De cara no muro

 

Eu defendo um estilo de vida. Que, claro, é o meu. Que, claro, é o que eu acho certo. Esse estilo de vida está baseado em algumas coisas. Que definem as escolhas que faço.

Por isso eu moro, com meu marido e uma amiga, numa espécie de comunidade, num apartamento espaçoso que, em contrapartida, não tem porteiro, nem garagem (nem armário!). Tem um banheiro só. Não tem área de lazer nem lá muita segurança. Não tenho carro, nem uma bolsa incrível, não tenho muitas coisas desse tipo. Tenho outras tantas, verdadeiros tesouros, como uma marionete de esqueleto banguela, mas não espere que eu apareça com um sapato caro.

Sou a favor de andar a pé, de fazer seu próprio pão e de dar bom-dia. E acho, candidamente, que isso faz que a cidade seja menos dura. O fato de eu não estar blindada dentro de um carrão com ar-condicionado e todos os vidros fechados voltando do shopping e sendo engulida por um portão de garagem que depois tem outro e depois vem mais um faz, na minha polianacabeça, que a cidade seja um lugar melhor.

Por isso, num domingo, quando meu marido e minha vizinha ficaram nas mãos de três assaltantes armados dentro do meu prédio, eu fiquei triste. Claro que primeiro eu fiquei apavorada, depois desesperada, depois aliviada (quando, no final, ninguém se machucou e os danos permaneceram sendo materiais e simbólicos). Mas prevaleceu a tristeza.

Uma tristeza profunda por perceber que se por um lado, sim, meu estilo de vida faz uma cidade melhor porque, na minha cabeça, ele acolhe a cidade com todos os seus problemas em vez de criar uma bolha de isolamento e foda-se o resto; por outro, isso é de um idealismo quase infantil. Do tipo que você não consegue convencer ninguém a adotar.

É lindo morar num bairro central, num prédio antigo, usar transporte público e dizer não às fortalezas novo-rico que transformam a calçada numa trincheira? É lindo, lindo, Helô, vai lá, mas eu vou ficar aqui com meus três porteiros e trinta seguranças. E eu não posso dar um pio. E eu daria muitos pios. Eu cacarejaria. Até anteontem.

Mas desde ontem eu não dou mais um pio. Porque agora entendo. Porque por alguns minutos eu quis ter um Haganá em cada cômodo da minha casa. E dez na porta. Quis ter escolta armada. Quis ter carro blindado, mesmo sem saber dirigir.

Claro que eu continuo bicho-grilo. Amanhã mesmo eu vou pegar keffir com a linda Janaína para fazer iogurte em casa. Só que agora eu estou articulando um movimento para contratar, sim, segurança privada para o prédio. Faço isso triste, porque não consigo acreditar que me rendi. Mas é isso, me rendi ao medo.

Depois de todo o susto, sentados em casa, meio mudos, eu e o Rafa estávamos tentando digerir – ou, sei lá, regurgitar – o acontecido. O diálogo foi todo de frases desarticuladas, mas lá pelas tantas ele disse:

– O mais triste… o foda… sei lá. O triste disso tudo é a quebra de confiança. É uma pessoa. Eu sou uma pessoa. São pessoas. E…

Pois é, deu pra entender. E, sim, pode parecer ridículo. Mas dê uns cinco passos pra trás, zoom out. É muito bizarro você, na porta de casa, ser abordado por pessoas que vão entrar ali, macular seu espaço e levar suas coisas – e, pior, sua tranquilidade – embora. E essas pessoas são pessoas, que também têm casa, também têm sua tranquilidade. Algum espaço que elas gostam. Mas que elas não se importem que você tem o seu e não quer ter esse espaço invadido.

É uma pena. E desculpem a ausência da graça que costuma permear os posts aqui. Eu deixei uns posts bem humorados no gatilho antes da mudança do blog e, nos próximos dias, vou alimentar o blog com eles. Até passar o borocôxismo e o bodão. Eles passarão, eu passarinho.

 

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7 Respostas para “De cara no muro

  1. Deivid Duarte

    Fuerza, Helô.

  2. Magda Cristina

    Não deixe de acreditar , mas reavalie,repense e de repente você agrega um novo conceito ou um complemento…mas não deixe de acreditar e buscar aquilo que você acredita.

  3. helo, acompanho seu blog a um bom tempo, mas raramente comento. é que me identifiquei com esse post porque no prédio que eu morava até o meio deste ano, e que tinha porteiros terceirizados pela haganá, houve algo parecido, mas felizmente não tinha ninguém nos apartamentos. um foi o meu. apesar de não ter ficado cara a cara com as pessoas que vizeram a limpeza nos apartamentos a sensação de ter sido violada, de terem levado embora o reloginho que eu ganhei da minha mãe e que era dela quando moça, o frequencimetro que eu usava pra ver o coração funcionando quando corria e o notebook cheio de informações pessoais e profissionais é triste e terrível. as pessoas que fizeram isso tinham as chaves dos apartamentos, quando voltamos para casa estava tudo em seu lugar, nada revirado e as portas trancadas.
    caio no que vc disse, que é o mais importante disso tudo: confiança no ser humano. deixar a chave na portaria para a diarista que ia uma vez por semana. vai saber quantas copias da chave não fizeram? triste triste.
    então, segurança pode até passar uma sensação de proteção, mas não deixa ninguém imune às outras pessoas que não se pode confiar. =/

    bjobjo, fica bem.

  4. Oi, Helo!
    Triste, triste seu post. Já passei por isso, numa situação bem parecida com essa da Bruna, do comentário acima. Com a diferença que minha casa foi revirada. O armário do Theo tb – e era a única parte da casa eu eu fazia questão de deixar tudo arrumadinho, fofo…
    Eu detesto pessoas que viram e falam que “vai passar”. Mas acredite, passa. E vc acaba esquecendo das coisas que se foram. E os cantinhos da sua casa, depois de um tempo, “esquecem” o que aconteceu e voltam a ter a cara que eles tinham antes. Juro!
    To mandando good vibes aí pra sua casa, ta?
    bjo
    Mari

  5. É complicado. A “segurança” é uma violência. Os muros e cercas são dispositivos que explicitam a nossa disposição em manter as separações. A atitude de integrar-se à cidade certamente é uma opção menos violenta, contudo e mais simpática. Infelizmente não é uma opção necessariamente recíproca. Assim, não é porque vc opta por ser menos violenta com o “mundo” que ele será menos violento com você.

  6. então, mariana! o fato do nosso apartemento nao ter sido revirado nos deixou ainda mais alarmadas na época. como a casa ficava muito tempo vazia, aquelas pessoas poderiam muito bem ter entrado algum dia (já que tinham as chaves) para dar uma olhada e ver o que valia a pena levar e onde estavam as coisas…
    mas o que vc disse é muito verdade!! a gente esquece daquelas coisas que se foram. aproveita pra dar uma renovada nos ares e assim a nossa casa também esquece do que aconteceu. ainda bem =)

    beijos a todos!

  7. Que merda !!!
    Um abraço de colo apertado.
    beijo em você e no Rafa

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