rolava uma exposição retrospectiva do trabalho dele. Lá, pude rever o vídeo do desfile 111, primavera/verão 2007, em que todas as roupas se movimentavam por meio de mecanismos mesmo e, no final, uma modelo tinha o vestido engolido por um chapéu.

Eu acho essa uma das imagens de moda mais marcantes da história da moda e ela foi o ponto de partida da Crítica de Segunda desta semana. Leia aqui.

Crítica de segunda #7 – Sustentabilidade

A excelente matéria da Carolina Derivi na revista Página 22 deu origem à Crítica de segunda de hoje.

Moda verde é um assunto delicado

Ser sustentável está na moda, mas isso não quer dizer que a moda seja sustentável. E, talvez, não seja por falta de vontade. A natureza da moda é, de certa forma, incompatível com a ideia de sustentabilidade. É verdade que isso não pode servir de desculpa para deixar essa preocupação de lado, mas há questões que dificultam muito a adequação da cadeia de moda aos padrões da sustentabilidade.

Leia tudo aqui.

Crítica de segunda #6 – A egípcia

Olha eu aí, num momento bem Chanel. Ou bem egípcia. Você escolhe.

“Nossa, ficou lindo seu ‘cabelo Melina’”. Essa frase me fez lembrar outra, que ouvi alguns anos atrás. Um menino descreveu o cabelo de uma menina como “clássico” e emendou: “bem Victoria Beckham”. O que essas duas frases têm em comum? Ambas se referiam a um corte Chanel.

O corte Chanel é, de fato, um clássico, como bem definiu o menino do parágrafo acima. E, sim, costuma deixar as mulheres lindas. Mas, ao ouvir as duas frases, eu fiquei de cabelo em pé por um momento. “Como assim ‘Melina’? Isso é Chanel, poxa!”.


Continue lendo aqui.

Home is where the heart is

Home, sweet home

O protagonista do filme para em um estacionamento, no meio do nada, onde há um bar. Ele entra no bar, tudo escuro, todos param de falar e olham para ele.

Um caubói, com o chapéu escondendo os olhos, sopra a fumaça do cigarro entre os dentes enquanto espera sua vez para dar uma tacada na mesa de sinuca, única coisa iluminada ali, ainda que o sol brilhe lá fora.

Da jukebox sai algum hit de Bruce Springsteen (embora na sua cabeça toque Bob Dylan ou Leonard Cohen). A bartender apóia a mão sobre o balcão e dispara, com o sotaque sulino: “O que você vai querer, babe”?

Ao protagonista só resta sentar ao balcão e tomar a cerveja local.

Em Atlanta, esse bar é o Lenny’s, o chope, Sweet Water, a bartender, Suzanne, e o caubói me foi apresentado como … Cowboy. E, bem, o protagonista, como não poderia deixar de ser, era eu.

O caubói chamado Cowboy

822 caracteres com espaço

PS1: Essa é uma versão reeditada de um texto meu publicado em agosto de 2008 no caderno de Turismo da Folha.
PS2: A primeira vez que fui ao Lenny’s, achei que tinha encontrado meu lugar nessa Terra. Na segunda, tive certeza. Agora o Ray diz que tudo mudou e o Lenny’s não é mais o mesmo.
PS3: Meus eternos agradecimentos ao Ray por ter me levado lá.

Curry escondido no pão

A indiana dispara: “half” ou “quarter” (meio ou um quarto)? Sem entender direito, fui no “half”. Próxima: “lamb”, “chicken”, “vegetables”? Hãn? Só entendo o “vegetables”.

E lá vamos nós: meio, de vegetais.
E lá vai ela: pega o pão de forma inteiro, não fatiado, corta no meio e tira o miolo. Enche o buraco com o curry, amassa o miolo e faz uma rolha, tapa o buraco e me dá.

– “Você poderia me dar uma colher?”
– “‘Bunnychow’ se come com a mão.”

Olho para o chão, para o pão, para minha mão e com olhar pidão:
– “Por favor, me dá uma colher”.

Raj Govender, descendente de indianos, observa tudo.

Na mesa, começa o embate entre mim, o “bunnychow”, o respeito aos costumes e a colher. Começo pelo respeito e vou com a mão. Só consigo lambuzar os dedos e pegar um tico de pão com nadinha de molho. Apelo para a colher. Um pedaço de beringela cheio de curry faz que toda a boca estale: é delicioso, mas tudo arde e formiga.

Govender senta à mesa com seu quarto de “bunnychow”, se apresenta e vai dizendo: “Você nunca comeu um desses. Quer ajuda para saber como se come?”
– “Claro.”

Ele mostra que basta fazer do pão guardanapo para apanhar o curry e levar a porção à boca. Parece fácil, mas no meu “bunnychow” tem uma batata inteira. E aí, como eu pego a batata com o pão e coloco ela assim, íntegra, na boca? Nem Govender tem essa resposta.

O curry tinha favas, batata e beringela. O pão suaviza a pimenta. Mas não foi o morde-e-assopra que deu origem ao prato. O ingrediente principal aqui foi o apartheid.

Entre outros absurdos, durante esse período os negros não podiam entrar nos restaurantes dos outros – brancos ou descendentes de indianos. Mas de curry todo mundo gosta. E para que eles pudessem comer os ensopados com a mistura de temperos, os restaurantes escondiam o curry no pão.

A receita virou típica de Durban, cidade na costa oeste da África do Sul que tem a maior população de descendentes de indianos fora da Índia.

Depois da refeição, os dedos ficam sujos e amarelados. As barracas de feira que vendem o prato deixam um balde com água para enxaguar a mão. Mas já no meio da manhã, a água está encardida. Procure a torneira mais próxima.

(Reedição de matéria publicada no caderno de Turismo da Folha de S.Paulo em 13/9/2009)