O copo de suco de maracujá

Eu não sei quantos anos eu tinha e lembro como se fosse filme. É minha única lembrança viva da casa da Tia Maria, uma tia-avó por parte de mãe que morava num sítio perto de Campinas. Chegamos lá e a neta dela, a Cris, que na minha memória é alpinista (mas isso pode ser fantasia de lembrança de infância — não é, acabei de confirmar com minha mãe) perguntou se eu queria suco de maracujá.

Eu adorava (e ainda adoro) suco de maracujá, mas sempre tive (e ainda tenho) um pouco de medo da frustração dolorosa de esperar um suco natural e receber um maguary, um del valle (essa camada de medo veio mais tarde, porque quando eu era criança não tinha suco de caixinha) ou, pesadelo dos pesadelos, um tang.

Mas naquele dia estava impetuosa e aceitei o suco. A Cris, que é uma mulher muito bonita, seguiu numa direção inesperada: em vez de ir pra cozinha, foi para a cerca. Apanhou maracujás que enfiou na blusa dobrada (como eu amo essa técnica, essa bolsa escondida em todas as camisetas do mundo) e então chamou a gente para a cozinha, abriu os maracujás, bateu o suco e me deu.

Foi uma experiência perfeita no panorama de sucos. Expectativas alcançadas, superadas até. Lembro da minha admiração, o exemplar mais fresco possível, o copo ideal de suco de maracujá.

Naquele dia, naquela cozinha, falamos sobre a vizinha da Tia Maria, uma senhora excêntrica que tinha muitos cachorros e era muito querida pela minha família. Aquela figura que ocupou minha cabeça por anos e anos era só a Hilda Hilst. Eu lia as colunas dela no jornal de Campinas e ficava feliz e escandalizada que ela era a vizinha da Tia Maria. Com o tempo, é lógico, virei fã da HH (com quem ainda por cima divido iniciais, HH de Heloisa Helena). Depois ainda fiz aula de ioga com um cara super próximo dela. E esses pontos me fazem acreditar que somos próximas, separadas apenas por uma cerca coberta por um pé de maracujá do qual eu já tomei o suco. O suco ideal.

Tem ainda a história do Nelson, meu tio de segundo grau, casado com a Neza, filha da Tia Maria — todos moravam nesse sítio. Ele é um físico importante (dá um google, as tags vão de MIT a Embraer, passando por Unicamp) e, na minha cabeça de criança, isso queria dizer que ele era um cientista maluco.

Então naquele dia tomei suco de maracujá feito pela minha prima de segundo grau alpinista com maracujá da cerca que dividia a casa do cientista maluco e da poeta excêntrica. Foi um dia e tanto.

Eu sempre soube que desde então um dos meus objetivos nesta vida é ter um belo pé de maracujá, para tentar trazer para perto a poesia, a ciência e a aventura dos personagens deste dia. Mas foi só hoje, quando acordei e fui esquentar a água para passar café, que me dei conta de que ao menos este objetivo está cumprido.

Este é o meu pé de maracujá visto da minha cozinha. Não dá perceber, mas ele é imenso, indomável e cheio de poesia, ciência, aventura e lagartas. Agora só falta as mamangavas descobrirem que ele está aqui para polinizarem as flores para nascerem frutos que eu vou apanhar na camiseta dobrada, bater no liquidificador e tomar o suco e fingir que sou vizinha da Hilda Hilst.

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2 Respostas para “O copo de suco de maracujá

  1. HH agora é sua vez de colher esses maracujás e me convidar para um suco !!

  2. Oi Heloisa, td bem??
    Tomei a liberdade de te escrever um e-mail, espero que possa responder.
    Bjs
    Taty

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