Cara de metrô

Eu não dirijo. Tirei carta de motorista e tal, mas não dirijo, o que considero um privilégio, levando em conta que moro em São Paulo, onde tomar a decisão de dirigir é aceitar que muitos minutos do seu dia serão bem tensos.

Antonio Jorge Gonçalves viaja o mundo desenhando as pessoas no metrô; essa é em SP

Além de não dirigir, eu não gosto de andar de metrô. Não quer dizer que eu não goste do metrô. Sou a favor de que esburaquem a cidade inteira para fazer infinitas estações, o que é evidentemente a melhor solução para diversos problemas.

Mas pessoalmente, ou existencialmente até, eu não gosto do metrô. Em primeiro lugar, porque o metrô descontextualiza tudo. Você entra num buraco e alguns minutos sai de outro buraco em outro canto da cidade. Como você chegou até lá? De metrô, claro. Mas qual foi o caminho? A resposta pode parecer simples se você morou em São Paulo a vida inteira. Mas se até um dia desses você não sabia que Perdizes era vizinho da Barra Funda, não é andando de metrô que você vai descobrir.

Jorge Colombo, o cara que fez a capa da New Yorker no iPhone, depois fez a da Serrote, também tem uma série de desenhos no metrô. De NY

Prefiro andar de ônibus. O ônibus é mais ensolarado, mais ventilado. As pessoas conversam ali. Cobrador e motorista estão à vista, são os donos do pedaço. Eles ditam a dinâmica do ambiente coletivo. As conversas são mais engraçadas. As chances de uma grande interação entre vários passageiros é maior no ônibus. Eu já estive em cenas inacreditáveis em trajetos de linhas paulistanas.

Mas, voltando ao metrô, o pior mesmo, para mim, é a “cara de metrô”. Ali, no subterrâneo, naquele mundo sem contexto, todo mundo parece que lembra de todos os cansaços, todas as frustrações, tudo. E todo mundo faz cara de metrô. Olhando o nada, refazendo o dia ou prevendo como ele será. Ninguém olha pra ninguém. E quando olha, é de canto de olho e quase sempre em reprovação.

Mas eu acho que quem puxou essa fila foi Walker Evans, fotógrafo norte-americano, que tirava fotos dos passageiros com uma câmera das quantas que era bem discreta

Eu entro no metrô normal e saio de lá uns dois graus mais triste e mais preocupada com a humanidade. Baixa uma espécie de Madre Teresa de Calcutá do bom humor. “Precisamos salvar o estado de espírito das pessoas”, sempre penso quando volto à superfície.

Mais um do Gonçalves (você pode ver todos no site Subway-Life.com). Este é em NY também

PS: Por algum motivo, eu não consigo colocar link nas legendas. Então aqui vai: para ver os desenhos de Gonçalves, clique aqui. Para ver os de Jorge Colombo, aqui. E para ver os do Walker Evans, dá um Google nele (que é o que fiz aqui).

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9 Respostas para “Cara de metrô

  1. putz, helô. me identifiquei totalmente. tem gente que pira em metrô, acha moderno, cosmopolita. eu até acho isso tudo, mas não gosto. acho abafado, quente, tudo sempre igual. achei tão ruim quando tive que pegar metrô todo dia… são tipo 15 minutos do dia que você joga no lixo, porque só vê parede. ônibus não: sentar na janela, especialmente na cadeirinha levantada, dá a impressão de que a gente está viajando mesmo. nem que seja pelos mesmos 15 minutos.

    • É! Se você vai ter que se deslocar, melhor ir no assento VIP do ônibus vendo a cidade passar do que se esgueirar por debaixo da terra que nem uma topeira, vá lá, cosmopolita.

  2. Pingback: Falando em metrô « Caracteres com espaco

  3. Eu tb não gosto de metrô. Além de td isso que vc falou, não dá pra ver nada da janelinha (o que não me faz abrir mão de sentar nela a todo custo).

  4. Mas na hora do rush nada como uma tristeza expressa! No ônibus lotado a tristeza não tem fim!

  5. Fora que anda impossível entrar e sair dos trens nos horários de pico. Eu pego ônibus e metrô e acho que tá difícil.
    http://guaciara.wordpress.com/2010/06/22/o-fim-da-panaceia/

  6. – Zazie – declara Gabriel, tomando um ar majestoso que ele encontrou sem dificuldade em seu repertório –, se você quiser ver os Invalides e o verdadeiro túmulo do verdadeiro Napoleão, eu te levo.
    – Napoleão o caralho – replica Zazie. – Ele não me interessa nem um pouco, esse bocó, com aquele chapéu em forma de xoxota.
    – Quê que te interessa, então?
    Zazie não responde.
    – É – diz Charles, com uma gentileza inesperada. – Quê que te interessa?
    – O metrô.

  7. Pingback: Subterrâneo e abafado | Caracteres com espaco

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