Tribal e monocromático

Repare no tanto de coisa sobreposta ela veste. É saia, saia, cinto, cinto, sobressaia, colar, colar e colar com mais colar.

Eu adoraria ter ido antes a essa exposição, para poder recomendar a visita. Mas ontem foi o último dia. Então não dá mais pra ir lá ver. A mostra Hereros, com fotos de Sérgio Guerra (todas as que reproduzo aqui) e alguns poucos artefatos desse povo nômade que vive no deserto no sul de Angola, estava em cartaz no Museu Afro Brasil, lá no Ibirapuera.

Repara no enfeite na cabeça, é tipo uma tiara com um laçarote de pele de vaca

A exposição em si era até um pouco confusa (eu ainda estou tentando decidir o que achei do museu inteiro, todo ele meio bagunçado. Tem um lado muito legal que é uma impressão de que você está na casa de alguém louco pelo assunto, passeando por cômodos e quartos e corredores cheios de fotos, desenhos, obras e artefatos. Por outro lado, isso dá uma cansada, especialmente quando você está tentando ouvir um áudio e ele se mistura a outro).

Os textos para explicar quem são os Hereros e porque são assim, além de serem poucos, vinham escritos num tom-sobre-tom desses que os designers ou acham lindo ou fazem de propósito pra depois ficar dando risada do povo balançando o corpo em busca de um ângulo em que se consiga distinguir as letras.

Mas os tais Hereros compensavam a confusão. Os caras vivem lá no deserto angolano com seus bois, atribuídos de muita importância para eles, e seu visual absurdamente sofisticado. O mais chocante são essas mulheres com os cabelos divididos em gomos – muito bem descrito pelo Rafa como penteado do Predador – totalmente cobertas de pigmento vermelho e parcialmente cobertas de adornos e enfeites e roupas, em muitas camadas, tudo vermelho.

Os Hereros se dividem em grupos, com características de estilo bastante diferentes entre si. Características. Porque o estilo sempre está lá.

Olha esse chapéu. Olha essa mulher. É foda.

(Breve parêntese histórico: Em um dos textos da exposição, estava dito que o isolamento desse povo privou seus integrantes dos conflitos que se seguiram à independência de Angola. Eles ficaram lá, e a confusão rolou e eles nem viram. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Porque quando o assunto é África e grupos étnicos e confrontos pós-independência, em geral dá merda. Os Hereros de Angola parecem ser de fato sortudos. Mas seus primos namibianos não tiveram tanta sorte. E a merda pra eles veio bem antes. Angola e Namíbia fazem fronteira, e os Hereros se espalham por ambas. No início do século 20, em 1904, os alemães que colonizaram a Namíbia promoveram um dos primeiros genocídios do século 20 contra os Hereros, que se rebelaram diante da recém-chegada e auto-intitulada autoridade colonial. Resultado: foram massacrados. Os sobreviventes foram levados a campos de concentração que, pelo que pude sacar do que li, são vistos como a escola que foi dar nos campos de concentração da Alemanha nazista. O governo alemão pediu desculpas oficiais em 2004.)

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Uma resposta para “Tribal e monocromático

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