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Tá gorda ou grávida?

Eu estava numa loja comprando xícaras quando aconteceu comigo pela primeira vez. Lá se vão anos e anos. Eu tinha acabado de mandar uma feijoada no Ugue’s e estava com um casaco com bolsos canguru, as mãos enfiadas no bolso.

A vendedora da loja perguntou, com uma cara bem feliz:

– Tem neném nessa barriga?

E eu respondi:

– Não, feijoada.

Ela embrulhou as xícaras, apontou o valor da compra na tela, passou o cartão e acabou.

Agora estou na situação oposta. Aos quase cinco meses de gravidez, já tenho barriga, mas ela é ambígua. Aconteceu hoje no salão de beleza. Cheguei, dei oi geral e fiquei sentada esperando a Jô e a Lud, as manicures com quem tinha marcado horário. (Breve parêntese: sou pouco dada a peruagens, mas se tem uma peruagem que eu adoro é fazer pé e mão ao mesmo tempo. Os motivos são vários e vão do mais porco elitismo – me sinto uma senhora feudal sendo embelezada por múltiplas manicures – ao mais belo camaradismo – a conversa fica mais animada em três pessoas do que duas.)

E a Jô, que é a manicure da turma, portanto já sabia, chegou-chegando: E o bebê, Helô? Foi um alívio no salão. A Laura, manicure-chefe, emendou: Eita, eu achei que você tinha dado uma engordada. A Neínha, irmã da Laura, também se manifestou: ufa, que bom!

Eu também acho bom. Acho ótimo que desta vez não é feijoada. Mas não vejo a hora de a barriga ganhar obviedade.

Dias desses, meus amados Rods e Albie estavam aqui em casa e o assunto veio à tona. O Rods, que está entre as pessoas mais retas que conheço, mandou:

– Olhando assim, ainda parece relaxo.

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Conversa de manicure

Pé é uma coisa muito esquisita, né não?

E foi então que me deu a louca e eu pintei as unhas do pé de azul (o esmalte chama hippie chic, a quem interessar possa). Eu não uso esmalte transparente, delicadinho, não. Mas também nunca tinha me arriscado para fora da zona de conforto da família dos vermelhos-rosas-alaranjados.

Então no sábado, a caminho do meu dia de beleza (o combo depilação-manicure), fui pensando que queria imitar todas as minhas amigas e passar carbono, a cor da vez, um preto bem preto, quase petróleo, na mão.

Como, por uma questão de princípio, eu não passo a mesma cor de esmalte no pé e na mão, restava decidir de que cor pintar as bolotinhas do pés (unha de pé é uma bolotinha, né). Daí eu vi esse azul, que reverberou na minha cabeça. Eu comecei a lembrar de algum filme em que alguma menina bem louquinha tinha a unha do pé pintada de azul. Não consegui lembrar o filme (ajudem! me veio apenas do dedinho cortado do Grande Lebowski, mas ele era verde).

Assim foi que desde sábado as unhas dos meus pés estão azuis. E isso me fez reparar em duas coisas

1. No momento em que eu saí dos avermelhados, fui-que-fui e pintei a mão de preto e o pé de azul, numa espécie de ato de autorrebeldia.
2. E desde então estou me sentindo meio louquinha. É incrível o efeito que essas coisas podem ter. Um efeito quase de fantasia, como se eu estivesse andando por aí vestida de pierrô.

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Depilação, o ritual

Opa, gatinha, quer o telefone da Silvia, minha depiladora? Ela é demais

Sei que vou passar por doida, maluca, masoquista: eu adoro fazer depilação.

– Mas dói!, alguém aí vai dizer.

É, dói. Mas a essa altura da vida (eu, na beirada dos trinta), essa dor já não tem nada de novidade. É velha conhecida. E dor doída mesmo é aquela que vem com susto e quase nunca é física. Bú! Ai.

Aqui não há mais sustos. Apenas o ritual. E eu adoro esse ritual. Depilar é minha missa, minha meditação. É purificador, tem uma dose de provação, exige concentração, demanda controle.

Eu adoro depilação também por outra razão, esse bem mais simples e mundana. Você está peluda, feia, a sobrancelha desalinhada, o sovaco cabeludo, as pernas masculinizadas e o bigode acinzentando. Em suma, a Monga. Daí vai àquele templo mágico, fica ali meia hora e, abracadabra, sai linda, lisa e deliciosa (e, sim, avermelhada em alguns lugares, mas logo passa).

E essa meia hora é cheia de rituais próprios, que apenas as mulheres conhecem. Mistério para os homens. A namorada está peluda num dia, no outro não está mais. É só. Até agora. Porque eu vou contar tudo o que acontece lá. Acompanhe.

Você marca o horário, chega ao salão. Espera um pouquinho.

– Pode entrar, vai fazer o que hoje?, pergunta a depiladora. Se estiver calor, ela pode perguntar: vai fazer tudo hoje? “Tudo” pressupõe perna-virilha-axila; mais buço para quem tem buço, sobrancelha para quem faz sobrancelha (tem quem tire com pinça em casa, por exemplo).

Item por item:

Cera nas canelas
Pode ser meia-perna (do joelho pra baixo) ou perna inteira. Depilar meia-perna não é sinal de preguiça ou descuido. Em algumas mulheres, sortudas, a coxa não tem muitos pelos. Nas outras, os pelos da coxa podem demorar mais para crescer do que os das canelas. Digamos que para cada 2 vezes que a mulher depila as canelas, ela depila uma vez a coxa. A depilação na perna, por incrível que pareça, não inclui o extermínio dos pelos nos pés, cobrado à parte.

