O dia em que eu conheci Ariel Palacios

Ariel Palacios posa diante do Palácio da Água, Museu da Água e da História Sanitária de Buenos Aires

O encontro, um café da manhã, foi marcado por e-mail. Então foi preciso lançar mão da auto-descrição para garantir que a gente se encontraria. Ele se descreveu assim:

Para me reconhecer é só procurar um cara baixinho, de barba, com cara de intelectual judeu (segundo uns, quando estou de óculos) ou de terrorista iraniano (segundo outros, quando estou sem óculos) acompanhado da Miriam, que é uma loira de 1,84 de altura.

Eu só respondi que uso óculos com armação verde-limão. No dia marcado, eu saí de Palermo, onde estava hospedada e caminhei 6,5 quilômetros até a rua Suipacha, 380. Eu não sou de fazer posts longos, mas essa caminhada foi rara. Então esse post vai ficar bem comprido. Tenha paciência, estamos no meio do Carnaval, há tempo livre para ler, vai.

Saí do Che Lulu, o hotel em que estava hospedada e fui caminhando porque, entre outras coisas, precisava tirar dinheiro. Em janeiro deste ano faltavam notas de papel na Argentina e o tempo todo todo mundo precisava sacar dinheiro. Andei a rua Guatemala até a Santa Fé, onde há vários bancos. Eu tinha dormido pouco, porque havia saído na noite anterior. E, além de sonolenta, estava de ressaca. Tinha chovido um pouco e, ainda na rua Guatemala, eu pisei numa poça de lama de maneira que o meu pé direito jogou um tanto de lama na minha perna esquerda. Agora eu estava sonolenta, de ressaca e enlameada.

Eu não tinha tempo de voltar ao hotel, tomar banho e retomar a caminhada. E não tinha dinheiro para voltar para o hotel, tomar banho e apanhar um táxi. Então segui a caminhada com a perna coberta de lama mesmo.

Pensei em como resolver o problema. Eu poderia parar em um quiosco e comprar uma garrafa de água, se eu tivesse dinheiro. Talvez eu até tivesse dinheiro para a garrafa de água, mas estava com medo de ficar sem dinheiro para o café da manhã. Foi então que avistei um açougue. Entrei e pedi guardanapos para limpar a perna. A mulher me estendeu um pano. Sem pensar, passei o pano na perna e devolvi a ela. Para, só então, me dar conta de que ela estava usando o tal pano para exugar uma tábua em que ela estava cortando frango.

Foi então que notei que a minha perna estava coberta de visgo de frango. E minha mão também. Não vou nem tentar descrever o cheiro. Só me restava seguir em frente e pensar em uma nova solução, porque agora eu não estava mais enlameada. Eu estava com a perna coberta por visgo de frango. Eu estava nojenta. E sonolenta e de ressaca.

Segui em frente. Cheguei à avenida Santa Fé e tentei uns três bancos antes de conseguir tirar dinheiro. Em um desses bancos, uma mulher lavava a calçada. Ela tinha um balde de água com muita espuma. Eu não tive dúvidas, pedi licença, enfiei a mão no balde, peguei um tanto de água com espuma, lavei a perna e lavei a mão e fiquei feliz. Até olhar para a cara de espanto da tal mulher. Foi quando eu prestei atenção no balde. E a água, sob aquela grossa camada de espuma, estava preta.

Encardida, sonolenta e de ressaca, segui adiante. Saquei dinheiro. Parei num quiosco, comprei água mineral, lavei minha perna com vigor, lavei as mãos com vigor e parei numa farmácia, fiz que ia comprar um creme para poder prová-lo. Passei creme nas mãos, que finalmente deixaram de me dar vontade de vomitar.

Depois, passei em uma L’Occitane e repeti o procedimento. Agora, em vez de fedor de frango eu tinha cheiro de alguma erva aromática da Provence. Embora, no íntimo, eu soubesse que lavanda da Provence era apenas a última camada de um magma que incluia lama, visgo de frango e água de lavar a calçada. Eu estava atrasada, não havia muito o que fazer. Depois eu lavei tudo com água e sabão na pia do café. Mas, ao menos, eu não estava mais fedendo.

