O primeiro maracujá maduro

maracuja

Em setembro, contei a história do meu pé de maracujá. Terminava assim: “Agora só falta as mamangavas descobrirem que ele está aqui para polinizarem as flores para nascerem frutos que eu vou apanhar na camiseta dobrada, bater no liquidificador e tomar o suco e fingir que sou vizinha da Hilda Hilst.”

Elas vieram e polinizaram as flores. O pavor que eu tinha de mamangavas (o ferrão gigante, o barulho de helicóptero de guerra) virou amor (os pelos da testa cobertos de pólen, o vôo pesado). Em novembro, um dia olhei pra cima e pimba. Um maracujá! Uma semana depois, dezenas deles. Dezenas.

As semanas passaram devagar. E nada dos meus maracujás amadurecerem. No última dia do ano, eu às voltas com minhas resoluções de deixar em 2015 um tanto de coisa que não queria deixar para trás, sentada no quintal na sombra do pé, com minha mãe, ela me diz:

— Olha, meus amigos estão começando a postar fotos dos primeiros maracujás maduros.

Olhei para cima e gritei:

— Ouviu, pessoal? E aí? E vocês, porra?

Juro, não deu 2 minutos, um maracujá caiu no meio da mesa. Passou raspando na cabeça de minha mãe. “Caralho! Não precisava ficar puto”, disse rindo e já a caminho da cozinha, para abrir o kamikaze e ver qual era a de sua polpa.

Estava amarelinha, foi para o copo, um pouco de açúcar, um bocado de cachaça. Meu primeiro maracujá maduro virou caipirinha. Arrisquei colher outros dois. Mas estavam verdes, polpa seca, só caroço. Retumbavam a amarga lição: não queira tirar a fruta do pé antes do tempo. Bode de lado, a caipirinha ficou demais e ajudou a engolir os caroços de um ano que acabou tão duro.

Agora estou aqui ninando os outros tantos. Preciso comprar mais cachaça.

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(Enquanto bebia a caipirinha, fingi, como havia dito, que minha vizinha é Hilda Hilst. Chamei Hilda em casa para dar uns goles do meu copo, contei de minhas dores e ela recitou um poema. Te sei. Em vida/ Provei teu gosto./ Perdas, partidas/ Memória, pó./ Com a boca viva provei/ Teu gosto, teu sumo grosso./ Em vida, morte, te sei. Matou a caipirinha, mascou de boca aberta os caroços do fundo do copo e foi embora.)

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2 Respostas para “O primeiro maracujá maduro

  1. Amei, como sempre. Sonhei com vc no dia 30. Te desejo um ano muito bom, como seu primeiro maracuja.

  2. Que bom que você está voltando.
    Senti tanto a falta dos seus caracteres com espaço.
    Abraços!

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