Suvaco express
As axilas são simples. É só arrancar os pelos e acabou. Dói pouco e cresce rápido. Muitas vezes, a axila leva a mulher a uma rápida visita à depiladora entre uma depilação e outra. Os pelos do suvaco crescem mais ou menos em 15 dias.

Claudia Ohana
A virilha é mais complexa. Há quem só tire os pelos que aparecem para fora das laterais do biquini, deixando um shape mais largão. Há quem faça o look moicano. E tem a história da faixinha. Faixinha, e não faxina, é aquela parte de cima e ela é cobrada à parte. Imagine que a virilha é um triangulo de ponta-cabeça. A faixinha é a base do triangulo. A parte mais alta. Se a mulher coloca um biquini baixo, eles escapam acima do cós. E tem também que opte por virilha completa, ou seja, o extermínio absoluto dos pelos pubianos.

Portuga
Buço, na língua da depilação, é bigode. Pobres das mulheres que depilam o buço. Aqui não dói, arde.

Malu Mader
Sobrancelhas são depiladas para manter o desenho. A maior parte das mulheres depila a sobrancelha só de vez em quando e daí vai fazendo a manutenção na pinça. Quando a coisa começa a ficar disforme de novo, depila.

O não-dito
Polêmico entre homens (que ficam intrigados) e mulheres (que nunca concordam sobre essa questão), o item está sempre em primeiro lugar na lista de preços de depilação, em geral organizada em ordem alfabética. Sim, uma parte das mulheres depila o rêgo. Mas isso quase nunca é dito. Nem mesmo à depiladora. E esse é o código mulher-depiladora mais curioso. Quando a mulher diz: vou fazer tudo, é a deixa. A depilação começa pela frente. A mulher arranca os pelos da dianteira e vira de barriga pra baixo para depilar a parte de trás das pernas. Aí a depiladora dispara: vai fazer o ânus? Ela só pergunta isso se a mulher disser, antes, que vai fazer tudo. Isso livra a cliente de ter que anunciar que quer arrancar os pelos do cu, pardon my french.

Ação
Resolvidos os itens, a coisa segue. Os instrumentos usados são: uma panela cheia de cera quente, espátulas de madeira, palito de madeira, piranha e pinça. Com as espátulas de madeira, ela pega um tanto de cera e espalha na área a ser depilada, mais ou menos do mesmo jeito que se faz para passar cobertura em cima de um bolo. O palito ela usa para áreas menores, como o bigode. A pinça é para o acabamento. A piranha, aquele trequinho de plástico usado para prender o cabelo, aqui prende a calcinha na hora da depilação da virilha, pra não grudar cera na roupa. Normalmente, a sala é equipada com ventiladores, que aceleram o endurecimento da cera. E em geral as depiladoras passam talco na área a ser depilada antes de tudo. Isso é para secar o suor e fazer que cera grude melhor nos pelos. Daí ela passa a cera, dá uns segundinhos, puxa os pelos e pronto, pronto, passou.

Depilada e purificada, deu quanto?, tanto, beijinho na depiladora, obrigada, até a próxima. Amém.

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Os homens no Apogeu

Homens não entendem de salão de beleza, mas como em todas as regras, há exceções. Lá no Apogeu, o salão que eu frequento, vai o Xerife. Esse é o apelido dele. O Xerife é cliente da Laura, uma manicure bem conhecida no bairro. Ele faz a mão toda semana, com direito a luvas de hidratação. (A luva e a meia de hidratação são a última novidade do Apogeu. São umas luvas e meias de plástico cheias de creme. Você veste aquele negócio e fica um tempo com as mãos ou os pés besuntados e plastificados.) O Xerife faz as tais luvas de hidratação, tira as cutículas e passa base.

Outro dia o Xerife tinha companhia. Era um cara de uns 40 anos. Corajoso, chegou ao salão e disparou para a recepcionista: quero tirar a sombrancelha, como faz? A recepcionista (escondeu bem a surpresa e) respondeu com profissionalismo: você pode fazer com cera ou com pinça, qual você prefere?

O homem pediu detalhes, ouviu e sabiamente escolheu com pinça. Se ele tivesse feito na cera, corria o risco de ficar com cara de travesti. Então ele sentou numa cadeira de cabeleireiro no meio do salão e uma depiladora veio com a pinça e tirou os pelos que estavam fora da linha. Quando terminou, todo mundo, TODO mundo (e o salão estava cheio, porque era bem perto do Natal) quis ver como tinha ficado.

Como ficou? Eu achei um pouco estranho. Não tenho nada contra homem tirar a sombrancelha e, em muitos casos acho isso bem recomendável. Mas achei que a depiladora exagerou um pouco. As sombrancelhas dele ficaram limpas demais.

Quando ele foi pagar, disse à recepcionista: – A minha mulher vem fazer depilação aqui mais tarde, e eu queria deixar pago.
Ela respondeu: – Mas o que ela vai fazer?
Ele: – Depilação.
Ela: – Sim, mas o que?
E ele: – ? Não sei. Mas queria deixar pago.
E ela: – Mas só tem como saber quanto vai ficar depois, quando eu souber o que ela fez.

E ele partiu, resignado. Sem pagar a depilação da mulher. Ele deve ser um dos homens que mais entende de salão de beleza hoje em dia. E deve entreter os amigos no bar dizendo: vocês sabiam que as mulheres não sabem quanto vai custar a depilação até que elas tenham terminado? E os amigos num misto de admiração e horror.

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PS: Pode estar parecendo que eu tenho fixação por sobrancelhas, mas é coincidência.

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