Pelo acostamento

Domingo, volta do feriado de Páscoa, estrada parada e hora de lamentar o quanto esse país está longe de poder se dizer civilizado. Estou falando dos motoristas que – o horror, o horror – cortam a fila de carros pelo acostamento.

A Rio-Santos é uma estrada que passa por bairros. O acostamento tem bicicletas, pedestres e afins. Essas pessoas que não suportam a ideia de que motorista que está na sua frente saiu um pouco antes de casa, a ideia de que há uma ordem, de que há regras, essas pessoas veem no acostamento a pista dos espertões, dos que querem levar vantagem em tudo.


Esses vídeos geniais resumem bem o espírito da coisa (os outros três estão aí para baixo)

Chama a atenção que a maior parte dos carros que corta o trânsito no acostamento é grande e luxuosa. São pessoas que provavelmente têm muito dinheiro, provavelmente tiveram acesso a uma boa escola, e, provavelmente, acham que têm o privilégio de não pegar fila.

A cada carro que passa no acostamento eu perco um tantinho de fé no País. Eles só fazem isso porque:
a. são mal-educados
b. acham que podem fazer o que querem e acham uma incrível vantagem cortar cinco carros, chegar antes dos bobõem que se resignam a ficar em fila e
c. têm certeza de que não serão punidos

Esses animais que colocaram em risco a vida da família deles dentro do carro e de todos que estão fora dos carros dele chegaram em casa para o almoço de Páscoa e provavelmente reclamaram da violência paulistana e da corrupção brasileira. Pois, para mim, o corrupto, o assaltante e o motorista que dirige no acostamento são a mesma coisa. Todos os três desrespeitam o outro, todos os três têm a certeza da impunidade, todos os três rompem os contratos de civilidade, coitados, já tão esgarçadinhos.

A partir do momento que você não obedece uma simples regra de trânsito, não pode cobrar mais nada de ninguém, se fodeu. Quem joga lixo no chão não pode dar um pio quando a cidade inunda. Pedestre que atravessa fora da faixa não pode reclamar de carro que fura o sinal vermelho. É assim. Você tem que fazer a sua parte. Não faz? Então fica quietinho aí.

Esses zés-manés que barbarizam na estrada vão para a gringa nas férias e voltam babando. Tudo é tão incrível. Tudo funciona. “Ah, que lindo, nos Estados Unidos os carros param quando o pedestre coloca o pé na rua”. E daí quando ele está dirigindo e tem um pedestre atravessando, ele acelera o carro e buzina.

Quer viver numa cidade “de primeiro mundo”? O primeiro passo é dar conta de obedecer regras simples de convivência, ou seja, agir de acordo com a civilidade tão admirada nas férias. Quer um país decente? Então antes de reclamar da impunidade, pare de contar com ela ao dirigir pelo acostamento na volta do feriado.

A todas as pessoas que passaram voando pela direita na volta do feriado, eu desejo:
– que o bacalhau do seu almoço de Páscoa esteja podre e você passe a semana inteira cagando e vomitando as tripas e chorando baixinho porque não aguenta mais os jorros indomáveis de vômito e merda que saem de dentro de você.
– que na próxima o guarda pare você e, com muita educação, aplique a multa que você merece.

São os meus votos mais sinceros.

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2 Respostas para “Pelo acostamento

  1. Eu gosto muito disso. Mas quem fala que nos Estados Unidos os carros param quando o pedestre coloca o pé na rua não conheça Atlanta. Aqui, precisa ser como um toureiro, com reflexos rápidos e respeito para uma coisa que tem muito mais peso que você. :)

  2. sempre passo por aqui, adoro!
    e amei o post, concordo 100%!

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