Pois bem, depois dessa caminhada cheia de aventuras, eu cheguei ao meu encontro marcado. E lá estavam eles, Ariel Palacios e Miriam, me esperando debaixo de um toldo (esqueci desse detalhe: chovia).

Ah, sim, esse post é sobre esse encontro. O encontro com Ariel Palacios e Miriam. Mais especificamente, esse post é sobre Ariel Palacios.

Quem começou essa história foi o Gustavo Chacra. Eu disse a ele que estava indo pra Buenos Aires. Ele me disse que eu tinha de conhecer o Ariel e a Miriam, que eu ia me apaixonar por eles, que isso, que aquilo.

Eu sou tímida e não teria passado pela minha cabeça acionar o correspondente do jornal na Argentina só porque eu estava indo pra lá. Isso que, além de ser o correspondente do jornal na Argentina, o Ariel é uma espécie de lenda entre os jornalistas, além de ter o sotaque mais curioso do mundo.

Mas o Chacra insistiu tanto que eu fui. Quer dizer, depois de insistir um pouco, ele esqueceu de mandar um e-mail nos apresentando (eu ao Ariel). Só que daí eu já tinha gostado da ideia. Então cobrei dele e ele mandou um e-mail que é uma doçura me apresentando ao Ariel. Trocamos e-mails, marcamos encontro, nos auto-descrevemos e nos encontramos depois dessa minha caminhada selvagem acima descrita.

Não consegui decidir se achei que o Ariel tem cara de intelectual judeu ou de terrorista iraniano. Na verdade, reconheci o casal por causa da Miriam mesmo. Uma loira gata de 1,84 m de altura que não tem como passar batido. A gente ia tomar café da manhã no La Ideal, um café desses indescritíveis que só Buenos Aires tem. Mas os caras estavam fechados para reformas e só espiamos o salão (pausa, fiquei sem fôlego só de lembrar, porque era a coisa mais linda e decadente que eu já vi na vida e coisas lindas e decadentes me tiram o fôlego).

Seguimos para um outro café. Eu estava meio sem-graça. A gente chegou no café, sentou e, plim, aconteceu a mágica. A mágica que só acontece quando você conhece pessoas muito legais.

O Ariel pediu um sanduíche de miga frio, de queijo. A Miriam pediu três medialunas, dos de grasa e una de manteca, e um expresso duplo cortado (que é o pingado). Eu pedi lo mismo, porque adorei o pedido dela.

E então eles me contaram tudo. Tudo mesmo. Começou pela panorâmica no noticiário da semana. Depois, uma visão geral da crise Argentina (que é bem mais antiga do que eu imaginava). Depois uma geral na história da aristocracia argentina. Então uma geral na América do Sul mesmo. Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, passamos pela China e pelas relações Brasil-Argentina. Ora tinha um mapa aberto sobre a mesa, ora o mapa se fechava. Eu queria anotar umas coisas, mas parecia um desperdício de atenção tentar anotar. Depois veio uma seleção dos marcos arquitetônicos mais incríveis de Buenos Aires (como é bom encontrar pessoas sensíveis à beleza da esquisitice), seguida de um punhado de histórias saborosas sobre ex-presidentes intercaladas a histórias maravilhosas sobre monumentos. Olha, só de lembrar… Você pode aprender todas essas coisas também, é só frequentar o blog dele. Mas ouvir tudo isso, em palavras ditas, com o sotaque particular de Ariel, pontuadas pelas maravilhosas interrupções da Miriam – eles são desses casais em que um interrompe o outro para acrescentar um detalhe, você esqueceu de dizer pra ela que a aristocracia…, e lembra quando você entrou no apartamento dos nossos vizinhos…, não, não foi porque eu perdi a chave… Tudo isso em um café da manhã… é intenso.

A Miriam saiu do café porque tinha de trabalhar. E Ariel continuou a aula sem ela. Depois ainda me levou para um passeio. E então me deixou na livraria em que eu tinha combinado de encontrar minhas amigas. A essa altura eu já estava em uma espécie de transe.

