Vertigo

Hoje eu estou afim de escrever, então vou desfiar aqui a minha teoria sobre Mad Men. Azar o seu. Até porque não é nenhuma grande teoria. Apenas uma teorizinha, que tem a ver com a abertura da série. Veja aqui (“A incorporação foi desativada mediante solicitação”, que burros!).

Se eu fosse tradutora de títulos de séries, batizaria Mad Men, em português, de O Povo do Abismo, em uma erudita alusão ao livro de Jack London (leia aqui).

Como você já deve saber, Mad Men retrata o cotidiano de uma agência de publicidade na virada dos anos 1950 para os 1960. Entre os muitos atrativos da série estão o figurino incrível e o fato de todo mundo fumar em tudo quanto é canto. Mas para mim, e para quem fez a abertura da série, trata-se de uma história de colapso.

É como se a série fosse uma resposta à pergunta que Tony Soprano faz no primeiro episódio da primeira temporada de Sopranos, em sua primeira sessão com a Melfi: “What happened to the strong silent type?” (a pergunta está no 1:00 do vídeo abaixo)

Assista Mad Men, Tony (onde quer que você esteja). Você vai entender.

Don Draper está à beira de um colapso, Betty, a mulher dele, já está inteira colapsada. O Pete Campbell então, mais para lá do que para cá. Enfim, chefes, subordinados, maridos, mulheres e amantes, está todo mundo por um triz.

Nos primeiros episódios, eu achava que as mulheres seriam o centro da série (apesar de ela chamar Mad MEN), justamente porque elas estão na beira do momento em que tudo muda. A Betty, por exemplo, já está na terapia. Ela tem um faniquito com as mãos que é ansiedade pura. E já começou a beber. Está a ponto de explodir. Como todas as mulheres estão.

Aliás, as mulheres dos Homens Loucos são divididas em dois tipos: as donas de casa e as secretárias, as pra casar e as pra catar. Não dá para ser as duas coisas. Tem uma que tenta, a Midget, amante principal do Don, uma ilustradora que “anda por aí com uma turma beatnik” (como diz o site oficial). Ela tem trabalho, ela tem casa, mas já está dando toda a pinta de que quer casar. Já reclamou que se sente só, desamparada.

Mas a Betty, que é casada com o galã da série, também se sente só e desamparada. E o galã da série também se sente só e desamparado. E é aí que Mad Men começa a ficar mais interessante.

Para ser o strong silent type de que Tony pergunta é preciso fechar o olho para um tanto de conflitos, isso parece uma ideia simples. A minha teoria para esses homens de Mad Men é que eles podiam compartimentar a vida. Isso quer dizer, no trabalho, havia o conflito do trabalho, mas os conflitos da vida pessoal ficam de fora. Com a amante, há o conflito da amante, mas os conflitos com a mulher e os filhos ficam de fora. Em casa, há os conflitos de casa, mas os conflitos de trabalho ou da amante não entram. Em cada lugar há um conflito. E daí que deve ser mais fácil segurar as pontas quando cada conflito se apresenta de uma vez. Mas sabe lá o que acontece que isso para de funcionar.

E todos começam a desmoronar. A citação a Vertigo na abertura é evidente. Mad Men é uma série sobre vertigem.

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2 Respostas para “Vertigo

  1. First of all, vc está falando de dois ídolos meus: Tony e Don! Agora, se estou entendendo direito, já vi mais episódios do que vc e portanto não acho, pero tenha certeza que a série é sobre vertigem. E da boas. Também adoro as mesmas coisas que vc highlighta aqui — o fumacê constante, cenários e figurino, e essa divisão de mulher pra catar e pra casar. mas tb amo o povo dirigindo com copo de uísque na mão e o descaramento com que tratam os negros.Fora o dia em que a família do Don faz um piquinique num parque e depois sacode a toalha pra deixar TODO o lixo lá mesmo… Hahaha, back in the days… E uma pergunta: vc já conferiru Nurse Jackie??? É tudo de bom!

  2. fiquei tão feliz em ler isso. me ajuda a aguentar a espera até a quarta temporada, no meio do ano. o meu sincero obrigada.

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