A mais crua verdade

Quem frequenta este blog há algum tempo sabe que sempre fui dada a escatologias e indiscrições, assuntos evitados, tidos como deselegantes, volta e meia apareceram aqui em destaque – como peido, solitária, depilação.

Basta ter estilo e garbo para falar de qualquer uma dessas coisas sem soar sensacionalista. Eu me lembro bem, numa Flip, em 2008, Humberto Werneck desfilou com elegância por esses assuntos em uma conversa com Xico Sá.

Sá, o pândego do Crato, estava daquele seu anarcojeito único, falando “daquela pelinha entre o cu e a buceta, aquela ali não tem nome”, quando Werneck, com a elegância marota dos mineiros, interrompeu delicadamente:

– Tem sim: períneo.

Sem corar, nem dizer palavrão, atribuindo uma naturalidade cristalina àquela parte tão escondida e desprezada do corpo. Dava vontade de interromper a interrupção e assuntar o períneo, qual é, como é, o que mais tem nome? Mas a mesa seguiu para outros assuntos e terminou com todo mundo saindo dali morrendo de vontade de ler o Santo Sujo, maravilhosa biografia de Jaime Ovalle que Werneck lançou naquela época.

Toda essa volta para dizer que nesse dia, nessa mesa, eu comecei a pensar nisso: dá para falar de tudo, de peido, períneo e pelagens, com graça e estilo, sem que esses temas-párias despertem o nojinho ou a vergonha associados a eles.

E eles já apareceram muito por aqui. E depois eu cansei deles. Comecei a achar que o mundo não estava pronto para falar abertamente sobre o desconforto que é segurar um peido. Comecei a achar que seria martirizada. Que sempre seria a suspeita número 1 de qualquer nojeira, meleca ou fedô.

Mas não teve jeito. Os temas escatológicos voltaram à minha agenda. Mais fortes do que nunca, porque agora, durante esse período chamado gravidez, a escatologia come solta e disso ninguém fala.

Quando se fala de gravidez as pessoas logo desenham um cenário de plenitude, alegria no lar, bochechas coradas, tigelas de cereal e uma barriga redonda carregando o bendito fruto.

Há, há, há. Essa barriga redonda contém muito mais do que um bebê lisinho e rosado. Ela carrega entranhas em transe. Esfíncteres afrouxados. Articulações amolecidas. Peidos para que te quero. A verdade escatológica escondida por trás da gravidez de algodão-doce é a seguinte:

Gases. Grávidas produzem mais peido. E isso ganha ares – hehe – trágicos com o próximo item.

Os esfíncteres afrouxam. Todos. Temos vários, lembra? Então além de produzir mais gases, a grávida peida sem querer, porque tá tudo meio beiçola e o peido escapa. Assim como o xixi. Acontece: grávida às vezes mija nas calças. Especialmente, por exemplo, num espirro. Você espirra, peida e mija, é uma explosão. Até acostumar e trançar as pernas bem apertadas ao menor sinal de espirro ou tosse.

Prisão de ventre. Seu intestino, velho conhecido, passa a funcionar do jeito que ele quer. E ele dá umas travadas. Quase metade das grávidas sofre de hemorróidas em algum momento da gravidez. Hemorróidas, mano. Não há nada menos pão-de-ló neste mundo do que hemorróidas.

Pois é, ninguém fala disso. Todo mundo sabe que grávida vomita. E é estranho que isso não seja visto como algo nojento, já que vômito é mais nojento que peido. Mas ninguém avisa dessas coisas. Nem que o períneo, foi por isso que lembrei dessa história da Flip lá no alto, vira assunto.

Eu tenho conversado muito sobre o períneo. Mas deixa pra depois, que esse texto já deu.

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PS: Lanço aqui então uma discreta campanha pela livre demanda, da qual eu já sou adepta há algum tempo e agora ainda mais: ao menor sinal do despontar de uma cagada, vou a qualquer banheiro, onde for, não importa, não ligo, pode olhar feio, tô nem aí. Qualquer coisa para não segurar, que a pior coisa na vida é ficar enfezado. E os banheiros estão aí pra isso. É só deixar tudo limpo como estava quando você entrou.

6 Respostas para “A mais crua verdade

  1. na verdade, essa região tem nome e apelido… períneo, vulgo campinho, onde batem as bolas…

  2. Helô querida,
    Bem-vinda às discussões sobre o períneo! Elas fizeram parte das minhas conversas quando comecei a dançar profissionalmente… Era mais ou menos assim: você tem que acionar o períneo para desencadear a ação de toda a cadeia muscular abdominal… Não, não o glúteo, nem o médio nem o máximo, mas o períneo… Para proteger as articulações da coluna… E sempre que saltar também, para criar uma suspensão na bacia e não sobrecarregar tanto as articulações dos joelhos e tornozelos… Várias técnicas de educação corporal ensinam o tal acionamento do períneo.
    Outro dia ainda, o assunto voltou à tona. Uma colega da dança disse que sua cesárea comprovou a máxima popular que diz: bailarina que é boa não consegue ter parto normal. Isso porque a cadeia muscular períneo-abdomen seria tão forte que só o bisturi seria capaz de tirar o bebê do ventre…
    Estas conversas não me fizeram concluir nada sobre o dito-cujo. Só descobri que, quando engravidar, meu parto sentenciará se fui ou não uma boa bailarina.

  3. Helô, grávida e mais inspirada do que nunca!
    amei o texto. wuahahaha!
    bjins
    Mari

  4. Bem vinda ao clube. Três litros de água, salada em todas as refeições, fruta o dia todo, 1h de caminhada e cimeticona e vc retoma o controle disso tudo (eu acho)

  5. Não vou falar de períneo, mas de escatologia. Eu me excito muito ouvindo e falando sobre escatologias e indecências. Quanto mais obscena for a conversa, mais eu fico excitada. Relatos de sacanagens com detalhes bem íntimos me deixam doida. Quer dizer: só por isso já posso me considerar doida. Ou não?
    Alguém mais?

  6. perineo, campinho ou ilha do urubu.

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