No balcão da padaria

Essa linda mortadela eu peguei emprestada de um forum de um jogo aí

Eu sou tímida. Sofro muito com isso e muitas vezes a cada dia. Não seria exagero dizer que pelo menos uma vez a cada hora dou uma sofridinha por causa da minha timidez.

Sempre que digo isso alguém olha com cara de “quê?”. Posso não parecer tímida. Mas sou. E sofro.

Dentre todas as situações em que tenho de driblar a minha timidez, a que mais dói, pela frequência, é a da padaria. É que para mim pedir trezentos gramas de mortadela é igual a fazer uma palestra em um auditório com capacidade para 2 mil pessoas. Lotado. Eu gaguejo, olho pro chão, penso um bilhão de vezes no fato de ser trezentos e não trezentas e, por fim, peço a minha mortadela como se estivesse gritando para todos os presentes: “tenho hemorróidas!!”.

Às vezes, cansada desse combate entre mim e minha timidez, vou ao supermercado e compro frios e queijos na bandeijinha mesmo. Mesmo sabendo que eles não são tão fresquinhos e gostosos como aqueles cortados na hora.

Sim, sim, eu sei que parece absurdo. Agora ouve essa: eu não tenho vergonha nenhuma de pedir pão. Dois pãezinhos, três pãezinhos, quero um daquele ali, aquele com gergelim, como chama esse pão? Caseirinho? Me vê dois. Na maior desenvoltura. Mesmo com o plural e o diminutivo, que são mais difíceis que a concordância dos trezentos gramas.

Agora nunca, nunca nunca nessa vida eu serei capaz de perguntar como chama aquele frio aqui que parece um salame, esse do lado do presunto, com cor de copa e pinta de mortadela? Não, não esse rosbife, aquele ali, aquele salsichão avermelhado, o embutido comprido.

Eu simplesmente ignoro, não peço, morrerei com essa dúvida, nunca provarei dessa copa, desse cutelo, dessa sopressata.

Eu suspeitaria que o problema poderia vir do formato fálico de grande parte dos embutidos. Poderia traçar um paralelo maluco entre salame e pintos de maneira que a pergunta seria: como chama aquele pintão ali, esse do lado da jeba, com cor de caralho e pinta de pipizão. Não, não essa rola, aquele ali, o bilauzão avermelhado, a piroca compridona?

Seria uma boa explicação, mas o mesmo drama se passa com os queijos.

Ainda mais agora que a Casa de Queijos Havaí, que ficava na esquina da Baronesa de Itu com a rua das Palmeiras, fechou. Lá eu ficava à vontade, fazia perguntas, o que é minas padrão? Qual é a melhor muzzarela? Dois meia-curas fazem uma cura inteira?

Isso acabou. Agora é pão-pão, queijo-queijo e nada de trololó. Trezentos gramas de queijo prato e duzentos de mortadela, obrigada. E aquele duelo interno entre os frios e a timidez.

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10 Respostas para “No balcão da padaria

  1. na dúvida peço CENTO E CINQUENTA gramas!

  2. Eu te entendo… não sou nem um pouco tímida você bem sabe, mas morei 4 anos em Piracicaba e me recusei terminantemente a pedir ” 4 filãozinhos por favor”, assim, no plural errado. Preferi continuar pedindo 4 pãezinhos, mesmo que soasse ardido no ouvido e fizesse todos os “Piras” da fila virarem a cabeça espantados em minha direção! Tem coisa que não sai da boca de jeito nenhum!

  3. Queria ver vc aqui em Porto Alegre pedindo meia dúzia de cacetinhos ou “um tanto assim ó” dessas linguiças de tripa corrida sem nó que formam metros e metros de porco moído, abrindo as mãos para mostrar uns 30cm, tal qual fazemos qd nos referimos à uma bela pica.

    É prima… temos alguns genes parecidos por conta do parentesco, mas somos simplesmente os opostos neste quesito.
    Talvez fifty-fifty ajudaria ambas!

  4. Essa mortadela q vc arrumou pra ilustrar parece uma hemorroida…

  5. Quero ver pedir 2 cacetinhos lá no rio grande do sul.

  6. Cara, eu tb morro de vergonha. Mas de tudo, de comprar qualquer coisa no balcão, de pedir pizza no telefone.
    Qdo fico na fila da padaria fico repassando o script mentalmente “4 pães e 200 gramas de queijo” “4 pães e 200 gramas de queijo” “4 pães e 200 gramas de queijo” .
    Isso sem contar que não tem mto tempo q eu consegui vencer o bloqueio de poedir “4 pães, dos mais branquinhos, por favor”.

    Aff

  7. hahahaha…:-)
    amei, que delícia de texto!
    mais uma pro time: morro de vergonha de pedir comida ao telefone. Mas o pior pra mim é entrar em uma loja e perguntar o preço de alguma coisa! ainda mais sabendo que não vou comprar! quantas vezes deixei de ver algo que gostei na vitrine só pra não entrar na loja…rs…me interno?

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