Obrigada, meus bons amigos-ogã

Eu já fiz aqui algumas defesas à perda do controle. Já elogiei quem caminha sobre jacas, já fiz uma ode ao descarrilamento. Mas hoje me ocorreu que eu nunca prestei homenagem a um elemento fundamental para que essas coisas todas corram bem: os amigos-ogãs.

Ogã é, no candomblé, alguém que não entra em transe durante o ritual. Tem vários tipos de ogã (tem o do batuque, tem o que faz os sacrifícios e tal). E tem um tipo de ogã que é o que fica de olho na galera que tá em transe. Ele fica ali cuidando pra que tudo dê certo, ele parte do pressuposto que aquelas pessoas ali não respondem por si naquele momento. Elas são Oxum, Iemanjá, Ogum e tal. Não são fulano, beltrano e siclano.

O amigo-ogã é aquele que parte do pressuposto que você pode pomba-girar (em tempo, ele pode estar em transe também, sem grilos). Que pode baixar um santo (ou um capetinha) e a coisa sair do controle. É ele que não deixa você se estabacar na escada. É ele que, quando você começa a causar, tira você dali, põe no táxi e leva pra casa. É ele que fica com você na madrugada conversando até tudo passar. O amigo-ogã protege.

Amigo-ogã não tenta desgirar a pomba. Ele sabe que não adianta tentar conter a explosão. Explosão quando vem vem. Ele deixa a explosão explodir, mas cuida para que os destroços não gerem vítimas desnecessárias. Amigo-ogã entende a importância da catarse. E só quem tem amigo-ogã pode ter catarse em paz. E ter catarse é bom. É duro às vezes. Às vezes dói bastante. Mas é dessas dores curativas. Quem nem passar merthiolate. Arde. Mas você sabe que precisa arder pra sarar.

Olha, eu estaria ferrada sem os meus amigos-ogãs.

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6 Respostas para “Obrigada, meus bons amigos-ogã

  1. este filho de oxalá aqui arrepiou-se… =)

  2. Eu também, Helô, eu também. =)
    Que lindo esse post, deu arrepios mesmo *-*

  3. Na minha tribo isso chama-se “o segura-onda”, noutras eh o “designated driver”.

    • Não é o designated driver não. Ele não precisa estar sóbrio.
      Ele só te protege do mico, caso a pomba gire.
      No fim vai todo mundo de táxi pra casa.

      • trabalhosujo

        Sao tribos diferentes. Nessa q eu citei, dos frequentadores do boteco, o mico eh porrar o carro. Na minha, o mico eh, sei lah, achar q os camelos bordados num tapete persa na parede estao com sede.

        Em todas o vigia tah lah, anjo da guarda da loucura. “Nao, bicho, NAO POE A MAO NO LIQUIDIFICADOR NAO”

  4. Pingback: dores curativas « gaveta amarela

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