Ah, lá pelas tantas, durante o nosso passeio, perguntei a ele de onde, afinal, vinha aquele sotaque. Se eu tivesse de chutar, diria que é o sotaque de um português que mora há muito tempo no sul do Brasil. Errei feio. Ariel nasceu em Buenos Aires, veio criança para o Brasil, cresceu na região Sul (acertei essa parte, ele morou um bom tempo em Londrina), depois morou na Espanha e depois na Argentina. De onde vem o sotaque afinal? Ele mesmo não tem uma boa explicação. Depois de conhecê-lo, eu diria que vem do rádio. Também não sei explicar direito. Mas achei esse palpite bonito.

Eu encontrei minhas amigas na livraria e a gente foi passear. Passamos em um brechó incrível, onde a Mari comprou sapatos Prada e eu comprei uma caxemira cinza (que estou vestindo hoje, por sinal). A Mari e a Santa, então, me perguntaram porque eu estava tão quieta. Eu nem tinha percebido que estava quieta, mas era óbvio que minha cabeça estava zunindo.

Nesse mesmo dia, poucas horas depois, eu levei minhas amigas para comer no mesmo lugar em que tomei café da manhã com Ariel e Miriam. Foi meio insconsciente, mas acho que voltei lá para tentar pegar umas palavras que ainda estivessem por ali. Porque é óbvio que não coube tudo na minha cabeça enquanto eles falavam. Achei umas tantas ainda flutuando por lá e peguei cada uma delas com cuidado.

Em tempo: a dica mais legal de Buenos Aires que o Ariel me deu foi essa aqui.

8.751 caracteres com espaço (eu acho que isso é um recorde)

10 Respostas para “O dia em que eu conheci Ariel Palacios

  1. Patricia Campos Mello

    Helo
    seu post é genial. sensacional. uma delícia de ler . e descreve o ariel com perfeição.
    beijo

  2. Camila Hessel

    Fiquei com uma puta inveja desse seu dia (tirando o visgo do frango – wtf?).
    Inveja pq Buenos Aires tem esse poder mágico de me fazer querer viver as pequenas coisas que as pessoas legais que eu conheço vivem por lá. E porque a Confiteria La Ideal é um lugar lindo (eu chorei uma unica lágrima no dia em q comi uma medialuna de manteca por lá enquanto uns velhinhos dançavam tango numa tarde de sábado). E porque eu queria saber tudo sobre a aristocracia argentina e sobre a crise – numa mesa de café e não pelo blog. Conta mais, vai?

  3. vontade crescente de voltar para buenos aires. este post after hours roteiro de desespero me lembrou cary grant ao meio-dia sendo atacado num milharal, puro pavor e suspense no mais trivial dos mundos. se algum dia eu for editor da new yorker minha lista de contrataçoes começara na letra H

  4. Obrigada, sono, ressaca, lama, visgo de frango, espuma de lavar calçada, Chacra, Ariel e mi Buenos Aires Querido!
    Delícia de texto, Helô! Valeu o Carnaval…
    Beijos

  5. Helo, amei tudo o que vc escreveu. Nena, vc ficou no Che Lulu… e conheceu o Ariel Palacios. O sotaque dele e mesmo demais, eu achava que era o contrario, que ele era brasileiro e por morar muito tempo na Argentina tinha ficado com o sotaque soquinho. bjs

  6. HelÔ Bello Barros

    Helô,

    SEu texto nos leva pela mão e isso é uma grande qualidade literária. Fazer o difícil parecer fácil. Parabéns!

  7. Trabalhei com o Ariel por quase sete anos no Estadão (quer dizer, eu em São Paulo, ele em Buenos Aires). E ele é como descreveu. Seu texto está maravilhosamente escrito e hilário. Parabéns.

  8. Além do sotaque, acho genial a ‘sonoridade muito particular’ da emissão de voz. No rádio, parece que ele fala de dentro de uma concha acústica (ou com as mãos em concha); ou quem sabe usando um megafone. Grande figura, um gentleman. Adorei o périplo. Poderia ser filmado pelo Juan José Campanella.

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