No ponto assinalado, uma cena de amor

arvore

Faz algumas semanas, era meados de novembro, no ponto assinalado na foto aconteceu um encontro. A mulher estava esperando o ônibus no mesmo ponto em que eu pego o 209-P para ir trabalhar. Ela me chamou a atenção de cara: chegou sorrindo e fumando e olhando pro lado errado. Os ônibus vinham daqui, mas ela só olhava para lá. Pensei: “que doida!”, me identifiquei, fui com a cara dela e fiquei observando.

Ela acabou o cigarro, apagou no chão e fuçou a bolsa atrás de um chiclete. Minutos depois, abriu um sorrisão e entendi na hora a história de ela olhar pra contramão.

O cara vinha pedalando pela ciclovia, olhando reto pra ela. Parou a bicicleta bem na frente do ponto. Ela fez que ia atravessar a Sumaré sem nem olhar (eu, sobressaltada, quase fui impedir, o semáforo tinha acabado de abrir), mas voltou das nuvens e esperou os carros passarem (o meu ônibus passou também, mas eu decidi ficar para ver a cena).

Ele não desceu na bicicleta, só mudou um pouco o jeito de apoiar a bunda no selim. Ela chegou perto, tirou o chiclete da boca e eles se beijaram demoradamente. Ela segurando o chiclete na mão. Uma graça. Pareciam dois adolescentes — o chiclete na ponta do dedo reforçava o clima colegial –, embora os dois parecessem mais de trinta anos. O cara com certeza, a barba, bem grande, toda grisalha. Enquanto eles conversavam — foram no máximo dez minutos de papo — ela carinhava a barba dele e ele apertava os braços dela, de um jeito que parecia um explorador de relevo, um topógrafo. Foi uma bela cena de namoro. Se despediram com outro beijo demorado, ela flutuou de volta até o ponto e ele foi embora pedalando e olhando para trás.

Passou o 209-P e para minha surpresa ela entrou também. Sentou num banco daqueles ao contrário, enfiou os fones de ouvido e ficou olhando pro nada com aquela cara de quem acabou de dar uma namoradinha. Eu fiquei pensando na graça da coisa. Ela perdeu o ônibus para beijar na avenida e eu perdi o ônibus para ver ela beijar na avenida. Simpatizei com a moça, com a tarde, com o ônibus, com os astros e com os namoros expressos na ciclovia.

Um tempo depois, já começo de dezembro, vi a moça de novo no ponto de ônibus. Ela chegou fumando, desta vez de óculos escuros e fones já enfiados no ouvido. Encostou num poste toda séria. Fiquei agitada, um pouco preocupada, quis ir falar com ela, contar como ela afetou meu dia semanas antes. “Oi, tá tudo bem com você? Como vai o namoro? Sabe, eu vi um encontro seu com seu gato ciclista aqui algumas semanas atrás e achei tudo tão lindo que até perdi o ônibus para acompanhar a cena até o final.” Mas achei que ela ia me achar uma maluca.

Fiquei na minha, de olho na dela. E ela ficava com um olho no fluxo e outro na contramão. Dava uma espiada na ciclovia e voltava a olhar pro lado convencional, de onde vêm os ônibus. Temi pelo pior. Será que terminaram? Será que ele terminou com ela ou que ela terminou com ele? Supus que foi ele. Ela estava obviamente jururu e aquelas olhadas para a contramão me fizeram achar que ela tinha esperança de vê-lo. Imagino que os dois façam aquele caminho rotineiramente, talvez para o trabalho, talvez outra coisa, as duas vezes que a vi foram em segundas-feiras, pode ser para a terapia ou natação, pode ser que um vá para o trabalho e o outro vá para aulas de alguma coisa, não sei, nunca vou saber.

Hoje, enquanto esperava o 209-P para vir trabalhar, a cidade meio vazia, esse ano que não termina, vi o vazio do lugar em que eles se beijaram. Talvez eles estejam na praia felizes esperando o réveillon chegar, talvez eles estejam cada um num canto tristes com o fim do namoro só esperando o ano terminar. Talvez um esteja na praia esperando o réveillon chegar com outra companhia e o outro esteja triste num canto só esperando o ano terminar. Nunca vou saber. Se uma dia encontrar com ela de novo, vou tentar perguntar. E tentar agradecer que ela adicionou ao meu mapa afetivo de São Paulo um coraçãozinho na ciclovia da Sumaré.

ponto no mapa

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