Um abraço em São Luiz do Paraitinga

Uma parede de cada vez

Eu acho graça como a gente guarda e guarda o dinheiro para viajar pra longe e de vez em quando esquece de conhecer umas coisas aqui pertinho. Neste ano eu decidi dar uma colher de chá pra esse chão (num misto de resgate de gostos pessoais que estava meio de lado e medida de restrição orçamentária).

Minhas férias quero passar em Minas. Já nem lembro com quem estava conversando, mas a pessoa mandou a seguinte frase, que eu adotei: ir a Minas como se vai à França (dando trela pra cada cidadezinha que produz isso ou aquilo). Voilà. Estou bem Mário-Quintana-provinciano-é-sair-da-Província e abracei o caipirismo, já que ele de fato nunca saiu de mim. E esse longo trololó é para tentar convencer você a fazer como eu. E, mais especificamente, a fazer como eu fiz esses dias e ir visitar São Luiz do Paraitinga.

Eu estive lá na minha folga recente. E senti uma certa urgência.

Vulto da igreja protege as obras de reconstrução

A cidade está se reerguendo com rapidez. Não é a mesma coisa que era antes da chuva forte que a derrubou. Eu não conheci São Luiz antes da enchente. Então só imagino, imagino como era a praça principal antes de a igreja matriz ir abaixo. Imagino como era o cenário antes de todas as casas de uma das laterais da praça ruírem. Onde hoje estão escombros e tapumes. Mas não é desolador. Pelo contrário. É animador. Há um vulto da igreja (a cobertura das obras de reconstrução reproduz a silhueta da matriz, que boa ideia, porque daí ninguém esquece dela). E você pode ver pelo alambrado as coisas sendo feitas, o que sobrou sendo cuidado, separado, e o resto sendo reconstruído. E os tapumes que cobrem as casas em reconstrução ou recuperação têm a pomba da festa do Divino desenhado. Nada de tapume marrom mal-cuidado, não. É tudo vermelho e branco, com a pombinha de enfeite. Ou seja, sim, é uma cidade em reconstrução, mas sim, ainda assim, é uma cidade linda, ainda cheia de coisas legais pra fazer.

Quem deu o tom de urgência na conversa foi a Sandra, da pousada rural dos Curiangos, onde fiquei e recomendo.

Chalé na beira do rio

Primeiro, a recomendação: a pousada dos Curiangos fica na roça, mas é perto da cidade. São vários chalés na beira do rio, num sítio todo lindo e bem cuidado. A diária custa R$ 80 por chalé (cabem 4 pessoas, mas o ideal é 2 mesmo). As casinhas têm lareira, frigobar e fogãozinho. Não tem café da manhã (eles pararam de servir depois da enchente). Mas tem, na porta do sítio, dois lindos Sacis. Daí quando você entra, eu recomendo pedir licença dizendo em voz alta quando passar. Licença, Saci.

(Para quem for no fim de semana, outra dica é a pousada Trilha das Sete Cachoeiras, que fica pro lado de Catuçaba e tem passeio por cachoeiras. Como eu fui dia de semana, quando eles estão fechados, não deu pra conhecer. Mas jajá eu volto lá e conto melhor como é.)

Voltando à Sandra dos Curiangos, ela que deu o tom de urgência. Eu perguntei pra ela porque eles pararam de servir café da manhã e ela disse assim:

– Depois da enchente, todo mundo sumiu. E a gente teve que repensar tudo. Precisamos reconstruir a cidade. Tivemos de reconstruir a pousada. A diária era R$ 160 e incluía café, um café farto, com coisas artesanais. Resolvemos cortar o preço pela metade, para as pessoas voltarem. E cortamos o café. A cidade inteira está assim. Todo comerciante está gastando para reconstruir, a gente tá gastando muito. Mais do que está recebendo.

Olha que lindo esse saci-chocalho feito de cabacinha!

Daí eu fiquei pensando. Por que a cidade merece ser visitada? Porque é uma cidade histórica bonita, porque tem uma cultura regional particular e cuidadosamente preservada, cheia de músicas e sacis, porque a comida é boa (que delícia o afogado, um cozido de carne com bastante caldo pra misturar com a farinha e fazer um angu no prato), porque a região é linda e cheia de trilhas e cachoeiras e passeios, porque você vai no mercado e sai de lá cheio de farinhas de milho que não vendem no supermercado daqui. E porque também é responsabilidade sua ajudar a reconstruí-la.

