‘Pra onde vou, levo esse rio dentro de mim’

Em 2003, entrevistei Milton Hatoum. E ele falou uma frase que nunca me saiu da cabeça. Ele disse: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. E eu sempre penso nisso. E tinha citado essa frase num dia, pra, no dia seguinte, ler um texto novo de Hatoum na Piauí. E lembrar de novo de como é bom o que ele escreve e o que ele diz. Talvez seja a calma. Dizem que ele é calmo.

O texto da Piauí é sobre uma criança com enxaqueca que descobre a melancolia. Às voltas com cefaléias minhas e alheias, indico fortemente a leitura (aqui). Olha que lindo que ele diz:

Mas havia outra dor, oculta e misteriosa, que circulava entre a cabeça e o coração. Naquela noite da infância eu não conseguia nomear essa dor que não era apenas física, e que só muito tempo depois descobri seu verdadeiro nome: melancolia.

E aqui embaixo vai a minha entrevista com ele, feita sete anos atrás, para uma matéria no caderno de Turismo da Folha:

“Calmo como uma mangueira”. Assim o escritor Milton Hatoum é descrito por quem o conhece. Tão calmo que ficou 11 anos sem publicar um livro, intervalo entre o lançamento de “Relato de um Certo Oriente” (1989) e “Dois Irmãos” (2000), escrito e reescrito sete vezes.
Filho de libaneses, nasceu em 1952 em Manaus. Aos 16 anos, foi para Brasília, de lá, para São Paulo. Aqui, se formou arquiteto em 1977. Foi para Espanha e para a França. Voltou para Manaus e quinze anos depois, em 1999, para São Paulo, de onde fala sobre a vida manauara para a Folha.

Folha – O que acontece com um manauara que vem a São Paulo?
Milton Hatoum – Entra sem pressa na selva paulistana e aprende a gostar dela. Mas, de vez em quando, sonha com a imensidão e os remansos do rio Negro. Uma singularidade de Manaus é ser uma metrópole no meio da floresta e à margem desse belo afluente do Amazonas. Em São Paulo eu sinto falta do horizonte, da vegetação… Às vezes fico imaginando aquele rio… O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim. Quando vou a certos lugares de São Paulo, tenho a sensação de estar em bairros de Manaus. No meu imaginário, as cidades brasileiras se misturam o tempo todo.

Folha – Como o rio dita a vida lá?
Hatoum – Euclides da Cunha notou que na Amazônia “o rio é a estrada para toda a terra”. O velho Manaus Harbour liga Manaus à região amazônica. O rio possibilita uma intensa relação cultural e econômica entre a cidade e o interior. Além disso, moradores e comerciantes navegam nos igarapés que cortam a cidade. A paisagem urbana é anfíbia. Mas desde a implantação da zona franca [1967], a cidade cresceu sem planejamento, e os igarapés estão poluídos.

Folha – Que lugares devem ser visitado em Manaus?
Hatoum – Gosto muito do mercado municipal Adolpho Lisboa, do porto da Escadaria e do centro antigo, a área em redor da praça Pedro 2º até a ilha de São Vicente. A sede do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas], projetada por Severiano Porto, é uma aula de arquitetura e deveria ser modelo para a habitação popular. Além do teatro Amazonas, da Ponta Negra e dos lugares mais visitados, vale a pena pegar uma catraia no porto da Escadaria e navegar pelo igarapé do Educandos. Se der tempo, um passeio pelo arquipélago das Anavilhanas é o máximo. Sugiro também subir o rio Negro até Barcelos, a primeira capital da Província. Ou então um passeio pelo rio Urubu e pelo lago Tupira, perto de Silves. Isso sem falar de Manacapuru e seus lagos. É uma viagem sem fim.

Folha – Certa vez, você disse “Vejo conflito em tudo [em Manaus]”. Um visitante atento percebe isso?
Hatoum – Ele logo percebe que a população e a cidade herdaram muita coisa das culturas indígena e européia. Manaus é o nome de uma tribo que foi dizimada. A zona franca é irreversível. A periferia é uma favela gigantesca, o desmatamento foi brutal. A ironia mais trágica é que em muitos bairros pobres falta água, numa cidade banhada pelo maior rio do mundo. Em 1976, um prefeito-coronel destruiu a praça Nove de Novembro, um logradouro histórico, pois a notícia da Independência só chegou a Manaus no dia 9 de novembro. Destruiu praças e monumentos, cortou árvores centenárias, fez o diabo em nome do “progresso”. O atual prefeito encheu a cidade de palmeiras, só que de palmeiras importadas! Há centenas de palmáceas amazônicas… Não é de enlouquecer?

Folha – Por que Manaus é tão presente no livro “Dois Irmãos”?
Hatoum – No meu primeiro romance [Relato de um Certo Oriente], o espaço da cidade não aparece muito. O relato é uma viagem interior, com lances de uma memória inventada. Quando escrevi “Dois Irmãos”, estava possuído pela cidade. Foi inevitável, porque passei quinze anos lá. Aí juntei os dramas de uma família com o “progresso decadente” da Manaus moderna. A gente escreve sobre algo que nos toca profundamente. Eu tinha uma dívida afetiva e moral com a minha cidade, e eu tentei quitá-la escrevendo um romance. É pouco, mas é tudo o que pude fazer, com muita paixão, dor e também alegria.

Uma resposta para “‘Pra onde vou, levo esse rio dentro de mim’

  1. Delícia de texto, como a sua companhia. Saudades, bb

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