Conversa com o limoeiro

Eu estava saindo de casa na sexta-feira à noite para ir para o sítio quando me dei conta de que ia esquecendo o carregador de bateria do celular. O Rafa perguntou: quer voltar? Eu disse não. Mal terminava de colocar o til no a quando lembrei das fotos que não poderia postar no Instagram. Mantive o não e partimos.

O Instagram, essa linda versão ilustrada e editada da vida, formula, automaticamente, um projeto editorial fotográfico. (Na minha opinião, é a coleção de momentos em que eu consegui tirar uma foto, na minha vida real, da vida que eu quero ter). E nesse projeto editorial, sítio vai bem.

Quando amanheceu e eu dei uma volta no pomar, arrependi. O maracujá estava florido. Mexerica, limão, laranja, pitanga, tudo apinhado. Bolo quente saindo do forno, pamonha fumegante saindo da panela e o café de coador de pano envolto numa nuvem de vapor, porque tava frio pra chuchu. Aliás, tinha um monte de chuchu. As cestas cheias de hortaliças recém-colhidas. Os ramos de alecrim com flores minúsculas, alface verdinha, couve. E quando saiu a comida, os pratos de ágata com arroz, feijão e costela com canjiquinha, quase que eu choro. Queria todas essas fotos. Tudo com o filtro Earlybird, aquele em que é seis da manhã para todo o sempre.

Fui refletir no pomar: se meu projeto editorial é tão matinal e campestre, o que estou fazendo longe da fazenda?

Primeiro, tive meu pé parcialmente comido por formigas (isso que dá insistir em não usar sapato). Mas não recuei, fiquei na frente do limoeiro e comecei a pensar.

Se essa imagem me importa tanto, será que eu consigo entender cada pedaço dela? Consigo descrever esse limoeiro? Contar para todo mundo como ele é? Eu conseguiria descrever o tronco e as curvas dos galhos, como um limão nasce perto do outro, como tem um limão que está difícil de pegar porque ele ficou preso no meio de três galhos, como o destino dele é apodrecer no pé, porque tem tanto limão ali que ninguém vai insistir em desemaranhar aquele?

Dá para explicar como é difícil de tirar o limão do pé sem romper o umbigo dele, como você precisa fazer que saia, junto do limão, um pedacinho de galho, porque se não faz um buraco e ele apodrece rápido? E será que eu consigo confessar, sem ficar com vergonha, como me sinto boba de não saber o que é limão e o que é mexerica, porque esse limão é tão amarelinho que parece mexerica? Que o único jeito de decifrar foi morder um e outro e fazer careta e dar risada.

E já que eu tava plantada na frente do limoeiro, decidi ir fundo e fazer uma pergunta pra ele.

Meu limão, meu limoeiro, é isso mesmo? É pra viver no campo? É vontade de verdade ou é só para tirar foto? Dá pra mudar agora mesmo ou só quando aposentar? Os amigos vêm visitar? Vai dar saudade? E dá pra matar a saudade comendo grumixama?

Ele respondeu:

Uma vez tindolelê, outra vez tindolalá.

 

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3 Respostas para “Conversa com o limoeiro

  1. legal o texto.

  2. Lindo! Se um dia você for morar no sítio eu vou te visitar. :-)

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