São Luiz do Paraintinga é patrimônio nacional, portanto é patrimônio meu, seu, da Sandra e dos Curiangos. E está aqui pertinho. A responsabilidade de cuidar da cidade não é só dos moradores de lá, nem é só do governo ou só do Iphan. É de todo mundo. Porque se tudo desaparece de vez de lá, a gente fica em casa fazendo as mesmas coisas de sempre e resmungando “é um verdadeiro absurdo que o Brasil não cuide de suas cidades históricas, um absurdo! Veja só São Luiz do Paraitinga…”. Pois é, veja só, se a gente for pra lá fazer umas coisas diferentes, tipo uma caminhada na roça e um passeio no centro histórico, as pousadas ganham dinheiro, os restaurantes ganham dinheiro, a gente fica feliz porque passeou e eles ficam felizes porque a gente voltou pra lá. E o nosso patrimônio fica preservado de verdade, sem virar cidade-cenário ou, o horror, sem sucumbir à condição de ruína.

Faça as contas comigo. Duas noites (R$ 160), você pode levar o café da manhã ou comprar no mercado (eu comprei uma caneca de ágata, um coador de pano e 250 g de café Pindense. Pra comer, sortuda que só vendo, eu tinha na bagagem umas broinhas assadas na folha de bananeira feitas pela Ana, mãe do Rafa). Uns R$ 50 por refeição (pra 2, comendo um montão e tomando cerveja, cachaça, suco, água. Eu, inclusive, fiz uma refeição por dia, que a comida é tanta que nem dava vontade de comer mais de noite). Dá R$ 260 para os básicos. Um tanque de gasolina, uns R$ 90, e os pedágios, que deve dar uns R$ 20 ida-e-volta. Deu uns R$ 370. Põe mais R$ 30 pra tomar um cafezinho, comprar um saci e trazer umas delícias. Deu R$ 400, R$ 200 por pessoa. Não é muito mais do que você gasta ficando em São Paulo (só um cinema+bar e um restaurante já estouram essa cota).

Quer mais um motivo? Começa amanhã e vai até dia 21 a festa do padroeiro, São Luiz de Tolosa. Depois, em setembro, tem a semana da Canção Brasileira. Em outubro tem a festa do Saci. Depois tem o Carnaval. E a festa do Divino em junho do ano que vem. Aqui tem o calendário completo.

Vai lá dar um abraço na cidade.

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6 Respostas para “Um abraço em São Luiz do Paraitinga

  1. Liinndo esse post! Amei.
    Mas eu achava que o saci chocalho era outa coisa…

  2. adoro sacis! gosto da cultura e do savoir-vivre deles

  3. que coisa mais lindinha!
    será que tem ônibus? vou tentar ir num final de semana bom :)

    • Isadora, dá sim! Você tá em SP? Se estiver aqui, é assim: vc pega o onibus da Passaro Marrom até Taubaté. Daí, na rodoviária de Taubaté você pega o ônibus da Viação São José para São Luiz do Paraintiga. Eu sugiro que você ligue na rodoviária de Taubaté antes (12- 3635-3667 / 3635-4656) pra ver os horários de ônibus. E se você estiver sem carro, talvez não seja uma boa ideia ficar na roça, porque vai ser uma caminhada até o centro. Agora, se você descolasse uma bicicleta, seria demais. Vou ver se descubro um jeito de descolar uma bicicleta lá e se eu achar aviso por aqui.

  4. Helo, quero ir e levar Ana Flor para ver saci. Me lembrei do Turismo lendo seu texto…saudades, de vc, nao do Turismo…

  5. Helô!
    Que delícia de viagem… que delícia de texto…São Luís é INCRÍVEL! Agora, vou ter que voltar lá pra ver como tá ficando a reconstrução e retomar a lembrança que tinha da cidade…
    Recomendadíssssssiiimmmmmmmmas a festa de São Luis de Telosa…e o carnaval é um CLÁSSICO! As duas valem MUITO a pena!

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