Vida adulta, tênis furado e jacaré

A Ana postou lá no Face esse lindo desenho. Eu até compartilhei por lá, mas acho que ele merece reflexão. Ainda mais que faz 19 dias que eu tenho 30 anos. Faz 19 dias que sou, inequivocadamente, adulta. Acabou, oficialmente, aquele papo de “ai, como você é novinha”. E nada mudou e eu não sei de nada. Mas pensando com os meus botões, cheguei a algumas conclusões sobre a vida adulta, que vou organizar de maneira temática.

As privações

1. Chilique. Chilique não pertence ao universo adulto. Embora muitas vezes dê vontade de deitar no chão e chacoalhar todos os pedaços do corpo gritando: “Eu quero esse dia de folga!”, você sabe, quando é adulto, que não vai funcionar. Não que funcionasse quando você era criança. Lá em casa nunca funcionou. Eu gritava “eu quero essa barbie” e ganhava um belo tapa, isso sim. Se fosse um chilique em público, eu apenas ganhava indiferença. Se fosse doméstico, podia vir um tapa ou um beliscão. Agora nem isso. Eu posso ficar três horas chilicando na sala da minha casa dizendo que não quero ir trabalhar e o máximo que vai acontecer é eu chegar atrasada (não que meus atrasos se devam a isso, hein, amados colegas de trabalho).

2. Sorrisos gratuitos. Quando você é criança, é só fazer uma caretinha que todo mundo sorri. Agora vai fazer caretinha por aí com 30 anos nas costas. Ninguém dá bola. Se alguém reparar, vai achar que você é esquisito. Com o frio que tá fazendo, pode ser que alguém fique com pena e pense: ‘tadinha, ela pegou um golpe de ar frio e congelou a cara’. Sorrisinho? Tchauzinho? Uti-cuti-cuti? Pfffff.

3. Traje. Essa eu demorei pra catar. E volta e meia ainda faço minhas criancices. Tipo tênis furado. Eu sempre usei tênis furado. E sempre achei que tudo bem. Até já fui elogiada por isso (e volta e meia me apego a esse elogio). Vou me deter um pouco mais nesse elogio, porque eu gosto muito dele. Ele tá lá guardado num testimonial no Orkut. Foi a Santarosa, minha linda amiga, que escreveu: “A Helô é sofisticação com um All Star com um furo na sola.” Não é lindo? (Apeguei de novo) E continuo usando tênis furado. Mas na vida adulta não é que você sai por aí com tênis furado e tudo bem. Ah, quer saber. É sim. Você sai por aí com tênis furado e tudo bem.

As imensas vantagens

1. E tudo bem. Você pode decidir que sair por aí com tênis furado é tudo bem porque seus pais não vão parar você no hall do elevador e dizer: “vai trocar de tênis”. E daí é você que tem que segurar a onda de sair por aí com o tênis furado. E isso aí é bem legal.

2. E essa imensa vantagem aí de cima resume tudo. Troque “sair por aí de tênis furado” por qualquer coisa, segure a onda da decisão e seja imensamente feliz, porque no fundo no fundo esse papo de ser adulto (pode ser que eu caia num tom auto-ajuda, mas tudo bem, eu seguro a onda da decisão) é, em suma, saber o que você quer, fazer e segurar a onda. Aliás, quer saber?, talvez melhor do que segurar a onda, seja pegar um jacaré. E go with the flow. Que depois é só tirar a areia do biquíni, voltar pro fundo e se preparar para outro jacaré.

PS: Dear Justin, pegar um jacaré é quando você pega a onda, como se fosse bodyboard, mas sem a prancha.

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3 Respostas para “Vida adulta, tênis furado e jacaré

  1. Perfeito. Mas, para muita gente, esse lance de poder sair com o tênis furado quando bem entender é um bocado desconfortável. Não seguram a onda. Aí, preferem sempre se manter agarrados aos pais (troque “pais” por “religião fundamentalista”, ou “ideologia política”, ou “cônjuge possessivo”, etc e etc), para que outros decidam por eles com qual calçado convém sair à rua.

  2. Pingback: Ainda sobre os 30 | Verdades e Insanidades

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