A cana, o piano, o kimono

Eu fui uma karatê kid.

Muitos anos atrás, quando eu ainda era criança, a minha agenda era lotada. Eu fazia muitas atividades (inglês, natação, piano, karatê, basquete, vôlei e outras coisas que crianças fazem). Essa intensa atividade fazia que muitas vezes eu tivesse de ir para uma atividade já pronta para emendar em outra.

O caso mais emblemático era a aula de piano. Eu ia de kimono. Porque saía de lá chispando para o treino de karatê. Eu adorava o karatê. E adorava as aulas de piano com a tia Ângela. Mas detestava ter de ir pra aula de piano usando kimono.

Hoje pensando, pode ser que eu não gostasse disso porque o kimono fosse duro e atrapalhasse os meus movimentos pianísticos. Mas pode ser também que eu não gostasse que o Claudinho, o filho da tia Ângela, me visse ali com aquela roupona branca (o kimono não valorizava as formas do meu corpo de menina).

Acontece que essa lembrança triste de ter de tocar a música que esqueci o nome mas era assim: sol, fá-mi-ré-dó, sol, fá-mi-ré-do, mi-fá-sol-fá-mi-ré-sol-mi-dó. Mi-dó-ré. Mi-dó-ré. Sol. Ré. Ré. Sol. Ré. Só. Ré. Fá-mi-ré-dó-ré (tum-tum-tum, isso era eu contando a pausa). Ré (tum-tum-tum). Repete tudo de novo. Enfim, a lembrança triste de tocar essa linda canção vestindo um kimono vem misturada à feliz lembrança de chupar cana gelada.

O marido da tia Ângela trabalhava na Manah (adubando dá). E trazia essas coisas pra casa. A tia Ângela cortava tudo em uns palitinhos e punha num copinho lá em cima do piano (tem-um-copo-de-veneno-quem-bebeu-morreu-o-azar-foi-seu). E nas pausas (não nas da música, nas da aula), ela deixava eu chupar cana.

Essa associação piano-cana faz que eu adore o ditado chupar-cana-e-assoviar. Mas o motivo de eu estar falando disso é outro.

É que no domingo, meus sogros vieram aqui em casa e trouxeram muitas coisas deliciosas do campo. Desta vez vieram duas caixas de ovos caipiras, uma sacola de pinha ou atemoia (eu marquei uma reunião com a minha amiga Marinão para decidir se é pinha ou atemoia e o que é, afinal, fruta-do-conde), balinhas de doce de leite com mel de Minas e… um saco de cana. Que está na geladeira, já cortado em pedaços. Não está em palitinhos como a tia Ângela cortava, mas em cilindros. É só dividir os cilindros em quatro que vai ficar igualzinho.

Ou seja, em poucos dias eu vou poder, finalmente, chupar cana gelada sem estar vestida com um kimono de karatê.

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2 Respostas para “A cana, o piano, o kimono

  1. Fruta-do-conde, pinha ou atemoia ainda tem outro nome aqui no nordeste, ata. Acho que querem ver com qual nome fica mais apetitoso. É bom com todos eles. =9

  2. Meu!!! Eu toquei esse sol-famiredo,sol, famiredo – sol..so de ler sabia o que vc estava falando, que louco, ne? Cana de palitinho e uma delicia, acho que Ana Flor vai gostar de ir na feira e pegar um palitinho pra chupar..

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